PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 22 JULHO 1992 >> Pop Rock
DA GÉNESE À REVELAÇÃO
Os Genesis merecem o máximo respeito e
consideração. Por tudo o que de bom fizeram pela música rock, pela beleza com
que aqueceram os nossos corações. Devemos agradecer-lhes e pagar-lhes. Mas não
na mesma moeda, que essa eles não aceitam. Dizem que já não sabem dançar.
Vêm a Portugal pela segunda
vez, mas já não são a mesma banda que eram em 1975, quando estiveram em
Cascais. Nessa altura, quem os viu e ouviu jamais os esquecerá. Dezassete anos
volvidos, os Genesis regressam, desta vez ao estádio de Alvalade, num espetáculo
que se diz ser portentoso. Não já o espetáculo poético, mas de ostentação e de
números. “666 [o número da besta do Apocalipse] is no longer alone”, como diz o
texto de “Supper’s ready”, eis a revelação.
Hoje, a palavra “Genesis” não
passa de um carimbo ferrado na careca da banda de Phil Collins. É esta a banda
que vai estar hoje à noite no Estádio de Alvalade – uma máquina de faturar
implacável dirigida por um homem de negócios que canta, toca bateria e tem como
principal virtude parecer “um gajo porreiro”.
Mas não foi sempre assim e é
importante recordar o passado e a importância que de facto teve uma das bandas
mais originais da primeira metade dos anos 70. Ao lado dos Van Der Graaf
Generator, King Crimsom, Yes e Gentle Giant, eles foram uma das entidades
inteligentes da “música progressiva” que vingou em Inglaterra até ao dia em que
uns rapazes de cabeça rapada e alfinetes espetados na pele decidiram destruir
aquilo que com tanto amor e carinho tinha sido edificado. Sim, não se estejam a
rir, com muito amor e carinho, bom gosto e imaginação. Há lá coisa mais bela
que ver alguém como Peter Gabriel vestido de malmequer ou de monstro verde com
borbulhas? É difícil. Só talvez Elton John vestido de freira.
Ser progressivo
Eram assim os Genesis, nessa
época esplendorosa em que tudo era permitido, mesmo as calças de boca de sino e
as camisas às flores de colarinho gigante. Os “progressivos” pretendiam dotar a
música popular da majestade e integridade da “clássica”. E por que não? Era
tudo uma questão de utilizar números ímpares no compasso, estender as
composições até aos 30 minutos e fazer aparecer na ficha técnica um “mellotron”
e um sintetizador (Moog para os mais sinfónicos, A.R.P. para os “vanguardistas”
e VCS3 para os pobrezinhos), ou vários, quantos mais melhor, para dar uma
imagem mais eficaz de complexidade. Também era conveniente ter lido Tolkien ou
Lewis Carroll, se se pretendia ser “soft”, ou H.P. Lovecraft, se a opção
incidia no “hard”. E principalmente gravar para alguma destas quatro editoras:
Island, Harvest, Vertigo e Charisma. A Virgin viria depois devorá-las a todas,
mas antes do repasto, havia uma saudável competição, a ver quem fazia capas
mais desdobráveis e faixas de maior duração.
Antes de ser comprada pelo
futuro bilionário Richard Branson, a Charisma representava na perfeição o
imaginário e os ideais de quantos viam no rock o ponto culminante da arte
musical desde que se seguisse à risca a máxima “quanto mais complicado melhor”.
Era neste selo que militavam os Genesis, passado o estágio inicial na Decca,
com “From Genesis To Revelation”. O logotipo da editora – uma imagem do
chapeleiro maluco retirada de “Alice no País das Maravilhas” – não podia ter
sido mais bem escolhido, parecendo feito de propósito para as histórias e
imagens que a banda então liderada por Peter Gabriel tinha para apresentar.
Delírios
História que se conta em
cinco capítulos magistrais correspondentes às obras “Trespass”, “Nursery
Crime”, “Foxtrot”, “Selling England by the Pound” e o duplo “The Lamb Lies Down
on Broadway”, tantos quantos os Genesis gravaram antes da saída do arcanjo.
Consumado o abandono de Peter Gabriel, Phil Collins ficou com o terreno livre e
aproveitou a deixa, desviando o grupo para objetivos bem mais práticos que os
delírios surrealistas do antigo vocalista. Para a “Phil Collins Band”, que era
como se devia ter passado a chamar a banda, a única finalidade passaria a ser a
angariação de divisas, operação na qual, diga-se de passagem, foi bastante bem
sucedida. A participação de Phil Collins em tudo o que é “concerto de
solidariedade” trataria de o pôr em paz com a sua consciência. São assim as
almas boas de gente de bem.
