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26/10/2026

O primeiro debate dos anos 90 [Música Portuguesa]

 

pop rock >> quarta-feira, 13.01.1993

DEBATE

 

Música portuguesa

 

O PRIMEIRO DEBATE DOS ANOS 90

 

1992 foi o ano em que pela primeira vez, desde Amália, nomes da música portuguesa se impuseram além-fronteiras, o que aconteceu com Madredeus, LX-90 e até Rão Kyao. O ano em que um grupo português, os Resistência, com o seu álbum de estreia “Palavras ao Vento”, assomou ao top dos cem discos mais vendidos na Europa. Em que surgiram a concorrer para os primeiros postos do top português uma série de discos nacionais que ultrapassaram decididamente o plano da produção caseira. A qualidade de som do segundo álbum dos já citados Resistência e designado “Mano a Mano”, como o homónimo de estreia dos Zero, ou “Rock In Rio Douro” dos GNR não deixaram nada a desejar em relação ao melhor da produção estrangeira. Em paralelo apareceram editoras independentes, como a Moneyland Records, a MTM e a Numérica. E há muito tempo que não se apostava tanto na música portuguesa, justamente num ano em que a indústria da música declarou recessão em termos internacionais.

         Afinal, o que é que se passa na música portuguesa? Quais os desafios e as motivações? Que sons, atitudes e estéticas a atravessam à entrada de um novo ano? É preciso voltar a lançar a discussão e ninguém como os próprios músicos está em posição de dar respostas. Mas a presente situação tem também isto de inédito: nota-se, se não um conflito, pelo menos uma certa clivagem de gerações. Daí a escolha dos protagonistas do debate: José Mário Branco e Sérgio Godinho, que iniciaram as suas carreiras no final dos anos 60 e estiveram na linha da frente da música de intervenção pré-25 de Abril; Pedro Ayres de Magalhães e Carlos Maria Trindade, por seu turno, foram dos principais impulsionadores da chamada música moderna portuguesa, no início dos anos 80, enquanto membros dos Heróis do Mar; António Manuel Ribeiro, o UHF que é porventura o último dos puristas do rock português, e Adolfo Luxúria Canibal, o Mão Morta que em meados da década passada introduziu uma postura de rutura com o sistema das multinacionais. Finalmente, João Paulo Feliciano dos Tina & The Top Tem, que segue essa pista de independência, mas faz parte de uma nova geração que não canta na nossa língua, nem procura refletir valores portugueses. Fator adicional da escolha: tirando Sérgio Godinho, todos os intervenientes estão ou estiveram ligados a editoras e à produção discográfica local.

[Este debate foi concebido e orientado por Jorge Dias, Fernando Magalhães e Luís Maio. As fotos que o testemunham para a posteridade são de Alfredo Cunha]


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PÚBLICO – Chegados aos anos 90, há ou não um regresso da “mensagem” na música portuguesa, mais ou menos politizada, a fazer a ponte com os anos 70, depois de um certo vazio de palavras fortes na década passada?

ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL – Começo logo por negar isso. Se havia uma fação politizada que veio da pré-revolução, ou do pré-golpe de Estado, e que continuou nos anos seguintes com uma voz ativa e com mais tempo de antena em termos de grande público, o que é certo é que também já nessa época existia um outro tipo de música menos politizada, no sentido de ser menos militante e menos intervencionista de um ponto de vista social e político primário. Por outro lado, nos anos 80, se esse tipo de música perdeu a voz em termos de “mass media” e do grande público, não a perdeu totalmente, continuou a existir e o grupo que veio substituí-la, o rock português ou a música moderna portuguesa, também não era tão despolitizado como isso. A prova foi, por exemplo, que um dos grandes grupos dessa época eram os Heróis do Mar, que estavam longe de ser despolitizados. Tinham uma intervenção política específica, com outra linguagem, noutro campo porventura. Mesmo que a intenção fosse o divertimento.

Não é o aparecimento dos Resistência que nos vem dizer que há outra vez uma politização da música portuguesa nos anos 90. Primeiro, porque os Resistência estão a utilizar palavras da música dos anos 80, que era a menos politizada, portanto há logo aí uma contradição. Depois, os Resistência fazem outra coisa que é colocar a palavra em primeiro plano, com todas as consequências, possivelmente negativas, que é deixar morrer, de certo modo, a politização que houve nos anos 80, que ocorreu não só ao nível das palavras, mas também da ação musical, através de uma recusa de certos parâmetros musicais que os Resistência vão recuperar aos anos 70. No fundo, ao colocar a palavra na mó de cima, está a provocar o regresso estético dos anos 70, ou seja, ao que está para trás.


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PEDRO AYRES MAGALHÃES – Que não se confundam as coisas. Os Resistência não são um projeto no sentido de “grupo”. Nós estamos é envolvidos numa manobra. Uma manobra de resistência à dominação da vida social e cultural portuguesa pela influência anglo-saxónica. Depois, os Resistência foi uma iniciativa contra um estado de moleza que grassava há uns dois, três anos. Nesse sentido é “reacionário” a um determinado “statu quo”, não no sentido tradicional do termo. Quanto a ser um projeto de conservadores, é um conservadorismo no sentido de conservar as ideias e uma certa maneira de estar no mundo que a nossa geração consagrou e andou a cantar durante anos. As canções foram escolhidas a dedo. Quem quiser ler, os sintagmas estão lá todos.

