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16/02/2018

Os melhores do ano 1991 [Eletrónica + World]


Pop Rock
1991

os melhores do ano

ELETRÓNICA

O ano que passou foi de triunfo para os eletrões. A eletricidade sempre foi um bom circuito de informação. Os sinais não enganam: passado e futuro tocam-se e confundem-se. Na Europa, sobretudo, de novo se constrói a torre de Babel.

Delerium
            Stone Tower
                (Dossier)
Produto típico da ala negra dos pseudomagos que apostaram em dar cabo das nossas cabeças, por dentro e por fora. Neste caso não há agressões psíquicas abaixo dos 2Hz ou acima das “frequências caninas”, nem grandes rituais de sangue provocados pelo rebentamento de tímpanos. Pelo contrário, embora na capa proliferem as habituais imagens de corpos em agonia, caveiras e arquiteturas de pesadelo, os Delerium, fação “ambiental” dos Front Line Assembly, enveredam pelas religiosidades obscuras, abrindo paisagens de sombra e labirintos por onde divindades pagãs aproveitam para se infiltrar. Longos mantras etno-demoníacos que incluem na versão CD cerca de meia hora extra de hipnose. Um tratado de necromancia que pode provocar habituação à paranóia. Para ouvir de noite, com cuidado.

Hans-Joachim Roedelius
            Der Ohren Spiegel
                (Multimood)
Dividido entre a devoção ao piano, a Erik Satie e Alban Berg e a nostalgia das explorações eletrónicas de antanho realizadas com Dieter Moebius, nos Cluster, Roedelius consegue aqui o equilíbrio perfeito entre duas pulsões contraditórias, a simplicidade e o barroco. Exorcizado o espectro das teclas de marfim em “Piano Piano”, para piano solo, Roedelius revela-se como um arquiteto de sons visionário, ombreando com Brian Eno na construção de estruturas tímbricas e harmónicas (no seu caso bastante mais complexas que as do autor de “Discreet Music”) que parecem desafiar a gravidade. “Reflektorium”, o tema mais longo do CD, tem o esplendor, os reflexos matizados e o requinte do pormenor de um candelabro de cristal.

Holger Hiller
            As Is
                (Mute)
Antigo membro dos Palais Schaumburg, autor de óperas sobre “calças” e auditor atento de Stockhausen, Faust, Einstuerzende Neubauten e de música pop num rádio a pilhas mal sintonizado, Holger Hiller produz música dourada a partir de detritos e excrescências sonoras a partir de excertos de Wagner. Diverte-se a misturar pedaços de sinfonias, de ruídos, de vozes e melodias incertas no seu cadinho de alquimista louco – o “sampler”, máquina mágica onde nada se perde e tudo se trasforma. À semelhança dos geniais “Ein Bundel Faulnis in der grube” e “Oben im Eck”, “As Is” é “como é”, um programa musical, na aparência sem sentido, mas onde a cada segundo o som dispara em direções surpreendentes, das refrações “dub” à pop do outro lado do espelho. O discurso da esquizofrenia tem a sua lógica própria.

Kraftwerk
            The Mix
                (EMI)
Ralf Hütter e Florian Schneider não vão atrás da Europa, a Europa é que lhes segue no encalço. Os dois alemães vestiram de novo as fardas de humanóide, carregaram baterias, ligaram os interruptores do estúdio Kling Klang e procederam como cirurgiões-robô especializados, com bisturis laser e uma ironia não menos cortante. Operaram maravilhas de cirurgia plástica nos clássicos da “techno-pop” industrial gerados pela maquinaria do Rur e polidos no paraíso de cristais de quartzo e fibra ótica de “Silicon Valley”: “The Robots”, “Computer Love”, “Autobahn”, “Radio Activity”, “Trans Europe Express” – binários e insinuantes como sempre, e agora mais dançáveis do que nunca. Regresso em forma ao futuro.

