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23/12/2019

TALKING HEADS - Once In A Lifetime


Y 19|DEZEMBRO|2003
música|talking heads


Modern Talking

É a colectânea definitiva. Não apenas mais canções sobre edifícios e comida; é um objeto que não cabe na estante da pop de consumo. Quer dar uma prenda inteligente e obscena?

            Por uma vez na vida, saiu a antologia perfeita. “Once in a Lifetime”, dos Talking Heads, traça o roteiro e tira o retrato a uma das bandas americanas que, nos anos 70, tirou o rock do lodo do punk e inventou a “new wave” cerebral.
            Os Pere Ubu tinham (e têm…) a esquizofrenia, a imagem certa do seu líder gordo e a essência do rock de garagem injectada nas veias. Os Devo eram os palhaços cibernéticos que lançaram a pop electrónica para um micro-ondas. Os Suicide rasparam o fundo e recolheram as crostas. Os Television passeavam a elegância e a dose certa de electricidade. Os Tuxedomoon apaixonaramse pela Europa e pelas suas valsas enquanto os Residentes se “limitaram” a inventar um universo próprio, original e apocalíptico que até hoje continua a esburacar a alma da música popular.
            Foram estes os pilares que, nos EUA, suportaram a passagem entre duas décadas – dos 70 coloridos para o cinzentismo dos 80 – e ajudaram quem mal sabia afi nar a guitarra a tornar-se músico a sério. Houve, é certo, outros, mas cuja infl uência para o desenrolar do futuro não se fez tanto sentir: The Feelies, Ramones, Wall of Voodoo…
            Os Talking Heads tinham tudo isso – a loucura, o circo, a dor, a elegância e o dilúvio – mais uma cabeça descomunal e o olhar acutilante que usaram para escalpelizar o “american way of life”, através de música e de imagens que recuperaram para o rock o conceito “arty” sem lhe tirar um pingo de adrenalina nem tirar o tapete debaixo dos pés.

