PÚBLICO DOMINGO, 15 NOVEMBRO 1992 >> Cultura
Julian
Cope atuou em Lisboa e no Porto
O santo de calções
O prometido é devido. Julian Cope cumpriu a
promessa feita na conferência de imprensa e apresentou-se no Coliseu, em
Lisboa, de calções e “collants”. Num “show” de rock psicadélico que incluiu
misticismo, totós e algum teatro. O ex-vocalista dos Teardrop Explodes recriou
mitos e pedras. Cantou canções antigas e temas do novo álbum “Jeovahkill”. O
público preferiu as primeiras.
Não é vulgar um santo, um
místico, vá lá, alguém interessado pela religião e pela salvação da humanidade,
apresentar-se em público de calções. É que a um santo (título ganho após a
gravação do álbum “Saint Julian”), pede-se pelo menos que não deixe cair a
auréola. Ultimamente Julian Cope tem-se interessado por pedras. Pedras
monumentos, tipo Stonehenge e Sé de Braga, carregadas de simbolismo. Aqui sim,
manifesta-se uma coerência de princípios, uma continuidade em relação ao outro
tipo de pedras que ao longo dos anos lhe tem moldado a cabeça e mostrado os
caminhos do oculto. Há 25 anos, arriscava-se a que lhe chamassem “hippie”.
Palco a condizer, sexta à
noite no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com a atmosfera de profundo
recolhimento e descoberta espiritual que marcou discos recentes como “Peggy
Suicide” e o novo “Jeovahkill”, no qual Cope mistura os Faust com os celtas, e
cruzes com serpentes. O mesmo deverá ter acontecido ontem no Coliseu do Porto.
Sobre um pano preto, um sol e uma lua, símbolos dos princípios masculino e
feminino, Yang e Yin, enxofre e mercúrio para os alquimistas. Por baixo uma
montanha – o planeta Terra – e uma luz bruxuleante no centro, o fogo de Agartha,
o coração da Mãe. Colunas de som cobertas por pinturas douradas de cromeleques
em forma de cruz. Para o pessoal que enchia a plateia do Coliseu apenas para
curtir a deles, abanar o capacete e passar uns momentos agradáveis, foi
simbologia a mais. Até porque Julian Cope fez questão de preencher a primeira
parte do concerto com temas de “Jeovahkill” que, para ouvidos habituados à
papinha feita, soam assim a atirar para o esquisito. Não faltou então o coro de
assobios, a excitação de quem não compreende nem aceita a novidade, enfim, o
arraial do costume.
“Upwards at 45º”, “No hard
shoulder to cry on” e “Slow rider”, temas de “Jeovahkill”, complicaram com os
nervos dessa parte do público que apenas se lembrava dos Teardrop Explodes.
“Slow diver” acabou mesmo por dar razão a Julian Cope quando se refere à
influência dos Faust – grupo experimental alemão dos anos 70 (ver suplemento
Pop Rock de 11 de novembro) – na música de “Jeovahkill”. Neste tema, a
utilização vocal bizarra das bochechas, seguida de um delírio “free” guinchado
pelo saxofone de Rooster Cosby (Julian Cope substitui-o na bateria) remeteu de
facto para uma sequência semelhante dos Faust, em “The Faust Tapes”.
Depois de uma intervenção
enigmática (“obrigadô, o.k.”) de Cope, foi a vez de uma dose reforçada de
“Peggy Suicide” e de psicadelismo ecológico: “East easy rider”, “Jelly pop”,
“Safe surfer”, “Pristeen, take one”, “Beautiful love”, intercalados do hit
“Sunspots” (do álbum “Fried”). Momentos houve de grande psicadelismo, com
holofotes apontados à cara da assistência, “feedbacks” de guitarra
cósmico-alucinantes e gritos de Pop existencial. Tudo isto, mais os calções
preto amarelos, os “collants”, o cabelo preso por totós, ultrapassou de longe o
significado de Woodstock e quase levou a pequena multidão ao delírio.
Então a loucura deu lugar à
pausa de três temas acústicos, interpretados por Cope sozinho na guitarra: “The
greatness & perfection of love”, “Saint Julian” e “Passionate friend” (do
clássico “Wilder”). Já hipnotizadas, psico-seduzidas, rendidas à influência
magnética e aos adereços do santo, as pessoas não protestaram e até aplaudiram.
Milagre. Milagre!
Varina psicadélica
Sucederam-se a partir de aqui
os instantes de pura magia. Julian Cope acocorou-se junto à plateia e conversou
com os da frente. Aplausos. O pessoal aprecia o diálogo. Cope dobrou-se sobre o
microfone, circulou pelo palco como se deslizasse em patins, pôs-se de gatas,
traseiro voltado para a assistência. Apesar dos calções serem curtos, não houve
abusos. Meneou as ancas, braços na cintura, qual varina psicadélica. Finalmente
rematou a faena com um elegante “espeta cu”, de novo voltado de costas para o
público, querendo decerto através desta sequência mítico-teatral simbolizar o
lado feminino do ser humano (lua, Yin, mercúrio, Guida Scarlatty, etc.).
Findo o ritual de homenagem à
Mãe, “Bouncing babies”, “Books” (de “Kilimanjaro”, primeiro álbum dos Teardrop
Explodes), “Dope & speed”, “Books”, “Bloopy assizes” e “Space hooper” deram
lugar ao tema de encerramento, “Reynard the Fox”, pretexto para uma explosão
final de telurismo, “strobe lights”, uma batida infernal e nova lição de arte
gestual que culminou com Cope de braços abertos, de costas voltadas para a
audiência, mártir em entrega sacrificial aos irmãos planetários.
Cumpridas as exigências do
contrato, Julian Cope regressou ao palco para mostrar outros calções,
distribuir algumas garrafas de água (alusão ao bíblico maná?) e despachar dois
“encores”: “World shut your mouth” (título significativo) e “Reward” (título
ainda mais significativo). Tudo terminou em encantamento e elevação espiritual,
o que prova que Cope conseguiu fazer passar a mensagem, com um grupo de putos
possessos pelo frenesim divino, a distribuir pontapés pelas latas de cerveja
espalhadas pelo chão. Assim dá gosto. Aum.

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