29
de Abril 1992
Porto
INVASORES DO CORAÇÃO
Tudo a postos no Porto para os festejos da
Queima das Fitas. No programa de atividades, a música ocupa lugar de destaque.
Mas este ano, para além dos concertos, a organização decidiu diversificar o
leque de propostas e apresentar uma série de “noites” subordinadas a temas
específicos.
Os
Invaders Of The Heart, de Jah Wobble, atraem a si as maiores atenções, com um
concerto agendado para a noite de 6 de maio. Julian Cope, outro dos nomes
fortes que constava inicialmente do programa, cancelou a sua vinda a Portugal,
apesar de o contrato firmado com a organização, “por ter ocorrido um atraso na
gravação do seu próximo álbum”, segundo declaração do próprio cantor. Em sua
substituição haverá um concerto triplo com os Cabaret Voltaire, A Certain Ratio
e os Sitiados.
Noites
alternativas
Katrina
& The Waves trazem consigo os bons velhos tempos de confusão “afterpunk” e
canções que não fizeram história no crepúsculo dos anos 70, mas que no
intervalo de indecisão a que se convencionou chamar “new wave” serviram para
animar os bailes de adolescentes para quem a música começou com os Sex Pistols.
Na primeira parte os LX 90 vão decerto apresentar mais do que uma revolução por
minuto e fazer muita gente dançar ao som da sua pop colorida de psicadelismo.
Aguardada com bastante expetativa, a atuação dos Vai de Roda, de Tentúgal,
acontecerá numa “noite diferente” e assinala o regresso ao formato que tão bons
resultados deu no “Terreiro das Bruxas”, consumada uma “Bailia das Frores” que
no recente Festival Intercéltico passou sem deixar grandes recordações.
Mário
Laginha, um dos melhores músicos e improvisadores de piano da nossa cena
musical, e Carlos Paredes, uma guitarra e um mito com corpo e alma de humano,
vão apresentar dois lados da mesma moeda – da arte de ser português. Depois, as
“noites”: “diferentes”, de “delírio total”, “com ritmo” ou de “salsa”, dadas à
imaginação de cada um – “alternativas às discotecas” – diz Nuno Rosa, elemento
da comissão executiva da organização da Queima das Fitas do Porto, para quem o
programa tradicional da Queima implicava que tudo acabasse “por volta da
meia-noite” e se perdesse “o ambiente académico”: “As ‘noites’ pretendem
precisamente contrariar um pouco isso, com uma entrada barata, a 300 escudos,
de modo a permitir aos estudantes continuarem juntos o mesmo ambiente até às
tantas da manhã”. Com a ajuda extra de saltimbancos que, espalhados pelos
jardins do Palácio de Cristal, “farão as coisas mais mirabolantes, para criar
focos de animação alternativos”.
Dança
industrial
Os
Invaders Of The Heart são especialistas na junção musical do Ocidente com o
Oriente, através de erupções dub audíveis nos álbuns “Without Judgement” e
“Rising Above Bedlam”, torrentes de lava em que o baixo de Jah Wobble, antigo
companheiro de John Lydon nos Public Image Ltd., participante em “Snake
Charmer” ao lado de The Edge e Holger Czukay, a autor de vários álbuns a solo,
funciona como detonador principal. Divagações não muito distantes dos African
Head Charge ou das mais recentes incursões de Ginger Baker no universo da
“world music”.
De
representantes originais e legítimos da chamada música industrial do início dos
anos 80, os Cabaret Voltaire, disco a disco, concessão a concessão, acabaram
por transformar-se em mais um grupo de dança que os grupos de “electronic body
music” e de “house” gostam de citar. Longe vão os infernos e as manipulações
selvagens de ruído de “Mix-up”, “Voice of America” e “Red Mecca”. No Porto, em
princípio, não deve haver perigo.
Samba,
jazz, funk e uma costela industrial foram, à mesma época dos Cabaret Voltaire,
os ingredientes que fizeram o sucesso e a sedução dos A Certain Ratio, também
eles vítimas da passagem do tempo e do desgaste de ideias. “Sextet” e “To Each”
fizeram dançar até à exaustão, através da aliança da animalidade dos ritmos com
a complexidade de arranjos em que a estética de fragmentação servia de pau na
engrenagem ao delírio dos pés. Comparados com eles e com os Cabaret Voltaire,
os Sitiados parecem um pouco deslocados, com o seu acordeão ébrio e um amor
pela música tradicional de “pub” que os aproxima dos Pogues. De comum com as
outras duas bandas apenas o facto de também a sua música induzir à dança. Há
quem dance de dor e há quem dance de alegria. Aqui reside a diferença numa
noite que se prevê, no mínimo, agitada.