Cumpriu-se deste modo a
profecia enunciada no título do primeiro álbum, “From Genesis To Revelation” e
a “revelação” foi de ordem divina. Explicada no novo “clip” da banda, “Jesus He
knows me”, canção do último álbum, “We Can’t Dance”, em que Deus revela, a um
Phil Collins desopilante na figura de evangelista da TV e bom pai de família, o
segredo, o maná dos dólares que tombam do céu.
Curiosamente, após o abandono
de Peter Gabriel e, dois álbuns mais tarde, de Steve Hackett, seria um outro
elemento da banda original, apenas presente em “Trespass”, Anthony Phillips, o
portador do espírito original dos Genesis. De longe o mais prolífico de todos
os elementos que passaram pelo grupo, Phillips assinou álbuns como “The Geese
and the Ghost”, “Wise After the Event”, “Antiques”, “A Catch at the Tables” ou
“Slow Dance” que em nada diferem da filosofia e dos ambientes musicais da fase
inicial do quinteto.
Fábulas perversas
Aos Genesis se deve, além da
revolução no vestuário, o terem trazido o teatro para o rock. Claro que David
Bowie já era um Major Tom em odisseias no espaço, e depois Ziggy e Alladin Sane
e muitos outros. E os Velvet Underground já há algum tempo que davam e levavam
chicotadas no cabaré da morte que era a “Exploding Plastic Inevitable”, criada
por Andy Warhol. Mas, em qualquer dos casos, explorava-se o lado da decadência
e do excesso, enquanto os Genesis e o seu ator principal, Peter Gabriel,
privilegiavam e encenavam o imaginário vitoriano inglês, a um tempo sedutor e
cruel. Nenhum álbum se aproxima tanto deste conceito como “Nursery Crime”, em
faixas como “The musical box”, “The return of the giant hogweed” ou “The
fountain of Salmacis”, repleta de anjos e demónios, hermafroditas e espíritos
barbudos, gigantes e arlequins. Peter Gabriel inventa e incarna novas
personagens chamadas Henry Hamilton-Smythe ou Cynthia Jane de Blaise-William,
em fábulas perversas, como o eram as aventuras de Alice.
Todo um universo que se
esfumou quando Peter Gabriel se decidiu pelo rompimento e por uma versão mais
“realista” para os seus devaneios poético-musicais. “A Trick of the Tail” e
“Wind and Wuthering” ainda procuram uma solução de compromisso, com Phil
Collins a procurar imitar as entoações vocais de Gabriel, o que lhe valeu do
produtor Tony Stratton-Smith o seguinte comentário: “Soa mais a Peter Gabriel
que o próprio Peter Gabriel.” A parte “séria” ficou durante alguns tempos
reservada para a banda de jazz-rock Brand X, que serviu para o músico se
exercitar na bateria, já que nos Genesis passou a assumir-se totalmente como
cantor.
Pode dizer-se que os antigos
admiradores dos Genesis optaram por seguir o percurso a solo de Peter Gabriel,
em vez de condescenderem com as proezas miméticas do novo vocalista. Opção
certa, recompensada sobretudo pelos quatro primeiros discos a solo, qualquer
deles intitulado simplesmente “Peter Gabriel”, nos quais participaram, entre
outros, Brian Eno e Robert Fripp. A seguir seria a viagem sem retorno até às
“músicas do mundo”, concretizada na banda sonora de “Passion”, realizada por
Scorsese, no envolvimento nos festivais “WOMAD” e na criação da editora “Real
World”, tornada rapidamente uma das mais prestigiadas no campo da “world
music”.
Jesus ajuda os Genesis
Do outro lado, Phil Collins,
Mike Rutherford e Tony Banks prosseguiam sem desfalecimentos na senda do êxito
à escala planetária, acumulando discos de ouro e platina e atraindo aos seus
espetáculos um número sempre crescente de público, à medida que iam
simplificando a forma e a mensagem da sua música. A partir de certa altura,
Phil Collins deixou mesmo de sentir necessidade de gravar discos a solo (gravou
quatro: “Face Value”, “Hello I Must Be Going”, “No Jacket Required” e “But
Seriously”), já que os Genesis se tinham transformado no seu veículo pessoal.
“... And Then There Were Three”, “Duke”, “Abacab”, “Three Sides Live”,
“Genesis”, “Invisible Touch” e “We Can’t Dance” foram filões de uma mina que
parece inesgotável. E
cada vez mais, à medida que Phil Collins foi carregando na tecla do romantismo
de pacotilha, de efeito certo quando se trata de apelar à faceta mais primária
das multidões. Ainda aqui, o já referido vídeo “Jesus He knows me” funciona
como cartada da hipocrisia levada ao grau extremo, a fingir de inteligente.