O Yuki Conjugate
            Peyote
                (Multimood)
Alinhados com os Lights in a Fat City, afilhados de Jon Hassell e das músicas do “quarto mundo”, atentos às pulsações das culturas e dos mitos africanos e aborígenes, os O Yuki Conjugate desenham os contornos de uma “realismo fantástico” que povoam de monstros projetados pela tecnologia eletrónica. “Peyote”, como o anterior “Into Dark Water”, sendo mais um produto representantivo da grande síntese do final do milénio, tendência “novo primitivismo”, avança por alamedas laterais, por via da alucinação, abolidas as noções tradicionais do espaço e do tempo. Música intuitiva, elemental, naturalista por essência e ambígua na condição de ícone da nova idade das trevas. Se “Into Dark Water” era a escuridão do fundo oceânico, “Peyote” é a miragem do deserto, a vibração desfocada, o retorno ao incriado.


WORLD

1991 foi sobretudo o ano de reedições em CD, de parte de discografias importantes – dos Planxty, Chieftains, Malicorne, Milladoiro e Steeleye Span. Tudo importações, claro. Outras “novidades” chegaram ao mercado nacional pelo menos com um ano de atraso, razão por que não puderam constar da presente lista.

Ad Vielle Que Pourra
            Come What May
                (Green Linnet)
Originários do Canadá, os Ad Vielle Que Pourra pretendem “unir o caldeirão de influências americano às raízes europeias”. Aliam o virtuosismo, ecletismo e magia, um pouco à maneira de uns Blowzabella mais extrovertidos. Há na música dos Ad Vielle uma energia contagiante, resultante da correta assimilação e articulação da tradicção francesa, e em particular da bretã, com a música de realejo, as valsas palacianas ou a canção de cabaré, em combinações instrumentais, ora frenéticas, ora bizarras, da bombarda e da gaita-de-foles flamenga, da sanfona, do violino, do acordeão e do bouzouki… Música para “viajar pelo mundo ou pelo interior de nós próprios”.

Catherine-Ann MacPhee
            Chi Mi’n Geamhradh
                (Green Trax)
Catherine canta em gaélico as habituais histórias da história escocesa, às quais a mistura das brumas célticas com as névoas não menos poéticas do “whisky” retira um pouco de credibilidade. Mas a falta de rigor científico e o tom pueril de canções como aquela que narra os desgostos amorosos de “um jovem vendo a rapariga que ama abandoná-lo, para casar com outro, o que lhe parte o coração [ao jovem, não ao outro]” são compensados pela excelência do canto. Entre um acompanhamento instrumental invulgar, a harpa cintilante de Savourna Stevenson garante, por si só, o sortilégio.

Hamish Moore & Dick Lee
            The Bee Knees
                (Green Linnet)
Caminho difícil e excitante, o da fusão das sonoridades tradicionais com o jazz. John Surman (“Westering Home”), Ken Hyder’s Talisker ou Jan Garbarek (“I Took up the Runes” e “Rosensfolle”, este com Agnes Buen Garnas), do lado do jazz, já o haviam tentado com sucesso. Do “outro lado”, registe-se a fase inicial dos Gwendal, de “À vos Désirs”, os suecos Filarforket, em “Smuggel” os ex-jugoslavos Zsarátnok, em “Holdudvar”, June Tabor em “Some Other Time”, Savourna Stevenson, em “Tweed Journey”, e aproximações pontuais da malograda Sandy Denny. “The Bee Knees” vive do diálogo/confrontação entre a gaita-de-foles e o “tin whistle” tradicionais de Hamish Moore, e os saxofones e clarinete-baixo de Dick Lee. Os puristas poderão franzir as sobrancelhas. Mas as pulsações do coração e as pernas nem por isso deixarão de acelerar.

Les Nouvelles Polyphonies Corses avec Hector Zazou
            Les Nouvelles Polyphonies Corses
                (Philips)
Sensível ao poder do eixo que liga a pedra e a terra ao céu, Hector Zazou, num exercício que acaba por se assumir como ponto culminante e corolário lógico de “Géographies” e “Géologies”, soube manter os computadores à distância exata da religiosidade e do arrebatamento do canto corso, deixando-lhes o espaço necessário à oração e à elevação. Os sons eletrónicos ou da profusa instrumentação utilizada neste projeto não interferem com a energia do canto, antes lhe servem de alavanca de apoio, facilitando-lhe a ascese e constituindo um estímulo adicional ao discurso da alma. A constelação de “figuras” presentes – Ryuichi Sakamoto, Ivo Papasov, John Cale, Steve Shehan, Manu Dibango, Richard Horowitz, Jon Hassell – participa e assiste fascinada à cerimónia.

