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23/02/2017

Trans America Express [Trans AM]

MÚSICA

NA ZDB, NA 4ª FEIRA

TRANS AMERICA EXPRESS

NÃO ESCONDEM A INFLUÊNCIA DOS KRAFTWERK, QUE AMARRARAM COM ARAME FARPADO A UMA NOVA ESPÉCIE DE HEAVY METAL, E DEFINEM-SE COMO “UM AGRUPAMENTO DE ROCK QUE SE ABORRECE COM O ROCK MUITO FACILMENTE”. SÃO OS TRANS AM, A BANDA MAIS AGRESSIVA DO PÓS-ROCK, E VÊM ATUAR EM PORTUGAL NUMA SALA MINÚSCULA. PODERÁ HAVER ESTRAGOS.

NO INÍCIO tossiam com o pó e a ferrugem da velha cave da casa dos pais de um dos elementos do grupo, em Washington DC, onde ensaiavam e gravavam. Mas não demorou muito até os Trans AM serem conhecidos e apontados como uma das manifestações mais excitantes da então emergente corrente que a crítica catalogou como pós-rock – uma mistura de influências do passado (krautrock, Progressivo), tecnologia “lo fi” e, paradoxalmente, o desejo de inovação.
            “Trans AM”, álbum de estreia deste trio formado por Nathan Means, Philip Manley e o argentino Sebastian Thompson, é uma descarga explosiva de eletricidade e adrenalina, variante para os anos 90 do vulcão King Crimson, enfiado na armadura de metal do krautrock dos Neu! e Kraftwerk. John McEntire, então ainda a fazer os preparativos que o conduziriam ao papel de guru do pós-rock, gravou vários temas do disco, numa ligação que se aprofundaria com a produção do álbum seguinte, “Surrender to the Night”, considerado um dos marcos do movimento, ao lado de “Millions now Living will never Die”, dos Tortoise, de John McEntire, precisamente.
            Com “Surrender to the Night” os Trans AM tornaram mais eletrónica a sua música, rendendo-se a uma estranha combinação de “cósmico”, rock e música industrial. Admitindo embora a influência dos incontornáveis Kraftwerk – “não o reconhecer seria como uma banda pop que negasse a influência dos Beatles…”, dizem –, dos Neu! e dos Can, o grupo apontou outros horizontes capazes de refletirem a força e algumas das coordenadas formais da sua música, como os Van Halen, Chicago e Miles Davis.

Locomotiva desgovernada

            Consolidada a projeção mediática do pós-rock, com uma sucessão de novas bandas a dispararem setas envenenadas ao mamute rock (Rome, Stars of the Lid, Ganger, Jessamine, Ui, Stereolab, Labradford), os Trans AM transitaram no álbum seguinte, “The Surveillance”, para uma área mais politizada, marcada pela paranoia, a vigilância policial e o totalitarismo da sociedade norte-americana, numa visão influenciada pelo “1984” de George Orwell, abordando temas como “a propaganda de sistemas de segurança domésticos”, “iniciativas anti-crime”, “políticas de tolerância zero” e “comunidades fechadas”.
            Divergindo nesta altura dos até então seus camaradas de guerra, os Tortoise, que com o álbum “TNT” se haviam lançado em voo planante em direção às doçuras do “easy listening” e do jazz ambiental, os Trans AM definiam agora a sua música como "perigosa", experimental à maneira dos industriais dos anos 80, Chrome e This Heat e, ao mesmo tempo, sem vergonha de assumir que muita desta energia era sugada de bandas de heavy metal como os Led Zeppelin e Black Sabbath.
            Longe estava o som primário do álbum de estreia, embora as gravações se continuassem a processar na mesma cave e com os mesmos sintetizadores analógicos, com a diferença de que agora tinham à sua disposição um novo estúdio armado de meios tecnológicos sofisticados – o seu "Kling Klang" privativo, numa comparação com o nome do mítico estúdio móvel dos Kraftwerk. Infelizmente tiveram que o desmontar logo a seguir às gravações, porque os senhorios da casa se mudaram...
            Regressaram ao futuro no álbum do ano passado, "Future World", no qual se demarcam, de forma violenta, as duas facetas aparentemente contraditórias da sua música. Por um lado uma eletrónica sintética que além dos Kraftwerk se apropriou do romantismo replicante dos Tubeway Army e da cold wave dos Human League, e por outro um hard rock visceral nos limites do ruído e da brutalidade, com uma homenagem aos Radiohead pelo meio. A capa do álbum, um grafismo de computador em tons de verde sobre um fundo de vazio, sugere uma viagem puramente mental já sem qualquer ligação ao mundo exterior. É com este universo simultaneamente animal e virtual, marcado pela esquizofrenia e por um dilúvio de energia arrancado ao Apocalipse, que os Trans AM vão irromper na apertada sala da Galeria Zé dos Bois, como uma locomotiva desgovernada. Não sabemos se as paredes irão aguentar.

