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24/10/2019

Irmãos Tejedor levam Sendim à loucura


CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 4 AGO 2003

Crítica Música

Irmãos Tejedor levam Sendim à loucura

LENGA-LENGA, LEILIA, TEJEDOR
Sendim, recinto principal
Sexta, dia 1, às 22h
Cerca de 2000 pessoas

Inacreditável. I-n-a-c-r-e-d-i-t-á-v-e-l! É o mínimo que se pode dizer do virtuosismo de José Manuel Tejedor, gaiteiro dos Tejedor, grupo asturiano que na tórrida noite de sexta-feira fechou o primeiro dia do festival Intercéltico de Sendim, que terminou ontem com a celebração, na igreja paroquial, de uma Missa Intercéltica.
Há muitos anos que não assistíamos a uma demonstração deste nível. Nas danças tradicionais mas, sobretudo, em duas peças solistas que recordaremos por muitos anos, José Manuel Tejedor foi simplesmente assombroso, num desempenho na gaita asturiana que deixou o público, positivamente, de rastos.
Vencedor quatro anos do troféu Macallan, no Festival de Lorient, na Bretanha, José Manuel Tejedor alia uma técnica irrepreensível a um estilo que tira o máximo partido da típica digitação fechada da gaita-de-foles das Astúrias. Não será por acaso que lhe chamam o "Induráin da gaita", tal a velocidade e a força da sua execução. Mas toda a atuação do grupo foi de altíssimo nível, dos outros dois irmãos Tejedor – Javier (acordeão diatónico, percussões, gaita) e Eva (voz e percussões) – aos convidados (incluindo Igor Médio, dos Felpeyu, no bouzouki), pondo a assistência a dançar, a fazer rodas e a gritar de entusiasmo.
Isto é, de resto, outra das coisas inacreditáveis deste Intercéltico de Sendim. Há um ambiente que não se descreve mas se vive a cada momento. No recinto do concerto (que no sábado rebentou pelas costuras para assistir aos irlandeses Dervish), mas também nas ruas, nos cafés, em todo o lado, sente-se o "celtismo" da região, exacerbado pelo festival. Em cada canto respira-se música e ouve-se o som de gaitas-de-foles tocadas por músicos amadores.
No pequeno largo em frente ao restaurante Gabriela, onde se come uma divinal posta sendinesa (atenção, nunca chamar, aqui, mirandês ou mirandesa ao que quer que seja, pois a rivalidade entre Sendim e Miranda do Douro é feroz...), grupos de forasteiros misturam-se com a população local, convivendo ao som da música céltica. Os sendineses amam a sua terra e fazem questão de o mostrar.
À noite é igual. Tio Ângelo Arribas, construtor e tocador de gaita, entra no terreiro à frente do grupo dos melhores alunos do curso de gaita mirandesa que lecionou durante o ano no Centro de Música Tradicional Sons da Terra. Os miúdos tocam, orgulhosos, cinco temas tradicionais. E afinados - vai-se fazendo escola na arte de construir e tocar a gaita de Miranda.
Henrique Fernandes, gaiteiro da terra, apresentou, a abrir o festival, um programa especial que, além do trio habitual de gaita, bombo e caixa, incluiu um grupo de pauliteiros e cantoras convidadas. A "Alvorada" com que abriu, a solo, as hostilidades, foi a melhor que alguma vez lhe ouvimos tocar. As Leilia vieram a seguir da Galiza dizer que ficou para trás o tempo em que eram "apenas" o mais conceituado grupo de cantoras e pandeireteiras da sua região. Agora a sua música tem a acompanhá-la um grupo instrumental o que, se não melhora substancialmente a qualidade, tem a virtude de tornar o som ritmicamente mais cheio e acessível.
Mas Sendim é Sendim e tudo o que é da casa tem o gosto e a cor das coisas amadas. Numa das tendas instaladas no recinto, tio Ângelo Arribas não perde uma oportunidade de tocar para os curiosos e de mostrar a qualidade de fabrico dos seus instrumentos (gaitas mas também ponteiras e flautas – "fraitas" – pastoris). Mais embevecido fica quando duas belíssimas louras vindas da região "inimiga" de Miranda do Douro, se colocam ao pé de si, uma de cada lado, para se deixarem fotografar os três. Chamam-se Marta e Inês e, apesar de terem adorado o concerto dos Tejedor, torcem o nariz ao "show" de virtuosismo do seu gaiteiro: "Estamos habituadas e gostamos é de ouvir o som das gaitas da nossa região." Mas reconhecem que tocar da maneira como o faz José Manuel Tejedor, "tem que se lhe diga". Consumado o programa oficial do primeiro dia, seguiu-se a folia, na Taberna dos Celtas que fica mesmo ao lado.
Houve loucura etílica e musical completa, potenciada pelo calor. Gaiteiros saltam para cima das mesas (entre os quais Henrique Fernandes) e percussionistas, profissionais e improvisados, por todo o lado, criando uma atmosfera guerreira e tribal. Canta-se e bate-se nas mesas, dança-se e grita-se, a música mal se ouve, por vezes, no meio da confusão. No exterior, a mesma coisa, mais gaiteiros, vindos não se sabe de onde. O nascer do sol aproxima-se mas ninguém parece dar-se conta. Sendim está febril. O Intercéltico fez da terra uma rainha transmontana.