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JOSÉ MÁRIO BRANCO – A questão das versões prende-se com o esvaziamento das ideias sociais. Chamem-lhe “crise das ideologias”, o que quiserem. Se não houver, por parte do músico, num disco ou num espetáculo, uma urgência, uma premência de dizer qualquer coisa, esse vazio aparece automaticamente. Então ele vai recorrer ao que já foi feito. A tendência para o revivalismo é um reflexo que leva a ouvir o antigo e de, através dele, se remotivar. Grave sim é quando isso passa a ter como significado qualquer coisa como “eu não sei o que dizer aos outros”.

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Um conflito de gerações?

 

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P. – Será um pouco por esse vazio de mensagem que hoje surge uma nova geração que não canta na nossa língua? Será condenável os músicos portugueses comunicarem com plateias portuguesas em inglês?

P.A.M. – Quanto mais forte for a nossa identidade cultural mais fortes serão todas as outras que nos chegam. Nunca mais tomaremos gato por lebre e nunca mais se tornará difícil a um tipo que só quer gravar um disco e passar num programa de rádio chegar lá e ouvir “se é português, não quero!”. Eu ouvi isso.

JOÃO PAULO FELICIANO – Eu estou-me nas tintas para isso... Sendo português, quando faço música, faço-o em inglês...

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P.A.M. – Qual é o problema? É o que quase toda a gente faz...

J.P.F. – Ainda bem que não tem problema nenhum. Não sinto a mínima necessidade de cantar em português.

A.L.C. – É preciso voltar a essa questão essencial que é a da língua. Voltar ao inglês para assumirem o rock, para mim, é o grande perigo, o grande erro e tem a ver com os Resistência. Ao mesmo tempo que os Resistência conseguem levar as palavras às pessoas, criam uma reação de negação dessa palavra, de negação desse tipo de música...

P.A.M. – Mas junto de quem?

A.L.C. – Junto das novas gerações. Tu vês as novas bandas rock e não há nenhuma a cantar em português.

P.A.M. – Ai é?

A.L.C. – Pois, tu está fora...

CARLOS MARIA TRINDADE – Não é um conflito de gerações mas de estilos.

 

P.A.M. – Essa responsabilização é abusiva...

A.L.C. – É evidente que não posso responsabilizar os Resistência a cem por cento. Mas que têm a sua quota-parte, sobretudo por causa do seu peso mediático, lá isso têm.

Quanto à questão de, em Portugal, poder haver música para as maiorias e música para as minorias, é uma questão de indústria. O mercado português é pequeno, as editoras já se veem “aos arranhões” para vender o “middle of the road”, quanto mais pensar em termos de música alternativa. Acaba-se sempre por cair nas pequenas editoras, com pouco dinheiro, com gravações mais ou menos artesanais, mais ou menos caseiras, mais ou menos mal gravadas, relativamente aos modelos comparativos que passam massificadamente na rádio.

SÉRGIO GODINHO – Olha que os Nirvana não têm o som mais “clean “ do mundo...

A.L.C. – Mas está muito bem produzido, eu não estou a falar de “clean”.

J.P.F. – Nunca esse foi um problema para mim, faço música em casa e gravo sem gastar dinheiro nenhum...

S.G. – Mas tem bem aquele som que vem do pequeno estúdio...

J.P.F. – Isso não é um problema.

J.M.B. – Como a humanidade não é estúpida, as multinacionais do som estão a começar a ter que dar resposta a essa insuportabilidade do vazio que a massificação criou. Quando se fala em vazio cultural, não é só o “eu não sei o que hei-de dizer às pessoas”. Além disso, é o “eu não li nem ouvi os antigos, não sou culto, não tenho referências”. E quantas vezes nós assistimos a malta mais nova do que nós que descobre a passagem do lá maior para o ré menor e depois para o dó e depois o sol e o mi sétima e depois o lá, e acha que descobriu a pólvora. E é legítimo, porque ele descobriu aquilo naquela altura.

Era importante esses grupos que passaram pelo Rock Rendez-Vous ouvirem Mahler. Não quer dizer que eu seja elitista e diga “os meninos precisavam de saber isto”, ou paternalista, se quiserem. Não é isso. É que faz-vos falta filhos. A cultura universal só o é numa coisa: nos destinatários. A origem da cultura nunca é universal, porque é aqui dentro. É o meu sofrimento de criador. É o meu confronto com o vazio e isso não é nada universal. Quando estou a criar, estou absolutamente sozinho, pendurado no vazio com o abismo à minha frente. É como quando entramos em palco e olhamos para o buraco escuro do outro lado.

Há uma coisa que pode ser limitativa na conversa. O caso do grupo Resistência, sobre o qual tenho opinião formada; mas o facto de eu achar que o disco deles é mau – assim como já disse ao Pedro que acho muito boa a experiência dos Madredeus – não quero que isto seja interpretado como eu dizer “mais valia não ter havido Resistência”. Não é. Acho muito bem. É errado pôr os Resistência no centro da conversa: “Isto está agora a dar, vamos ver se é bom.” O que está a dar não é os Resistência, é a análise do movimento todo. Alguém aqui falou em outras coisas que aconteceram na música portuguesa? Coisas importantes. O disco do Vitorino não é importante? O disco da Amélia Muge não é importante? Porque é que de repente se fala nos Resistência? Porque foi mais vendido, porque foi mais falado, porque foi agora a jogada das guitarras acústicas. Jogada de quê pá? É gira, malta porreira, boa ideia, mas já foi feita milhões de vezes por milhões de pessoas. Isso não é jogada nenhuma. A cultura não se faz com jogadas, nem com negócios. A cultura é o que fica depois disso tudo: é o sarro do capitalismo.

