PÚBLICO DOMINGO, 20 OUTUBRO 1991 >> Cultura
“Guitar
Legends” terminou ontem, em Sevilha
Guitarrossauros
excelentíssimos
“Rock” sem guitarra
elétrica não é “roll”, é conversa mole. Em Sevilha, durante cinco noites, a
guitarra consagrou os seus heróis. A “velha guarda” uniu esforços e trocou de
posições: Bob Dylan, Keith Richards, Phil Manzanera e Richard Thompson formaram
uma das várias superbandas de ocasião que entraram diretamente para a lenda. A
CRGE – Companhia Reunida de Guitarras Eletrificadas – deu festival. A todo o
gás.
Sevilha está em festa. Não é caso para
menos. A Expo 92 está à porta. O “Nuevo Sur” prepara-se para ser o centro do
mundo. A música antecipou-se. Logo a seguir a estas “Guitar Legends”
anunciam-se já os terceiros Encontros de “Nueva Musica” com nomes como Luis
Paniagua, Cassandra Wilson, Markus Stockhausen, Klaus Schulze e Bill Frisell em
cartaz. Mas por agora a rainha é a guitarra. No anfiteatro ultramoderno
construído na ilha de La Cartuja, em pleno recinto da Expo 92.
Quinta-feira: tempo de chegar ao hotel
e de ligar a TVE 2, para assistir em diferido ao concerto da noite. Vicente
Amigo, o novo menino-prodígio do flamenco, mal aquece as cordas da guitarra.
Toca só dois temas mas dá para perceber que Paco e Manitas têm continuador à altura.
Joe Cocker, o vocalista convidado,
continua a gesticular e a berrar como só ele sabe. Insiste em recusar os
rebuçados “Dr. Bayard” só para manter a rouquidão da voz. Jack Bruce, por seu
lado, faz reviver o fantasma dos “Cream”, com “White Room”, de parceria com
Phil Manzanera (ex-“Roxy Music” e principal dinamizador deste festival).
Bob Dylan junta-se aos dois. Depois é
a vez de Richard Thompson (dos lendários “Fairport Convention”) integrar esta
“troupe” de génios, para a prestação conjunta de “All along the watchtower”.
Dylan cada vez mais canta com o nariz.
Felizmente não está constipado. Mas quem se importa com a voz? Basta o velho
trovador levar a harmónica aos lábios para que todas as interrogações sejam
levadas pelo vento... Em todo o caso talvez não fosse má ideia mudar outra vez
o nome para Zimmerman. É salvo à justa pela chegada de Keith Richards. Não
tocavam juntos há anos. Keith Richards está com bom aspeto, aparentando uns 80
anos ao contrário dos habituais 120. Interpretam “Shake, Rock & Roll”, de
Bill Haley. Depois o Rolling Stone é deixado a sós com os “Rhythm and Blues”
que tanto aprecia.
Em cada noite tem sempre sido assim:
um carrossel de estrelas em “roulement”. Sai uma, entra outra, tocam juntas um
par de temas. No final reúnem-se todas, fazem a festa e apanham os foguetes. Na
ocasião são Dylan, Richards, Thompson e Manzanera irmanados no ritmo de Eddie
Cochran, antes de se desligarem as guitarras.
O
regresso dos heróis
Sexta-feira arranca com Roger McGuinn
e o “hit” do seu novo álbum “King of the Hill”. “Turn Turn Turn” e “8 Miles
High” não fazem esquecer os Byrds mas aquecem razoavelmente o ambiente. Em
cima, na “Braza Gallery”, destinada aos jornalistas, as brasas femininas não
param de passear, assegurando deste modo a manutenção de temperaturas elevadas
no recinto.
Roger McGuinn e Richard Thompson ligam bem. Provam-no o dueto emocionante de “Keep
your distance”. Richard Thompson, com o seu inseparável Bone, é um dos heróis
do concerto. As cordas vocais e da guitarra vibram em consonância com a magia
da noite. “This guitar is howling” – exclama, como se homem e guitarra se
confundissem num corpo único.
Quando Les Paul, o homem que teve a
ideia de ligar a guitarra à tomada, entra em palco, o público salta das
cadeiras e aplaude de pé, como se apanhasse um choque elétrico. De facto, os
efeitos da guitarra são ruídos provocados por problemas nos cabos elétricos.
Resolvida esta questão Les dá “show” com a sua “Gibbs Les Paul”, a tal guitarra
cujo som corta suavemente, sem ferir, tal qual uma lâmina de barbear de
qualidade. Mais tarde a célebre “Gibson Les Paul” viria substituir o modelo
“Gibbs”, de sonoridade um tanto ou quanto cremosa para a agressividade do rock
atual.
Renascido das cinzas dos “The Band”,
Robbie Robertson traz de volta ao auditório a energia dos decibéis, apoiado por
uma secção de metais e um par de vocalistas disfarçados de índios. Profusão de
penas e cores a sugerir talvez a ave ridícula escolhida como símbolo para a
Expo 92: um misto de palmípede e galináceo, pata-choca “punk” de crista e bico
multicolores. Refira-se, em abono da verdade, que os sevilhanos adoram as
cores. Sobretudo se estiverem todas juntas.
Macacos
a ver televisão
Robbie Robertson faz de anfitrião do
músico mais ansiado da noite: Roger Waters, que chega acompanhado pela sua
banda particular. Esperava-se espetáculo e é isso que acontece, embora numa
escala, mais reduzaida que a habitual. Um mini “The Wall”, sem muro, mas mesmo
assim com os adereços possíveis na ocasião: explosões de fumo, holofotes
marciais, piras ardentes (propaganda velada aos próximos Jogos Olímpicos de
Barcelona?), luzes às bolinhas, muito “exploding plastic inevitable”.
“Another Brick in the Wall, pt. 823”
provoca o delírio, antes de “What God wants, God gets”, uma canção nova sobre
“Macacos que vêem televisão”. Como neste caso não há adereços, o músico sugere
que a assistência faça o papel de símios que ele, Waters, fará de televisão.
Entre as duas ofensas, é difícil
distinguir a pior. De qualquer modo, dado que a assistência aceita a sugestão,
é de crer que Roger Waters seja o “God” de que fala a canção. No final, uma
fífia de uma das meninas do coro vem provar que afinal “God wants” mas nem
sempre “gets”, já os “Stones” o diziam: “You can’t always get what you want”.
A seguir à macacada, um tema dos “Pink
Floyd” mais antigos, “The dark side of the moon”, por entre efeitos luminosos
psicadélicos. Um dia destes o clube “UFO” reabre as portas... Já com Bruce
Hornsby em palco e Waters envergando uma bata branca a fingir de médico, a
despedida com “Comfortably numb”. Despedida irónica que a assistência, uma vez
mais, não compreende. Finalmente a “Jam session” da praxe: Roger McGuinn,
Richard Thompson, Les Paul e Phil Manzanera juntos numa guitarrada sempre “a
abrir”, fechando em beleza mais uma noite de lenda.
Agora o mais grave: com o sucesso
destas “Guitar Legends”, uma das ações de preparação da Expo 92, e os Jogos
Olímpicos de Barcelona e a Expo 92 já para o ano, Portugal vai ser irradiado do
mapa. O melhor é metermos a viola no saco e, visto que há sempre um Portugal
desconhecido que espera por nós, fugirmos todos para a Galiza. Valha-nos Rui
Veloso e o fado.
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