PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock
UNIVERSOS
PARALELOS
Harold Budd, Bill
Frisell e Paco de Lucía vão estar entre nós. Um piano e duas guitarras. O
silêncio, a cidade e o fogo. Três sensibilidades diferentes que apenas se
encontram no gosto pela perfeição. Frisell traça Nova Iorque em papel
quadriculado. De Lucía é a emoção à flor dos dedos. Budd respira o infinito.
Fruir a música é também essa viagem entre a realidade e o sonho.
Não fora Brian Eno e poucos saberiam
hoje quem é Harold Budd. Com efeito foi graças a um disco gravado e editado na
série “Obscure”, de Eno, que o pianista fez chegar ao mundo as reverberações do
silêncio. “The Pavillion of Dreams”, assim se chamava o disco. Título que diz
tudo, ou quase. A imagem, esboçada pela fantasia, diz que há um pavilhão de
vidro no meio do jardim. Dentro do pavilhão está um piano de cauda. Em cima do
piano, talvez um ramo de violetas. Murchas. No exterior deve chover. E o sol,
quando chegar, há-de trespassar as gotas de água e iluminar o piano abandonado.
Budd:
superfícies polidas
Harold Budd começou por escrever
poemas, “sem propósito algum”. Tal como a sua música. O piano de Harold Budd
não conta história nenhuma, como faziam os românticos. A música está lá. Vale
por si. Não aponta nem diz coisa alguma. Ela é essa coisa. O Zen ensina-nos que
ser é o mesmo que estar. Está-se na música de Harold Budd, como num lugar. Seja
qual for esse lugar: no cimo de um monte, no interior de um quarto ou num
recanto da memória.
Uma vez o músico deu com uma
monografia do pintor italiano Sandro Chia, com a seguinte legenda: “Uma luz
desceu sobre a minha cabeça, como uma súbita madrugada.” A frase serviu de mote
para o seu disco mais recente, “By the Dawn’s Early Light”, o único na sua
discografia em que são utilizados textos, neste caso declamados.
Há quem fale de minimalismo, ao
referir-se à obra deste pioneiro que fez parte da vanguarda californiana dos
anos 60. De facto, é difícil chamar-lhe outra coisa se considerarmos obras como
as que então compôs, como “Lirio”, um solo de gongo com a duração de 24 horas.
Mais tarde, escreveu “Madrigals of the Rose Angels”, para harpa, percussão,
violoncelo, luzes e um “coro feminino em ‘topless’” (devem ser vocalizações sem
as oitavas superiores). Depois foi o encontro com Eno e a música que geralmente
associamos ao seu nome: um “perpetuum mobile” harmónico, feito de cintilações
de piano. Em paralelo, um universo extático, que ilumina as obsessões
ficcionais de Erik Satie.
“The Plateaux of Mirror” e “The Pearl”
(ambos com Brian Eno) orquestram o silêncio, depurando-o de todas as impurezas.
São, como os títulos sugerem, espelho e pérola. Superfícies polidas que
refletem interiores, o mar, o céu. Repare-se, entretanto, na beleza dos
títulos, a que Budd dá a maior importância: “The Serpent in the
quicksilver/Abandoned cities” (composto para várias instalações multimédia),
“The Moon and the Melodies” (com Robin Guthrie e Elizabeth Fraser, dos Cocteau
Twins), “Lovely Thunder”, “The White Arcades”. Escute-se a música das palavras.
As sugestões que encerram. “By the Dawn’s Early Light” é mais sombrio, mas não
menos belo. A beleza desta música está próxima do classicismo grego. No rigor e
na exatidão das formas. Perfeição fria. Por isso, às vezes, assustadora. Harold
Budd diz: “Desde muito novo que adoro música que entre diretamente pela veia
jugular. E a arte que sabe ser extremista sem recorrer a truques.” No concerto
português, tocará acompanhado do guitarrista Bill Nelson (dos Be Bop de Luxe à
companhia de David Syvian, a distância percorrida) e do percussionista John
Spence.