J.P.F. – Não tenho mais nada a dizer depois do que ele disse. Isso só confirma que não conflito de gerações nenhum.

 

Multinacionais e independentes

 

P. – A música é hoje em dia inseparável da imagem. Mas os artistas portugueses estão de um modo geral habituados a pensar ainda e apenas em termos de som. Como é que encaram esse que é um dos grandes desafios para a música portuguesa dos anos 90?

C.M.T. – A música hoje em dia não existe em si. É uma entidade abstrata, que me dá gozo pessoalmente e na qual acredito, mas que não existe sozinha, como existia nos anos 60, em que as pessoas ouviam de olhos fechados o som. Hoje em dia veem de olhos abertos a imagem. O som é um subproduto.

J.P.F. – Mas eu vou ouvir o John Cage e não preciso de telediscos para nada.

C.M.T. – Mas estás-me a falar de um exemplo que é pouco representativo para a indústria nacional.

J.P.F. – Mas nós não estamos a falar de indústria, estamos a falar de música. A indústria é outra coisa.

C.M.T. – Nós estamos a falar de coisas de peso. As coisas que não têm peso hoje e vão ter amanhã só se veem depois, neste momento nem sequer se sabe que existem e se calhar elas já aí estão. Por isso vamos deixá-las. A nível do vértice “media”-imagem-som, digo que se não evoluirmos a par e passo, nunca conseguiremos exportar música portuguesa, por muito boa que a façamos. E eu tenho a ideia que neste momento Portugal é, na Europa, um dos países que mais mexem a nível criativo, porque a Europa está numa crise de valores e Portugal ainda não se esgotou, pois esteve protegido por um isolamento protecionista, mas que pode funcionar a nosso favor. Portanto nos próximos anos devemos batalhar...

P. – O problema da afetação da música pela promoção vídeo traz implícito o da dualidade criatividade/indústria. Como é que este eterno problema se coloca hoje para a música portuguesa às portas do século XXI, quando as independentes de rock começam a dar os primeiros passos?

C.M.T. – Eu, que estou na esquina do criatividade com a indústria, sei que não é possível. Não é possível a harmonização entre a arte e o comércio. Não existe isso. Há um conflito constante.

J.P.F. – Não é possível a harmonização. O que é fundamental é que as coisas se distingam umas das outras. Enquanto se confundir a criação com a indústria, o estado das coisas vai continuar o mesmo. São duas coisas ligadas entre si, porque as coisas estão inter-relacionadas. A música existe inter-relacionada com a indústria, assim como a indústria está inter-relacionada com a fotografia e a fotografia com a publicidade e a publicidade com o Omo e o Omo com a roupa, e a roupa com a máquina de lavar e a máquina de lavar com a indústria da tecnologia.

Agora que não haja confusões: música é música, ou arte ou criação, e a indústria é outra coisa que pega nesse produto e através de um sistema, que está mais ou menos bem organizado, o comercializa, o vende, o faz chegar a outras pessoas. Mas quando o criador está a pensar nos números das vendas, aí podem-se pôr problemas complicados no ato criativo.

C.M.T. – Isso só acontece a partir de um certo estado de veterania, não compreendo que um adolescente pense nisso.

S.G. – Um adolescente pensa mesmo isso.

J.P.F. – Se calhar até é fundamental que se pense nisso, porque o que é importante é que se pense e se tenha consciência desse dado. Ali estão as pessoas que compram, aqui está a máquina que vende e aqui estou eu, e estou sozinho. E agora vamos lá ver o que é que quero fazer.

C.M.T. – Mas aí chegamos ao tal conceito de editora independente, que é a pequena editora que percebe o ato criativo e o desenvolve, trata-o e fá-lo chegar ao público mais adequado ao tipo de música que existe e ao tipo de energia que essa música vai transmitir às pessoas. É isso que não existe em Portugal.

J.P.F. – Mas isso tem a ver com o estarmos num estado...

C.M.T. – ... De pré-história...

J.P.F. – ... De pré-história, claro. Mas já existem algumas. Neste momento, existem cinco, dez editoras independentes...

C.M.T. – Já existiram mais.

J.P.F. – A determinada altura, nos Estados Unidos ou na Alemanha, que são dois países que têm um movimento de edição independente bastante forte, também só existiam cinco ou dez, agora existem muitas mais. Algumas até já estão a fechar. Portanto nós se calhar vamos lá chegar...

J.M.B. – Ser editora marginal em Inglaterra é possivelmente ser maior que a Polygram portuguesa ou a Valentim de Carvalho. É preciso uma dose mínima de oxigénio económico para poder ser marginal. Num mercado pequenino onde se vendem poucos discos, onde a esperança de venda não atinge o “break-even” que rentabilize os custos fixos à partida, tu não consegues sequer ser marginal. A única hipótese – e foi este o raciocínio que me levou a tomar determinadas iniciativas, na cooperativa de que faço parte, a UPAV – é alargar esse espaço. Para aparecerem só coisas de que eu gosto? Não, para aparecer de tudo.

