23 de Dezembro 1992
ALTERNATIVA
Evil Metal
Edições Área Total
Os
Telectu progridem por avanços e recuos. Mudam de géneros e conceitos como quem
muda de camisa – inconstância que tem, porventura, obstado à exploração de uma
linha musical definida. Seja como for, “Evil Metal” é um tiro em cheio no
panorama das músicas alternativas feitas em Portugal, podendo ombrear com obras
da escola nova-iorquina representada por David Linton, David Fulton, J.A. Deane
e Elliott Sharp, entre outros nomes. Jorge Lima Barreto tira o melhor partido
dos timbres e estruturas repetitivas eletrónicos, Vítor Rua navega entre as
ondas frippianas e as fragmentações de Robert Musso. Elliott aparece num par de
temas, mas a sua presença era escusada.
“Evil
Metal” divaga e transtorna. Brinca, destrói e refaz géneros como o rock
sinfónico, o art rock, o jazz mutante e a “systems music”, com uma mão cheia de
acentos numa espécie de etno-traficada. A propósito, haja a esperança de que,
desta vez, nenhum “p” atrevido transforme “raga” em “praga”. Mesmo que o tema
em questão de indiano pouco tenha. Monstro devorador de músicas e ideias
feitas, “Evil Metal” passa a liderar o pequeno pelotão dos discos nacionais que
se posicionam orgulhosamente à margem. Das negociatas e do vil metal.
FUSÃO
Crepúsculo do Vinho
Edição Numérica
Enquanto
o vinho proíbe qualquer espécie de fusão, a música do quinteto, perdão, do
Kinteto de António Ferro não se importa nada de fazer misturadas, desde que o
“cocktail” seja agradável ao paladar. É o caso deste – presume-se pelos tons da
capa – tinto crepuscular com que a banda portuense se propõe empielar os seus
companheiros fusionistas, sempre sérios e afetados na tentativa de se parecerem
o mais possível com as Mahavishnus Orchestras e Weather Reports que o temo
deixou irremediavelmente para trás.
Os
KAF, para além do tinto, estão-se nas tintas para a seriedade e apenas têm como
objetivo fazer boa música, sem preocupações de parentesco ou exibicionismo
barato. Do que é que eles se haviam de lembrar? De ir buscar fadunchos,
tradicionais, vulgares e aquelas melodias populares tipo “Cochicho” só pelo
prazer de as transformar em peças dignas da maior credibilidade. Tudo à custa
de arranjos irrepreensíveis, em que os metais desempenham o principal papel
(João Courinha, sax, Claus Nymark, trombone, Eduardo Santos, trompete) na
feitura deste “jazz bufo”, que por mais de uma vez recorda as fanfarras de
Carla Bley.
António
Ferro no baixo e João Paulo na bateria (com ocasionais contribuições
percussivas de João Nuno Represas) mantêm a banda a andar razoavelmente a
direito. Quando não o conseguem, vai toda a gente na gargalhada. A música acaba
por sair enriquecida e as surpresas justificam as trocas de passo de certas
composições onde se parece caminhar num sentido e afinal se vai parar a outro.
Um vinho do Douro da melhor colheita.
NOSTALGIA
Passa por Mim no Rossio
Edições EMI-VC
Já
não é preciso ir para a bicha do Teatro Nacional às cinco da manhã para
assistir ao maior êxito teatral da temporada, “Passa por Mim no Rossio”. Em
primeiro lugar, porque a peça já saiu de cena. Em segundo, porque já saiu o
disco da peça.
“Passa
por Mim no Rossio” é um “recuerdo” e uma recordação, um produto de consumo e um
objeto nostálgico que conserva um momento único do teatro português de revista.
Gravado em estúdio como todos os elementos do elenco, são passados em revista
(é o termo) as canções, os diálogos e algumas das rábulas que, durante quase
dois anos, fizeram as delícias de um público ávido da magia que caracterizou as
produções revisteiras das décadas de 30 a 70.