Ron Kavana
            Home Fire
                (Special Delivery)
Permanecendo de certo modo à margem do circuito “folk” britânico tradicional, Ron Kavana é um rebelde apostado em dotar a música irlandesa de uma carga política que tende, por vezes, a ser minorizada, em detrimento do seu lado poético-mitológico. “Home Fire” recusa o perfecionismo de estúdio que, nos últimos anos, tem vindo a retirar muito da espontaneidade que caracterizou o grande “boom” da década de 70, traduzido no aparecimento de grupos como os Planxty, Bothy Band, De Dannan e Five Hand Reel, entre outros. Solução de compromisso entre as sonoridades mais marcadamente célticas das danças e dos instrumentais, e a importância dada às palavras, nas baladas de tom intervencionista. Mil vezes mais eficaz que Billy Bragg e infinitamente mais rico em termos musicais.

20/11/2010

Viagem da rapariga das estrelas pelo cosmos [Krautrock]

Sons

12 de Fevereiro 1999
KRAUTROCK

Gille Lettman, Sand, Cluster, Roedelius

Viagem da rapariga das estrelas pelo cosmos

Rolf Ulrich-Kaiser, patrão da editora Ohr, como Julian Cope diz no seu livro “Krautrocksampler”, “tinha uma visão”: a criação, na sua editora, de uma música absolutamente fora deste mundo, a própria essência da “kosmische music”. Entre os vários projectos que organizou com este fim, todos derivados de desvairadas sessões de estúdio alimentadas a ácido, contam-se a fase inicial dos Ash Ra Tempel, “Tarot”, do cigano pintor e místico Walter Wegmüller, “Lord Krishna Von Goloka”, do poeta suíço Sergius Golowin e o naipe de discos dos Cosmic Jokers, montados pelo próprio Kaiser a partir de colagens de excertos das ditas sessões de estúdio, com participações da nata dos auto-designados “cosmic courriers”. Gille Lettmann era a mulher de Rolf-Ulrich Kaiser e musa inspiradora de todo o movimento. “Gilles Zeitschiff”, de 1974, assinado com o seu nome, reúne um punhado de alucinações sónicas recortadas de sessões de estúdio dos “cosmic courriers”, posteriormente manipuladas por Kaiser e realizadas pelos “suspeitos” do costume: Manuel Göttsching e Hartmut Enke (dois Ash Ra Tempel), Klaus Schulze, Jurgen Dollase e Harald Groβkopf (ambos dos Wallenstein) e Walter Westrupp, além de Wegmüller, Golowin e Timothy Leary, o papa do LSD (que a “troupe” cósmica encontrou na Suiça, quando o professor andava fugido da polícia). Leary que funcionou como motor de arranque de vários produtos dos “cosmic courriers”, entre os quais este “Gilles Zeitschiff”, um manifesto psicadélico sobre a percepção do tempo sob o efeito das drogas psicotrópicas. “O Tempo é a nova dimensão que alimenta a música cósmica. O Tempo contém três grandes experiências que nos fazem voar em direcção à rainha do sol. O amor está no Tempo. Voem com alegria”, exclama Gilles no cume do seu transe. Sobre um fundo de “acid jams” cósmicas, a “sternenmädchen”, a “rapariga das estrelas”, como era conhecida, faz flutuar a sua voz de virgem-bruxa (antecipando um papel semelhante assumido por Gilly Smyth nos Gong) em declamações espaciais e comentários sobre os seus amigos cósmicos (incluindo a apologia de Leary), retalhados por efeitos de estúdio, que apenas fazem sentido no contexto do ácido. É um dos melhores exemplos do espírito então reinante no seio da comunidade cósmica, dominado pelos sintetizadores de Klaus Schulze, superior em estranheza e em poder de síntese da simbiose ácido-música, a qualquer dos álbuns dos Cosmic Jokers. Depois, é deveras interessante verificar como soa um “blues” executado em plena “trip”, como em “Downtown”, na linha dos “blues” cósmicos dos Ash Ra Tempel. (Spalax, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8).

