17/09/2026

Música indiana, é preciso ocidentalizar [Jasmin Band]

 Pop Rock

29 de Janeiro 1992

 

MÚSICA INDIANA, É PRECISO OCIDENTALIZAR

 

“Pehchaan” (“Conhecer”), dos Jasmin Band, é o primeiro disco de música indiana feito e editado em Portugal, pelo menos na opinião dos responsáveis da editora, a Vidisco. De música indiana, da genuína, o disco tem muito pouco. “É impossível agarrarmo-nos aos costumes tradicionais num país como Portugal, na Europa.” Será?

 


            “São portugueses da comunidade ismaelita de descendência indiana” os seis membros da Jasmin Band. “Nasceram em Moçambique e vieram para Portugal depois do 25 de Abril. Indianos mas portugueses de nacionalidade. Os nomes mostram que são mesmo portugueses: Malik Keshaujee, Jalaludin Hassanali, Nadim Amirali…

            “Pehchaan” poderia ser um projeto interessante se não tivesse cedido à facilidade e, nalguns temas, ao mau gosto de confundir a música indiana com acordes sintetizados de “Enola gay” e caixas-de-ritmo que se diriam recicladas de discos de Clemente ou Dino Meira. “É uma tentativa de ocidentalizar.” Não se compreende bem a opção se levarmos em conta que, nas palavras de João Pedro Jadaujy, sócio gerente da Vidisco, o disco foi feito a pensar na comunidade, embora “pela qualidade da música e pela harmonia dos tons se dirija ao público em geral”. Opção tanto mais estranha quanto se reconhece que a própria comunidade ismaelita residente em Portugal “preferiria outro tipo de música”.

            “Disco de circunstância”, “Pehchaan” fica-se por umas tímidas tablas perdidas entre os sintetizadores e uma produção voltada para o mercado das feiras e da Praça de Espanha. “São músicas indianas, em parte de filmes, em parte cânticos não religiosos, intermédios, que se cantam em casamentos e festas”. “Os filmes” parecem ser de resto o principal aferidor de aceitação da música indiana pela comunidade: “A música indiana está muito ligada aos filmes. O sucesso de um filme é o barómetro para as músicas. Como há muito tempo não passam filmes indianos…”

            Não sequer uma “sitar” para amostra – “o disco teve de ser simplificado a esse nível, os músicos não tiveram acesso aos instrumentos tradicionais”. Segundo João Pedro Jadaujy, o mais importante é “começar a fazer algo”, antes de um hipotético próximo trabalho que poderia ser gravado “em Londres ou mesmo na Índia, o que agora não foi possível porque isso implicaria a movimentação de verbas demasiado elevadas”. Optou-se pelo “acessível” antes de tentar “fazer uma coisa melhor”, que inclusive pode passar por um “certo regresso às origens”.

            Os músicos dos Jasmin Band são autodidatas: empresários, ligados ao ramo dos móveis ou funcionários públicos. Foram eles que apresentaram o projeto “Pehchaan” à editora a quem solicitaram “para fazer o serviço”. “Mais que não fosse por carolice, o disco foi feito”, sem que antes na Vidisco se tivesse procedido à triagem final dos temas, de maneira a “escolher um tipo de músicas que se coadunasse melhor com o público português”. A música indiana é que não se coaduna muito com o tom popularucho de “Pehchaan”, apesar de tudo a única tentativa do género realizada até agora em Portugal.

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