Folk de luxo no Intercéltico de Sendim


CULTURA
SEXTA-FEIRA, 1 AGO 2003

Folk de luxo no Intercéltico de Sendim

DE HOJE A DOMINGO

Ambiente, programação internacional de qualidade e uma ligação forte à comunidade local fazem do Intercéltico de Sendim um festival único. Da Irlanda chega a lenda dos Dervish

No princípio de Agosto, os sons da terra irrompem na zona de Miranda, em pleno coração de Trás-os-Montes. Quem quiser participar do ritual em que se tornou o Festival Intercéltico de Sendim tem as poções, mezinhas, amuletos, rezas e encantamentos da cultura tradicional transmontana e, por consequência, de raiz celta, à disposição. E, acima de tudo, uma grande programação folk, inserida num ambiente e paisagem paradisíacos.
            A presença de um só grupo bastaria para levar a Sendim todos os apreciadores de folk céltico: os Dervish, num regresso a Portugal que se prevê, dado o contexto especial deste festival, apoteótico. O grupo irlandês tem na voz da extraordinária Cathy Jordan um elemento determinante na relação de paixão que sempre se estabelece com a sua música. Jordan é a Irlanda profunda mas também a Irlanda sem idade que soube unir a cultura tradicional de transmissão oral a uma visão urbana da folk que tem como principal mandamento aprender e reatualizar as lições do passado, adaptando-as a uma linguagem e vivência contemporâneas. Álbuns como “Harmony Hill” (1993), “Playing with Fire” (1995), “At the End of the Day” (1996) e “Midsummer’s Night” (1999) são clássicos da folk céltica europeia. O novo, “Spirit”, estará à venda na Feira do Disco do festival.
            Outra banda importante que vai estar em Sendim são os Luétiga, da Cantábria, liderados pelo gaiteiro Roberto Diego. A originalidade dos seus arranjos pode ser verificada em álbuns como “La Ultima Cajiga” (1992), “Nel ‘El Vieju’” (1994), “Cernéula” (1996) e “Cántabros” (1999).
            Vindas da Galiza, as Leilia representam a mais genuína tradição dos cantos “alalas” e das pandereitadas, mas nos últimos anos o seu projeto tem vindo a desenvolver-se em direção a novos horizontes, estando previsto apresentarem-se em Sendim acompanhadas por um grupo instrumental. Os Tejedor, das Astúrias, nos quais sobressai outro gaiteiro, José Manuel Tejedor, prometem uma das actuações mais explosivas do festival, enquanto outro grupo proveniente de Espanha, Castela, os Balbarda, poderá ser a revelação deste Intercéltico com organização da Cooperativa e editora Sons da Terra. Os Lenga-Lenga, do gaiteiro transmontano Henrique Fernandes, provam que os sons e costumes locais têm o futuro salvaguardado.
            Festivais há muitos. Mas é a chamada “vibração” específica de cada um que permite medir o seu grau de crescimento e de sucesso. O Intercéltico de Sendim – na sua 4ª edição – tem esse enorme trunfo de radicar direta e profundamente nas tradições locais, acrescentando ao programa de concertos atividades como um “Passeio na Natureza”, “Arribas Radical” (“rappel” nas vertiginosas arribas do Douro interior), visitas guiadas por Sendim, animação de rua por gaiteiros do centro de Música Tradicional Sons da Terra e pelo Grupo de Bombos de Teruel (Aragão) e as exposições “D’Ouro d’Aléndouro” e “A Natureza que Temos”. Ficam reservadas as surpresas proporcionada pela ingestão, na Taberna dos Celtas (onde a música acontecerá em regime de sessões improvisadas) de um misterioso licor celta. No domingo, porém, as almas sararão, ao assistirem à já tradicional Missa Intercéltica, a celebrar na Igreja Paroquial, ao som das gaitas-de-foles.

Festival Intercéltico de Sendim
SENDIM, Recinto principal
Hoje, a partir das 22h
LENGA-LENGA, LEILIA,
TEJEDOR
Amanhã
Balbarda, Luétiga, Dervish
Bilhetes a 8 euros.
Domingo, às 13h
Missa Intercéltica.
Entrada livre.

25/08/2016

Demónios da Transilvânia [Muzsikas e Leilia no Intercéltico]

PÚBLICO
cultura DOMINGO 27 MARÇO 1994

Intercéltico, no Porto

Demónios da Transilvânia

Concertos como o dos Muzsikas no segundo dia do Intercéltico do Porto não se descrevem. Quem lá esteve assistiu à viragem de uma página dourada na história do festival. Quem não esteve deverá lamentar-se até ao fim dos seus dias. Na primeira parte, as Leilia mostraram o avanço que nisto da música tradicional a Galiza leva sobre nós.