Outro objecto valioso do psicadelismo germânico, também de 1974, chega ao compacto por uma via algo bizarra: “Golem”, disco único dos Sand, um trio originário de Bodenwerder, na Saxónia, liderado por Johannes Vester, reeditado por Steve Stapleton, mago dos Nurse With Wound e admirador de longa data do “krautrock” em geral e dos Sand em particular. Reintitulado “Ultrasonic Seraphim”, o disco aparece aumentado para CD duplo, incluindo quatro baladas psicadélicas de um disco a solo de Vester, “Born at Dawn”, e um segundo disco composto por uma releitura da música dos Sand pelos Nurse With Wound. Influenciados pelos Pink Floyd mais planantes, os Sand criaram em “Golem” mantras de sintetizadores animados por pulsações animalescas numa espécie de variante cósmica de “Ummagumma”. Faixas como “Helicopter” (longa e assustadora alucinação electrónico-psicadélica), as personificações, por Johannes Vester, de Syd Barrett, em “Old loggerhead” e “On the corner” (não estaria descabida em “The Piper at the Gates of Dawn”), a balada semi-acústica “May rain” (entre os Faust e os Eagles...) ou a viagem cavernosa pelos meandros da psique de uma tal “Sarah”, em dois movimentos que vão dos sepulcros estelares de “Atem”, dos Tangerine Dream, aos Cluster industriais de “Cluster II”, constituem uma das experiências mais marginais de todo o “krautrock”. (United Durtro, distri. Symbiose, 8).

Finalmente, os Cluster regressam com uma nova reedição na Sky, desta feita “Curiosum”, de 1981, um dos discos da obra da dupla Moebius-Roedelius, posteriores a “Sowiesoso”, preferidos por Julian Cope. Abstracto, maquinal e minimalista, por vezes próximo de “Ralf & Florian”, dos Kraftwerk (“Tristan in der bar”), a “Curiosum” faltará apenas o humor e o tom de realejo da obra-prima “Zuckerzeit”, numa música cuja arquitectura concilia o sentimento e a matemática. Indispensável para os incondicionais do grupo, “Curiosum” prenuncia ainda trabalhos mais recentes como “Apropos Cluster” ou a sessão do super-grupo Space Explosion. (Sky, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8).

Elemento romântico dos Cluster, Hans-Joachim Roedelius gravou “Jardin au Fou” em 1978, um dos seus melhores e mais diversificados trabalhos dos anos 70. Aqui, a vertente clássica e pianística (presente em temas como “Toujours” ou “Balsam”) característica de grande parte da sua discografia a solo, escapa por completo ao teor “new age” que enferma álbuns como “Momenti Felicci”, num saudável convívio com o experimentalismo electrónico e um lado concretista que o músico apenas viria a retomar nos recentes (e magníficos), “Sinfonia Contempora No.1” e “La Nordica”. “Cafe central” apresenta a sonoridade e uma construção melódica típica de Michael Rother, “Le jardin” é uma aguarela matutina de sol e chilrear de pássaros com a mesma serenidade zen dos Popol Vuh, enquanto a valsa de marionetas “Rue Fortune” constitui um delicioso exemplo da arte de Roedelius, no difícil equilíbrio entre o sério e o pueril. (Captain Trip, import. FNAC, 8)

19/10/2009

Em transe [Electrónica]

Sons

24 de Abril 1998
DISCOS – ELECTRÓNICA

Em transe

Meia-noite. Hora imprópria para expor o cérebro às emanações, benéficas ou venenosas, produzidas na fábrica das fantasias electrónicas. Pós-rock, “krautrock”, ambiental, fusão. Máquinas e homens em simbiose passam a noite agitados pelo transe.
Numa folha de cálculo por picotar desenrolada de uma impressora radioactiva lê-se o nome Tone Rec. São um grupo francês vagamente aparentado com o pós-rock. O primeiro álbum era uma máquina de escrever encravada. O novo “Pholcus” é um portento, a matemática da electrónica elevada a grande arte. Se os Kraftwerk propunham a poesia da máquina, os Tone Rec desenvolvem a mecânica da poesia. É uma sucessão de equações rítmicas lancinantes e de variações bruscas de humor que correm numa auto-estrada de informação sem conteúdo, mas onde os circuitos brilham a abarrotar de energia. O meio é a mensagem. O meio dos Tone Rec é uma rede labiríntica de centros nervosos. A mensagem, o prazer analítico da contabilidade num jorro contínuo de ideias fractais que a cada momento se entrecruzam num jogo probabilístico sem fim. A primeira obra-prima do pós-pós-rock continental. (Sub Rosa, import. Ananana, 10)

