23/10/2026

Balanço 1992 - Discos Portugueses

 

Pop Rock
23 de Dezembro 1992
Balanço 1992 - Portugueses


ALTERNATIVA

TELECTU
Evil Metal
Edições Área Total

            Os Telectu progridem por avanços e recuos. Mudam de géneros e conceitos como quem muda de camisa – inconstância que tem, porventura, obstado à exploração de uma linha musical definida. Seja como for, “Evil Metal” é um tiro em cheio no panorama das músicas alternativas feitas em Portugal, podendo ombrear com obras da escola nova-iorquina representada por David Linton, David Fulton, J.A. Deane e Elliott Sharp, entre outros nomes. Jorge Lima Barreto tira o melhor partido dos timbres e estruturas repetitivas eletrónicos, Vítor Rua navega entre as ondas frippianas e as fragmentações de Robert Musso. Elliott aparece num par de temas, mas a sua presença era escusada.

            “Evil Metal” divaga e transtorna. Brinca, destrói e refaz géneros como o rock sinfónico, o art rock, o jazz mutante e a “systems music”, com uma mão cheia de acentos numa espécie de etno-traficada. A propósito, haja a esperança de que, desta vez, nenhum “p” atrevido transforme “raga” em “praga”. Mesmo que o tema em questão de indiano pouco tenha. Monstro devorador de músicas e ideias feitas, “Evil Metal” passa a liderar o pequeno pelotão dos discos nacionais que se posicionam orgulhosamente à margem. Das negociatas e do vil metal.

 

FUSÃO

KINTETO DE ANTÓNIO FERRO
Crepúsculo do Vinho
Edição Numérica

            Enquanto o vinho proíbe qualquer espécie de fusão, a música do quinteto, perdão, do Kinteto de António Ferro não se importa nada de fazer misturadas, desde que o “cocktail” seja agradável ao paladar. É o caso deste – presume-se pelos tons da capa – tinto crepuscular com que a banda portuense se propõe empielar os seus companheiros fusionistas, sempre sérios e afetados na tentativa de se parecerem o mais possível com as Mahavishnus Orchestras e Weather Reports que o temo deixou irremediavelmente para trás.

            Os KAF, para além do tinto, estão-se nas tintas para a seriedade e apenas têm como objetivo fazer boa música, sem preocupações de parentesco ou exibicionismo barato. Do que é que eles se haviam de lembrar? De ir buscar fadunchos, tradicionais, vulgares e aquelas melodias populares tipo “Cochicho” só pelo prazer de as transformar em peças dignas da maior credibilidade. Tudo à custa de arranjos irrepreensíveis, em que os metais desempenham o principal papel (João Courinha, sax, Claus Nymark, trombone, Eduardo Santos, trompete) na feitura deste “jazz bufo”, que por mais de uma vez recorda as fanfarras de Carla Bley.

            António Ferro no baixo e João Paulo na bateria (com ocasionais contribuições percussivas de João Nuno Represas) mantêm a banda a andar razoavelmente a direito. Quando não o conseguem, vai toda a gente na gargalhada. A música acaba por sair enriquecida e as surpresas justificam as trocas de passo de certas composições onde se parece caminhar num sentido e afinal se vai parar a outro. Um vinho do Douro da melhor colheita.

 

NOSTALGIA

VÁRIOS
Passa por Mim no Rossio
Edições EMI-VC

            Já não é preciso ir para a bicha do Teatro Nacional às cinco da manhã para assistir ao maior êxito teatral da temporada, “Passa por Mim no Rossio”. Em primeiro lugar, porque a peça já saiu de cena. Em segundo, porque já saiu o disco da peça.

            “Passa por Mim no Rossio” é um “recuerdo” e uma recordação, um produto de consumo e um objeto nostálgico que conserva um momento único do teatro português de revista. Gravado em estúdio como todos os elementos do elenco, são passados em revista (é o termo) as canções, os diálogos e algumas das rábulas que, durante quase dois anos, fizeram as delícias de um público ávido da magia que caracterizou as produções revisteiras das décadas de 30 a 70.

