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07/05/2026

Guitarrossauros excelentíssimos ["Guitar Legends"]

 

PÚBLICO DOMINGO, 20 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

“Guitar Legends” terminou ontem, em Sevilha

 

Guitarrossauros excelentíssimos

 

“Rock” sem guitarra elétrica não é “roll”, é conversa mole. Em Sevilha, durante cinco noites, a guitarra consagrou os seus heróis. A “velha guarda” uniu esforços e trocou de posições: Bob Dylan, Keith Richards, Phil Manzanera e Richard Thompson formaram uma das várias superbandas de ocasião que entraram diretamente para a lenda. A CRGE – Companhia Reunida de Guitarras Eletrificadas – deu festival. A todo o gás.

 

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Descrição gerada automaticamente

 

Sevilha está em festa. Não é caso para menos. A Expo 92 está à porta. O “Nuevo Sur” prepara-se para ser o centro do mundo. A música antecipou-se. Logo a seguir a estas “Guitar Legends” anunciam-se já os terceiros Encontros de “Nueva Musica” com nomes como Luis Paniagua, Cassandra Wilson, Markus Stockhausen, Klaus Schulze e Bill Frisell em cartaz. Mas por agora a rainha é a guitarra. No anfiteatro ultramoderno construído na ilha de La Cartuja, em pleno recinto da Expo 92.

Quinta-feira: tempo de chegar ao hotel e de ligar a TVE 2, para assistir em diferido ao concerto da noite. Vicente Amigo, o novo menino-prodígio do flamenco, mal aquece as cordas da guitarra. Toca só dois temas mas dá para perceber que Paco e Manitas têm continuador à altura.

Joe Cocker, o vocalista convidado, continua a gesticular e a berrar como só ele sabe. Insiste em recusar os rebuçados “Dr. Bayard” só para manter a rouquidão da voz. Jack Bruce, por seu lado, faz reviver o fantasma dos “Cream”, com “White Room”, de parceria com Phil Manzanera (ex-“Roxy Music” e principal dinamizador deste festival).

Bob Dylan junta-se aos dois. Depois é a vez de Richard Thompson (dos lendários “Fairport Convention”) integrar esta “troupe” de génios, para a prestação conjunta de “All along the watchtower”.

Dylan cada vez mais canta com o nariz. Felizmente não está constipado. Mas quem se importa com a voz? Basta o velho trovador levar a harmónica aos lábios para que todas as interrogações sejam levadas pelo vento... Em todo o caso talvez não fosse má ideia mudar outra vez o nome para Zimmerman. É salvo à justa pela chegada de Keith Richards. Não tocavam juntos há anos. Keith Richards está com bom aspeto, aparentando uns 80 anos ao contrário dos habituais 120. Interpretam “Shake, Rock & Roll”, de Bill Haley. Depois o Rolling Stone é deixado a sós com os “Rhythm and Blues” que tanto aprecia.

Em cada noite tem sempre sido assim: um carrossel de estrelas em “roulement”. Sai uma, entra outra, tocam juntas um par de temas. No final reúnem-se todas, fazem a festa e apanham os foguetes. Na ocasião são Dylan, Richards, Thompson e Manzanera irmanados no ritmo de Eddie Cochran, antes de se desligarem as guitarras.

 

O regresso dos heróis

 

Sexta-feira arranca com Roger McGuinn e o “hit” do seu novo álbum “King of the Hill”. “Turn Turn Turn” e “8 Miles High” não fazem esquecer os Byrds mas aquecem razoavelmente o ambiente. Em cima, na “Braza Gallery”, destinada aos jornalistas, as brasas femininas não param de passear, assegurando deste modo a manutenção de temperaturas elevadas no recinto.

Roger McGuinn e Richard Thompson ligam bem. Provam-no o dueto emocionante de “Keep your distance”. Richard Thompson, com o seu inseparável Bone, é um dos heróis do concerto. As cordas vocais e da guitarra vibram em consonância com a magia da noite. “This guitar is howling” – exclama, como se homem e guitarra se confundissem num corpo único.

