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02/10/2025

Uma mulher dos diabos [Tina Turner]

 Na capa

 

UMA MULHER DOS DIABOS

 

Depois dos Stones e de Bowie – com quem já atuou em diversas ocasiões – é a vez de Tina Turner: uma voz rouca e sensual, capaz de provocar os sentidos como poucas. A primeira parte do concerto será assegurada pelos Delfins.

 


Ancas longas e esguias, lábios carnudos, “Soul Music”, a alma voltada do avesso, deixando ver tudo (como os vestidos que usa durante as atuações), as lágrimas e os sonhos, o fogo interior inextinguível, “rhythm’n’blues”, os maus velhos tempos em que era dominada e espancada por Ike, “manager” e marido que não queria saber da emancipação feminina, Phil Spector e o clamoroso falhanço de “River deep, Mountain high”, a voz rouca e sensual, “Acid Queen” no “Tommy” de Ken Russell e amazona em “Mad Max beyond Thunderdrome” de George Miller – outras tantas imagens e sons que invadem a memória, presentes decerto no olhar e nos ouvidos de todos aqueles que se deslocarem ao encontro marcado para amanhã.

            Turner provoca os sentidos como poucas. Há quem lhe atribua responsabilidades no sair da casca de Mick Jagger. Os seus gostos não enganam, a energia transborda em cada instante, nas canções, na dança, no constante apelo erótico do corpo e da voz, na opulência radiante das formas.

            Mas Tina não é só suor, é também classe – a prová-lo, o convite que lhe foi endereçado pelos “dandies”, ex-Human League, Ian Marsh e Martyn Ware, convidam-na para interpretar “Ball of Confusion”, em “Music of Quality and Distinction”. Tina Turner no papel de grande senhora, diva de ébano reinando entre “babies” oxigenadas de 15 minutos de Top. São 34 anos de carreira recheados de êxitos, culminando no sucesso mundial de “Private dancer” e do “hit” “What’s love got to do with it”. Será que o amor tem alguma coisa a ver com os galardões que então lhe foram atribuídos – Grammies pelo melhor disco do ano (1984), melhor canção, melhor “performance” e melhor vocalista rock feminina? Questão à qual só a própria Tina poderá responder...

            Quem não se preocupou muito com isso foi Mick Jagger que, logo no ano seguinte, a convidou para dançar (ou foi ao contrário?) em pleno Live Aid. Tina Turner a todos seduz, de uma maneira ou de outra. Mark Knopfler (produtor de algumas transgressões em “Break Every Rule”) e Eric Clapton não resistiram aos seus encantos. Amanhã à noite vai ser a mesma coisa: poder ver, ao vivo, a energia em carne viva – no corpo e na alma de uma mulher endiabrada que persiste em querer vencer o tempo. E tem-no conseguido.

 

LISBOA Estádio José de Alvalade, Sáb, 29, às 21h00

 

SEXTA-FEIRA, 28 SETEMBRO 1990 A SEMANA

Lucía & Paredes - O dueto das cordas

 Na capa

 

LUCÍA & PAREDES

 

O DUETO DAS CORDAS

 

Hoje à noite, na Póvoa do Varzim, as guitarras de Portugal e Espanha vão tocar ao desafio: Paco de Lucía e Carlos Paredes, mestres incontestados dos respetivos instrumentos, num “mano a mano” que se prevê exaltante.

 

Fala-se de flamenco e vem-nos à memória a figura aprumada de Obélix, em volta da fogueira, batendo palmas e soltando uns “hayhayhayhay” compenetrados.

            Paco de Lucía não é Obélix, mas nem por isso deixa de ser um dos mais dignos representantes da guitarra flamenca. Guitarra que exige muita garra e fogo nos dedos. Vem dos ciganos o seu segredo, a maneira de traduzir a vida na vibração das cordas. A perfeição guitarrística não se esgota na velocidade nem no virtuosismo da execução. Os mestres sabem que a técnica está sempre ao serviço da emoção e que esta só então se cumpre no movimento corporal. Aprendizagem que exige iniciação. Paco de Lucía inclui-se no grupo restrito dos mestres, ao lado de Manitas de Plata, na arte de rasgar a alma.

            Hoje à noite, no Salão Nobre do Casino da Póvoa, tecerá armas, que é como quem diz, guitarras, com um artista à sua altura – o português Carlos Paredes – em duetos que vão pôr à prova a tradicional rivalidade entre os vizinhos ibéricos. De um lado a fogosidade picante, a típica extroversão andaluza, do outro, o intimismo e saudade lusitanas, através de dois dos mais conceituados intérpretes da atualidade.

            Paco de Lucía, de ser verdadeiro nome Francisco Sánchez Gomez, nasceu e foi criado numa família de músicos. Aprendeu com o pai os mistérios da guitarra espanhola, e, mais tarde, com os ensinamentos dos lendários Sabicas e Mario Escudero. Aos 13 anos já fazia parte, como terceiro guitarrista, da Companhia Espanhola de Ballet Clássico. Nos primeiros álbuns, o flamenco, sempre, e a música popular da Andaluzia.