TRANS AM
Lisboa, Galeria Zé dos Bois, 4ª feira, 22h
Preço dos bilhetes: 1000$00.
Sem marcações.

ARTES

05/11/2016

Pós-rock RADIANte

CULTURA
QUINTA-FEIRA, 19 SET 2002

Crítica Música

Pós-rock RADIANte

Looking for a Thrill

Lisboa, Paradise Garage
16 e 17 de Setembro, às 21h
Sala a 3/4

Considerando que o pós-rock é um género agonizante, a exibição do catálogo da editora norte-americana especialista na matéria, Thrill Jockey, que teve lugar, segunda e terça-feira, no Paradise Garage, sob o genérico “Looking for a Thrill”, pode considerar-se um êxito. Não que qualquer das seis bandas, mais um karaokeiro, que passaram pelo palco de um Garage cheio, mas não a abarrotar (a transpiração coletiva chegou, no entanto, para transformar o recinto em sauna), tivesse sido brilhante. Tratou-se mais de uma reunião de amigos e da celebração de um certo estado de espírito “underground”.
De tal forma amigável que ao mesmo tempo que os músicos tocavam, as pessoas continuavam a conversar em voz alta, provocando um “agradável” burburinho de fundo que se manteve ao longo das perto de oito horas de concertos. Toda a gente, dos músicos, em constante circulação pela sala, ao “staff” da editora e ao público, estava radiante.

Segunda, 16: Bobby Conn, The Sea and Cake, Tortoise

Arrancou com o “entertainer” Bobby Conn, que nos discos goza de maneira séria e gosta que lhe chamem anticristo, mas que no Garage optou por uma sessão de karaoke, cantando e tocando guitarra elétrica sobre acompanhamento pré-gravado. Em fato de treino vermelho e com o rosto maquihado, Conn fez de “crooner” marado.
Possuidor de inegáveis talentos vocais, usou-os para mimar o número de David Bowie ou para acertar as notas com o rock’n’roll ou sobre o absurdo de batidas disco/funk. Também deixou escorregar as calças para mostrar um bocado do rabo, dando assim a conhecer o seu talento musical sob outro ângulo. A arte é isto mesmo. Podemos perfeitamente imaginar Charlie Parker a desapertar a braguilha durante um solo de saxofone alto ou Maria Callas a levantar o vestido num “fortissimo” mais sensual, como ações enriquecedoras do génio artístico.
Os Sea and Cake não mostraram o rabo mas tornaram claro que ainda lhes falta pedalar muito para conferir a necessária fluência a uma música que tenta viver de subtilezas e recuperar o swing, por vezes “canterburyano”, de uns Caravan ou Gilgamesh, mas sofre do primarismo instrumental dos seus intérpretes. Rob Mazurek bem tenta dar-se ares de “jazzman”, mas a noção que tem de jazz esgota-se na estridência e na articulação de fraseados estafados que rapidamente descambam em “clichés”.
A fechar a primeira noite de arrepios, os Tortoise, de regresso ao Garage, confirmaram o estatuto entretanto adquirido de estrelas do pós-rock. Entraram em força e provocação, com uma amálgama de “noise” armadilhado, mas rapidamente a música, maioritariamente retirada do último álbum, “Standards”, condescendeu com um easy-listening camuflado que tanto se enrolava no “groove” dos Stereolab como roçava a indolência do “lounge” com pinta de intelectual.
Mal vai o pós-rock quando se contenta em pavonear-se numa jaula de cristal...

