PÚBLICO DOMINGO, 22 MARÇO 1992 >> Cultura
“Existir” para a Europa
Sexta-feira, no Teatro Ibérico, em
Lisboa, os Madredeus atuaram para uma plateia de convidados, numa operação de
“charme” aos vários executivos de diversas delegações europeias da EMI
presentes, com o objetivo de uma hipotética edição do álbum “Existir” no
estrangeiro.
Para Teresa Salgueiro, Pedro Ayres
de Magalhães, Rodrigo Leão, Francisco Ribeiro e Gabriel Gomes foi também o
regresso ao local de ensaios e gravação dos “Dias da Madredeus”, disco com que
se estrearam no mercado discográfico nacional: uma divisória de um antigo
convento, responsável em grande parte pelo ambiente e orientação estética do
projeto.
Cerca de 45 minutos de música – que
em alguns momentos roçou o sublime – devem ter chegado para convencer os homens
de negócios. De postura sóbria, quase de recolhimento, os cinco músicos
projetaram os sons até à cúpula do recinto, aproveitando a sua acústica para
melhor acentuar o carácter religioso da maior parte das canções. O início, um
dueto vocal de Teresa Salgueiro e Francisco Ribeiro evocativo do cântico
gregoriano, deu o tom ao concerto, que evitou temas mais extrovertidos como “O
Ladrão” para se centrar numa solenidade que poderíamos definir como “fado de
câmara”.
“O Navio”, “Cuidado”, “O pomar das
laranjeiras”, “Vaca de fogo” e o instrumental “As ilhas dos Açores”, entre
outros títulos dos Madredeus, serviram de igual forma para demonstrar a
capacidade dos seus membros em recriarem e remodelarem, em cada concerto, os
arranjos. Da voz e da presença, ao mesmo tempo angelical e fadista, de Teresa
Salgueiro, nunca é demais repetir que não tem rival no atual panorama da
moderna música portuguesa. Modernidade que no caso dos Madredeus se funda na
Eternidade.
Os Madredeus existem para navegar. A
partir de agora talvez também no inconsciente de uma Europa à procura de outro
mar.
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