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18/09/2026

Celtas em manobras [III Festival Intercéltico do Porto]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 MARÇO 1992 >> Cultura

 

III edição do Festival Intercéltico arranca em abril no Porto

 

Celtas em manobras

 

Galiza, Astúrias, Bretanha, Inglaterra e Irlanda são as regiões contempladas pelo programa do terceiro Festival Intercéltico, a realizar entre 2 e 5 de abril na cidade do Porto. De Dannan e Maddy Prior são os nomes de cartaz. Portugueses e galegos juntam-se sob a batuta de Manuel Tentúgal numa “Bailia de Frores” que se prevê festiva. O Porto volta a erguer o ceptro celta.

 

Uma imagem com texto, pessoa, ar livre, grupo

Descrição gerada automaticamente

 

            A pouco menos de um mês do seu início, o “Intercéltico” caminha para a consagração. Uma programação criteriosa e o cuidado, da parte da organização, em enquadrar os concertos num contexto cultural mais lato, garantem à partida o êxito da iniciativa. Mário Correia, do “Mundo da Canção”, Júlio Moreira, do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto e o músico Manuel Tentúgal revelaram ao PÚBLICO, em primeira mão, pormenores do que vai acontecer.

P. – Chegada à 3ª edição, o Intercéltico está em vias de se institucionalizar. Que garantias e apoios há nesse sentido?

MÁRIO CORREIA – Já na edição do ano passado a Câmara do Porto manifestara a intenção de assegurar, por todos os meios que estivessem ao seu alcance, essa institucionalização. É evidente que a Câmara só por si não tem meios para o fazer. Para tal torna-se necessária a conjugação de esforços e de apoios de outras entidades.

JÚLIO MOREIRA – Para o ano continuaremos a ter o apoio do Instituto Francês que se comprometeu a trazer todos os anos um grupo da Bretanha indicado pela organização. O ano passado tivemos a colaboração da Junta da Galiza. Este ano coube a vez ao Principado das Astúrias que colabora na deslocação dos Llan de Cubel. Há também um acordo com a Câmara e com uma empresa de Vigo, aos quais se deve a vinda dos Matt Congrio. O festival é, como se vê, um bocado feito em termos de apoios externos dos países e das regiões celtas.

P. – Não há então por enquanto autonomia absoluta em termos organizativos?

J.M. – O Festival não tem de facto ainda autonomia. Para já não nos podemos comparar, por exemplo, ao Fantasporto que é organizado por uma associação própria. Recorde-se que o primeiro Festival Intercéltico foi organizado pelo Instituto Francês, no âmbito das suas atividades. O ano passado tudo surgiu na sequência da Semana da Bretanha. Neste momento, a Câmara é o principal financiador do Festival Intercéltico, no quadro de um programa de animação cultural e turística da cidade. Sem esquecer a própria revitalização do teatro ‘Rivoli’ [local onde decorrerão todos os espetáculos]. Quanto ao futuro, a Câmara comprometeu-se já a apoiar o festival do próximo ano. Depois é a incógnita levantada pelo período de eleições...

P. – Podemos depreender que tudo se continua a dever ainda ao esforço de um grupo de vontades isoladas, não havendo qualquer protocolo oficial que garanta a tal institucionalização do Festival?

J.M. – Acho que a questão é mais profunda do que isso, prendendo-se com uma política e um plano de atividades estabelecido pelo pelouro da Cultura e Animação da cidade, que dá prioridade às atividades culturais. O Festival Intercéltico faz parte desse plano, está lá consignado. Inflexões políticas à parte, como é evidente...

P. – Será possível levar parte dos espetáculos do “Intercéltico” ao Sul, e à capital, como acontece, por exemplo, com o Fantasporto?

J.M. – Este ano foi feita uma proposta à Câmara de Lisboa nesse sentido. Isso acabou por não ir para a frente porque o pelouro da Cultura da Câmara de Lisboa não parece ter grande vocação neste momento para organizar diretamente espetáculos. Seria uma questão de encontrarmos outros interlocutores...

P. – O êxito das anteriores edições do festival deve-se em grande parte às chamadas “atividades paralelas”. O que está programado a este nível?