Na Alemanha os velhos “krautrockers” continuam apostados em dizer que este tempo é também o deles. Seis destes teutónicos excomungados de Bayreuth – Dieter Moebius (ex-Cluster), Mani Neumeier (ex-Guru Guru), Jürgen Engler (ex-Die Krupps), Chris Karrer (ex-Amon Düül II), Werner “Zappi” Diermaier (Faust) e Jean-Hervé Peron (ex-Faust) – formaram o grupo dos grupos do novo rock alemão. Escolherem para se chamar Space Explosion, e está bem visto. “Space Explosion” é simultaneamente uma supernova em expansão e um ritual de novos primitivos. Na sua obsessão pela batida infinita soam mais convincentes que os La! Neu? E não andam longe do que nesta mesma etiqueta fizeram três dos seus elementos, Moebius, Engler e Neumeier, em “Other Time”. Para os deserdados dos agora monolíticos Faust, os Space Explosion apresentam em pratos limpos a sua clonagem da era jurássica da “industrial kosmische muzik”, algo como uma “bad trip” pelos mundos inferiores do cosmos, um buraco negro no qual escarafuncham até a cabeça derreter. (Purple Pyramid, import. FNAC e Contraverso, 8)

Outro ex-Cluster, Roedelius, o decano do “krautrock”, passa por uma fase de debilidade. O que lhe costuma acontecer com alguma frequência. Na sua veia mais experimentalista consegue ser de um descaramento intrigante. Mas quando, como em “Aquarello”, descamba para as futilidades “new age”, pode ser um enjoo. São as más companhias dos italianos Nicola Alesini (electrónica, programações, sax) e Fabio Capanni (guitarra), a enésima e estafada releitura de Satie pela lente de Roger Eno, os sons sintéticos e acústicos que parecem não combinar uns com os outros. Depois, o saxofone, aqui bem em destaque, é o instrumento mais abstrôncio que pode haver quando se mete a participar nas grandes contemplações cósmicas. Já nos chega Jan Garbarek (o actual...), quanto mais este tal Alesini. (All Saints, distri. MVM, 6).

Nicola Alesini, que na companhia do seu compatriota Pier Luigi Andreone (teclados) reincide na saga de Marco Polo. “Marco Polo 2” tem pouco para dizer. Ao contrário do aventureiro veneziano que no século XIII banhou a Europa em adrenalina, a música compraz-se num acumulado de mercadorias importadas do quarto mundo já gastas por exploradores bem mais atrevidos. Deixou de impressionar este exotismo de pacotilha, onde a produção faz tudo e a criatividade não faz nada. Jon Hassell disse, e bem, o que tinha a dizer sobre este assunto, nas suas “Possible Musics”. A presença nesta viagem morna de outros gazeteiros, como Steve Jansen, Richard Barbieri (dois ex-Japan), Roger Eno, Harold Budd e David Torn, também não leva a novas paragens. A última faixa, em CD-ROM, destina-se aos que gostam de brincar com os computadores. Mas mesmo aí não há muito por onde brincar. (Materiali Sonori, distri. Megamúsica, 5).