Terça, 17: Chicago Underground Duo, Radian, Eleventh Dream Day, Trans AM

Foi melhor. Menos “pós”, mais rock e anti-rock.
Primeiros em palco: Chicago Underground Duo. De novo Mazurek a apitar, desta feita apoiado na bateria e nas ondulações de vibrafone de Chad Taylor. “Synesthesia” e “Axis and Alignment” são álbuns saborosos de timbres e texturas requintadas. Ao vivo é mais simples mas não menos agradável. Em apenas três temas, Chad teve oportunidade de construir uma capela de percussões à maneira dos Art Ensemble of Chicago e Mazurek de disparar uma programação rítmica “roubada” a “Zero Set”, álbum de Dieter Moebius, Conny Plank e Manu Neumeier.
Seguiram-se os austríacos Radian com o melhor concerto da mostra. Obviamente inspirados no nevoeiro tóxico dos This Heat, o trio concentrou-se na música do novo álbum, “Rec.Extern”, sem facilitar. As frequências maceradas dos Cabaret Voltaire, o industrialismo de “Live in der Fabrik”, dos Cluster, e o tribalismo dos Can obscuros de “Tago Mago” e “Limited Edition”, assomaram como influências perfeitamente assimiladas numa visão claustrofóbica e venenosa de rock — ou anti-rock — eletrónico, elaborado sobre um jogo de tensões e ameaças. Uma lição de integridade.
Rock, a atirar para o punk, foi a fórmula servida pelos Eleventh Dream Day. Dose reforçada de adrenalina que no último tema deu uma reviravolta, através de uma versão esfarrapada de “I’ll come running”, de Brian Eno, do álbum “Another Green World”.
Esperava-se dos Trans AM, a quem coube o encerramento de “Looking for a Thrill”, a apoteose e o apocalipse. Mas os rapazes estão noutra onda (estão sempre noutra onda...).
Oscilantes entre o rock avassalador, que é o que fazem melhor, de “Red Line”, e a atual vaga de trejeitos “eighties” (começam a tornar-se insuportáveis as frases ordinárias de sintetizador copiadas dos Tubeway Army e dos Human League), tropeçaram na “soul” sem alma, chamaram para o palco, em dois temas, a corneta de Mazurek, fizeram o truque das vozes “vocoderizadas” e, num lampejo final, acenderam piras de fogo a acompanhar um solo de bateria de Sebastian Thomson — um castigador de tambores portentoso e sustentáculo principal da torre Trans AM. Melhor momento: um vulcão escancarado por duas baterias, guitarras em fúria, e a mesma dança primitiva dos 23 Skidoo.
Funcionando como separador, foi possível assistir à projeção do filme “Looking for a Thrill”, composto por uma sequência de monólogos de artistas da editora. Num deles, Thurston Moore, dos Sonic Youth, recordou um dos primeiros concertos a que assistiu em Nova Iorque: dos Suicide, e da sua procissão de atrocidades. Teve medo, confessou. Outros tempos...