            paraíso. “Once in a Lifetime” é diferente das habituais colectâneas, a começar pelo formato da embalagem: uma barra/livro de cartão com capa reforçada que, aberto, medirá à vontade um metro de comprimento o que lhe retira, desde logo, qualquer possibilidade de ser arrumada numa prateleira vulgar de CDs.
            As imagens exteriores parecem, à primeira vista, as de um calendário que copiou o estilo de Gauguin. Na frente, um bebé rodeado de borboletas sorri para um casal de fi lhotes de lobo. Poderia ser a imagem idílica do paraíso perdido. Abre-se o “livro”, porém, e a inocência desaba. Uma mulher, em nu frontal com os detalhes à vista, salta no ar em pose de ginasta. Um negro em bermudas pratica boxe contra uma árvore. Um adolescente, também nu, sorri-se com expressão idiota, indiferente a que lhe tenha sido arrancado o sexo, com o sangue (o artista não poupou no vermelho) a escorrer por entre as pernas.
            Há mais sangue na árvore, outro lobo (este de ar feroz) e, completamente desfasado de tudo o resto, um BMW negro. Tudo em cenário outonal, ouro, azul e mar. Adiante, num segundo tríptico (com falsas divisões em “trompe l’oeil”): homens e mulheres vestidos como vieram ao mundo, cujos pormenores anatómicos não poderiam ser mais realistas, convivem com uma leoa, ao fundo a mesma paisagem, mas agora em tons de Verão. A um canto, uma árvore tem gravado um enigmático “Valência 2001”. A fechar, na contracapa, cinco mulheres (nuas), divertem-se num banho de folhagem, uma delas alimentando um urso bebé sob o olhar de uma corça e uma leoa. Cada um interpretará como quiser. Assinam a dupla Vladimir Dubossarsky e Alexander Vinogradov.
            Dissimulados sob as pinturas, escondem-se os quatro CDs, três áudio – magnaninamente remasterizados (incompreensivelmente não existe remasterização de nenhum álbum individual dos Talking Heads!) – e um DVD. O livro, de 80 páginas, oferece tudo o que o há para saber da história do grupo, da cronologia e pormenores de gravação de cada disco a diversos ensaios sobre a banda (inclusive pelos próprios elementos), passando por 127 fotos, com data e localização.
            A música passa em revista toda a discografia, da estreia “Talking Heads’77” a “Naked” (1988). Convém começar mesmo pelo início, de maneira a soltar um “ahhhh!” de admiração perante os três temas anteriores ao primeiro álbum, o swing de mel de “Sugar on my tongue”, o single “Love – Building on fire”, com um extraordinário arranjo de metais a preparar o terreno para a orgia funky de “Remain in Light”, e “I wish you wouldn’t say that”.
            No DVD alinham-se 13 clips (três inéditos), intercalados por pequenos monólogos de americanos anónimos, em alusões mais ou menos oblíquas ao conceito “Ao menos uma vez na vida”. Oportunidade para se ouvir uma idosa contar como descobriu tardiamente a sexualidade ou um adolescente congratulando-se por pequenos actos de vandalismo cometidos em festas particulares (ao mesmo tempo que dá conselhos de como se deve fazer). Os vídeos propriamente ditos incluem os clássicos “Wild wild life”, “Burning down the house”, “And she was”, “This must be the place (naive melody)”, “The lady don’t mind” e “Road to nowhere”, mostrando o que já se sabia, que os Talking Heads eram imbatíveis na arte de projectar uma imagem de modernismo desconstrutivista. Com um desconjuntado David Byrne a dançar como uma marioneta e referências constantes a edifícios e objectos domésticos do quotidiano, cruzamento de “ready-mades” e “cartoons” desenhados por um assassino psicopata. A tranfi guração (vários rostos para o mesmo corpo) funciona de forma invulgar em “Wild wild life”, contando com a participação, entre outros, do actor John Goodman, ou com a sobreposição de rostos e labaredas de “Burning down the house”.
            “More Songs about Buildings and Food”, título do segundo album, explica muita coisa. Vêem-se os corpos dos próprios Talking Heads fragmentados num painel de centenas de polaroids, ao estilo David Hockney, e uma fotografi a aérea do território dos EUA. O segredo, como em Laurie Anderson, está nessa viagem-relâmpago entre a microscopia e a visão aérea. A primeira, como na orelha ampliada até ao absurdo de David Lynch, em “Blue Velvet”, desmonta as texturas, os tecidos, as células e os átomos de uma realidade feita de logros e aparências. “You may ask yourself why”, canta Byrne em “Once in a lifetime”, interrogando-se e interrogando-nos sobre a vacuidade da sociedade de consumo, como voltaria a fazer mais tarde no fi lme “True Stories”. A segunda, ver de cima, permite captar o quadro completo, cada uma e o conjunto de todas as acções levadas a cabo em simultâneo – a visão do poder.
            No “clip” final, “Road to nowhere”, David Byrne repete a mesma dança desarticulada do início, “Once in a lifetime”, correndo como um cavalo sem freio por uma estrada deserta ao encontro do vazio. Pura ilusão. Está parado e é o caleidoscópio de luzes e sombras, dos prédios e dos automóveis, das lojas e dos sacos de compras, das “diet cokes” e dos “hamburgers”, dos “peep shows” e das estações de serviço, dos anúncios e das ideologias, dos assassínios sem motivo e da crueldade sistemática, tudo e nada, que gira em volta de cabeças demasiado despertas. Talking Heads. Elas falam. Agora, graças ao quadro geral de “Once in a Lifetime”, deixa de haver desculpa para não as ouvirmos.
            Este Natal quer oferecer uma prenda brilhante, inteligente e obscena? Faça o seu ar mais inocente e arrisque “Once in a Lifetime”. Ao menos uma vez na vida.

