PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 NOVEMBRO 1992 >> Pop
Rock
FOGO QUE ARDE SEM SE VER
Quem brinca com o fogo queima-se, costuma-se
dizer. Os Sétima Legião tiveram o atrevimento. “O Fogo”, quarto álbum da sua
discografia, acabado de editar, não faz contudo justiça ao título. Se o fogo é
símbolo de mudança, não foi por causa disso que os Sétima Legião se afastaram
da linha que sempre caracterizou a sua música: um misto do Portugal mítico e de
sons urbanos. Música do mundo. É uma tristeza que não se sabe de onde vem.

Ricardo Camacho, co-produtor
e teclista, e Pedro Oliveira, vocalista, puseram as mãos no fogo, nas chamas
frias de um disco que sugere tons funéreos, marcando o ponto de encontro entre
a festa e a morte. Mudança, “a herança de mudar” de que fala a letra de uma
canção dos Sétima Legião, a existir neste álbum, não é muito percetível, a não
ser talvez no título. “Depois dos três álbuns anteriores, ‘A Um Deus
Desconhecido’, ‘Mar de Outubro’ e ‘De Um Tempo Ausente’, quando se encontra um
título com apenas uma palavra, é óbvio que está implícita uma intenção de
mudar” – diz Ricardo Camacho, para quem “essa intenção encontra correspondência
no conteúdo do disco”.
Mas a que nível se localiza
tal mudança? Ricardo Camacho brinca: “Estivemos para colocar um carimbo a dizer
‘este disco não contém a palavra mar’.” Percebe-se a intenção. Os Sétima Legião
nunca foram nem pretendem ser heróis do mar português. Se algo mudou, foram
“processos de trabalho e aproximações de composição”. Camacho dá exemplos: “No
álbum anterior [‘De Um Tempo Ausente’] não se ouve uma única bateria, é tudo
programado. Neste, seguimos uma aproximação totalmente diferente, embora
tenhamos utilizado ‘samplers’ e composto sobre ‘loops’, deixámos ficar apenas o
trabalho posterior efetuado sobre as primeiras gravações, que foram apagadas.”
Recusar o óbvio
Em “O Fogo”, são evidentes os
elementos conotáveis com a “world music”, na linha do que já acontecera nos
álbuns anteriores, só que, desta vez, projetados para a frente das misturas.
Ricardo Camacho, numa alusão ao tema “A Voz do Deserto”, árabe sem disfarces,
afirma não ter problemas em trabalhar, como é o caso, “em fórmulas fora da
sonoridade habitual” dos Sétima Legião. Na altura em que o tema foi composto,
há dois anos, o termo “world music” mal começara o seu assalto em força aos
“media”. Agora a exceção tornou-se a regra: “Irritou-me ouvir o Jah Wobble ou a
Anne Dudley com o Jaz Coleman a fazerem coisas semelhantes.”
O importante é, acima de
tudo, para os Sétima Legião, “nunca fazer nada que seja completamente óbvio”.
Segundo Ricardo Camacho, a banda “nunca teve uma letra que fosse totalmente
explícita ou música que revelasse uma influência maioritária”. “Odeio o explícito!”,
diz o produtor e teclista.
Há quem veja o som dos Sétima
Legião subjugado à vontade omnipotente do produtor. O próprio reconhece que
“existe um som Ricardo Camacho de tal forma vincado e viciado” que, ao fim de
dez anos, houve, aqui sim, necessidade de mudança: “Chegámos à conclusão de
que, se queríamos mudar métodos de trabalho, não poderia ser só eu o produtor
[‘O Fogo’ é co-produzido por Amândio Bastos], teria de haver uma influência
externa.”
Resultaram desta opção
situações engraçadas. “Uma coisa que é notória no disco é o erro, erros
técnicos. Há pormenores que, do ponto de vista técnico, estão errados, por
exemplo, as guitarras estão nalguns casos obviamente desafinadas.”
“Em circunstâncias normais”,
continua Ricardo Camacho, “a primeira tendência seria dizer ‘para, desgrava e
vamos fazer outra vez’. Mas depois fui forçado a confrontar-me com a situação e
a perguntar-me: ‘OK, isto não está inteiramente correto, mas soa mal?’ Fui
obrigado a reconhecer que não.”