C.M.T. – Só temos que fazer uma coisa: obrigar os A&R e os responsáveis dos outros países a virarem o pescoço para aqui, coisa a que eles não estão habituados. O olhar deles para possivelmente em Espanha. Eles não sabem o que se passa aqui.

J.P.F. – Nem querem saber.

C.M.T. – Se queres saber, neste momento, em Londres, fala-se da dinâmica do meio musical português. No meio, não no público. É um princípio.

J.P.F. – Mas depois chegam cá e apanham com coisas que depois dizem: “Nós temos lá disso, mas muito melhor”, e vão-se embora outra vez.

 

O que faz falta

 

P. – É curioso que as independentes se comecem a mexer, em Portugal, numa altura em que nomeadamente em Inglaterra estão todas a fechar portas...

C.M.T. – Para abrir independentes, ainda não estão criadas algumas alíneas: atrair investidores de outros meios – foi o que o futebol fez. Qualquer orçamento cada vez é mais alto: se eu gravava discos há dois anos com dois mil contos, agora gravo com quatro ou cinco e ainda preciso de mais três mil para o vídeo, preciso de mais não sei quanto para uma capa e o “poster” e mais não sei o quê para a política de “marketing”. Nesse aspeto, quanto ao meu esforço na Polygram, eu costumo dizer que sou um “free lancer” numa multinacional e tenho profundas dissidências com a companhia em que me insiro, mas tenho uma visão pessoal que tenho de adaptar à política da empresa e aos meus patrões estrangeiros que são os que me chateiam mais – portanto eu tenho que ser frio por um lado e tenho de ter entusiasmo por outro. Isto é uma ginástica impressionante.

Se eu estivesse numa independente, poderia ter mais liberdade e escolher estilos. Mas, para funcionar, trataria de estabelecer um “target” anual, porque se não seria a falência – é facílimo ir à falência num ano. Aliás, o Pedro Ayres tem uma boa experiência disso na Fundação Atlântica. Podes dizer qual foi o grande problema: é que nos primeiros doze meses a Fundação não produziu um “hit” de vendas.

P.A.M. – A independente esbarrou nesta questão. “Temos aqui esta música ou este grupo que nunca tinha gravado antes. Toma!” Então dás ao vendedor da grande distribuidora e o gajo vende à comissão e tem um ordenado fixo. A loja só quer comprar êxitos, porque não quer ficar com monos. E então eles dizem: “Por cada mono que eu deixo numa loja, eu levo dez novos lançamentos bem sucedidos, para recuperar o meu prestígio.”

Há tempos tive ocasião de estar com os maiores distribuidores e vendedores de discos, e perguntei, por curiosidade: “Vocês estão organizados, têm números comuns? Têm dados para mim, que sou músico?” “Não. Eu não vou falar com aquele outro vendedor porque o gajo lixa-me, e se aqui se fala, gera-se uma conspiração.” Eles não falam uns com os outros, portanto não há dados sobre a venda dos discos, e tu, sentado numa independente, vais escolher o azul ou o amarelo com que critério? Ou então vendes sempre pelo correio. Que é o que sobra aos portugas...

ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO – Eu não acredito na indústria, ela não existe. Nomeadamente a década de 80, que eu atravessei, foi extremamente importante para nós músicos. Melhoraram os estúdios, melhoraram as empresas de som, melhorámos nós em cima do palco, mas quase mais nada mudou à nossa volta. E com um grave problema: o disco não faz parte dos costumes do português. O miúdo de 15/16 anos, que recebe dinheiro do pai, durante um mês seleciona o que pode comprar e se calhar pode comprar só um disco. Será que o tipo vai comprar o disco dos UHF, se saiu o dos U2 que ele estava à espera há três anos? O mercado do disco português será o quê? O Carlos Maria sabe isso muito melhor que eu. Cinco mil? Seis mil? Sete mil unidades vendidas por disco? Talvez nem dez mil, que já é prata...

C.M.T. – Sim, uma prata hoje já é uma boa meta. Boa entre aspas.

S.G. – Nos Estados Unidos nem imprimem.

A.M.R. – Isso estrangula a indústria. Porque um artista que vende dois, três mil discos não é independente financeiramente para prosseguir a sua obra – isso é que é o grave problema da nossa indústria. Nós estamos a ver uma série de casas multinacionais, que estão cá como meros escritórios de representação, porque vão todos prestar contas a Madrid.

P.A.M. – Tudo o que fica são casos isolados. É uma história de gajos teimosos.

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Tocar onde?

 

P. – Um dos grandes problemas com que se debatem esses “gajos teimosos” que fazem música em Portugal é o circuito de salas de concertos, sobretudo ao nível da província. Qual é o ponto da situação da música ao vivo no nosso país, em 1993?

P.A.M. – Há falta de consumo cultural, ou de exposição do que nós temos no nosso país, e que a meu ver é uma coisa dramática. Diz o Governo: “Nós vamos fazer uma política cultural com tal violência que vamos encher o país de teatros.” Isto é falso. Quando andei na digressão com os Madredeus em Portugal, há dois anos, andei a abrir teatros que estavam fechados. Mas teatros das capitais de distrito. Cheguei a esta conclusão: os nossos compatriotas não têm necessidade nem o gosto de receber formas de cultura, de entretenimento, universais, que é o que fazem os nossos vizinhos europeus. Eles têm o orgulho de convidar ora o português, ora o chinês. Têm um programa. O diretor do teatro diz: “Vejam bem, este ano tenho um programa do caraças.” E vai lá toda a gente ver, porque está curiosa e porque gosta de se entreter com aquilo.

