Pop Rock
29 de Janeiro 1992
MÚSICA INDIANA, É PRECISO OCIDENTALIZAR
“Pehchaan” (“Conhecer”), dos
Jasmin Band, é o primeiro disco de música indiana feito e editado em Portugal,
pelo menos na opinião dos responsáveis da editora, a Vidisco. De música
indiana, da genuína, o disco tem muito pouco. “É impossível agarrarmo-nos aos
costumes tradicionais num país como Portugal, na Europa.” Será?
“São portugueses da comunidade
ismaelita de descendência indiana” os seis membros da Jasmin Band. “Nasceram em
Moçambique e vieram para Portugal depois do 25 de Abril. Indianos mas
portugueses de nacionalidade. Os nomes mostram que são mesmo portugueses: Malik
Keshaujee, Jalaludin Hassanali, Nadim Amirali…
“Pehchaan” poderia ser um projeto
interessante se não tivesse cedido à facilidade e, nalguns temas, ao mau gosto
de confundir a música indiana com acordes sintetizados de “Enola gay” e
caixas-de-ritmo que se diriam recicladas de discos de Clemente ou Dino Meira.
“É uma tentativa de ocidentalizar.” Não se compreende bem a opção se levarmos
em conta que, nas palavras de João Pedro Jadaujy, sócio gerente da Vidisco, o
disco foi feito a pensar na comunidade, embora “pela qualidade da música e pela
harmonia dos tons se dirija ao público em geral”. Opção tanto mais estranha
quanto se reconhece que a própria comunidade ismaelita residente em Portugal
“preferiria outro tipo de música”.
“Disco de circunstância”, “Pehchaan”
fica-se por umas tímidas tablas perdidas entre os sintetizadores e uma produção
voltada para o mercado das feiras e da Praça de Espanha. “São músicas indianas,
em parte de filmes, em parte cânticos não religiosos, intermédios, que se
cantam em casamentos e festas”. “Os filmes” parecem ser de resto o principal
aferidor de aceitação da música indiana pela comunidade: “A música indiana está
muito ligada aos filmes. O sucesso de um filme é o barómetro para as músicas.
Como há muito tempo não passam filmes indianos…”
Não sequer uma “sitar” para amostra
– “o disco teve de ser simplificado a esse nível, os músicos não tiveram acesso
aos instrumentos tradicionais”. Segundo João Pedro Jadaujy, o mais importante é
“começar a fazer algo”, antes de um hipotético próximo trabalho que poderia ser
gravado “em Londres ou mesmo na Índia, o que agora não foi possível porque isso
implicaria a movimentação de verbas demasiado elevadas”. Optou-se pelo
“acessível” antes de tentar “fazer uma coisa melhor”, que inclusive pode passar
por um “certo regresso às origens”.
Os músicos dos Jasmin Band são
autodidatas: empresários, ligados ao ramo dos móveis ou funcionários públicos.
Foram eles que apresentaram o projeto “Pehchaan” à editora a quem solicitaram
“para fazer o serviço”. “Mais que não fosse por carolice, o disco foi feito”,
sem que antes na Vidisco se tivesse procedido à triagem final dos temas, de
maneira a “escolher um tipo de músicas que se coadunasse melhor com o público
português”. A música indiana é que não se coaduna muito com o tom popularucho
de “Pehchaan”, apesar de tudo a única tentativa do género realizada até agora
em Portugal.
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