EM RESUMO
O melhor O Paradise Garage viveu em apoteose a celebração e decadência do pós-rock.
No meio das estrelas Tortoise e Trans AM, foram os obscuros Radian a fazer a diferença

02/10/2014

Transe americano [Trans AM]



Y 6|ABRIL|2001
ao vivo|escolhas

transe americano

Na primeira passagem dos Trans Am por Portugal, em Janeiro do ano passado, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, havia quem estivesse à espera de uma sessão de eletrónica servida em sintetizadores analógicos, com o rock a servir de muleta. As contas saíram furadas.
            Desta banda de Washington D.C. eram conhecidos álbuns como “Surrender to the Night” (juntamente com “Millions Now Living Will Never Die”, dos Tortoise, um dos clássicos da primeira geração do pós-rock), “The Surveillance” e “Future World”, exercícios de eletrónica de corrida, feita de sintetismos, vozes vocoderizadas e batidas kraftwerkianas. É verdade que as guitarras e a bateria estiveram presentes, mas nada fazia prever uma sessão tão punk como aquela que o trio ofereceu nessa noite na ZDB, uma das muitas de suor, apertos e pouca visibilidade.
            Desta vez já se vai avisado, pensarão vocês. Leva-se o blusão de cabedal, os “piercings” e as matracas. Alto aí! Não se precipitem e vão lá mudar o vestuário, porque os Trans Am têm em carteira uma coisa diferente. Em primeiro lugar, a sala é o Café Luso. Fica também no Bairro Alto, em Lisboa, mas o ambiente e a decoração prestam-se a outro tipo de “performances”. Que não incluem matracas. Foi no Café Luso, no ano passado, que Felix Kubin rubricou uma atuação memorável que juntou kitsch, teatro, humor e futurismo. E se é certo que os Trans Am não são propriamente adeptos do “camp” e da eletrónica circense típicos do excêntrico alemão, a verdade é que a noite poderá ser de novo – como dá a entender a organização, a Major Eléctrico, do capítulo 6 da saga de eventos alternativos com a designação Blaast – de surpresas e acontecimentos extraprograma.
            Ao contrário do rock, das guitarras e do fumo que intoxicaram a noite na ZDB, a música dos Trans Am será, no domingo, inteiramente preenchida pela eletrónica. Em transe. E em trânsito, já que está prevista a interação com a segunda banda em cartaz, os Iso68, uma das novidades mais refrescantes que o ano 2000 ofereceu em matéria de “eletrónica suave” com origem na Alemanha, através do álbum “Mizoknek”. Interessante será presenciar a forma como esta interação se processará, tendo em que conta que os Trans Am são, apesar de tudo, guerrilheiros, como o atesta o seu último álbum, “Red Line”, e os Iso68 uma agremiação ambiental/minimalista com férias pagas nas praias paradisíacas do “easy listening”. Faísca ou diluição, algo de incomum acontecerá de certeza.
            Os Trans Am formaram-se em 1992 em Washington D.C., com Philip Manley (guitarras e teclados), Nathan Means (baixo e teclados) e Sebastian Thompson (bateria e percussão). Influenciados por bandas rock como os Van Halen e ZZ Top (embora não descurassem a audição das metalurgias Chrome, Suicide ou Throbbing Gristle…), retiveram destas a energia, canalizada em formato “power trio”, ao mesmo tempo que aprenderam com os Kraftwerk a melhor forma de pôr a funcionar em regime de “groove” automático os sintetizadores.
            Não os confundam, todavia, com uma vulgar banda de electropop, apesar de na sua música ser possível detetar resíduos dos Human League ou dos Tubeway Army. Os Trans Am serão eletrónicos, serão mesmo pop, mas têm uma consciência política. “The Surveillance” era uma metáfora sobre a era da comunicação global e a paranoia urbana, através do olhar totalitário do “big brother” americano, e “Future World” (síntese de “Future Days” dos Can e “Computer World” dos Kraftwerk), uma panorâmica do vazio contemporâneo desenhado nos pixels de um ecrã de computador. O novo “Red Line” é o olho vermelho da vingança.
            Como vão os Iso68 – Thomas Leboeg e Florian Zimmer – reagir ao furacão, eis a incógnita que será interessante ver desvendada no Café Luso. Nos Iso68 não existe sociologia – não, não é nenhuma menção subliminar ao Maio de 68 – nem o mínimo vestígio de rock’n’roll. A sua música tem a consistência de um aspersor de jardim, com um microscópio auditivo afixado ao interior de cada gota.