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S.G. – Acho que se deviam criar os equipamentos, em cada capital de distrito – no mínimo –, salas médias e bem equipadas que deveriam ficar à disposição, não à nossa, à das populações. Mesmo em Lisboa é absolutamente incrível, para alguém que venha de fora, dizer-se o que é que se está a passar. Se fores ao Rio de Janeiro, há o Canecão, há o Scala, tens sítios mais alternativos, e não é uma grande cidade, eles dizem que é um deserto comparado com São Paulo. O que acontece em Lisboa é que não há temporadas, que é uma coisa que não passa pela cabeça de ninguém...

J.M.B. – É a única capital europeia que não tem “music-hall” permanente. Até o Liechtenstein...

S.G. – Não há uma programação durante todo o ano de onde estão a atuar os Madredeus, os Resistência (risos...). Voltando às cidades de província, então o deserto é ainda maior e, não ficando só pela música, isso acontece também por exemplo na distribuição do cinema.

P.A.M. – Porque é que os gajos não se batem por ter um teatro?

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S.G. – Claro, uma coisa é baterem-se localmente e muitas vezes há reconversões de teatros. Mas era necessário que houvesse salas médias bem equipadas, um auditório que estivesse à disposição não só da música, mas até de outras artes, e, mesmo dentro da música, de vários estilos...

Da mesma maneira em relação às editoras, uma das razões por que eu saí amigavelmente da Polygram foi por não haver uma rede de distribuição. Quando eu fui fazer a “tournée” “Na Vida Real”, não havia o meu disco no Porto! A situação não melhorou muito, na EMI, onde estou agora: fui fora de época fazer o “Escritor de Canções” no Porto e foi-me dito que os donos das lojas de discos só estavam interessados nas novidades. E no entanto o Rivoli esteve mais que cheio.

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Vícios de comunicação

 

P. – Hoje em dia, em Portugal, há mais estações de televisão e programas musicais, mais rádios locais, e a imprensa musical escrita tem vindo também a crescer. Será um fator positivo para a música portuguesa este progresso da sua cobertura mediática?

J.M.B. – A comunicação começa aqui à volta desta mesa, com três senhores que escrevem todas as semanas, com os programadores de rádio e televisão e com quem decide quem vai ouvir o quê. E vou formular uma opinião fazendo uma pergunta: porque é que o suplemento do PÚBLICO se chama PopRock? Porque é que noventa e tal por cento dos discos de música ligeira citados no “Expresso” pelo João Lisboa e pelo Ricardo Saló são de pop-rock anglo-saxónica? Há também que fazer uma educação dos comunicadores? Será que os comunicadores também têm a tal falta de referências, a tal falta de largueza de horizontes, a tal falta de cultura de que se falou há bocado?

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S.G. – Não é tão maniqueísta...

J.P.F. – Não é um problema de maniqueísmo. É um problema de formação. Assim como o problema se põe ao nível do público, também se põe ao nível dos músicos e ao nível dos comunicadores. Eu não tenho dúvida que em Portugal faltam comunicadores – jornalistas, programadores de rádio e televisão, etc. – com bagagem. Não há muitas pessoas que saibam profundamente sobre aquilo que estão a falar. Posso falar de uma experiência editorial recente que eu tenho (Moneyland Records). A gente põe cá fora um objeto e as pessoas, não é que tenham dito mal ou bem, mas não sabem pegar naquilo. Pegam naquilo de uma maneira desajeitada.

S.G. – O que eu penso é que houve uma geração – aí é que eu acho que é um problema de geração – de críticos e divulgadores que era informada, mas que começou a estabelecer uma reação de cansaço e a tomar a novidade pela novidade, fazendo tábua rasa do que está para trás. Isso aconteceu com uma certa geração de jornalistas e de críticos. A que se sucedeu – com muitas honrosas exceções – é mais ignorante, porque bebeu desses. E é uma pedagogia que se vai repercutindo. O que é certo é que há falta de memória ativa...

P.A.M. – Partilho da ideia que há duas gerações de comunicadores. Quando comecei, no fim dos anos 70, a querer divulgar música minha, encontrei nas estações de rádio e nos jornais – na televisão não havia nada – pessoas muito bem formadas, mesmo que fosse sobre os anos 60, “after-hippies”, já uns “freaks” muito retintos e tal, mas tinham aquele ideal de que também eles eram parte de um movimento comunitário que partilhava ideias e filosofias.

Hoje em dia, o mais importante do trabalho dos jornais funciona para com os vizinhos comunicadores das cadeias de televisão e estações de rádio. Este, para mim, é o fator mais importante do estado de divórcio a que nós chegámos entre o trabalho da comunicação social e o grau de atividade que nós artistas temos de manter para continuarmos a gravar, tocar e permanecermos no ativo.


Um inquérito para mudar de ano [Música Portuguesa]

 
 
pop rock >> quarta-feira, 06.01.1993
INQUÉRITO
 

UM INQUÉRITO PARA MUDAR DE ANO
 
É um inquérito para gente que faz música e mais coisas sobre música e sobre o resto. Sobre um ano que passou e outro que já começou. Foi provocado mais por curiosidade epidérmica que por preocupações intrínsecas. Logo de início, convém avisar que os inquiridos não formam um conjunto homogéneo, ou representativo do que quer que seja. São músicos portugueses, foram, por uma razão ou outra, notícia em 1992, e é tudo. Depois, as respostas são como as perguntas – isto é, variam. Umas são sérias e empenhadas, outras caprichosas e triviais, algumas até são a dar para o disparate. Em qualquer caso, toda a gente, ou quase toda, parece ter opinião formada sobre os Resistência.
 