M.C. – Destaco, por exemplo, um “workshop” – um curso de aproximação à gaita galega, com a duração de cinco dias, proposto pelo grupo de teatro “Arte e Imagem” e orientado por um professor galego, Jesus Olimpio Geraldes Ryo. Haverá um diaporama sobre vários aspetos das nações célticas, e um videorama com música e imagens dos artistas intervenientes no festival. Tudo no Rivoli. Estão também agendadas uma exposição de instrumentos musicais populares do Norte de Portugal e da Galiza, nas instalações do Centro Regional de Artes Tradicionais (CRAT), ligada ao curso atrás referido e que documentará as várias fases de construção da gaita-de-foles, e outra, cedida pelo Arquivo Histórico do Porto, sobre o barco rabelo. Não faltarão, claro, as tendas de discos e de artesanato celtas.

P. – Ao contrário do ano passado – em que a escolha recaiu em artistas consagrados que, na prática, desiludiram, casos de Alan Stivell e dos Gwendal –, o programa deste ano parece mais seguro nesse aspeto, apesar de alguns nomes serem praticamente desconhecidos...

M.C. – A Câmara do Porto fez um grande investimento e acabou por dispor de um orçamento considerável. Foi feita uma série de contactos que, em certos países, obrigaram a uma seleção, como aconteceu com a Irlanda em que depois das hipóteses Four Men & A Dog e Ron Kavana, acabou por se optar por trazer os De Dannan. Em relação à Bretanha aconteceu a mesma coisa com os Bleizi Ruz, escolhidos de um lote de seis grupos.

P. – A escolha de Maddy Prior não implicará um risco, depois do fracasso da sua apresentação no “Folk Tejo”?

M.C. – É quase um ato de vingança. A Maddy Prior é uma das grandes vozes da folk britânica e é preciso vingar a ausência de público a que foi votada no “Folk Tejo”.

P. – Existe alguma ligação temática entre os vários espetáculos?

R. – Este ano, pela primeira vez, essa ligação existe, sendo dado o privilégio à gaita-de-foles. Na próxima edição poderá ser a vez da guitarra portuguesa e do “bouzouki”, em destaque quer ao nível de atos musicais quer a nível de cursos, “workshops”, palestras, etc. A ideia será pôr músicos portugueses a dialogar com músicos estrangeiros.

 

Programa

Dia 2:

Matt Congrio (Galiza)

Maddy Prior Band (Inglaterra)

 

Dia 3:

Llan de Cubel (Astúrias)

“Bailia das Frores” (Portugal)

 

Dia 4:

Bleizi Ruz (Bretanha)

De Dannan (Irlanda)

Todos os espetáculos no Teatro Rivoli, no Porto

 

Destaque:

Noite galaico-portuguesa com “Bailia de Frores”

 

            “Bailia De Frores”, espetáculo marcado para dia 3 de abril no teatro Rivoli, é mais um projeto de Manuel Tentúgal, mentor do grupo Vai de Roda, que desta feita vai mais longe, compondo uma encenação musical que junta as heranças tradicionais galega e portuguesa. “Bailia de Frores”, assim mesmo, em galaico-português, seguirá um guião cuja temática gira, segundo Manuel Tentúgal, “à volta dos quatro elementos que relacionam Portugal com a Galiza: a terra, o mar, a saudade e a língua”.

            Em palco vão estar músicos ligados ou não à música tradicional. “O objetivo é tentar contrariar a ausência de colaboração entre os músicos”, explica Tentúgal para quem é importante “despoletar esse confronto, por exemplo, entre violoncelistas e violinistas clássicos e um gaiteiro e coros tradicionais”.

            Nos corredores e “foyers” do Rivoli, recriar-se-á o ambiente de uma feira medieval: “haverá máscaras, a participação dos ‘Bugios’, palhaços, cantadeiras, pauliteiros”. Depois, “tudo passará para o palco”, para um final em conjunto de todos os músicos envolvidos: a cantora galega Uxía, dois gaiteiros, um do Centro Cultural da Galiza e Paulo Marinho, dos Sétima Legião, as cantadeiras do Neiva, os pauliteiros do Orfeão Universitário do Porto, quatro sanfonineiros (Carlos Guerreiro, Fernando Meireles, Amadeu e o próprio Tentúgal) e membros dos Vai de Roda. Para o autor de “Terreiro das Bruxas”, “daqui poderá sair o germe de futuros supergrupos de música tradicional”.