WORLD
GLACIAR DE OURO E SANGUE
Kaksi!
CD Silence, import. Etnia

Aos primeiros acordes de “Kaksi!”, o
mundo refaz-se. Da Escandinávia sopram novos ventos e com eles uma nova alma
anima o corpo da música tradicional da velha Europa. É difícil traduzir o
entusiasmo, o estado quase febril que a audição deste disco provoca. Como se
fosse a primeira vez e tudo estivesse por inventar. Diga-se desde já, e sem
grande dose de exagero, que “Kaksi!” entra diretamente para a lista dos
melhores de sempre da música tradicional. Como consequência, parece estar
encontrado o disco do ano, pese embora a ameaça de um trio de sérios
contendores: “Vox de Nube”, já aqui criticado a semana passada, “The Fire
Aflame”, de Matt Molloy, Seán Keane e Lyam O’Flynn, e o novo dos franceses Lo
Jai, ambos objeto de textos a publicar em breve.
Dos Hedningarna, grupo sueco que
recentemente integrou no seu seio duas vocalistas finlandesas, Sanna
Kurki-Suonio e Tellu Paulasto, disse a “Folk Roots” na sua edição de
janeiro/fevereiro que inauguraram “uma nova categoria da música europeia”. De
facto, desprende-se de “Kaksi!” uma sensação de novidade, de frescura e de
força, no modo como o quinteto traduz e interpreta o passado. Sabemos que a
música, na origem, não era assim e, contudo, sentimos que assim é que deveria
ser. Descobre-se-lhe novos sentidos. Resultado de um trabalho de depuração a
fogo lento. Alquimia.
Atinge-nos logo, como um murro, a
energia e a pujança instrumental, só possíveis graças a uma autoconfiança
inquebrantável. Depois a atenção deleita-se na abundância de pormenores, no
requinte de cada nota, esculpida como uma jóia pela mão de um ourives experimentado.
A música de “Kaksi!” abrange uma geografia vasta de sons e emoções. De uma
harpa de granizo às erupções de um “hardingfele” (rabeca de construção tosca,
esculpida diretamente num tronco de árvore, utilizada com frequência no
folclore nórdico, sobretudo na Noruega) ou da sanfona-baixo inventada por
Anders Stake, o multinstrumentista do grupo. As vozes vão do registo gutural a
cânticos de querubim. Sanna e Tellu banharam decerto as cordas vocais na
água-régia do céu. A surpresa acontece a cada instante. Transportada em
berimbaus hipnóticos que soam como didgeridoos, percussões de catedral,
gaitas-de-foles retorcidas em contorções dignas dos Perlinpinpin Folc, flautas
interestelares, teorbas medievais, samples arrancados à pré-história, mil
sonoridades que se multiplicam e interligam num caleidoscópio multicor. Por
vezes (“Kruspolska”) carregando consigo ecos de um continente perdido, à
maneira de uns Light in a Fat City (Electroworld aborígene) transpostos para a
Idade Média. Em “Aivoton” as vozes femininas tornam-se meninas e entretêm-se a
descobrir novas harmonias. As “irmãs loucas” escandinavas trocam timbres e
tocam-nos na corda mais sensível. Sensualidade?
“Kaksi!” revela a anatomia de um corpo
perfeito, o fruto mais carnudo e apetecido. Espírito de carne que apetece
morder. “Kaksi!” tem o sabor do hidromel, a bebida dos deuses. As danças ora
apontam para o Leste, em compassos impossíveis, ora explodem em binários de
apelo imediato. A sanfona desenha “dervishes” que tocam as entranhas. Neste
aspeto temas como “Viktorin” mostram o que os Blowzabella poderiam ter sido se
Nigel Eaton tivesse levado a aventura até às últimas consequências.
“Ful-valsen” volta a inventar o folk-rock, numa valsa, de guitarra elétrica e
gaita-de-foles todo o terreno para os novos tempos, além de todas as sínteses.
Spillanes e Stivéis deste mundo, fora! “Kaksi!” vai tão fundo quanto é possível
na exploração das tradições e dos mitos escandinavos, recuperados para a
atualidade como algo de radicalmente inovador. Um disco com capacidade para
provocar igualmente a admiração nos apreciadores de música antiga e nos
puristas mais empedernidos.
Depois da voz das nuvens, chegou a vez
da voz dos gelos ardentes se fazer ouvir. Da Escandinávia escorre o sangue
dourado de uma nova glaciação. (10)
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