TRANS AM E ISO68

LISBOA| Café Luso (Travessa da Queimada)
dom., 8, às 22h. Tel. 213422281. Bilhetes a 2000$oo

COIMBRA| Jardins da Associação Académica
ter., 10, às 22h. Bilhetes a 1000$oo
Os ISO68 não atuam nesta data.

20/08/2014

Trans AM - Red Line



20 Outubro 1999
POP ROCK - DISCOS

Pisar o risco

Trans AM
Red Line (8/10)
Thrill Jockey, distri. Ananana

Confirmam-se as indicações dadas pelo concerto do ano passado na Galeria Zé dos Bois e que tanto dividiu as opiniões: os Trans AM são, decididamente, uma banda rock. Eu, confesso que confundido pela lado sintético presente em álbuns como o magnífico “Surrender to the Night”, “The Surveillance” e “Future World”, acalentava ainda uma vaga esperança de que esse espetáculo não tivesse passado de um desvario, de uma noite punk bem regada, em que tudo tivesse acontecido assim porque os sintetizadores ficaram confiscados na alfândega. O álbum anterior, uma coletânea de “takes” mais ou menos alternativos, confirmava, porém, as minhas maiores suspeitas. Assunto arrumado, parecia. Até que – hélas! – este novo “Red Line” me fez reconciliar com os Trans AM. Eles são, de facto, rockeiros de alma e coração. Isso é ponto assente. Mas que significado tem ser rockeiro neste final de milénio? O rock dos Trans AM é futurista, carregado de fúria e urgência, mas as guitarras elétricas sozinhas são insuficientes para expressar com suficiente convicção toda a demência contida em “Red Line”. O lado eletrónico continua então presente, mas não porque a banda americana pretenda alimentar qualquer sonho sintético cor-de-rosa, mas porque na eletrónica e na velocidade reside a própria essência desta música e deste final dos tempos. E se “Red Line” é veloz e elétrico! São 73 minutos, divididos por 21 canções, em combustão acelerada, uma corrida para o abismo, que estão para o final dos anos 90 como os Suicide (“Where do you want to fuck today?”) estavam para o final dos 70 ou os D. A. F. – citados em “Polizei (zu spät)” – e os Einstürzende Neubauten para os 80. Os sintetizadores cortam como serrotes, a disciplina é de ferro, “I’m coming down” um escorrega para o inferno e “Lunar landing” uma viagem no Space Shuttle até ao planeta dos Schlammpeitziger e à galáxia kraut. A balada em guitarra acústica ao estilo dos Faust, “The dark gift”, limita-se a confirmar o que também já se adivinhava – que a música dos Trans AM, mais do que esquizofrénica é, como Pete Townshend, dos The Who, anunciava: “quadrifénica”. “Red Line” pisa mesmo o risco vermelho para se tornar num dos álbuns com mais “punch” do ano.

15/05/2011

Muita TRANSpiração e pouca TRANSgressão

cultura 21 de Janeiro 2000


Trans AM esgotam lotação na Galeria Zé dos Bois

Muita TRANSpiração e pouca TRANSgressão


Riff de guitarra eléctrica, feedback e solos de bateria fazem parte do vocabulário dos Trans AM. Afinal de contas, o velho rock ‘n’ roll enfeitado com futurismo kitsch. Os 150 que conseguiram entrar na ZDB aderiram à sessão de new wave, enquanto outros tantos ficaram à porta sem bilhete. Não houve crise. O povo é sereno.