Brian Eno ficaria contente se
ouvisse o músico português. “O Eno era mais radical, honra lhe seja feita. Ele
compõe a partir do erro, coisa que nós, aliás, também já fizemos.” Quando? “Às
vezes estamos a tentar uma coisa qualquer e acontece uma daquelas grandes
broncas que afinal acabam por soar extraordinariamente bem e que obrigam a
abandonar tudo e a seguir noutra direção.”
As piores vozes do mundo
À música portuguesa
tradicional, que desde “A Um Deus Desconhecido” as pessoas se habituaram a
associar aos Sétima Legião, não é dada grande importância, pelo menos “a
priori”. “Tem que ver com a utilização da gaita-de-foles. Mas, se em vez de uma
gaita-de-foles tivéssemos usado outro instrumento qualquer, sei lá, um
clarinete, se calhar teríamos feito uma aproximação à música dos Balcãs...”
Neste aspeto, como em quase tudo, a banda diz-se “intuitiva” e “instintiva”,
recusando-se a ser considerada como uma banda cerebral, de estúdio.
Não tanto, pelo menos, como
os Guns N’ Roses que, segundo Camacho, é um grupo “muito mais cerebral. O alvo
era o número um do ‘top’ americano. Apontaram e acertaram em cheio”. No caso
dos Sétima Legião, é mais uma questão de “rigor” e a “necessidade de racionalizar
os poucos meios” disponíveis – “em 22 dias de estúdio [tantos quantos demoraram
a gravar ‘O Fogo’], a disciplina tem de ser grande”.
As vocalizações são, para
alguns, um dos pontos fracos dos Sétima Legião. Para Pedro Oliveira, o
principal visado, “é uma história antiga”. Segundo ele, a banda sempre
“aproveitou a voz como mais um instrumento, com a mesma importância da
gaita-de-foles ou das teclas”. Assume que os Sétima Legião nunca tiveram “uma
imagem forte de vocalista, mesmo ao vivo”.
Ricardo Camacho não vê nisso
qualquer problema: “No nosso primeiro álbum, a voz era um dos elementos mais
emblemáticos. O disco apareceu na ressaca do rock português, numa época de
recessão, era uma voz que não gritava, uma voz contra a corrente.” Avança na
teoria: “Já ouvi dizer que a Teresa Maiuko tem a melhor voz de Portugal. A
Dulce também. Provavelmente têm... Tecnicamente irrepreensíveis... Mas será
isso o mais importante?” Claro que não. “O Lou Reed tem a pior voz do mundo. O
Bob Dylan ‘idem’. Suzanne Vega não tem voz, ela própria a define como um
‘useful instrument’.”
Privilégios
Os Sétima Legião, é forçoso
reconhecê-lo, são um grupo difícil de catalogar. Eles não renegam as
influências, que são várias, mas procuram seguir em frente sem qualquer tipo de
pressões. De resto, acreditam que é difícil ser-se completamente original. Nem
isso é para eles de primordial importância. Acreditam que “a cultura portuguesa
leva com todas as influências e mais uma em cima”.
Apesar do embate, continuam a
achar que a música portuguesa sobreviveu como “entidade própria”. O teclista é
mesmo de opinião que “a música portuguesa nunca andou tanto nas ruas da
amargura como durante os 40 e tal anos em que esteve confinada ao ‘ghetto’ do
nacionalismo provinciano”.
Banda pouco dada aos prazeres
das atuações ao vivo, os Sétima Legião preparam-se para levar “O Fogo” às
diversas regiões do país numa digressão de promoção ao álbum. Mas evitam o
excesso de concertos, numa atitude que contrasta com a de muitos grupos nacionais.
Ricardo Camacho vai ao ponto de se recusar “terminantemente a fazer concertos”
quando não há “nada de novo para apresentar”. Tocar por tocar é, segundo ele,
“uma atitude desonesta – fazer o mesmo concerto durante anos e arrastar-se
pelos palcos do país a requentar músicas que toda a gente conhece”.
Neste aspeto, os Sétima
Legião podem considerar-se um grupo privilegiado. “Felizmente, temos condições
que a maioria das bandas portuguesas não tem”, reconhece Pedro Oliveira, “e
desde o princípio definimos que a nossa sobrevivência nunca iria depender do
grupo.” Os Sétima Legião, grupo elitista? “Não. As elites socio-económicas, em
Portugal, ouvem Júlio Iglésias...”
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