Pois, o impossível aconteceu. Até cerca das onze horas de sexta-feira o concerto do ano passado dos Chieftains neste mesmo festival parecia constituir uma barreira intransponível, a bitola de qualidade pela qual se poderiam aferir as atuações dos outros, miseráveis mortais. Os Muzsikas deitaram por terra esta teoria.
            Antes dos húngaros vieram da Galiza as Leilia dizer que é possível obrar com o passado de uma terra. Quando o amor celebra núpcias alquímicas com o trabalho. Seis mulheres vestidas a rigor com trajes tradicionais, armadas com pandeiretas e o canto coletivo de quem se entregou à vida naquilo que esta tem de mais autêntico e visceral, ritualizaram no Cinema do Terço a re-ligação, sob a forma de muiñeiras, mazurkas e jotas, a uma matriz ouro, verde e sangue – a “Galicia”, de Maeloc, Rosalia e Álvaro Cunqueiro.
            Cantaram como o crepitar de uma fogueira ou os sussurros de um rio, fazendo acompanhar as vozes pelo batimento sincronizado nas pandeiretas ou em instrumentos do quotidiano – uma sertã, uma lata de pimentos, enxadas percutidas com pedras. Mulheres de corpo nítido, reais como árvores, ou rochas ou aves – mulheres só – que ora coravam de timidez, ora deslizavam pelo palco conversando entre si, trocando de posições e sorrisos, alternando o canto com a vontade de explicar a sua pátria e ao mesmo tempo de encurtar o fosso que separa duas culturas – a protuguesa e a galega – que nasceram irmãs.
            Depois, bem, depois é que foram elas, ou melhor, eles. Quatro demónios com forma humana desceram das montanhas dos Cárpatos trazendo consigo um vento de loucura que varreu por completo a música que ficara para trás. Dániel Hámar, Miháli Sipos, Péter Heri e Sándor Csoóri – os Muzsikas – deixaram de rastos uma assistência literalmente siderada que no final saiu do recinto em estado de choque. Torna-se impossível descrever o que se passou em palco. Os Muzsikas não atuam no sentido vulgar do termo. Eles vivem, deixam-se arrastar enquanto tocam pelas cadências por vezes infernais da música, dos próprios ritmos interiores que brotam da alma dos Cárpatos, da Transilvânia e da Moldávia assombradas por seres e sons do outro mundo.
            Miháli Sipos é um violinista assombroso. Quando a improvisação o levou para as regiões a que só ouvidos com coração conseguem aceder, era ver no seu rosto um sorriso de felicidade, no transe de quem se abandona aos imperativos do movimento puro. Por vezes o violino não resistia uma corda desistia, separando-se do corpo de madeira. Sipos prosseguia, ainda com maior velocidade, fúria, ternura. Num dos temas, “Vonat” (“o comboio”), ele, juntamente com um prodigioso Sándor Csoóri na gaita-de-foles húngara – “ainda há pouco tempo era uma cabra”, dizia um dos músicos, enquanto Sándor mostrava o fole coberto de pelos, afrastando a gaita pelo chão como se esta fosse ainda um animal vivo – e Péter Éri na harmónica, dispararam em aceleração. Os ânimos dos presentes entraram em combustão espontânea com a entrada em cena do casal de bailarinos, Ildiko Tóth e Zoltan Farkas, corpos de alegria, danças de paixão. Ainda mais alucinante – e estou prestes a esgotar os adjetivos – foi a corrida de Sipos com o “gardon” (um falso violoncelo de formas angulosas utilizado como istrumento de percussão) de Daniel Hámar. Quem, na assistência, os conseguiu acompanhar, chegou à meta exausto.
            No meio deste frenesim coletivo, a cantora por quem todos ansiavam, Márta Sebestyen – e é quase escandalosa esta afirmação – pouco faltou para passar despercebida. Cantou apenas por três vezes, numa delas alternando a vocalização com a execução numa “flauta mágica” com apenas um buraco na extremidade, além da embocadura, e noutra tocando “tin whistle” num diálogo com o bouzouki de Péter Eri, de colorações “irlandesas”. Com o público em delírio aplaudindo de pé, os sete artistas regressaram ao palco para um “encore” em que a própria Márta acabou a dançar perante um público nesta altura já com a cabeça a andar à roda.
            Por fim, algumas linhas de descanso: os Muzsikas acabaram de lançar novo álbum, “Szóla A Kakas Már”, à semelhança do anterior “Máramaros”, dedicado à música dos judeus da Transilvânia. De tarde, no cinema Jardim, o jornalista Xoán Manuel Estévez, da publicação galega “A Nosa Terra” proferiu uma conferência sobre a música tradicional e popular da Galiza. De madrugada andaram fantasmas à solta pelo castelo onde se encontra alojada a comitiva do festival.