PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 19 AGOSTO 1992 >> Pop Rock
Alfredo Marceneiro
NO FADO E NO OFÍCIO
O melhor de Alfredo Marceneiro é tudo: a voz, as
histórias, a mestria do fado e da vida. O disco, já há algum tempo lançado no
mercado, é mais uma homenagem a esta figura que revolucionou o fado. De boné,
lenço em volta do pescoço e cigarro ao canto da boca, compunha a imagem do
gingão, das tascas e das cegadas. Da voz sempre a puxar ao sentimento.
“Não há ninguém a cantar o
fado como o meu pai e a senhora Amália.” Para Alfredo Duarte Júnior, o seu pai,
Alfredo Marceneiro, “foi o maior”. Foi, de facto. “Ele modificou o fado. Era um
mestre. A maneira dele dizer, falar (o fado), não há ninguém que possa fazer
aquilo.” Aquilo era o sentimento. O que vem de dentro e não se aprende. “De
resto, toda a gente canta bem...” Novos fadistas para quem o fado afinal nem é
uma forma de vida assim tão estranha. “Eles aprenderam a cantar. O meu pai não.
O coração é que manda.”
Alfredo Duarte Júnior seguiu
as pisadas do pai e também ele canta o fado. Todas as noites, na Adega Machado,
lendária casa de fados do Bairro Alto onde, entre outros, cantaram o pai e
Amália Rodrigues. Numa das paredes lá está a lápide com o retrato de Marceneiro,
a recordar a data de inauguração, em que esteve presente, há 52 anos.
Hoje, Alfredo Duarte Júnior
continua a tradição. Começou a cantar o fado em festas de beneficência. Na
Adega Machado está há 18 anos consecutivos. Tem 68, 50 de fado. “Esta vida é
muito chata e eu cá tenho que gramar isto há 50 anos”, desabafa meio a sério
meio a brincar. O pai não queria que ele cantasse, mas é a tal coisa: “o
coração é que manda.” “O meu pai fez músicas, eu faço músicas. Isto é da
gente.”
Músicas que Alfredo
Marceneiro interpretou como nenhum outro fadista da sua geração. Nas vielas e
nas tascas de Campo de Ourique, com os rivais, “a disputar uma medalha de ouro,
para ver quem era o melhor do bairro” ou, mais tarde, no seu próprio restaurante,
o Nova Sintra ou Solar do Marceneiro, como era costume chamarem-lhe, na Calçada
do Carriche. Mas sempre em Portugal. “A casa da Mariquinhas”, “O bêbedo
pintor”, “Tricana”, “O amor é água que corre”, “A senhora do monte” e tantos
outros fados que Marceneiro cantou com aquela sua voz inconfundível que a idade
foi tornando mais castiça. Até aos 90 anos, quando parou de cantar, antes de
falecer, dois anos mais tarde, em 1983.
A cama de D. Maria
Tinha fama de ter um carácter
difícil. “Na vida artística nunca me ajudou”, recorda Alfredo Júnior. “Até
dizia mal de mim e tudo.” É mais um desabafo do que uma acusação – “o homem
dizia aquilo, mas até nem era má pessoa” – da parte de quem sente o peso de ser
filho de um mito. “O meu pai era o meu pai, eu sou eu.” Alfredo Júnior vai mais
longe, na ânsia de se distanciar da presença tutelar do pai, recusando-se a
cantar os mesmos fados que este cantava. Uma única concessão, quando às vezes
inclui no reportório uma rapsódia de sete temas do autor da “Tricana” – “sete
fados num só”, como ele diz –, embora tenha um ponto de honra: “Não imito o meu
pai, nem tenho prazer em fazê-lo.”
Alfredo Júnior relembra com
saudade o dia em que foi aceite pelos mestres. “O meu pai, uma vez no Porto,
disse-me: ‘Pá, já és do primeiro ‘team’’. O Carlos Ramos dizia-me: ‘Olha o
puto, está porreiro, já é do primeiro ‘team’.’ Foi no Clube dos Foliões, um
clube de ilusionistas, tinham ido lá cantar o meu pai, o Carlos Ramos, o Max, a
Maria da Conceição... Já se foram todos...”
Há outras, muitas histórias
que Alfredo Júnior recorda, relacionadas com o fado ou com a profissão de
marceneiro que o pai manteve durante toda a vida. Por exemplo, quando era
“mestre de oficina, na CUF”, e veio ter com ele um tal “senhor Perestrelo, que
mandava no Museu de Arte Antiga, nas Janelas Verdes”, pedir-lhe os seus
serviços. “Havia lá uma cama de D. Maria não-sei-quantas. Disseram-lhe que quem
era bom a arranjar móveis antigos era fulano de tal. ‘É pá, ó Alfredo...’ O meu
pai foi lá ver a cama e disseram-lhe: ‘Ó meu amigo, para arranjar isto há aí um
quintal.’ Havia lá madeira velha para fazer a restauração da cabeceira da
cama... Nessa época punha-se uma fogueira, o grude... Agora já há colas para
aí, Robbialac, até cola os dedos... O meu pai utilizou grude, arranjou uns
bocados de madeira velha... Ainda lá está a cama arranjada, nas Janelas
Verdes!...”