Nele, os Genesis pretendem dar a imagem do artista que está para além das vãs
preocupações materiais (por isso o “clip” insiste em mostrar precisamente o
oposto, é a ironia, topam?), que pode brincar com o estatuto próprio porque
chegou àquele ponto em que o dinheiro não passa de uma abstração, de algo
distante que jamais conseguirá abalar a integridade e apagar a chama da
criação. Na realidade, o que eles querem dizer é: “Venha mais!”
Vamos todos a Alvalade
fazer-lhes a vontade.

OS CINCO MAGNÍFICOS
TRESPASS (1970)
Príncipes
e princesas à janela do castelo. O álbum medieval dos Genesis, a que não é
alheia a presença de Anthony Phillips, cuja temática de grande parte dos seus
álbuns a solo confirmaria esta tendência. Disco de contrastes, suave em
“Visions of angels” e “Dusk”, violento, à beira da histeria, em “The knife”,
rasgado pela guitarra elétrica de Phillips. “Looking for someone”, um dos
primeiros clássicos da banda, revela as enormes potencialidades expressivas do
vocalista, aqui ainda preso à imagem angelical.
NURSERY CRIME (1971)
Primeira
obra-prima, desde a gravura da capa – uma partida de críquete jogada com
cabeças humanas, numa paisagem geométrica e vitoriana em “trompe l’oeil”, sobre
a qual estão poisadas moscas em tamanho real – até às canções insólitas sobre
gigantes vegetais e amores de hermafroditas. “The musical box” é uma das
melhores canções de toda a discografia dos Genesis, narrando uma bizarria à
volta de uma caixa de música de onde brota uma terrível entidade. “Harold the
barrel” poderia ser um quadro de Ensor. E Phil Collins deveria voltar a ouvir
pelo menos dois temas, “For absent friends” e “Harlequin”, para aprender como
se constrói uma balada. Sem pieguice.
FOXTROT
(1972)
Gravado
a seguir ao disco ao vivo “Genesis Live”, “Foxtrot” é por muitos considerado o
melhor álbum da banda. O fabuloso “tour de force” que é “Supper’s ready”,
viagem de ácido dividida em sete partes, com bilhete de ida e volta até ao
inferno – e o inferno de Gabriel está povoado de criaturas semelhantes às de um
Lewis Carroll numa “bad trip” –, em que Peter Gabriel dá um “show” vocal de
vinte e tal minutos, desdobrando-se pelos registos mais incríveis, da
marioneta, às afetações “cockney” e a toda a espécie de gritos, murmúrios e
onomatopeias, esconde alguns desequilíbrios histriónicos do primeiro lado,
notórios em “Watcher of the skies” ou “Time table”. “Get ‘em out by friday”
estreia os Genesis na sátira social.
SELLING
ENGLAND BY THE POUND (1973)
Ao
contrário do álbum anterior, aqui tudo é equilíbrio e sentido de proporção.
Banks, Hackett, Rutherford e Collins têm espaço alargado para mostrar que os
Genesis não eram só Peter Gabriel, com destaque para Tony Banks, um teclista
notável que, na segunda fase da banda, viria a ser completamente
subaproveitado, e Steve Hackett, um dos melhores guitarristas ingleses da
escola progressiva, então ao nível de Robert Fripp, dos King Crimson e Steve
Howe, dos Yes. Uma das melhores, senão mesmo a melhor de todas as
interpretações vocais da sua carreira, consegue-a Peter Gabriel em “The battle of
Epping Forest”, um autêntico solo de música e teatro, em que praticamente cada
frase do poema é cantada de modo diferente e que colocaria o vocalista ao lado
de Peter Hammill, como um dos maiores intérpretes dessa época.
THE
LAMB LIES DOWN ON BROADWAY (1974)
O
álbum duplo da discórdia que levou à separação de Peter Gabriel dos restantes
elementos dos Genesis. Considerado como que um disco a solo do vocalista, de
tal modo a sua personalidade se impôs na feitura desta obra, “The Lamb” corta
de forma abrupta com o estilo e a imagética habituais da banda, narrando a
iniciação de um jovem porto-riquenho, Rael, perdido no meio do pesadelo
americano e no seu próprio labirinto interior. Como em “Supper’s ready” é
possível descortinar, desta feita na sequência total, as várias fases de uma
“viagem de ácido”, neste caso, decididamente uma “má viagem”, até ao centro da
paranóia. Chegados a este ponto, os restantes Genesis assustaram-se e devem ter
feito sinal de “stop” ao antigo arcanjo, aqui transformado em demónio. Os
trabalhos posteriores de Peter Gabriel confirmariam o caminho que este viria a
seguir, feito de transformações sucessivas (o rosto aparece representado de
forma sistemática nas capas, sujeito a diversas deformações), num percurso
semelhante ao de Bowie, assumido embora na direção de um certo tribalismo que,
em última análise, viria a desembocar no território infinito da “world music”.

Sem comentários:
Enviar um comentário