João
Paulo Soares compôs a música. Filipe La Féria escreveu os textos. Um e outro
recriaram, com sucesso, o espírito da época e das personagens. Não houve
qualquer intenção de modernização, o que poderia ter desfeito a ilusão. É que
“Passa por Mim no Rossio”, peça e banda sonora, vivem dessa ilusão, de um jogo
de identidades e sobreposições. Escutam-se as vozes dos atores atuais e
reconhece-se nelas as outras, do passado, de Vasco Santana, Beatriz Costa, dos
mitos todos.
Haverá,
é claro, quem adquira o disco para ouvir Simone ou Luís Madureira. Mas
suspeita-se de que a maioria o fará por razões de outra ordem. Os mais idosos
para se lembrarem como era e como, por magia, continua a ser. Outros porque
gostaram da peça independentemente da viagem ao passado. Alguns pelo “kitsch”.
Em qualquer dos casos, funciona a sedução de um truque perfeito de ilusionismo.
DESILUSÃO
O Fogo
Edição EMI-VC
Faz
pena ver uma boa ideia reduzida a cinzas. Os Sétima Legião trouxeram para a
música portuguesa, na altura em que editaram o primeiro álbum, “A Um Deus
Desconhecido”, um conceito. Da mesma forma que os Heróis do Mar o fizeram e o
fazem hoje grupos como Madredeus e Resistência. Conceito que tanto pode ser
assumido de dentro, como uma intenção prévia, ou formar-se “a posterior”, à
semelhança das peças de um “puzzle” que encaixam de forma espontânea. Os Sétima
incluem-se neste último caso. Melhor dizendo, incluíram-se.
Considerados
de início um cruzamento inovador do eixo urbano-depressivo de Manchester,
representado pelos Joy Division/New Order, com um Portugal de reminiscências
celtas (não tivessem arranjado uma gaita-de-foles!), a banda encravou ao quarto
disco no ponto morto. “O Fogo” não anda nem desanda. Quer ser “etno” mas não
tem coragem de o admitir. Não é triste nem alegre, nem quente nem frio. É
morno. Sem extremos nem dinâmica. É esse o mal maior, a ausência de força
interior que a produção sofisticada não disfarça.
São
retomadas as temáticas de outrora, os épicos, os assombros e a melancolia que
então faziam sentido. Hoje, da forma que são ditas em “O Fogo”, deixam de
fazer. São cascas vazias, invólucros sem conteúdo. Fogueira apagada. Muito
pouco para quem muito prometeu. As ideias onde estão? As canções que ardem? A
“glória de lutar”. “O Fogo” é um disco preguiçoso. Cinzas ao mar.
O PIOR
Pálidos Olhos Azuis – P. O. A.
Edição BMG / Ariola
Havia
outros candidatos: uns Moby Dick balofos armados em superbanda, um José Cid no
auge da fúria dos Descobrimentos, um Fernando Girão que agora é índio,
ecológico e decerto veste túnica branca enquanto aguarda os OVNI redentores.
Comparados com este “P. O. A.”, “Camões, as Descobertas e… Nós” e “Índio” são
sem dúvida piores. Mas então teríamos de descer ainda mais baixo e cair no
andar de Marco Paulo e Roberto Leal e entrar no domínio do execrável.
A
escolha do pior acabou por recair no disco de António Manuel Ribeiro em virtude
de este ter responsabilidades acrescidas. De certo modo, “P. O. A.” recupera o
pior dos UHF correspondente à faceta “rock português” da primeira leva, da
ideia musical reduzida à expressão mais simples. Neste sentido a estreia
discográfica de A. M. R. (já que estamos em maré de siglas…) pode considerar-se
um gigantesco passo à retaguarda, uma investida inconsciente nos abismos do mau
gosto, um desfilar de lugares-comuns que procuram fazer as vezes do retrato do
“rocker” resistente mas sensível, em luta titânica contra o sistema. Dito isto,
uma faixa como “A noite inteira” não destoaria num programa como Feira da
Música.
Há
uma explicação possível que ainda assim não serve de atenuante: António Manuel
Ribeiro, ao corrente do gosto de uma certa margem do seu público, estaria no
fundo a dar-lhe uma música e imagem feitas de encomenda. A música das cassetes
vendidas ao quilo pelas feiras, Praças de Espanha e Martim Monizes do país.
António Manuel Ribeiro, o Marco Paulo do rock português?
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