Ainda na Alemanha, acastelado na lenda dos Can, Holger Czukay trabalha num meio totalmente electrónico em conjunto com Doc Walker, dos Air Liquide, em “Clash”, composto por duas sessões de improvisação gravadas, respectivamente, em Colónia e São Francisco. O seu querido “dictaphone” e as habituais manipulações de emissões radiofónicas em onda curta encontram em Walker o contraponto formal que nos últimos anos com os Can lhe faltara. O próprio Holger exulta com esta parceria, afirmando que nela reencontrou o mesmo prazer com a criatividade espontânea que lhe proporcionavam os Can na primeira fase da sua carreira. As linguagens da tecno, do “dub” e do “drum ‘n’ bass”, maculadas de ruído e interferências, que já não eram estranhas a “Moving Pictures”, abrem-se agora numa panorâmica cinematográfica de filme negro, o que Czukay já ensaiara em “Movies”, ainda que a manutenção da sua vocação “trance” não deixe muito espaço vago para mais amplas respirações. (2xCD Sideburn, distri. Symbiose, 6)

Respiração ampla e profunda é condição essencial para se soprar com arte num didjeridu, de maneira a empurrar o ouvinte para o estado de transe. Nos lábios e nos pulmões de Stephen Kent está a garantia de uma boa viagem. Em “Family Tree”, o demiurgo do didjeridu ritual recupera num primeiro CD encantamentos extraídos do seu primeiro e fabuloso álbum a solo, “Landing”, ao lado de excertos dos seus projectos Trance Mission, Lights in a Fat City e Beasts of Paradise. O segundo CD é uma longa incursão em três actos para didjeridu solo e sopros “orquestrados”. O zumbido dos deuses. (Intuition, distri. Dargil, 8)

Diferente deste é o zumbido proposto pelos Frontier, um trio de Chicago que em “Frontier 4” nos quer fazer crer que as quatro estações são exclusivamente pertença das abelhas no cio. Em quatro movimentos elaborados a partir de um complicado sistema de “feedback” de guitarras manipulado em circuito fechado (à semelhança do que David Meyers fez sob o pseudónimo Arcane Device), procura-se, ainda neste caso, o transe, à maneira de “No Pussyfootin’”, de Fripp & Eno, só que o lugar onde se chega não é o céu mas a inquietação e a paranóia. (Emperor Jones/Trance Syndicate, distri. MVM, 7).

Os Labradford, pelo contrário, estão em estado de graça. Se o anterior “Labradford” ressacava ainda as dores existenciais de Manchester dos anos 80, o novo “Mi Media Naranja” é o “Dark Side of the Moon” do pós-rock. Totalmente ambiental, obscuro e abstracto, tem contudo a noção exacta do pormenor e do prazer que provoca na psique a descoberta de detalhes escondidos, em pequenos achados sónicos imaginados na mesa de mistura. Sombrio sem ser deprimente, complexo sem ser impenetrável, atraente sem ser fácil, “Mi Media Naranja” dá-se a conhecer como um álbum de sensações aquáticas, um mergulho nocturno nas profundezas de um lago povoado de monstros. Sempre diferentes de cada vez que se mergulha. (Blast First, distri. Symbiose, 8).

Esses mesmos Biosphere, ou o mesmo é dizer Geir Jenssen, assinam a banda sonora de “Imsomnia”. A música paisagística de Jenssen tem a beleza distante das estátuas gregas e dos mares gelados do Norte. Poderia ser parecida com as manchas impressionistas de Brian Eno, se estas não tivessem carne, nem pele, nem órgãos vitais, nem a luz do sol a banhá-las. Na biosfera deste sueco, a enteléquia, a forma pura sem matéria e o motor imóvel de Aristóteles dão-se a escutar em silêncio e profundo pesar, num “requiem” electrónico de sepulcral beleza pelo fim dos dias. (Origo Sound, distri. Symbiose, 8).