Não houve motins nem ataques bombistas, como seria de esperar quando se organizam concertos com grupos tão populares como os Trans AM num espaço tão pequeno como a ZDB. Neste aspecto, a actuação do grupo norte-americano, na quarta-feira, no minúsculo cubículo do Bairro Alto, em Lisboa, decorreu com a serenidade de um encontro “new age”. Não houve feridos nem partos prematuros, nem sequer um baixo-assinado a protestar. Tudo na santa paz do Senhor.
Depois que os que ficaram de fora a chuchar no dedo se dirigirem pacatamente para os seus lares, as cerca de 150 pessoas que entraram, com bilhete ou recurso a expedientes vários, concentraram-se na actuação dos três rapazes de Washington D.C., preparados para uma lição de pós-rock. Bem entendido, só as 20 da frente conseguiram ver as caras dos professores, daí para trás dava para vislumbrar as pontas dos cabelos e as aranhas do tecto.
Foi mais uma sabatina do que uma lição. Nathan Means, Philip Manley e Sebastian Thompson, os três Trans AM, não conseguiram, como alguém dizia à saída, esconder que por detrás do rótulo de “banda electrónica”, o seu coração tende é para os Van Halen, AC/DC e outras bandas de heavy-metal. Aliás, parte do público presente, era composto por “headbangers” dispostos a abanar o capacete e a esguichar adrenalina. Esses adoraram. Os outros, mais conhecedores do pós-rock, aceitaram com relativa facilidade e alguma felicidade esta sessão de hard rock, acentuando o lado visceral e energético da coisa. Os Trans AM são retro-futuristas. Tão retro que remetem 20 anos para o passado, até uma noite numa cave mal iluminada de Manchester para ouvir música new wave. A sua música não esconde nem um bocadinho os sons onde foram beber a inspiração, sacados a discos antigos metodicamente estudados e reciclados de maneira a soarem a pós-rock, quer dizer, música suficientemente datada para poder ser utilizada com alguma distância e “atitude”.
Nas duas primeiras canções, do novo álbum “Future World”, as vozes filtradas por Vocoder e as melodias naif saíram em linha directa dos Kraftwerk do álbum “Radio Activity”. Kraftwerk mais carnudos, com bateria em vez de programações. Divertido como um filme de desenhos animados dos Jetsons.
Porém, à medida que o espectáculo foi avançando, impôs-se o lado mais rockeiro do grupo, com citações sucessivas aos Tubeway Army, New Order, devo, num contexto hard rock e, já perto do fim, a indispensável referência-reverência ao krautrock, através do mesmo compasso “martelo no prego” de “It’s a rainy day, sunshine girl”, dos Faust.
Quanto ao lado futurista, tão bem conseguido nos discos, resulta ao vivo na banda sonora de um filme de ficção científica de série B, com marcianos verdes com antenas, discos voadores em feitio de chávenas e pistolas de raio laser. Quem se lembra, em plenos anos 80, da “Music for Parties” dos Silicone Teens? Não eram pós-rockers mas já andavam vestidos com roupas metalizadas a voar em carros anti-gravitacionais por cima de casas transparentes a derramar “beep beeps” e serpentinas. Os Trans AM não brincam, levam-se a sério. O seu “Future World” tem polícias e câmaras vigilantes. Nada como o rock ‘n’ roll para agitar a bandeira do revisionismo. Dos Trans AM esperava-se mais visionarismo. Na ZDB os outrora rivais dos Tortoise (para quando um concerto em Portugal na casa-de-banho dos Armazéns do Conde Barão?) fizeram solos de guitarra e bateria, entornaram riffs a torto e a direito e, para disfarçar, rodaram timidamente os botões dos sintetizadores.
Não foi diferente do que seria de esperar? Provavelmente não. Mas bem feitas as contas talvez todos ficassem a ganhar se tivesse havido mais disciplina e menos desbunda. Menos transpiração e mais transgressão. É pois com alguma expectativa que esperamos por um próximo concerto dos Pink Floyd no Hot Clube de Portugal.