Frisell:
o coração da paranóia
E, de súbito, o ruído do tráfego
nova-iorquino, a vertigem da colmeia urbana, o movimento fracionado e
luciferino. Bill Frisell habita no coração da paranóia mas sabe deitar água na
fervura. Cresceu a ouvir B. B. King, Paul Butterfield e Buddy
Guy. Cedo encontrou o
jazz (e que os puristas perdoem a heresia...) na ECM, editora para a qual grava
“In Line”, “Rambler” e “Lookout for Hope”, este último, mais que os anteriores,
evidenciando um enorme ecletismo, através de incursões em áreas como o reggae
ou o rock. Depois, troca a ECM pela Elektra Nonesuch, especializada na edição
de “clássicos da vanguarda”. “Before We Were Born” e “Is That You?” são o
resultado dessa mudança. Para muitos, este discos são geniais (a “Down Beat”
considerou o segundo Álbum do Ano), para outros são simplesmente chatos. Talvez
a designação mais apropriada seja “genialmente chato”. Bill Frisell foi
“genialmente chato” nas duas vezes em que tocou em Portugal, integrado nos
Naked City. Agora, à terceira, espera-se que não o seja de vez. Vem acompanhado
de Joey Baron (outro Naked City, dos não chatos), na bateria, e de Kermit
Driscoll (mais conhecido por “Cocas”, integra atualmente os President, de Wayne
Horvitz).
Ao longe vibra uma guitarra
flamejante. É Paco de Lucía, um dos expoentes da guitarra de flamenco, daqueles
que parecem ter sete dedos em cada mão. O seu nome verdadeiro não é Paco, mas
Francisco. Francisco Gomes, mais concretamente. Nasceu em Cádis, filho de
família humilde. Pela folha de promoção fica-se a saber que “ser humilde em
1947, em Espanha e ainda por cima no Sul, significava que a vida não era
fácil”. Hoje ser humilde implica uma vida mais fácil, talvez mesmo um certo
“status”. Aprendeu a tocar guitarra com o pai. Parece que foi “duro”,
“doloroso” e “difícil”. Mas valeu a pena. Paco de Lucía tornou-se um verdadeiro
virtuoso. Hoje, faz o que quer da guitarra, arrancando-lhe sons que sabem a
sangue, a rosas, a vinho, a vento, a bocas carnudas, a sapateado, a poeira
levantada na estrada por “roulottes” ciganas, a castanholas, ao Sul, ao orgulho,
à vida que pulsa nas veias, a morte, ao sangrar da alma à procura de altura,
pelas cordas acima.
De
Lucía: a alma à procura da altura
Paco de Lucía, também ele, cedeu ao jazz. Lado a lado com Chick Corea ou com John McLaughlin e Al Di Meola, em “Saturday Night in San Francisco” e “Passion, Grace and Fire”, este um “must” da guitarra acústica. A solo assina obras como “Fantasia Flamenca”, “El Duende Flamenco”, “Fuente e Caldal” e “Almoraine”. E uma homenagem ao mestre e ao flamenco em “Manuel de Falla”. Sem esquecer aquele que foi o seu maior êxito comercial, “Solo Quiero Caminar”. “Zyriab”, recentemente editado entre nós, é um exercício brilhante de flamenco-jazz, etéreo, fluindo com a intensidade de lava que escorre por dentro. Acompanham o guitarrista nesta sua deslocação ao nosso país Ramon Sanchez Gomez, seu irmão, também na guitarra, José Gomez, vocalista (irmão de Ramon e, por consequência, irmão de Francisco, aliás, Paco), Ruben Dantas, percussionista brasileiro, Carlos Benavente, no baixo, Jorge Pardo, saxes e flauta, e Manuel Soler, dançarino. Resta seguir a sua música, pela noite e pelo sol.
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