09/12/2008

Hans-Joachim Roedelius - La Nordica

Pop Rock

5 Fevereiro 1997
poprock

Hans-Joachim Roedelius
La Nordica
MULTIMOOD, DISTRI. ANANANA

Nem de propósito! Na semana passada, quando escrevemos sobre “Sinfonia Contempora No.1”, alertávamos para a edição da segunda parte da obra “sinfónica” deste compositor alemão. Aqui está ela. Desta feita, não numa editora “new age”, mas num selo especializado em música electrónica experimental. “La Nordica” é pois a “Sinfonia Contempora II”, subintitulada, em alemão, “Salz des Nordens”.
Estamos longe, muito longe, do apela imediatista e brutal dos Kluster e dos dois primeiros trabalhos dos Cluster. Afastada ficou também, em definitivo (pelo menos, neste disco), a veia mais romântica e pianística de Roedelius, que ainda percorria algumas sequências de “Sinfonia Contempora No.1”. Durante mais três longuíssimos movimentos (respectivamente, com 26, 22 e 21 minutos de duração), Roedelius dispensa, por completo, a melodia, mergulhando fundo num pântano de metais em fusão e motores em “panne”, em câmaras de tortura trespassadas por lâminas electrificadas (talvez aquelas onde Peter Hammill se deixou enlouquecer, em “In bromine chambers”, no segundo e infernal lado de “In Camera”), num ambientalismo fabril que coloca “La Nordica" nos mesmos territórios de agonia electrónica de sintetistas como Asmus Tietchens, Jeff Greinke, Christoph Heeman, Peter Frohmader ou Conrad Schnitzler.
Bastante mais experimental que “Sinfonia Contempoa No.1” (não por acaso, Roedelius contou, desta vez, com a colaboração dos seu companheiro dos Cluster, Dieter Moebius), “La Nordica” estará, porventura, mais próximo do gosto dos apreciadores da música de compositores como Alban Berg, Pierre Henry, Stockausen ou Luciano Berio, que dos aficionados do “krautrock”, do qual Roedelius foi um dos fundadores e principais exploradores. Faltará a este estudo sonoro em torno da claustrofobia, por vezes de um hermetismo excessivo, a maior diversidade de ambientes e registos que caracterizam a primeira parte da sinfonia. Não obstante, “La Nordica” coloca, de uma vez por todas, o nome de Hans-Joachim Roedelius na galeria dos grandes compositores eruditos – na área do experimentalismo – deste século. (8)

05/12/2008

Hans-Joachim Roedelius - Sinfonia Contempora No.1 + Pink, Blue And Amber

Pop Rock

22 Janeiro 1997
poprock

Patriarca do pós-(kraut)rock

HANS-JOACHIM ROEDELIUS

Sinfonia Contempora No.1 (9)
Pink, Blue and Amber (6)
Prudence, distri. Strauss

Roedelius formou, ainda na década de 60, com Dieter Moebius, os Cluster (então, Kluster), banda alemã pioneira da música industrial e da utilização do ruído, numa época em que planavam sobre os céus de Berlim os sintetizadores da escola cósmica de Klaus Schulze, Ash Ra Tempel e toda a comunidade afogada em LSD que gravitava em torno do produtor e manipulador Rolf-Ulrich Kaiser, no selo Ohr, mais tarde Cosmic Music/Cosmic Courriers. Os Cluster, juntamente com um dos seus membros fundadores, Conrad Schnitzler (integrou posteriormente a primeira formação dos Tangerine Dream, antes de seguir uma carreira a solo na área da electrónica experimental), e os Kraftwerk dos dois primeiros álbuns (aos quais poderemos acrescentar os vagidos prematuros do grupo que lhes deu origem, os Organisation) formaram o núcleo duro de uma música áspera e ruidosa que aliava a prática da música concreta, do minimalismo e da electro-acústica à mais recente tecnologia dos sintetizadores, na criação de um ambientalismo pesado e ferrugento, saído dos pesadelos da bacia industrial do Ruhr.
Hoje, os Cluster - ainda em actividade e com estatuto de banda marginal – fazem parte do grupo de nomes do “krautrock” recuperados pelos representantes do pós-rock norte-americano, como os Tortoise ou Trans AM. São, de igual modo, objecto de veneração de Julian Cope, que, além de músico iluminado, se assume como fanático admirador do “krautrock”, sobre o qual escreveu no seu já mítico livro “Krautrock Sampler”.
Roedelius sempre foi considerado o pólo romântico do grupo, atribuindo-se a Moebius o papel de experimentalista. Aos 62 anos de idade, o patriarca do industrialismo germânico demonstra, com “Sinfonia Contempora No.1”, subintitulada “Von Zeit zu Zeit”, a relatividade desta teoria. É um trabalho de fôlego, estruturado em diversos movimentos, que percorre diversas facetas da obra extensíssima deste compositor, oscilando entre o ambientalismo mais depurado (Eno, com quem os Cluster colaboraram em dois álbuns, “Cluster & Eno” e “After the Heat”, marcou decisivamente uma mudança de estilo no grupo) e os traços de piano impressionista, pulsações sintéticas e radiações “sombient”, passando pela samplagem de sons naturais ou da música gravada do mexicano Jorge Reyes.
Entre os músicos convidados (em violino, baixo, guitarra e saxofone), conta-se Asmus Tietchens – um industrialista “negro” de obra igualmente extensa e, por vezes, impenetrável –, que contribui com “fragmentos electro-acústicos” para o 3º movimento, “Klangbild #3”, da sinfonia. Participação curiosa, tendo em conta o pendor “new age” inócua que caracteriza o catálogo da editora.
“Pink, Blue and Amber” é outra coisa. Recolhendo composições gravadas ao longo dos últimos anos, ilustra a outra faceta de Roedelius, presente em álbuns como “Jardin Fou” ou “Momenti Felicci”, mais contemplativa e declaradamente “new age”, bastante menos interessante, mas, ainda assim, a milhas de distância, para melhor, dos purgantes sonoros que infestam o género. Contando igualmente com diversos convidados, em pinceladas que acentuam o carácter exótico e vagamente oriental desta obra, “Pink, Blue and Amber” situa-se num território de localização incerta, algures entre os Cluster da fase melódica (o tema inicial, “Poetry”, por exemplo) e texturas abstractas e sem propósito, na linha das colaborações de Holger Czukay com David Sylvian, “Plight and Premonition” e “Flux + Mutability”. Roedelius lançou já, entretanto, a continuação de “Sinfonia Contempora”, num novo compacto intitulado “La Nordica", sobre o qual a revista “Wire” tece maravilhas. Aguarda-se importação nacional.

