PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 9 JANEIRO 1992 >> Cultura
Violinista
só fora de casa faz milagres
Zíngaro grava e atua no
estrangeiro
Carlos Zíngaro, violinista,
“cartoonista”, improvisador e experimentador de sons e ideias, um dos mais
interessantes e menosprezados músicos portugueses, conotado com as chamadas
“novas músicas”, não tem mãos a medir. Da agenda para o ano em curso consta uma
mão-cheia de projetos, entre espetáculos ao vivo, a edição de três novos CD e
uma série de colaborações com alguns dos melhores executantes europeus da
música improvisada. Violinista português só fora de casa faz milagres.
Já em janeiro, Carlos Zíngaro atuará
em Vandoeuvre-les-Nancy, no festival “Musique Action”, um dos mais prestigiados
do género que se realizam todos os anos na Europa. Dois meses depois, em março
e abril, será a digressão pela Alemanha, Áustria e Suíça, integrado nos “Canvas
Trio”, ao lado da contrabaixista francesa Joelle Léandre, com a qual Zíngaro
vem há anos mantendo colaboração regular, e o clarinetista alemão Rüdiger Carl,
conhecido sobretudo pelos seus trabalhos em duo com a pianista Irene Schweizer.
Em junho será a vez do festival de Nocci, na Itália, de parceria com Joelle
Léandre.
No capítulo das edições
discográficas está prevista a saída de três novos CD do violinista, apesar de
tudo, português. “Carlos Zíngaro Solo au Monastère des Jerónimos” foi gravado,
como o nome indica, nesse mesmo local que durante séculos fez História e em
breve passará à história, trocando com o Centro Cultural de Belém o papel de
“ex-libris” da nossa vocação universalista. Na editora francesa “In Situ” e com
algum atraso, motivado por problemas técnicos surgidos na fábrica. Uma boa
oportunidade para as entidades culturais portuguesas descobrirem o músico,
ex-Plexus, ex-Banda do Casaco e desde há anos aceite fora de portas como membro
“oficial” da vanguarda europeia. Por tudo isto e pelo jeito que dá o local onde
o disco foi gravado, a Comissão dos Descobrimentos devia aproveitar.
Previsto está também um CD com os
“Canvas Trio”, para o selo austríaco Hat-Hut em cujas fileiras militam músicos
tão importantes como Anthony Braxton, Steve Lacy, Cecil Taylor e os Vienna Art
Orchestra. Por último, e ainda no formato compacto, uma colaboração com o trio
parisiense de eletro-acústica “Un Drame Musical Instantané”, constituído por
Jean-Jacques Birgé, Bernard Vitet e Francis Gorgé. De notar a terminação em “ê”
de todos os nomes – verdadeiramente dramática e eletro-acústica.
Durante o próximo mês de fevereiro,
Carlos Zíngaro colaborará com o teclista Richard Teitelbaum – já gravaram
juntos uma atuação ao vivo captada no Festival de Victoriaville, Canadá – na
apresentação em Berlim da ópera “Golem” inspirada na figura mítica judaica que
serviu de tema à obra homónima do místico e romancista Gustav Meyrink.
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