            Junta-se a outros guitarristas – Paco Cepero, El Farruco, Juan Maya – e parte à descoberta da Europa, tornando-se durante sete anos o principal divulgador do flamenco, além fronteiras. Nunca mais parou de gravar discos: “Fantasia Flamenca”, “Fuente y Caudal”, “Almoraima”, “Castro Marín”, “Solo Quiero Caminar”. Este último granjeou-lhe enorme popularidade no nosso país através, sobretudo, da canção do mesmo nome. Ultimamente voltou-se para o campo mais vasto da música de fusão, tocando e gravando com outros “monstros” da guitarra, como Carlos Santana, Al Di Meola, John McLaughlin e Larry Coryell.

            Hoje à noite vai ser um negócio só a dois: guitarras à descarada, portuguesa e espanhola, num duelo de resultado incerto mas certamente mágico.

 

PÓVOA DO VARZIM Monumental Casino da Póvoa, 6ª, 28, às 22h00

 

SEXTA-FEIRA, 28 SETEMBRO 1990 A SEMANA

23/07/2025

Vozes de África [Ladysmith Black Mambazo]

 

Na capa

As cores do Verão

 

Estiveram no “Graceland” ao lado de Paul Simon. Participaram no vídeo “Moonwalking”, de Michael Jackson, e foram à “Rua Sésamo”. São os Ladysmith Black Mambazo e cantam “a capella”. Em Lisboa – onde atuam no Verão 90 – a voz dos anjos também será negra.

 

VOZES DE ÁFRICA

 



Fala-se em música africana e ouvem-se batuques. Afluem ao espírito imagens de selva, savana, fogueiras noturnas perturbadas por olhos na escuridão e rugidos que se desejam ao longe. Mas África é também do Sul e o “apartheid”, Nelson Mandela, grandes cidades e o tribalismo afastado para o lado, mas constantemente a gritar os seus direitos.

            Os Ladysmith Black Mambazo são sul-africanos, negros e não tocam tambores. Cantam. Maravilhosamente e “a capella”, hinos religiosos e temas populares e tradicionais do seu país. O canto “a capella” é o estilo vocal em que cada cantor entoa uma linha melódica diferente, uns em voz grave, outros em voz menos grave e por aí acima até aos gorjeios soprano do topo da escala. O feito total é a harmonia perfeita – como acontece com os Manhattan Transfer, os grupos de espirituais negros ou o Coro de Santo Amaro de Oeiras.

            O nome do grupo significa “enxada preta de Ladysmith” e grande parte do seu reportório inspira-se no estilo “mbube”, indissociável da cultura zulu, e na “Isicathamiya”, cantada pelos trabalhadores negros que foram levados à força para longe das casas e famílias para trabalhar nas minas exploradas pelo branco. O seu mentor, Joseph Shabalala (“Bekezizwe” em zulu, “homem líder”) trabalhou nas minas. A sua música irrompe do sofrimento e da harmonia dos sonhos, como ele gosta de afirmar. Convenceu alguns dos seus familiares a partilharem desses sonhos e a materializarem-nos na voz.

            Costumam tocar um pouco por todo o lado, mas especialmente em igrejas e centros comunais. Já o fizeram também em prisões, em escolas secundárias e nas grandes catedrais. Participaram na “Rua Sésamo” e nos espetáculos “Saturday Night Live” e “The Tonight Show”, bem como no vídeo de Michael Jackson, “Moonwalker”. Além de cantarem, narram provérbios e contam histórias e anedotas da sua tradição. Trazem as raízes ancestrais para a cidade e encantam sempre.

            Costumam utilizar a língua materna zulu – por isso poderá haver quem não entenda as palavras. Mas a música, todos a sentem, e a mensagem passa. Fora dos limites estreitos do Sul do continente negro, para o resto do mundo. Em discos avidamente escutados pelos ocidentais, sempre dispostos a consumir e a devorar novas e diferentes sensibilidades, que apelidam invariavelmente de “exóticas”. Que nos façam bom proveito.

            Paul Simon (em zulu, “Vulindlela” – “aquele que abriu o portão”) não deixou escapar a ocasião e utilizou, com ótimos resultados, as vozes africanas no álbum “Graceland”. Mas os Ladysmith Black Mambazo têm discos só seus. Ao todo vinte e oito. Os mais recentes dão pelo nome de “Inala”, “Umthombo Wamanzi” e “Two Worlds, One Heart”, este último concedendo espaço aos instrumentos e à eletrónica, incluindo um “Zulu-Funk-Rap” ao lado de George Clinton e com honras de edição em CD.

            O importante é intuir a voz da terra irmanada com os cânticos do céu. A dança tribal invadindo a selva urbana. Para os Ladysmith Black Mambazo há “Two Worlds, One Heart”: “Dois mundos – a terra e o paraíso – e um coração, poder único que se ergue acima do mundo e conduz à paz e unidade de todos os povos do planeta”, como eles explicam.

 

LISBOA, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 5ª, às 22h.

 

 

A SEMANA SEXTA-FEIRA, 20 JULHO 1990