PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 DEZEMBRO 1992 >> Pop
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CONTRA UMA EUROPA DE PAPEL
1992 assistiu à explosão definitiva da “world
music” como força motora da música popular. Multiplicaram-se as fusões mais
modernistas a par das ortodoxias mais renitentes. O termo “tradição” nunca,
como no ano que passou, fez tanto sentido no léxico musical do planeta. Novos
discos editados em catadupa, festivais realizados um pouco por todo o lado (a
bíblia “Folk Roots” dedicou-lhes, na edição de abril, um suplemento de 32
páginas) e reedições em compacto de obras pioneiras transformaram este ano num
maná para quem, na música, procura, mais do que o brilho das superfícies, as
essências que fazem únicas as coisas e lhes dão sentido. “World” é mundo, e o
mundo é imenso. Cinjamo-nos então a parte dele – à Europa, que os políticos
medem pela bitola da burocracia e julgam poder unir no papel pela via dos
tratados.

O mundo celta continua a ser
um dos centros. Dos mais fecundos, pelo menos. E celtas são irlandeses,
escoceses, ingleses, galegos, bretões, alguns italianos e portugueses. Os
irlandeses davam cartas. Neste ano deram menos, ultrapassados pelos seus vizinhos
da Escócia. Poucos discos marcantes, juntamente com uma certa vulgarização,
fizeram desviar as atenções para as terras altas do Norte.
Ainda mais a norte,
agitaram-se as vagas escandinavas, que já no ano passado, pela voz de Mari
Boine Persen, tinham dado indicações de que este seria o ano de maré alta.
Koinurit, com “Askon Kolmrivinen”, e Värttinä, cuja sedução feminina atingiu em
cheio os sacerdotes da “Folk Roots” com “Angelin Tytöt”, comandaram a horda
“viking”. Seguidos de um pelotão de nomes que convém aprender a pronunciar: Møller,
Willemark & Gudmundson, Arne M. Sølvberg & Øyvind Lyslo, Seppo
Sillanpää, Tallari...
Das regiões do Piemonte e
Lombardia, na Itália, os celtas italianos ergueram-se a grande altitude. Os La
Ciapa Rusa, que ao quinto álbum, “Retanavota”, assinaram a quinta obra-prima,
encontraram rivais à altura nos lombardos Barabàn. Os primeiros já estiveram em
Portugal por duas vezes, trazidos pela Etnia. Os segundos integram o programa
do Intercéltico do próximo ano.
Bretões e galegos estiveram
bem. Do Norte de França, confirmada a senilidade irreversível de Alan Stivell
manifesta no novo álbum “The Mist of Avalon”, e o desvio fatal nos pântanos do
rock, dos Gwendal, bandas como Bleizi Ruz, Ti Jaz ou Barzhaz encarregaram-se de
defender a dignidade da velha-guarda. Mas o ceptro passou definitivamente para
um trio de novas bandas cujas produções discográficas recentes roçaram o
brilhantismo: Storvan, Strobinell e Skolvan, estes últimos autores de um dos
melhores álbuns do ano, “Kerzh Ba‘n’ Dans”. No resto do hexágono, com Gabriel
Yacoub a descansar de “Bel”, viveu-se à sombra da Gasconha e dos feitos
discográficos dos Perlinpinpin Folc, em “Ténarèze”, e Verd e Blu, em “Musica de
Gasconha”.
Dos Balcãs, ultrapassando a
síndrome das vozes búlgaras, chegou o humor dos Vasmalom (“Vasmalom II”), a
música cigana dos romenos Taraf de Haidouks (“Musique Tzigane de Roumanie”) e a
experiência com computadores de Márta Sebestyén (“Apocrypha”), que deste modo
ousou, numa escala mais radical, o que June Tabor apenas aflorara no seminal
“Ashes and Diamonds”. June Tabor, que graças ao belíssimo “Angel Tiger”
assegurou o título de melhor voz feminina do ano em Inglaterra, ofuscando o
novo trabalho dos mestres Dave Swarbrick e Martin Carthy, “Skin and Bone”.
Kathryn Tickell, o borrachinho das “Northumbrian pipes”, foi a coqueluche dos
festivais do ano, um pouco por toda a Europa. Inglaterra que nos últimos 12
meses se preocupou, em primeiro lugar, com a conservação para a posteridade dos
monumentos do passado.
