PÚBLICO DOMINGO, 6 DEZEMBRO 1992 >> Cultura
Concerto
Resistência industrial no
porto de Lisboa

Algo se perdeu pelo caminho
dos Resistência, entre o conceito inicial de valorização das palavras e o
concerto que a banda realizou na noite de sexta-feira no armazém 22 do porto de
Lisboa. Se antes a mensagem era o principal, pelo menos na noite de anteontem
deixou de sê-lo.
O armazém 22 é uma espécie de
hangar monstruoso, todo em metal escuro iluminado a “néon”, luz de morgue –
catedral da indústria, ou da angústia – e quase se encheu de milhares de
pessoas reunidas para um qualquer ritual de subversão. O ambiente ideal para
bandas como os Test Dept. ou os Einsturzende Neubauten fazerem ribombar os seus
bidões e zunir as suas serras elétricas mas que aos Resistência serviu para
tornar inaudíveis as subtilezas das guitarras e incompreensível o significado
das palavras das canções dos álbuns “Resistência” e do recente “Mano a Mano”.
Depois, para quem preza essas
mesmas palavras, não deixa de causar uma certa surpresa a crescente importância
concedida pela banda aos instrumentais que vão desde espanholadas com um
cheirinho a Júlio Pereira até incursões num jazz/rock despropositado como
aconteceu no tema “Finisterra” composto por Dudas.
Os Resistência sentiram
talvez que terá chegado o momento do “grande salto”, como aconteceu
recentemente com os GNR. O “grande salto” consiste na passagem dos recintos
pequenos e médios para a imensidão dos estádios. No armazém 22, a banda de
Pedro Ayres e companhia limitada deve ter feito o último ensaio geral antes do
banho de multidão. Até foram instalados dois ecrãs de imagem mal focada, um de
cada lado, de modo a mostrar a fotogenia dos rostos, o suor, os risos e os
pormenores de execução.
Como é costume nestas
ocasiões, a música passou para segundo plano. Num concerto, a todos os níveis,
de peso, os sons foram pesos-pesados – uma massa de guitarras
ultra-amplificadas que abafou a mastigação de textos nos quais, de quando em
quando, se adivinhava um verso conhecido, um refrão aprendido de cor no disco.
Chegou para perceber a subtil e inteligente inflexão dos Resistência (ou será
melhor dizer de Pedro Ayres?) num certo imaginário de esquerda traduzida para
já na apropriação de “Que amor não me engana” (uma das melhores canções da
noite) e “Traz outro amigo também” de José Afonso. “Timor”, da autoria de Pedro
Ayres, foi dedicado ao “herói português Xanana Gusmão”. Pedro Ayres continua um
mestre na captação dos movimentos e motivações das massas, sabendo agir como um
verdadeiro manipulador, que flutua na crista da onda, das marés e ventos da
História. Há que hastear a bandeira do instante, não importa a cor, no tempo e
local exatos.
Excecional, tirando partido
das condições acústicas do armazém, foi um diálogo bateria/percussão ao melhor
estilo da música industrial. E, claro, uma interpretação entusiástica de “Não
sou o único” que, diga-se o que se disser, é o hino do rock português. Talvez o
derradeiro.
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