Cultura >> terça-feira >> 02.03.1993
June Tabor, em Lisboa, Braga e Porto
“Basso profondo”
Na sua terceira apresentação em Portugal, as
circunstâncias estiveram por fim à altura da cantora. June Tabor, mais do que desenrolar um
reportório, criou um ambiente. A sala do teatro S. Luiz encheu-se de silêncio para
escutar a sua voz grave cantar canções de amor e desencanto.

Sexta-feira à noite, no velho recinto
do Chiado, em Lisboa, aconteceu finalmente a consagração de uma grande cantora,
após as más condições com que foi recebida nas duas anteriores visitas ao nosso
país, no mesmo ano, 1991, no Folk Tejo e na Festa do “Avante!”. O som esteve
perfeito e a assistência, que encheu pouco mais de metade da sala, soube
sintonizar na frequência adequada. A voz e a música de June Tabor fizeram o
resto. Decerto, também ontem em Braga. O Porto recebe a cantora esta noite, no
Rivoli.
Música que exige silêncio e
concentração absoluta, não admitindo transgressões nem falhas de atenção.
Semelhante à superfície de um lago, pode ser espelho e pode ser lente. Mas é
necessário que as águas estejam calmas e planas se quisermos ver, além da imagem
refletida, o fundo.
A voz falou devagar, preocupada em
tornar compreensível cada palavra, cada história encerrada no coração das
canções. Uma voz grave, sem mácula nem rugosidades que, pela vibração, irradia
diretamente do centro, com a profundidade de um oráculo. June Tabor foi
sacerdotisa de um magistério iniciado há longos anos no templo das músicas
tradicionais e finalmente depurado em escolas e linguagens contemporâneas.
Oficiou logo de início com a tradição,
em “Month of January”, que deu o mote a todo o concerto: solenidade, contenção,
centrados numa figura franzina, vestida de negro, de mãos caídas ao longo do
corpo em pose hierática. Esfinge. June Tabor lembra essa figura ocultadora e
reveladora de segredos. Por detrás da imobilidade, e através dela, arde uma
chama, invisível aos olhos de quem não souber romper o véu das aparências.
June Tabor não cantou “All tomorrow’s
parties”, o clássico de Lou Reed e dos Velvet Underground que a voz de Nico
imortalizou – esse lado de tragédia que também habita em si, mas que na sua voz
é redimido. June Tabor dobrou o Cabo das Tormentas e optou pela serenidade da
maioria dos temas que integram o seu disco mais recente, “Angel Tiger”: “Hard
love”, “All our trades are gone”, “Sudden Waves”, “The doctor calls” (de Ian
Belfer, dos Oyster Band, cuja ambiência sinistra comparou ao “film noir”), “All
this useless beauty” (Elvis Costello) e “10 000 miles”.
Cada tema foi antecedido de uma curta
explicação, dita em voz baixa de maneira a reforçar o tom de intimismo que
caracterizou o concerto. “Esta é uma história de amor que acaba mal”. O estilo
de histórias de amor que disse gostar mais de cantar mas que ela própria, com
quase impercetível ironia, desmistificou comentando várias vezes no final de
cada canção: “Afinal esta tem um final feliz! Estranho, não me estou a
reconhecer!...”. “Game keepers”, em interpretação “a capella”, dedicou-a ao
“homem” que ama, o seu cão Flynn (em homenagem a Errol Flynn...), inveterado
bebedor de cerveja Guiness. O standard “I’ve got you under my skin”, de Cole
Porter, dedicou-o igualmente ao amigo canino. Distanciação. Um sorriso de mil
rostos, a sugerir enigmas.
Momentos altíssimos, viveram-se
sobretudo nos duetos mantidos com o piano de Huw Warren, de longe o melhor
instrumentista da noite: “You don’t know” e “Sudden waves”. A Mark Emerson,
violino e viola de arco, e Mark Lockheart, saxofones, foi deixado espaço para
brilharem no compasso emaranhado de um tradicional da Bulgária, “Rucenitsa”
(deu para perceber que não são búlgaros...) e em duas polkas tradicionais
igualmente mal aproveitadas. O segundo solou, esforçado, no sax tenor, em “I’ve
got you under my skin”, tema que serviu ao mesmo tempo para mostrar não ser
este, em definitivo, o campo onde a voz da cantora se sente mais à vontade.
“Dogs of Money”, de Richard Thompson e
os tradicionais “Mount and go” e “10 000 miles”, subiram alto numa atuação
que nunca chegou verdadeiramente a tocar a terra. “Retreat”, outra composição
de Richard Thompson, trouxe para o S. Luiz o espectro da diva desaparecida,
Sandy Denny. Um único “encore”, “Light dragon”, encerrou o ciclo de luz. Com a
chave do silêncio. No intervalo, alguém da assistência comentara: “Esta mulher
tem qualquer coisa de comovente!”
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