Extensa, a lista de reedições
importantes em compacto, entre as quais cabe destacar a edição aumentada de
“Rise Up Like The Sun”, dos Albion Band, e “The Transports”, do malogrado Peter
Bellamy, considerada a primeira ópera-folk, reunindo uma constelação de
estrelas entre as quais despontava uma tal June Tabor, e parte da discografia
dos Incredible String Band (que por sinal integravam um bardo escocês, Robin
Williamson) – “The 5000 Spirits or the Layers of the Onion”, “Wee Tam”, “The
Hangman’s Beautiful Daughter” e “Earthspan” – uma das bandas acústicas
marcantes dos anos 70. Enquanto o novel duo de virtuosos constituído por Chris
Woods e Andy Cutting (ex-Blowzabella) é nomeado “promessa do ano” pela “Folk
Roots” e se aguarda com ansiedade a estreia discográfica dos Scarp, de outro
ex-Blowzabella, Nigel Eaton, o sanfonineiro louco.
Finalmente, a norte do Minho,
a Galiza continuou a debater-se com o dilema de ser ou não irlandesa, “rocker”
ou “new-ager”. Num ano sabático, em termos de novos discos, para os Milladoiro
e Luar na Lubre, passando ao lado de equívocos como Brath e Trisquel, coube aos
“rústicos” Muxicas, com “Escoitando Medra-la Herba”, mostrarem que muito está
ainda por explorar na Galicia de Maeloc. Das lendas, só Emilio Cao gravou,
escrevendo “Cartas Maritimas” com a sua harpa. De Amancio Prada espera-se que
repita o ouro de “Caravel de Caravels”. E de Pablo Quintana, que volte a pegar
na sua sanfona.
Uma referência final para as
pequenas geografias. Depois da Sardenha e da maravilha que é “Sonos”, de Elena
Ledda, dada a conhecer no ano passado, as atenções desviaram-se para o País
Basco, onde os seus lendários representantes, os Oskorri, assinaram o muito
interessante e exótico “Hi Ere Dantzari”.
Discografia
Altan
“Harvest Storm”
La
Ciapa Rusa “Retanavota”
Skolvan
“Kerzh Ba’n’ Dans”
June
Tabor “Angel Tiger”
Vasmalom
“Vasmalom II”
Destaque
TRANSFERÊNCIA DE PODERES

Altan
Da “Ilha Esmeralda”, como
chamam à Irlanda, poucos continuadores apareceram neste ano com a grandeza dos
mitos dos anos setenta – Bothy Band, De Dannan e Planxty. Dos três, permanecem
vivos e de boa saúde os De Dannan. Infelizmente, o novo “1/2 Set in Harlem” não
está à altura do resto da sua discografia. Os Chieftains, claro, continuam em
força e em forma, mas neste caso a música da Irlanda serve cada vez mais de
pretexto para exibirem listas de convidados provenientes de outras áreas
musicais, exibição que vai bem com o seu estatuto de “banda institucional”.
Em 1992, foi a vez de
apontarem para a “country music”, em “Another Country”. Foi pena não ter
chegado a tempo ao nosso país o ainda fresco “The Fair Hills of Ireland”, dos
Boys of the Lough”. Assim, com Andy Irvine na má companhia de Davy Spillane, a
dar uma ideia do que não é a música da Bulgária em “East Wind”, não foi difícil
aos Altan ocuparem o trono e puxarem lustro à tradição no excelente “Harvest
Storm”.
A Escócia, por seu lado foi
campo de múltiplas experiências que mantiveram acesa a flâmula celta.
Battlefield Band, Tannahill Weavers, Silly Wizard, Sileas, Catherine-Ann
MacPhee, Hamish Moore, Gordon Mooney, Savourna Stevenson e os Ceolbeg são
projetos, uns mais antigos do que outros, em contínuo desenvolvimento.
Os House Band destacaram-se,
voltando a viajar, em “Stonetown”, da Escócia até à Bretanha e à Bulgária, com
alguns requebros de “cajun” pelo meio. Da superbanda de sonho, os Clan Alba –
Brian McNeill (Battlefield Band), Davey Steele e Gary West (Ceolbeg), Dick
Gaughan (uma das grandes e mais politizadas vozes da Escócia), Patsy Seddon e
Mary McMaster (Sileas) e Dave Tulloch – espera-se tudo.
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