Do “ai ai” ao “Martelinho”
Depois há aquele pormenor,
que quase toda a gente conhece, mas que o filho de Alfredo Marceneiro sente
prazer em referir, de ter sido o pai quem inventou o costume de cantar o fado à média luz. Foi o
Marceneiro quem impôs que se apagasse uma vela enfiada no gargalo de uma
garrafa, sobre a mesa. “Eu tenho de cantar”, pedia o fadista, “não quero luzes
acesas!” Mas nem sempre Alfredo Marceneiro era tão rígido. Purista em relação
ao fado, em certas ocasiões lá fazia as suas cedências.
No Nova Sintra costumava
atrair os clientes que vinham das ‘boîtes’ e iam para a Calçada do Carriche
acabar a noite” de forma pouco ortodoxa. “Ele via os carros entrarem para o
estacionamento e procurava criar ambiente a cantar uma valsa: ‘Ai ai ai ai, olha
o cheiro que a rosa tem, ai ai ai ai, chega à janela, donzela, vem cá...!’ Foi
ele o culpado dessa coisa do ‘ai ai’, por causa do restaurante.”
Neste aspeto as coisas não
mudaram muito. Alfredo Duarte Júnior conta que numa das suas atuações na Adega
cantou por brincadeira uns versos mais picarescos: “Atirei com o meu
martelo/para dentro de um convento/o que farão as freiras/...” A partir dessa noite
as pessoas não pararam de os pedir: “As pessoas chateiam-me, eu não quero mas
acabo por ter de cantar ‘O martelinho’. Às vezes estou com a ideia de cantar
para o castiço e aparece-me um sacana ou uma gaja qualquer a dizer: ‘Vim cá
para ouvir ‘O martelinho.’ E tenho que lhes fazer a vontade, o que é que eu
hei-de fazer?”
O fado e os “fadistas”
Num ponto Alfredo Júnior não
cede: “Lá marchinhas e isso não canto nada, nem tenho tempo para aprender. E
sei-as todas... Fazer refrões e essas coisas, não!” Mas logo a seguir
condescende: “Às vezes brinco, tem que se brincar, isto não é nenhuma igreja.”
A intransigência volta no entanto e o fadista indigna-se, quando lhe apontam a
nova geração de cantadores: “Agora apareceu uma gente que aprendeu a cantar
pelos discos, é tudo uma cambada de aldrabões!” Para ele não são dignas de
serem chamados fadistas “pessoas que andam aí a cantar ‘Uma casa portuguesa’,
‘Coimbra do Choupal’ ou o ‘Cochicho’.” Vai mais longe quando se refere ao
erotismo que, segundo ele, entrou nas casas de fado: “Agora arranjam umas gajas
com umas mamas (faz o gesto, a designar uma grande dimensão) a cantar o não-sei-quantos,
a ‘casa portuguesa’, ‘Lisboa antiga’...” E remata com um comentário digno de um
Mário Cortes: “Mas o que é isto?”
Lembra, a propósito, os
gostos do pai, em matéria do fado verdadeiro. “O cantador que ele gostou mais,
não sei se ainda está vivo, foi o Joaquim Campos. Tinha sentimento. O Júlio
Proença era mais vozeirão. Morreu em Moçambique. Ele e o Alberto Costa, o velho
que cantava o fado de Coimbra, mas cuidado com ele, foram os dois maiores
amigos do meu pai.”
Outros tempos, de um passado
que, por alguns instantes mágicos, teima em não desaparecer. Em locais como
aquela tasca do Bairro Alto onde “uma velha chamada Judite Pinto, com oitenta e
tal anos, canta o fado e mais nada”.
Inimitável por natureza, o
estilo de Alfredo Marceneiro atraiu muitos que o procuravam imitar – “Estão a
500 km de distância. Eu estou perto, mas não quero imitar ninguém.” E Alfredo
Júnior conta que uma vez Fernando Pereira lhe pediu para reproduzir a voz do
pai, proeza que ele consegue muito bem, para estudar uma imitação a incluir num
quadro de revista. O filho de Marceneiro trocou as voltas ao imitador, cantando
alternadamente com a voz do pai e a sua própria. Fernando Pereira, confuso, foi
obrigado a desistir da ideia.
Uma coisa aborrece de facto
Alfredo Duarte Júnior e leva-o a afirmar que o “povo português é muito chato”,
com desconhecidos constantemente a abordá-lo “nos Restauradores, no Rossio, no
Metro”, a dizerem-lhe vacuidades do tipo: “Fui com o seu pai para o Ritz, fui
para ali e para aqui com o seu pai.” Não me chateiem com o meu pai todos os
dias”, explode num desabafo. “Ele já morreu. Acha que está bem?”
É este o seu fado. Os outros,
toda a gente os canta. Alfredo Marceneiro cantava-os de maneira diferente. “Com
lídima expressão e voz sentida/hei-de cumprir o mundo/a minha sorte
Alfredo/Marceneiro para toda a vida/para cantar o fado.”

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