02/06/2008

Hans-Joachim Roedelius - Theater Works

Pop Rock

1 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Hans-Joachim Roedelius
Theater Works
MULTIMOOD, IMPORT. ANANANA

Roedelius, juntamente com Dieter Moebius, formou no início dos anos 70 um dos grupos mais importantes e menosprezados da escola electrónica alemã, os Cluster. Afastados tanto da vertente cósmica, que se viria a revelar dominante (T. Dream, Schulze, Wegmuller, Ashra, Eroc, etc.), como das antecipações tecno dos Kraftwerk (mas também dos La Dusseldorf), do orientalismo místico (Popol Vuh, Yatha Sidhra, Mythos), do romantismo (Hoelderlin, Parzival) ou do psicadelismo libertário (Amon Düül, Agitation Free), já não falando dos subprodutos “sinfónicos” (Message, Wallenstein) ou do jazz minimal dos Release Music Orchestra ou Achim Reichel, os Cluster anteciparam em quase vinte anos o som “industrial” (nos álbuns I e II) do final de década de 80, antes do encontro com Brian Eno os levar para o território do romantismo ambiental, encontro esse de onde resultaram os álbuns “Cluster & Eno” e “After the Heat”. A dissolução do grupo e as consequentes carreiras a solo de cada um permitiram perceber que Dieter Moebius era o experimentalista e o radical do grupo, enquanto Roedelius rapidamente enveredou por uma música que tanto devia a Eno como a um jazz de feira com uma costela romântica tipicamente germânica. O já extenso percurso discográfico de Roedelius pecou sempre por esta hesitação, visível em álbuns que vão da “new age” não assumida de “Momenti Felicci” a híbridos interessantes como “Der Ohren Spiegel”. Surpreendentemente, porém, este novo trabalho, reunião de temas dispersos compostos para bailado e peças de teatro, consegue a síntese almejada, através de uma música que pela primeira vez investe sem timidez nos ritmos electrónicos e no jazz de facto, como acontece no exercício “free” do saxofonista Herman Ridd, em “The blind”. É também o álbum onde Roedelius, a par da utilização de “samples” de Airto Moreira, Jorge Reyes ou Jorgen Thomasius, reencontra antigos companheiros, de Moebius a Eno, passando por Michael Rother, que em “Captured by letters” e “Long run” reactualiza o som dos Harmonia, fusão episódica dos Cluster com os Neu!, testemunhada nos álbuns “Musik von Harmonia” e “De Luxe”. Indispensável para os amantes da electrónica.