06/10/2026

Os quatro cantos da Europa [III Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

Pop Rock

8 JULHO 1992

 

OS QUATROS CANTOS DA EUROPA

 

Este ano em versão alargada, os III Encontros Musicais da Tradição Europeia decorrem entre 10 de junho e 3 de agosto. Oeiras, Guarda, Évora e Guimarães recebem a nata da música tradicional proveniente das mais variadas regiões do Velho Continente. Na cidade minhota concentra-se a maioria dos grupos participantes. É aí que o entusiasmo e a adesão costumam ser maiores. Mas pode optar-se por um verão diferente e por uma volta a Portugal em música folk.

 

            Onze grupos e solistas participam este ano os Encontros, pulverizando em número as duas edições anteriores. Quantidade a que, neste caso, se junta a qualidade. Mais uma vez, a Etnia e o seu principal responsável, Mário Alves, dão mostras de uma atitude que – evitando qualquer tipo de concessões ao gosto massificante ou equívocos que amiúde, neste campo musical, apenas servem para criar confusão e divisão – pretendem acima de tudo criar nas pessoas o gosto, se não o amor, pelas músicas tradicionais do mundo, nas suas diversas tendências e origens geográficas.

            A lista de nomes é impressiva. Por ordem alfabética: Ad Vielle Que Pourra (Quebeque, Canadá), Amélia Muge (Portugal), Capercaillie (Escócia), Elena Ledda & Suonofficina (Sardenha, Itália), Jean-Marie Carlotti (Occitânia, França), Liam O’Flynn (Irlanda), Musica Nostra (Ilhas Baleares, Espanha), La Musgaña (Castela-Mancha, Espanha), Muxicas (Galiza, Espanha, com boa vontade), Raízes (Portugal) e Vasmalom (Hungria).

 

Espetáculo e rigor

 

            Em termos de reconhecimento internacional, os Capercaillie e Liam O’Flynn apresentam-se como as referências mais sonantes. Os escoceses vêm aureolados com a crítica ultra-elogiosa que a “Folk Roots” teceu ao seu novo disco, “Delirium”. Do irlandês basta dizer que fez parte dos Planxty e é considerado um dos maiores tocadores de “uillean pipes” da atualidade. Foi solista principal na obra sinfónica “The Brendan Voyage”, do compositor Shaun Davey, e trabalhou, entre outros, com Kate Bush, Mark Knopfler, John Cage e a companhia de bailado de Merce Cunningham. Nos Encontros, o gaiteiro virá acompanhado por outro notável, Dónal Lunny (além dos Planxty, integrou também os Bothy Band e é o produtor musical do disco e da série que a RTP recentemente transmitiu, “Bringing it all back home”), por Noel Martin, no violoncelo, e Nollaig Casey (ex-Oisin, colaboração em “Lead the Knave”, com Arty McGlynn), no violino.

            Ad Vielle Que Pourra, Muxicas e La Musgaña são três grupos que, à partida, aliam a espetacularidade da apresentação ao rigor e ao tecnicismo dos executantes, juntamente com propostas coerentes de reformulação estilística das respetivas heranças tradicionais.

            Os Ad Vielle, formados no Canadá, são conhecidos entre nós através dos seus dois álbuns “New French Folk Music” e “Come What May”, registos fundamentais para a compreensão do “celtic revival” dos anos 90. Um som riquíssimo originado por sanfonas, gaitas-de-foles, bombardas, violinos e instrumentos de corda dedilhada, servido por executantes de técnica irrepreensível que transportam quem os ouve até regiões onde as lendas, o humor e a magia, mais do que fronteiras de um lugar geográfico, são um estado de espírito, um sonho vigilante, a idealização arquetípica do Futuro.

            De trás, de longe e do fundo, avançam as fanfarras de percussão, gaitas e sanfonas dos Muxicas, de Vigo, com a Galiza vibrante na alma e um som telúrico, ao mesmo tempo visceral e poético, que faz tremer os alicerces dos ministérios do Tempo. Com os Luar na Lubre, os Muxicas assumem hoje a condição de herdeiros legítimos dos Milladoiro, dos arquitetos do templo do Obradoiro e da visão solitária de Pablo Quintana. Integram a elite dos portadores mais nobres da flâmula celta que ondula na rota dos peregrinos da terra e das águas sacras do Atlântico. “Dasafinaturum”, álbum número quatro da sua discografia, disponível nalgumas lojas do país, já o revelava. Confirma-o o disco novo, “Escoitando Medra-la Herba”, que estará à venda nas bancas durante o festival.

           

Trovadores do Sul

 

            Presentes anteriormente em Portugal por duas vezes estiveram os La Musgaña, com o disco “El Paso de la Estantigua” no bornal. Têm já outro posterior, Lubican”, e o fogo que nunca os abandona. Tocam uma música picaresca – do centro de Espanha, mas também das Astúrias e da Andaluzia – de júbilo pagão, em que os anjos dão as mãos a diabretes. Vermelhos como o sangue e a terra da meseta. Soam diferentes, as gaitas-de-foles de Castela. E os “albogues” e “rabels”…

            Jean-Marie Carlotti, devem alguns recordá-lo dos Mont-Jóia, autores, nos anos 70, de um magnífico “Cant e Musica de Provenca, XIIème-XXème”, gravado para a Le Chant du Monde. Agora Carlotti viaja com a sua guitarra e a sua gaita-de-foles de cana pelos palcos da Europa, recuperando a tradição dos trovadores provençais, dos seus irmãos primeiros – Vidal, Ventadorn, Peirol –, contando histórias e destruindo a carapuça de racionalismo deste final de século. Em Oeiras, será acompanhado pelo trompetista Michel Marre, no reportório trovadoresco. Nos restantes espetáculos, far-se-á acompanhar de um quarteto. Novas tradições nascem na ancestral Occitânia.

            Menos conhecidos são Elena Ledda & Suonofficina e os Vasmalom. Elena interpreta o folclore da Sardenha e os calores do Sul (sendo considerada uma das maiores intérpretes da música do Mediterrâneo, ao lado de Maria del Mar Bonet, Rosa Zaragoza e Aurora Moreno) com voz sinuosa, de cristal, numa música que ora se aproxima das polifonias corsas ora se deixa deslumbrar por improvisações a que os arranjos, em disco (no mais recente, “Sonos”, por exemplo), conferem a transparência característica de algumas produções “new age”. No passado Elena trabalhou com Andreas Wollenweider, se bem que hoje a sua voz se tenha libertado de todo e qualquer artificialismo.

            Os Vasmalom, da Hungria, pertencem à mesma geração dos emblemáticos Kolinda e, como estes, levam os sons tradicionais dos Balcãs até paragens inusitadas. “World Music” (a banda esteve presente em vários festivais da WOMAD) da terra dos vampiros para dançar ao som das sanfonas, gaitas, flautas, darbukas e “tapans”, entre os encantamentos lançados pela voz de Eva Molnár, uma séria rival de Márta Sebestyén.

            Um grupo das Ilhas Baleares, os Musica Nostra, de que não temos elementos, e os portugueses Amélia Muge – “a voz” – e Raízes, de quem pouco se tem ouvido falar desde a edição do álbum “Caminho d’Água”, completam a (extensa) programação destes Terceiros Encontros, a prometerem um êxito sem precedentes.

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