TALKING HEADS
Once in a Lifetime
3xCD+DVD; EMI. distri. EMI-VC
10|10

03/12/2008

The Heads - No Talking, Just Head

Pop Rock

20 de Novembro de 1996
poprock

Cada cabeça sua sentença

THE HEADS

No Talking, just Head (7)
MCA, distri. BMG

David Byrne diz que não abandonou os Talking Heads mas que se recusa terminantemente a voltar. Os Talking Heads acabaram? Chris Frantz, Jerry Harrison e Tina Weymouth espantam-se e dizem que não. “Mas nós somos os Talking Heads!”, garantem. A saída de Byrne não impediu, portanto, que o trio começasse a compor, há dois anos, novas canções para um novo álbum. “No Talking, just Head” saiu mesmo, sob uma chuva de protestos do antigo vocalista, que fez uma série de acusações aos seus antigos companheiros, desde violação do uso de logotipo a “falsas designações de origem” e “falsas descrições”. É um facto que, do “lettering” às cores da capa e ao próprio título do disco, se indicia uma colagem ao grupo original, mas isso acaba, afinal, por fazer sentido, na medida em que os três elementos remanescentes se arvoram detentores da estética da banda. A verdade é que “No Talking, just Head” não se parece com qualquer dos álbuns dos Talking Heads originais. Compostas as canções, Frantz, Harrison e Weymouth trataram de convidar uma série de amigos para fazer as vocalizações, o que confere ao disco uma enorme diversidade de registos onde o único elo comum com a antiga formação é, obviamente, a base rítmica. Mas mesmo aqui nota-se uma diferença de pesos e medidas. A voz de Byrne era parte integrante desse ritmo enquanto que as dos vários vocalistas convidados funcionam como desvios com inclinação para os cantos da casa de cada um. São muitas as cabeças da actual hidra. E, como se sabe, cada cabeça sua sentença. Sentenciam Johnette Napolitano, ex-Concrete Blondes, que, concluída a gravação, acompanhou o grupo nas digressões ao vivo, Michael Hutchense, dos INXS, Ed Kowalczyk, dos Live, Debbie Harry, Richard Hell, Maria McKee, Shaun Ryder, dos Black Grape, Malin Anneteg, Gordon Gano, dos Violent Femmes, Andy Partridge, ex-XTC, e Gavin Friday. Ou seja, um forte contingente de antigos companheiros de luta dos tempos da “new wave” e do clube “CBGB”. “No talking” salda-se então por uma celebração de ritmos divergentes, do falso “punk” de Debbie Harry e Napolitano, em “Punk Lolita” e do “funk” ao “dub/reggae” e às actuais tendências “hip hop”, em contraste com o “crooning” sintético dos Yello, por Gavin Friday, em “Blue blue moon”, e as virtuais incursões brechtianas de Maria McKee em “No big band”. Tudo junto e mexido acaba por resultar numa agitação, entre a nevrose e a contemplação inquieta, que estilhaça por completo qualquer linha de continuidade com os anteriores Talking Heads. Nem por isso este discurso a várias vozes faz menos sentido. Se não pela mensagem que pretende transmitir, ao menos pelo alarido com que nos assalta os sentidos.

17/09/2008

Objectos na paisagem [Talking Heads]

Pop Rock

7 OUTUBRO 1992

OBJECTOS NA PAISAGEM

Os Talking Heads acabaram. Vivam os Talking Heads. E sobretudo os discos, deixados para a posteridade como exemplos brilhantes de uma atitude e de um estilo que fizeram história. Os Talking Heads mostraram até onde a música pop pode ir, quando perde o medo e resolver experimentar novas formas e ideias. O lançamento simultâneo de duas colectâneas, “Once in a Lifetime – The Best of Talking Heads” e, em forma de antologia, o triplo álbum (CD e cassete duplos) “Sand in the Vaseline – Popular Favourites”, traz de volta à memória os melhores momentos da banda. E o bónus adicional de alguns inéditos.