Quando Les Paul, o homem que teve a ideia de ligar a guitarra à tomada, entra em palco, o público salta das cadeiras e aplaude de pé, como se apanhasse um choque elétrico. De facto, os efeitos da guitarra são ruídos provocados por problemas nos cabos elétricos. Resolvida esta questão Les dá “show” com a sua “Gibbs Les Paul”, a tal guitarra cujo som corta suavemente, sem ferir, tal qual uma lâmina de barbear de qualidade. Mais tarde a célebre “Gibson Les Paul” viria substituir o modelo “Gibbs”, de sonoridade um tanto ou quanto cremosa para a agressividade do rock atual.

Renascido das cinzas dos “The Band”, Robbie Robertson traz de volta ao auditório a energia dos decibéis, apoiado por uma secção de metais e um par de vocalistas disfarçados de índios. Profusão de penas e cores a sugerir talvez a ave ridícula escolhida como símbolo para a Expo 92: um misto de palmípede e galináceo, pata-choca “punk” de crista e bico multicolores. Refira-se, em abono da verdade, que os sevilhanos adoram as cores. Sobretudo se estiverem todas juntas.

 

Macacos a ver televisão

 

Robbie Robertson faz de anfitrião do músico mais ansiado da noite: Roger Waters, que chega acompanhado pela sua banda particular. Esperava-se espetáculo e é isso que acontece, embora numa escala, mais reduzaida que a habitual. Um mini “The Wall”, sem muro, mas mesmo assim com os adereços possíveis na ocasião: explosões de fumo, holofotes marciais, piras ardentes (propaganda velada aos próximos Jogos Olímpicos de Barcelona?), luzes às bolinhas, muito “exploding plastic inevitable”.

“Another Brick in the Wall, pt. 823” provoca o delírio, antes de “What God wants, God gets”, uma canção nova sobre “Macacos que vêem televisão”. Como neste caso não há adereços, o músico sugere que a assistência faça o papel de símios que ele, Waters, fará de televisão.

Entre as duas ofensas, é difícil distinguir a pior. De qualquer modo, dado que a assistência aceita a sugestão, é de crer que Roger Waters seja o “God” de que fala a canção. No final, uma fífia de uma das meninas do coro vem provar que afinal “God wants” mas nem sempre “gets”, já os “Stones” o diziam: “You can’t always get what you want”.

A seguir à macacada, um tema dos “Pink Floyd” mais antigos, “The dark side of the moon”, por entre efeitos luminosos psicadélicos. Um dia destes o clube “UFO” reabre as portas... Já com Bruce Hornsby em palco e Waters envergando uma bata branca a fingir de médico, a despedida com “Comfortably numb”. Despedida irónica que a assistência, uma vez mais, não compreende. Finalmente a “Jam session” da praxe: Roger McGuinn, Richard Thompson, Les Paul e Phil Manzanera juntos numa guitarrada sempre “a abrir”, fechando em beleza mais uma noite de lenda.

Agora o mais grave: com o sucesso destas “Guitar Legends”, uma das ações de preparação da Expo 92, e os Jogos Olímpicos de Barcelona e a Expo 92 já para o ano, Portugal vai ser irradiado do mapa. O melhor é metermos a viola no saco e, visto que há sempre um Portugal desconhecido que espera por nós, fugirmos todos para a Galiza. Valha-nos Rui Veloso e o fado.

 

29/04/2026

Com uma pequena ajuda dos amigos [Joe Cocker]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 31 JULHO 1991 >> Pop Rock

 

COM UMA PEQUENA AJUDA DOS AMIGOS

 

Joe Cocker deve agradecer à voz que tem (ou tinha, pois os anos e os excessos não perdoam) e aos Beatles por lhe terem permitido cantar a canção que lhe trouxe a fama e pela qual continua a ser conhecido: “With a little help from my friends”.

 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

 

Fora isso, não há muito mais suficientemente digno de realce. É um caso típico de uma boa voz desaproveitada e perdida num repertório medíocre. O cantor bem tinha razão quando implorava uma ajudazinha dos amigos. Para a posteridade ficou a veemência do pedido na jornada gloriosa de Woodstock. Mas quando faltam as outras coisas, como por exemplo o talento de compositor, não há santos nem amigos que possam valer.

