PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 MARÇO 1992 >> Pop Rock
PÉS NA TERRA E CABEÇA NO CÉU
Nas últimas semanas tem-se assistido ao dilúvio
de compactos que chegam em catadupa às lojas nacionais e põem a cabeça em água
e os bolsos vazios aos “malucos da folk”, para usar o termo utilizado há anos
pela mítica rubrica da Rock & Folk. Da Bretanha à Irlanda, com uma
escapadela à Dinamarca e aos países do Leste, é o retorno em força da tradição.
Durante anos foi o deserto. Discos
de folk em Portugal resumiam-se a esporádicas importações dos Fairport
Convention ou Steeleye Span, os únicos nomes remanescentes do “folk bloom” do
início dos anos 70 que conseguiam romper o bloqueio do desconhecimento e do
desinteresse a que eram votados pela maioria dos “media”. Mantida a chama por
um contingente restrito de “resistentes”, que atravessaram incólumes os anos de
decadência da “música progressiva”, a fúria niilista dos rapazes dos alfinetes
na orelha e a torre de Babel que sobreveio na aldeia global em que se
transformou a década de 80.
Aos poucos, um número cada vez maior
de consumidores de sons, saturados da plastificação vigente e da constante
avalanche de pseudo-novidades em que a pop se foi atulhando, descobriram
progressivamente a perenidade de uma música capaz de sobreviver, evoluir e
transformar-se, sem que o essencial se perdesse. A música folk, tradicional,
roots, world, ou de raiz étnica, como lhe quiserem chamar, conseguia até a
proeza de derrotar o inimigo mais perigoso que consiste em estar na moda.
Hoje, em Portugal, não param de
chegar aos escaparates discos das principais editoras do género. Louve-se a
persistência e o amor à causa, desde há anos evidenciados pela VGM, a portuense
Mundo da Canção e, mais recentemente, a Megamúsica, sem esquecer o pioneirismo
da Nébula ou, sobretudo ao nível dos concertos, os minhotos da Etnia.
Segue-se uma breve resenha de novos
álbuns, entre novidades e reedições, a partir de agora disponíveis no nosso
país, representativos de algumas tendências da folk atual, com particular
destaque para a música tradicional da Bretanha, uma das que com mais
insistência e razão de ser faz vibrar o “animus” e “anima” nacionais.
Os círculos célticos da
Bretanha
Da editora Keltia, três discos fabulosos: “Kerzh
Ba‘n’ Dans” dos Skolvan; “Digor‘n
Abadenn” dos Storvan; e “Na
Aotrou Liskildri” dos Strobinell.
Qualquer deles de fazer corar de vergonha as mais recentes senilidades de Alan
Stivell. Os três recuperam a sonoridade, a instrumentação, os rituais e as
danças da Bretanha, acrescentando-lhes a energia que o “fim da História”
acarreta e a riqueza de arranjos que os tornam esteios do Universal.
“Kerzh Ba‘n’ Dans” (“Entrem na
Dança”) alterna os “an dro”, “laridés” e as típicas “suites” de dança “dans
fisell” e “dans Plinn” (verdadeiramente mágicas as ressonâncias da língua
bretã...) com originais do grupo e uma valsa irlandesa. Os Skolvan foram
formados em 1984 por três professores do Conservatório Regional de Música e
Dança Tradicionais da Bretanha. De académico só o virtuosismo evidenciado no
manejo da bombarda, do violino e do “biniou” (gaita-de-foles) bretões. Dois
vocalistas tradicionais participam nos “cantos de resposta” ou “canto e retoma
de canto” (“kan ha diskan”), que alguns conhecerão na versão feminina
popularizada pelas irmãs Goadec.
Mais fiéis a uma certa pureza
interpretativa, os Storvan (designação imaginária tirada de um romance de
Julien Graco, “Aub Château d’Argol”) constroem longas sequências de danças
tradicionais, apoiadas no jogo flauta/bombarda/“bouzouki”/violino, com incidências
nas gavotas e nas marchas e melodias da região de Vannes. Nas “Ronds de St.
Vincent”, a música nasce das entranhas do tempo, a partir da gravação “in loco”
de uma festa rural que, sem rutura, dá lugar à festa instrumental no estúdio.
Brilhante.