Este inquérito foi realizado por Amílcar Correia, Jorge Dias, David Pontes e Fernando Magalhães
 

Sandra Baptista
Acordeonista dos Sitiados

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Melhor músico/banda
Tenho várias preferências, no que diz respeito a melhores músicos. A melhor banda, talvez os Madredeus.
 
Promessa
Entre Aspas.
 
Melhor disco
Não consigo ser assim tão radical e dizer qual é o melhor e o pior. Digamos que é um estado de espírito que cada disco nos dá.
 
Pior disco
A mesma resposta que a anterior.
 
Acontecimento musical mais relevante
Sem dúvida alguma os Resistência.
 
Surpresa
Ainda está para vir.
 
Tendência
Talvez tenha sido a festa. As pessoas precisavam de festa, de alegria.
 
Anedota/equívoco
Foram bastantes, mas a maior barraca, para mim, foi o trambolhão que dei dos monitores devido à chuva que estava naquela noite... Parti o acordeão. Mas as coisas lá se resolveram e o espetáculo não parou.
 
Loucura
Em todos os nossos espetáculos e no público.
 
Projeto para 93
Tocar canções novas, incluídas no nosso novo espetáculo.
 
Sonho
Ver mais bandas portuguesas a apresentar novos trabalhos e que houvesse mais locais para espetáculo, em condições. Talvez fosse por aqui que surgissem novas bandas.
 
Europa
Sem racismo.
 

Zé Pedro
Guitarrista dos Xutos & Pontapés e apresentador do “Vira o Vídeo”

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Melhor músico/banda
Nuno Bettencourt.
 
Promessa
Rockódromo em Lisboa.
 
Melhor disco
Mutantes S. 21
 
Pior disco
Muitos.
 
Acontecimento musical mais relevante
GNR em Alvalade.
 
Surpresa
Metallica em Paris.
 
Tendência
Guitarras.
 
Anedota/Equívoco
Joker.
 
Loucura
O empréstimo monetário ao Tio Aníbal.
 
Projeto para 93
Ter um Johnny Guitar compatível com as minhas ambições.
 
Sonho
Académica de Coimbra na 1ª Divisão.
 
Europa
Mandem mais papel para deixar de emprestar ao Tio Aníbal.
 

Zé Ferrão
Guitarrista dos Repórter Estrábico



Melhor músico/banda
John Lee Hooker.
 
Promessa
Boosty Collins/George Clinton.
 
Melhor disco
Ronny Jordan – The Antidote.
 
Pior disco
Resistência.
 
Acontecimento musical mais relevante
Frank Sinatra no Estádio das Antas.
 
Surpresa
Xanana Gusmão.
 
Tendência
Persistência.
 
Anedota/equívoco
Europa.
 
Loucura
Monumento ao empresário.
 
Projeto para 93
Repórter Estrábico.
 
Sonho
F.C. Porto campeão europeu 92/93.
 
Europa
Anedota-equívoco.
 
Ana Deus
Vocalista dos Três Tristes Tigres e ex-Ban



 
Melhor música/banda
Talvez Red Hot Chilli Peppers ou Nirvana.
 
Promessa
A que fiz a mim mesma.
 
Melhor disco
Não ouvi discos. Ouvi boas e más músicas. “Lithium” dos Nirvana e “Hendrix” do Seal.
 
Pior disco
O pior já esqueci.
 
Acontecimento musical mais relevante
Um que não vi: David Byrne em Lisboa.
 
Surpresa
Continuarmos vivos.
 
Tendência
Quase todas.
 
Anedota/equívoco
Há obscenidades na informação televisiva. Broad Cast News à portuguesa.
 
Loucura
Realidade virtual.
 
Projeto para 93
Músicas, cenários, luzes, roupas, objetos, imagens/arrumar a casa.
 
Sonho
A sã história de cantar.
 
Europa
Europa/América.
 

Nuno Rebelo
Compositor e multinstrumentista dos Plopoplot Pot e de outros projetos musicais alternativos. Fundador dos Street Kids. Autor do duplo álbum “Sagração do Mês de Maio”.



 
Melhor música/banda
Fred Frith – não será certamente o melhor, mas continua a ser o meu preferido.
 
Promessa
Prometo tentar de novo.
 
Melhor disco
Algum que provavelmente desconheço e que deve ter vendido muito pouco ou quase nada.
 
Pior disco
Noventa e cinco por cento de todos os discos editados durante o ano no mundo inteiro.
 
Acontecimento musical mais relevante
Expo 92 (concertos etnográficos), pela possibilidade de, no mesmo local, se poder assistir a concertos de todo o mundo e de ter acesso a alguns instrumentos artesanais.
 
Surpresa
A minha Polyp Ploc Orquestra (alunos da Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espetáculo) e as suas atuações de música ao vivo para o filme “Nosferatu” de Murnau.
 
Tendência
Esperar por 93.
 
Anedota/equívoco
Era uma vez um crítico musical que tinha uma escrita tão explosiva que as palavras explodiram e lhe rebentaram os dedos (Ah, ah, ah, ah – riem os músicos em geral, carregadinhos de humor negro).
 