08/12/2010

O. K. Computador! [Trans AM]

Sons

16 de Abril 1999

Trans AM citam Radiohead em “Futureworld”

O. K. Computador!

Depois de três álbuns “escuros” e de uma fecunda pescaria nos anos 70, os Trans AM pintaram-se de branco e foram buscar alimento à década seguinte, num novo trabalho, “Futureworld”, em que, apesar da herança incontornável dos Kraftwerk, puseram um pé no funk e outro no electropop. Enquanto se preparam para entrar no ano 2000 como uma banda de guitarras.

Um anos depois de “The Surveillance”, a banda de Chicago regressou mais poderosa do que nunca, com um álbum carregado de electricidade e distorção, mas também de melodias para dançar. Phil Manley falou ao PÚBLICO dos preparativos para a entrada no novo milénio.
PÚBLICO – O tema de abertura de “Futureworld” tem por título “1999”. É alguma declaração sobre o ano em curso, ou sobre o final do milénio?
Phil Manley – É um tema com um som muito “cool”, com saxofone e um naipe de cordas. Faz lembrar um pouco uma canção dos Funkadelic, “Megaprint”, com um solo que parece interminável. Escolhemos o título empurrados por toda esta febre do final do milénio, mas também por ser uma espécie de homenagem a Prince e à sua canção com este mesmo nome.
P. – Qual a sua opinião sobre a música que se tem feito nestes últimos anos?
R. – Não sei... Tenho de admitir que ando um bocado por fora de tudo. Normalmente a música que ouço é mais antiga. Acabei de ouvir, por exemplo, um álbum dos Black Sabbath, “Masters of Reality”. Adorei.
P. – No tema seguinte utilizam um Vocoder. Penso que pela primeira vez. Tentaram criar uma voz de robô, como a dos Menmachine dos Kraftwerk?
R. – Exactamente. Cantar é uma coisa algo difícil para nós. Por isso refugiámo-nos atrás da máquina.
P. – Este tema usa uma melodia que parece decalcada dos Tubeway Army, de Gary Numan. Foi propositado?
R. – Acha? Adoramos Gary Numan, é capaz de criar melodias fantásticas e de extrema simplicidade. Mas não foi intencional, embora não me surpreenda que ache o tema parecido com os Tubeway Army...
P. – Depois do “krautrock” dos anos 70, dá a impressão de que as bandas conotadas com o pós-rock estão a assimilar influências dos anos 80, Human League, Cabaret Voltaire, Clock DVA. Isto também acontece com os Trans AM?
R. – A maior parte das pessoas, ao referir-se aos anos 80, só fala de Madonna ou de Michael Jackson, quando na verdade houve muita música underground que passou totalmente despercebida. Como os Chrome, uma das minhas bandas favoritas, que têm álbuns fantásticos como “Red Exposure” ou “No Humans Allowed”. Ou os Throbbing Gristle, os Suicide, os P. I. L., a fase inicial dos New Order, tudo bandas que as pessoas não ouviam na altura.
P. – Em “Futureworld”, há uma óbvia colagem a “Radioland”, do álbum “Radio Activity”, dos Kraftwerk. Até usam a mesma palavra, “radio”...
R. – Sim, é fácil para nós “roubarmos” coisas dos Kraftwerk [risos]. O problema é como é que se pode evitar isso? É como perguntar a uma banda pop de foram influenciados pelos Beatles.
P. – “Futureworld” corresponde a uma visão sobre o futuro do mundo?
R. – Não sei. Gostamos de estar atentos ao que se passa e tentamos ser optimistas. Mas não pensamos muito no futuro. Escolhemos “Futureworld” como título porque nos pareceu um termo apelativo. Como “Computer World” [dos Kraftwerk] ou “Future Days” [dos Can].
P. – No tema seguinte, “City in flames”, pode ouvir-se uma voz ameaçadora. Corresponde a alguma personagem específica?