“Brilhante”, “alucinante”,
“comovente”, são alguns dos adjetivos que não chegam para traduzir o prazer
proporcionado pela audição da música dos Strobinell e deste seu “senhor
Liskildri”. “Strobinell” significa em bretão “sortilégio”, o mesmo sortilégio que
em ocasiões muito especiais, durante as “festas de noite” (“Fest-Noz”),
incendeia os dançarinos que, transportados pela magia da música, rodopiam até
chegar ao transe. Jil Lehart (voz, clarinete, bombarda, gaita-de-foles), Patrig
Ar Balc’h (bombarda, “tin whistle”), Yann-Herri Ar Gwicher (flautas
transversais e de ébano) e Riwall Ar Menn (guitarra) pertencem à estirpe dos
bardos do século XX. Na sua música, o sagrado recupera toda a força do seu
significado, de sublime, excelso, puro, inviolável, de diálogo santificado
entre a tríade dos mundos: Deus, homem e Natureza, espiralados no fogo e no
movimento simbolizados, na imagética bretã celta, pelo “An Triskell”. Com os
Strobinell, dançar significa a vertigem de se perder de si próprio para se
ganhar além. Bater com os pés na terra e com a cabeça no céu. Comungar com o
Todo.
Sagrados são também os cânticos
religiosos da Bretanha recolhidos e interpretados por Anne Auffret (voz e harpa), Jean
Baron (bombarda e ocarina) e Michel
Ghesquière (órgão de foles) em “Soñj
– Musiques Sacrées de Bretagne” ou, se quisermos, “Kanticou E Vro Breiz”,
recolhidos da coleção “Kanticou Brezonek”. Orações matinais, cânticos místicos
de contemplação e de união com Cristo, de Natal, de suplicação à Virgem, de
adoração ao Santo Sacramento ou de comunhão, interpretados com a elevação que o
diálogo com Deus exige. Menos extrovertido, destituído da fogosidade e do
telurismo dionisíaco patente nos grupos atrás referidos, “Soñj” soa menos
exuberante e mais uniforme na simplicidade e contenção dos arranjos. Orações do
vento e do mar, da altura das falésias da Bretanha.
Os Bleizi Ruz já levam 18 anos de carreira, mas apenas cinco discos
gravados. Gravado ao vivo em Brest, “En
Concert” serve para mostrar todo o ecletismo desta banda, que estará em
Portugal na 3ª edição do Festival Intercéltico, a realizar no Porto em abril
próximo. Por vezes quase cedendo às tentações de “fusionismos” tardios que
acabaram por ser fatais aos Gwendal e ao próprio Stivell, os Bleizi Ruz não
perdem, porém, nunca de vista as fontes vivificadoras. Do “cajun” à bretã do
tema inicial, passam com toda a agilidade para a febre cigana ou para as danças
da Moldova. Sempre com a Bretanha no sangue, presente nas texturas e modulações
das bombardas e da gaita-de-foles, manuseadas pelo mestre Bernard Quillien,
eufórico, entre o apelo elétrico da guitarra-baixo e do acordeão-Midi.
Finalmente, registe-se a edição em
compacto de mais duas gemas de música tradicional francesa, embora não
especificamente bretã, dedicadas à divulgação de dois instrumentos
particulares: “Cornemuses”, de Jean Blanchard (inesquecível a sua
presença nos últimos Encontros da Tradição Europeia, com a sua Grande Bande de
Cornemuses) e Eric Montbel, que,
como o nome indica, se debruça sobre a gaita-de-foles; e o álbum “Vielleux du Bourbonnais”, do grupo
homónimo, em que são explorados o reportório e as diversas técnicas de
interpretação da sanfona. Obras de grande utilidade para quem quiser saber
pormenores sobre estes instrumentos, sem excluir, é claro, as respetivas
virtudes musicais, que, por si só, valem a audição e (para os aficionados)
aquisição dos discos. Todos os títulos referidos, a que se podem acrescentar
outros, de Dan Ar Braz (“Musique pour les Silences à Venir”), Bagad Kemper
(Music on the Square, vol. 4”, e “The Best of...”), Gwalarn (“A-Hed An Amzer”),
An Triskell com Gilles Servat (“L’Albatros fou”) e do ex-Malicorne Gabriel
Yacoub (“Bel”), são distribuídos pela Mundo da Canção.
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