Loucura
De génio e de louco nem todo o mundo tem um pouco – 4m33 de silêncio pela morte de John Cage.
 
Projeto para 93
Iniciar-me em concertos a solo e em instalações vídeo.
 
Sonho
Sonhos são intimidades que não quero contar a toda a gente.
 
Europa
1.500.000 contos por dia, não é?...
 

Maria João
Cantora de jazz. Ou simplesmente cantora. Colaborações regulares com o grupo Cal Viva, Mário Laginha e a pianista japonesa Aki Takase.



 
Melhor músico/banda
Todo aquele que cumpriu o que se propôs cumprir, seja por ter melhorado no instrumento que toca, seja por ter composto o que quis, ou por ter vendido muito, para esta ou aquela editora.
 
Promessa
O meu filho João que fará 3 anos em 1993.
 
Melhor disco
“O Sol”, de Maria João com o grupo Cal Viva. Cantei os temas de que mais gostava, com os músicos que quis. Gravei-o num dos melhores estúdios do mundo, para a Enja. E ainda por cima está a vender bem. Porreiríssimo!
 
Pior disco
Todos aqueles feitos sem dedicação, a pensar apenas nas vendas, mal tocados, mal cantados, etc. Uuhhh, fora, fora!
 
Acontecimento musical mais relevante
Quase todos os concertos que aconteceram este ano. Muitos e bons.
 
Surpresa
I Festival de Jazz de Guimarães. Bem organizado, ótimas condições, sala lindíssima e sempre cheia, o que prova que, se as coisas forem bem feitas e com coração, festivais deste tipo podem fazer-se em qualquer ponto do país.
 
Tendência
Melhorar.
 
Anedota/equívoco
Várias, mas não digo nenhuma por delicadeza.
 
Loucura
O Festival de Jazz Lis’ 92, das Festas da Cidade, feito com boas intenções e excelentes propostas musicais, mas em que a quantidade foi tal que o público não conseguiu dar resposta a tudo. Foi um grande fiasco financeiro, uma pena. Fiquei furiosa com o desperdício.
 
Projeto para 93
Duo com Mário Laginha e disco já em março, provavelmente para uma “major” internacional. Trio com Bobo Stenson e Christof Lauer, disco no final do ano. Quarteto com Lauren Newton. Cal Viva. Hipótese de quarteto com Aki Takase, Naná Vasconcelos e Dino Saluzzi.
 
Sonho
Que se realizem todos os meus sonhos.
 
Europa
Vai ser a confusão deste ano. As broncas vão continuar até haver qualquer coisa que rebente.
 

Amélia Muge
Compositora, intérprete de um dos discos do ano de música popular portuguesa, “Múgicas”. Atuou ao lado de José Afonso e Júlio Pereira.



 
Melhor músico/banda
Sh... qualidade, qualidade... Quem a tem... seja discreto (cala-te boca!).
 
Promessa
As “Cantigas de Maio” em disputa com a “margem de certa maneira” (que saudável que é a concorrência), este ano e sempre, por enquanto (sem revivalismos fora daqueles que fizeram estas promessas tão genuínas).
 
Melhor disco
“15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa”, da Brigada Victor Jara.
 
Pior disco
Se me tivessem pedido a pior cassete, eu tinha uma data de gente candidatável. Seja como for, disco ou cassete, é preciso ter cá uma Resistência...
 
Acontecimento musical mais relevante
Até que poderiam ter sido os Encontros de Música Europeia.
 
Surpresa
“Ki faxiamu noi kui” – isto é que é sonoridade. [Peça que esteve em cena no espaço da Companhia Teatral do Chiado.]
 
Tendência
Outras músicas (as a sério e as a brincar, para não falar nas feitas à pressa, ou na sopinha de pedra).
 
Anedota/equívoco
Os chapelinhos alta voltagem de artifício, com ou sem ventoinha.
 
Loucura
Ver chegar D. Sebastião carregadinho de ecus, ecoando à brava qualquer mnemónica obsessiva.
 
Projeto para 93
Combinar novas formas de estar (artístico-vividamente falando) com propostas de espetáculo. Com nome em primeira mão: “Mus & calidades” (ilimitadas, como comentário à parte). E com a UPAV. Sempre.
 
Sonho
Como ter um sonho de expulsar os vendilhões do templo sem ser logo conotada, no mínimo, com a madre Teresa de Calcutá?
 
Europa
Qualquer dia já não podemos ouvir falar nela. E se falássemos do Atlântico? Ou do Índico? Vá lá, do Mediterrâneo. Meter água... assumidamente.
 

José Mário Branco
Compositor, arranjador, intérprete. Fez parte do GAC – Grupo de Ação Cultural e do Teatro do Mundo. Sócio fundador da cooperativa cultural UPAV. Realizador do programa radiofónico Música Portuguesa, com Certeza.



 
Melhor músico/banda
José Afonso. Com toda a sua obra, ainda é o melhor de todos os anos.
 
Promessa
Amélia Muge.
 
Melhor disco
“15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa”, da Brigada Victor Jara.
 
Pior disco
Hesito entre o dos Resistência e alguns que tive a sorte de não ter que ouvir.
 
Acontecimento musical mais relevante
Concerto de Hermeto Pascoal, um dos melhores músicos do mundo. Tocou em Lisboa para uma sala quase vazia.
 
Surpresa
Surgimento de pequenas editoras alternativas, sobretudo no Norte do país.
 