R. – É interessante que fale numa personagem. O nosso baterista, Sebastian, interessa-se por toda a espécie de jogos de personagens [“role games”], como “Dungeons & Dragons”, que gira em torno de um ambiente com dragões e cavaleiros, aventura e fantasia. A partir daqui ele inventou uma nova personagem, com uma linguagem própria, meio humana meio lobo, gravada num registo muito grave. É assustador. Como alguém a falar-nos por cima do ombro.
P. – “AM Rhein” apresenta um ritmo e riffs de guitarra completamente rock. Os Trans AM preparam-se para ser uma “guitar band” no ano 2000?
R. – Espero bem que sim [risos]. A guitarra continua a ser o meu principal instrumento e o Nathan é, sem dúvida, um baixista tradicional. Não tencionamos mudar. As pessoas, neste final dos anos 90, já estão fartas da cena tecno. Um destes dias vai haver de certeza um revivalismo da guitarra. Talvez só aconteça daqui a 20 anos, seja como for, poderei dizer que a toquei sempre durante este tempo todo.
P. – “Cocaine computer” é um título bizarro para um tema delicioso. Os Trans AM renderam-se ao funk?
R. – O título é uma homenagem a “O. K. Computer”, dos Radiohead. Mas é também uma espécie de desabafo numa altura em que nos estávamos a sentir chateados no estúdio. É quase uma “jam session”.
P. – O computador envia-nos alguma mensagem?
R. – Não. Nenhuma. Somos bastante amadores no que respeita aos computadores. Temos um computador já antigo. Todo o trabalho de electrónica mais difícil do álbum foi feito pelo Sebastian, num velho Atari que ele programou em Basic.
P. – Depois de “Futureworld”, surge um “Futureworld II”. Trata-se de algum futuro alternativo?
R. – Fizemos um “Futureworld II” porque não tínhamos mais nenhum título para essa canção... Também nos agradou fazer algo semelhante ao que fizeram os Police, em “Synchronicity”, um e dois. Mas também é possível, de facto, encarar o tema como essa tal alternativa, já que uma das versões tem letra enquanto a outra é muito mais abstracta. E assustadora, na maneira como começa, com o som de chuva...
P. – Como em “Blade Runner”?
R. – Exactamente.
P. – “Sad and Young” parece quase ter sido feito por uma banda diferente. Não soa a nada que apareça para trás no álbum... É uma despedida ou um lamento?
R. – É um lamento. Percebo o que quer dizer, soa de facto a algo produzido numa sessão de gravação diferente. Está cheio de guitarras e do som de órgão. É um tema orgânico...
P. – Jonas, uma personagem de Alain Resnais, fará 20 anos no ano 2000. O que poderá esperar um jovem de 20 anos do próximo milénio?
R. – Toda a gente está a ficar apanhada pela ideia de que tudo mudará radicalmente no próximo milénio, mas penso que não haverá assim tantas mudanças, embora eu esteja convencido de que a economia global do planeta irá entrar em colapso e que a pobreza aumentará.
P. – A capa de “Futureworld” mostra um horizonte virtual completamente branco e vazio...
R. – Certo. Gostamos dessa imagem. Mas, por outro lado, a capa é branca e verde por outra razão. Queríamos uma imagem com brilho...
P. – Como um monitor de computador?
R. – Sim, algo que desse uma ideia mais positiva, até porque os nossos três primeiros álbuns são todos bastante escuros.
P. – A ideia final que “Futureworld” me sugere é a de uma viagem puramente mental, através de um computador, como se se tivesse perdido a ligação com o mundo exterior. É lícito concluir que o tema principal é a ilusão?
R. – Sim, suponho que sim. Ou a fuga. Na tentativa de encontrar alguma esperança.
P. – Os Trans AM estão prontos para entrar no novo milénio?
R. – Absolutamente. Construímos um abrigo antibombas e enchemo-nos de comida enlatada [risos]. Pessoalmente, estou preparado para fazer uma enorme festa, provavelmente em Nova Iorque. É lá que costumo fazer as passagens de ano. Acontece sempre algo de louco.