“Once in a Lifetime” é uma espécie de apresentação da antologia. Dez dos seus temas integram igualmente “Sand in the Vaseline”, incluindo um novo single, “Lifetime piling up”. A principal diferença está na presença de “Blind”, que aqui aparece numa versão ao vivo, enquanto na antologia figura a gravação de estúdio. O oposto acontece com “Life during wartime”, versão de estúdio na colectânea e ao vivo na antologia. “Slippery people”, também ao vivo, é a única canção que não consta de “Sand in the Vaseline”. Este tema, bem como “Blind”, apenas fazem parte do CD.
Quanto à antologia, cujos temas, alinhados por ordem cronológica, foram elaborados pelos próprios elementos da banda, David Byrne, Tina Weymouth, Chris Frantz e Jerry Harrison, apresenta os inéditos “Gangster of love” e “Popsicle”, além do referido single “Lifetime piling up”, um tema dos primórdios, “Sugar on my tongue”, e “Sax and violins”, canção incluída na banda sonora “Until the End of the World”.
A selecção mostra a preocupação de iluminar as várias facetas que fizeram estilo e o fascínio dos Talking Heads. Na primeira fase, a pop metálica do álbum de estreia, “77”, a psicose americana em ritmos maquinais de “More Songs about Buildings and Food”, a negritude e o minimalismo, formal e conceptual, de “Fear of Music”, o “funky” cósmico de “Remain in Light”, qualquer destes discos trazendo a assinatura de Brian Eno, na produção. Depois, consumada a assimilação desta diversidade de tendências, um álbum de transição, “Speaking in Tongues”, e o regresso à pop e às melodias deslizantes, de “Little Creatures”. “True Stories” transporta para os Talking Heads a religiosidade do “gospel”, a “country” e traços da magia de Nova Orleães. “Naked”, último álbum de originais, é a síntese triunfante, a cúpula do edifício que firmou na “new wave” os alicerces e teve na inquietação e constante procura de novas formas musicais (no estúdio, em África, no Brasil) que sempre caracterizaram David Byrne, as traves e paredes-mestras.

Fragmentos da América

Nova Iorque, a paranóia, as técnicas de “cut up” utilizadas pela primeira vez, ao nível das palavras, por Bryon Gisin, a América com todo o seu cortejo de bizarrias e personagens de anedota, confinadas a pequenas ou monstruosas esquizofrenias (uma América à beira da demência tornada em objecto deslumbrante no filme “True Stories”, realizado por David Byrne), as deformações (nos textos, nos vídeos, nas músicas), “ready mades” coloridos por histórias e episódios aparentemente sem sentido, o medo e a alegria disto tudo num caleidoscópio de emoções desencontradas passam pela obra dos Talking Heads, banda que, em paralelo com Laurie Anderson, foi dos grandes tradutores do lado oculto dos “States”.
Mas enquanto Laurie Anderson pinta o quadro em tons épicos, em telas monumentais que atingem a apoteose, no gigantesco manifesto que é a caixa de quatro álbuns, “United States”, os Talking Heads, muito por força da personalidade de Byrne, apresentam estilhaços, fragmentos de espelhos deformantes, notícias entrecortadas, uma visão fraccionada da realidade. Laurie e Byrne são ambos observadores. E conseguem ter uma visão aérea do território. Se a primeira capta a imagem completa, até ao céu, o segundo detém-se no pormenor, no pequeno objecto que se destaca na paisagem. Como acontece na descrição distanciada levada a cabo em “The big country”, do álbum “More Songs about Buildings and Food”. Pesquisadores de formas e princípios, procuraram novos ângulos de perspectiva. E novas formas de as dizer. Neste aspecto, os Talking Heads foram verdadeiramente cabeças falantes.
A lista completa de temas de “Sand in the Vaseline” é a seguinte: No primeiro compacto – “Sugar on my tongue”, “I want to live”, “I wish you wouldn’t say that”, “Psycho killer”, “Don’t worry about the government”, “No compassion”, “Warning sign”, “The big country”, “Take me to the river”, “Heaven”, “Memories can’t wait”, “I zimbra”, “Once in a lifetime”, “Crosseyed and painless”, “Burning down the house”, “Swamp”, “This must be the place (naive melody)”. No segundo – “Life during wartime – live”, “And she was”, “Stay up late”, “Road to nowhere”, “Wild wild life”, “Love for sale”, “City of dreams”, “Mr. Jones”, “Blind”, “(Nothing but) flowers”, “Sax and violins”, “Gangster of love”, “Lifetime piling up”, “Popsicle”.