 

Companhia de gás

 

Ora, como o homem foi contratado para vir cá hoje cantar ao estádio, vamos lá fazer um esforço e reconhecer-lhe a importância que não tem nem nunca teve. É verdade, costuma também referir-se que é “o branco com a voz mais negra” do rock, designação que em geral se aplica aos cantores de pele clara cuja voz tende para a rouquidão.

Joe “With a little help from my friends” Cocker nasceu em Sheffield, o que é importante para se compreender o seu timbre vocal. Ainda muito novo, começa por tocar bateria, o que é importante para se compreender a sua maneira de cantar, numa banda de “skiffle”, The Cavaliers, da qual faz parte o seu irmão, o que é importante para se compreender que não é filho único, e lhe garante a característica única da sua maneira de cantar. Nos intervalos das baitdas trabalha na Companhia de Gás, pelo que os Cavaliers mudam de nome, passando a chamar-se Vance Arnold and the Avengers, sem dúvida mais apropriado para o seu estilo musical. Troca a bateria pela voz e decide-se por uma carreira a solo, sem a ajuda de ninguém. Arrisca e deixa a Companhia de Gás.

Grava o seu primeiro single, “I’ll cry instead”, que, a julgar pela reação da editora, não terá sido muito bem sucedido: é despedido. Humilhado, pede desculpa ao antigo patrão da companhia onde trabalhou e ele aceita-o de volta, afagando-lhe o cabelo e aconselhando-o a abandonar de uma vez por todas a carreira de músico. O complexo da “companhia” nunca mais o abandonará. Será nessa altura que Joe “with a little help” toma a decisão de nunca mais tentar nada sem a companhia de alguém para o ajudar.

Entre 1964 e 1967 divide o seu tempo entre a Companhia de Gás e uns biscates na Grease Band, do teclista Chris Stainton. Com esta banda, ou seja, com a ajuda de amigos, consegue atingir o top britânico, com novo single, “Marjorie”. No ano seguinte, John Lennon e Paul McCartney dão-lhe autorização para cantar “With a little help from my friends”. Joe não se faz rogado e canta-a mesmo. O single atinge o 1º lugar nas listas de vendas e a canção fica imortalizada na inspirada interpretação de Woodstock. A história de Joe Cocker termina aqui. (?!)

 

Depois da História

 

Há quem atribua uma certa importância ao álbum de 1970, “Mad Dogs and Englishmen”, mais por incluir um tema de Leon Russell, “Delta lady”, dedicado a Rita Coolidge, que por outra coisa. “Luxury You Can Afford”, de 1978, é importante, segundo a promoção, por ter sido gravado na mesma editora onde gravaram Joni Mitchell e Linda Ronstadt. De acordo com este critério, Roberto Carlos seria tão importante como Bernstein ou Glenn Gould, visto terem os três gravado para a mesma editora.

“Sheffield Steel” é um regresso às origens e a tentativa de conseguir algum êxito através do recurso a interpretações de temas de Bob Dylan, Randy Newman, Jimmy Cliff e Steve Winwood. Junta-se a Jennifer Warnes (outra grande artista) e gravam o tema “Up where we belong”, incluído na banda sonora de “Oficial e Cavalheiro”.

“Joe Cocker Live!” é uma coletânea dos melhores (in)sucessos de Joe “with a little help from my friends” Cocker e, a propósito da sua gravação, conta o cantor: “Tínhamos pensado gravar o álbum ao longo de quatro atuações diferentes, mas parecia que tínhamos mau-olhado… Na primeira noite, eu não tinha voz, nas duas noites seguintes havia falhas a mais. Cheguei a pensar que não íamos conseguir, mas resolvemos tentar uma última vez.” Tentaram e Joe “with a little friend from my helps” cantou, como se fosse a primeira vez, “With a little help from my friends”.

Em Lisboa, tudo se prepara para ouvi-lo cantar “With a little from help my friends”. Não se sabe se Joe “with a little etc. etc. etc.” ainda trabalha na Companhia de Gás.