Tendência
Como alguém escreveu recentemente (e eu concordo), o movimento do “rock português” confronta-se com o seu vazio congénito. Esgotado o internacional-parolismo, prolonga-se a agonia com o nacional-revivalismo.
 
Anedota/equívoco
A notícia, lida algures, de que Santana Lopes e La Féria têm como projeto, para Lisboa 94, uma ópera-rock portuguesa cujo título (e tema) será “Salazar”. Se for verdade; demissão, já!
 
Loucura
Haver ainda quem acredite ser possível vencer os interesses do poder e do dinheiro, e os desinteresses da ignorância e da incultura, safando a música portuguesa da asfixia que lhe impõem as multinacionais.
 
Projeto para 93
Música portuguesa. Com certeza. Mais e melhor.
 
Sonho
Música universal. Com certeza. Tão rica e multifacetada.
 
Europa
As fronteiras europeias da música abrem-se nos dois sentidos. Oxalá os nossos governantes aprendam alguma coisa.

 
Isabel Leal
Vocalista dos Jig, grupo portuense que se tem dedicado à interpretação de música tradicional de raiz celta.



 
Melhor músico/banda
Se me colocar apenas como observadora do impacto musical que um grupo pode ter, os GNR foram a melhor banda de 92. Se pensar realmente no que me toca, acho que ainda não surgiu nenhum grupo que me encantasse tanto como os Madredeus (principalmente aquela voz), apesar de começarem a necessitar de um novo disco de originais.
 
Promessa
Um grupo do Porto muito prometedor, os Frei Fado Del Rey. Tocam música portuguesa com um som acústico e dão um grande destaque às vozes femininas. Estão à espera de gravar um disco proximamente. Espero que não demorem muito, pois fazem falta grupos assim.
 
Melhor disco
Não houve nenhum que me agradasse ao ponto de o ouvir vezes sem conta, como aconteceu com os dos Madredeus, Trovante e Rui Veloso em anos anteriores. No entanto, gostei muito de ouvir algumas músicas da Amélia Muge.
 
Pior disco
Pode dizer-se que o melhor disco é aquele que mais ouvimos, mas o inverso não acontece, pois se não se gosta não se ouve. E há tanta coisa que não se ouve!
 
Acontecimento musical mais relevante
Concerto dos GNR em Alvalade.
 
Surpresa
Sitiados e o impacto que conseguiram ter, goste-se ou não deles.
 
Tendência
Repetir fórmulas através da recuperação de temas musicais de um passado recente, vestindo-os de novas cores, por vezes enriquecendo-os, outras vezes tornando-os irreconhecíveis ou mesmo inaudíveis.
 
Anedota/equívoco
Concerto dos Guns N’ Roses, com todos os incidentes ridículos que ocorreram, entre eles a postura do vocalista, que cantou deitado para se proteger dos ataques inimigos.
 
Loucura
Os Jig terem-se “atirado” para a produção independente de espetáculos e terem conseguido um certo êxito na apresentação no S. Luiz, em Lisboa.
 
Projeto para 93
Gravar finalmente o disco dos Jig com temas cantados em português.
 
Sonho
Espalhar pelos quatro cantos do mundo a música que me dá prazer cantar e ouvi-la cantada por outras vozes.
 
Europa
Uma Europa agitada por grandes mudanças a todos os níveis. No campo musical penso que haverá oportunidade para trocas e influências mútuas, apesar da manutenção das diversidades culturais existentes.
Os Jig têm aqui algo a dizer, pois, de certo modo, foram pioneiros na abertura à música celta em Portugal.
 

Tentúgal
Líder dos Vai de Roda



 
Melhor músico/banda
Carlos Zíngaro/Penguin Cafe Orchestra.
 
Promessa
O projeto e trabalho do grupo U-Nu.
 
Melhor disco
Aqua, Ficções/Pieces of Africa, Kronos Quartet.
 
Pior disco
Moby Dick, Moby Dick.
 
Acontecimento musical mais relevante
Sem dúvida o III Festival Intercéltico do Porto e a estreia mundial de “The Seville Suite” de Bill Whelan, pela RTE Concert Orchestra, no Teatro de La Maestranza, Sevilha.
 
Surpresa
Pela negativa, o “Fogo” – Sétima Legião.
 
Tendência
La Féria e Cª – Sociedade anónima de “Chulas” e “Malhões” Ilimitada. Facilitamos o mau gosto e a mediocridade com boa digestão. Contacte-nos! Também temos sucedâneos!!
 
Anedota/equívoco
Sitiados, Resistência e La Férias.
 
Loucura
Acreditar no futuro da música portuguesa, apesar das bruxas e papões que nos fazem perder, momentaneamente, o rumo, lutando contra os “altifalantes sem barriga” que nos comem a atividade de músicos, nos abafam os instrumentos... e as mentes.
 
Projeto para 93
Vai de Roda, sempre!! E o seu próximo trabalho fonográfico. Concertos em Inglaterra, Dinamarca, Noruega e Galiza.
 
Sonho
Estar vivo e tentar ter a cabecinha no lugar. Já agora, ó Sr. Serafim, quando é que edita em CD o 1º trabalho do Vai de Roda?
 
Europa
Quim Barreiros para presidente já!! Livrai-nos, senhor das tetas dos Falcões e Sa(n)tánas, e não nos deixeis cair na tentação de “mamar em seus subsídios”, para bem da “Música (em) Portugal”.