            João Paulo Soares compôs a música. Filipe La Féria escreveu os textos. Um e outro recriaram, com sucesso, o espírito da época e das personagens. Não houve qualquer intenção de modernização, o que poderia ter desfeito a ilusão. É que “Passa por Mim no Rossio”, peça e banda sonora, vivem dessa ilusão, de um jogo de identidades e sobreposições. Escutam-se as vozes dos atores atuais e reconhece-se nelas as outras, do passado, de Vasco Santana, Beatriz Costa, dos mitos todos.

            Haverá, é claro, quem adquira o disco para ouvir Simone ou Luís Madureira. Mas suspeita-se de que a maioria o fará por razões de outra ordem. Os mais idosos para se lembrarem como era e como, por magia, continua a ser. Outros porque gostaram da peça independentemente da viagem ao passado. Alguns pelo “kitsch”. Em qualquer dos casos, funciona a sedução de um truque perfeito de ilusionismo.

 

DESILUSÃO

SÉTIMA LEGIÃO
O Fogo
Edição EMI-VC

            Faz pena ver uma boa ideia reduzida a cinzas. Os Sétima Legião trouxeram para a música portuguesa, na altura em que editaram o primeiro álbum, “A Um Deus Desconhecido”, um conceito. Da mesma forma que os Heróis do Mar o fizeram e o fazem hoje grupos como Madredeus e Resistência. Conceito que tanto pode ser assumido de dentro, como uma intenção prévia, ou formar-se “a posterior”, à semelhança das peças de um “puzzle” que encaixam de forma espontânea. Os Sétima incluem-se neste último caso. Melhor dizendo, incluíram-se.

            Considerados de início um cruzamento inovador do eixo urbano-depressivo de Manchester, representado pelos Joy Division/New Order, com um Portugal de reminiscências celtas (não tivessem arranjado uma gaita-de-foles!), a banda encravou ao quarto disco no ponto morto. “O Fogo” não anda nem desanda. Quer ser “etno” mas não tem coragem de o admitir. Não é triste nem alegre, nem quente nem frio. É morno. Sem extremos nem dinâmica. É esse o mal maior, a ausência de força interior que a produção sofisticada não disfarça.

            São retomadas as temáticas de outrora, os épicos, os assombros e a melancolia que então faziam sentido. Hoje, da forma que são ditas em “O Fogo”, deixam de fazer. São cascas vazias, invólucros sem conteúdo. Fogueira apagada. Muito pouco para quem muito prometeu. As ideias onde estão? As canções que ardem? A “glória de lutar”. “O Fogo” é um disco preguiçoso. Cinzas ao mar.

 

O PIOR

ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO
Pálidos Olhos Azuis – P. O. A.
Edição BMG / Ariola

            Havia outros candidatos: uns Moby Dick balofos armados em superbanda, um José Cid no auge da fúria dos Descobrimentos, um Fernando Girão que agora é índio, ecológico e decerto veste túnica branca enquanto aguarda os OVNI redentores. Comparados com este “P. O. A.”, “Camões, as Descobertas e… Nós” e “Índio” são sem dúvida piores. Mas então teríamos de descer ainda mais baixo e cair no andar de Marco Paulo e Roberto Leal e entrar no domínio do execrável.

            A escolha do pior acabou por recair no disco de António Manuel Ribeiro em virtude de este ter responsabilidades acrescidas. De certo modo, “P. O. A.” recupera o pior dos UHF correspondente à faceta “rock português” da primeira leva, da ideia musical reduzida à expressão mais simples. Neste sentido a estreia discográfica de A. M. R. (já que estamos em maré de siglas…) pode considerar-se um gigantesco passo à retaguarda, uma investida inconsciente nos abismos do mau gosto, um desfilar de lugares-comuns que procuram fazer as vezes do retrato do “rocker” resistente mas sensível, em luta titânica contra o sistema. Dito isto, uma faixa como “A noite inteira” não destoaria num programa como Feira da Música.

            Há uma explicação possível que ainda assim não serve de atenuante: António Manuel Ribeiro, ao corrente do gosto de uma certa margem do seu público, estaria no fundo a dar-lhe uma música e imagem feitas de encomenda. A música das cassetes vendidas ao quilo pelas feiras, Praças de Espanha e Martim Monizes do país. António Manuel Ribeiro, o Marco Paulo do rock português?

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