16 de Dezembro 1992
OS MELHORES DO ANO - OBSCUROS
Pyroclastics
Cuneiform, import. Contraverso
Os Birdsongs of the Mesozoic não habitam na
Dixieland mas o jazz corre-lhes nas veias, só que misturado com outros líquidos
orgânicos. Dominam a arte do “riff”, isto é, dos módulos repetitivos, das
insistências melódicas que evoluem por acumulação. Na sua música começa-se por
sentir poder, uma força que impele cada canção como um motor turbo e que raras
vezes lhes concede espaço para se deleitarem com tempos mais descontraídos. Nos
Birdsongs habita um génio que se manifesta nos sopros vulcânicos de Ken Field e
nas teclas em constante combustão de Erik Lindberg. “Pyroclastics” é fogo. Que
ninguém se escandalize se se disser que nestes pedaços de melodia que não
cessam de se enovelar e procurar novos acentos é possível vislumbrar o espectro
dos Van Der Graaf Generator, de Hugh Branton e David Jackson. Nem sequer falta
uma versão delirante do tema musical dos Simpsons.
Bajo El Sol Jaguar
No-CD Rekords, import. Ananana
Jorge Reyes é o pesquisador
das civilizações antigas mexicanas, dos maias e astecas, assumindo-se como um
mago da eletrónica preocupado em fazer os “samples” e sintetizadores soarem
como instrumentos primitivos. Na mesma linha dos anteriores “Niérika”, “Musica
Mexicana Pré-Hispanica” e “Cronica de Castas” o novo álbum de Reyes torna ainda
mais intensas as sombras e os jogos de luz de uma música telúrica, que se
desenrola em batimentos tribais, materiais da natureza ou o próprio corpo
humano percutidos, “didgeridoos” noturnos e sequenciadores conectados aos
ritmos da terra. O Yuki Conjugate, Lights In A Fat City, Jon Hassell, Brian Eno
(de “On Land”), Steve Roach e Jeff Greinke, todos eles inventam à sua maneira
as músicas do chamado “Quarto-Mundo”. Jorge Reyes acrescenta-lhes a respiração
e a pulsação cardíaca de um organismo vivo. As alucinações de Carlos Castañeda
materializadas.
Soma
Hearts of Space, import. Ananana
Segunda colaboração da dupla, na
sequência de “Strata”, do ano passado. “Soma” é daqueles álbuns capazes de
conferir à “new age” um rosto respeitável e a sedimentação de um estilo que
disco a disco não cessa de se depurar e que encontra raízes no passado recente
os dois compositores.
“Soma”
era a bebida que os vedas consumiam para entrar em comunicação com as
divindades. Os gregos antigos usavam a mesma palavra para designar o corpo.
Passado para a música, “Soma” é uma sinfonia de texturas eletrónicas combinadas
com flautas étnicas, dumbeks, didgeridoos, sons naturais e vozes sintetizadas à
deriva no cosmos. Música que induz ao transe ou à paranóia consoante o estado
de espírito do auditor e que, surpreendentemente, aponta Klaus Schulze
(sobretudo de “Moondawn” e “Mirage”) como dos mais importantes precursores da
nova escola etno-eletrónica.
Voiceworks
Eva, import. Contraverso
O tema é a manipulação da voz
através da panóplia eletrónica colocada ao dispor de quem utiliza o estúdio
como instrumento preferencial de composição. David Cunningham (dadaísta nos
Flying Lizards, insondável em “Grey Scales”, monótono em “Water”) aponta as
máquinas ao canto humano e faz sair do outro lado conversas de humanóide. Os
maquinismos trituram as frequências naturais, segundo um processo inverso ao
dos Balanescu Quartet, que em “Possessed” processam o som sintético dos
Kraftwerk em sinais analógicos para quarteto de cordas. O compositor diz que “a
voz é o elemento que unifica os diversos tratamentos sonoros” e recusa-se a
definir “Voiceworks” como “systemas music” convencional. É um mutante com
discurso próprio (que remete para uma obra composta por David Behrman nos
mesmos parâmetros – “Leapday Night”), com a grandeza da “Carmina Burana” de
Carl Orff e a voz tão resistente à tortura como as transfigurações vocais de
Paul de Marinis.
Solitudes
ECM, distri. Dargil
Música da voz, música de
percussões, música religiosa. Tamia evolui entre a tradição e a experimentação,
sem nunca perder de vista a harmonia e o equilíbrio tímbrico na conversa a dois
com as percussões. Pierre Favre, reduzida a cinzas a fogueira do “free” e o
frenesim da companhia de Michel Portal, vinga-se da violência e penetra no
mundo dos toques subtis, dos elementos que roçam sem fragor, dos metais e da
água em sobreposição. Gongos, chuvas de sinos, madeiras do deserto
multiplicam-se em confrontos ou de mão dada com a voz que Tamia coloca entre
Joan La Barbara e Meredith Monk (atrevida sem contudo atingir o paroxismo da
primeira) ou de Lauren Newton e Shelley Hirsch. “World music” virtual, em
solidões partilhadas na vibração do espaço sideral ou na escuridão de uma
caverna pré-histórica, “Solitudes” limpa-nos da poluição sonora que se faz
passar por música. E deixa-nos escutar o silêncio.
Sem comentários:
Enviar um comentário