23/10/2026

Os melhores do ano 1992 - Discos obscuros

 

Pop Rock
16 de Dezembro 1992
OS MELHORES DO ANO - OBSCUROS

 

BIRDSONGS OF THE MESOZOIC
Pyroclastics
Cuneiform, import. Contraverso

Os Birdsongs of the Mesozoic não habitam na Dixieland mas o jazz corre-lhes nas veias, só que misturado com outros líquidos orgânicos. Dominam a arte do “riff”, isto é, dos módulos repetitivos, das insistências melódicas que evoluem por acumulação. Na sua música começa-se por sentir poder, uma força que impele cada canção como um motor turbo e que raras vezes lhes concede espaço para se deleitarem com tempos mais descontraídos. Nos Birdsongs habita um génio que se manifesta nos sopros vulcânicos de Ken Field e nas teclas em constante combustão de Erik Lindberg. “Pyroclastics” é fogo. Que ninguém se escandalize se se disser que nestes pedaços de melodia que não cessam de se enovelar e procurar novos acentos é possível vislumbrar o espectro dos Van Der Graaf Generator, de Hugh Branton e David Jackson. Nem sequer falta uma versão delirante do tema musical dos Simpsons.

 

 

JORGE REYES
Bajo El Sol Jaguar
No-CD Rekords, import. Ananana

Jorge Reyes é o pesquisador das civilizações antigas mexicanas, dos maias e astecas, assumindo-se como um mago da eletrónica preocupado em fazer os “samples” e sintetizadores soarem como instrumentos primitivos. Na mesma linha dos anteriores “Niérika”, “Musica Mexicana Pré-Hispanica” e “Cronica de Castas” o novo álbum de Reyes torna ainda mais intensas as sombras e os jogos de luz de uma música telúrica, que se desenrola em batimentos tribais, materiais da natureza ou o próprio corpo humano percutidos, “didgeridoos” noturnos e sequenciadores conectados aos ritmos da terra. O Yuki Conjugate, Lights In A Fat City, Jon Hassell, Brian Eno (de “On Land”), Steve Roach e Jeff Greinke, todos eles inventam à sua maneira as músicas do chamado “Quarto-Mundo”. Jorge Reyes acrescenta-lhes a respiração e a pulsação cardíaca de um organismo vivo. As alucinações de Carlos Castañeda materializadas.

 

 

STEVE ROACH & ROBERT RICH
Soma
Hearts of Space, import. Ananana

Segunda colaboração da dupla, na sequência de “Strata”, do ano passado. “Soma” é daqueles álbuns capazes de conferir à “new age” um rosto respeitável e a sedimentação de um estilo que disco a disco não cessa de se depurar e que encontra raízes no passado recente os dois compositores.

            “Soma” era a bebida que os vedas consumiam para entrar em comunicação com as divindades. Os gregos antigos usavam a mesma palavra para designar o corpo. Passado para a música, “Soma” é uma sinfonia de texturas eletrónicas combinadas com flautas étnicas, dumbeks, didgeridoos, sons naturais e vozes sintetizadas à deriva no cosmos. Música que induz ao transe ou à paranóia consoante o estado de espírito do auditor e que, surpreendentemente, aponta Klaus Schulze (sobretudo de “Moondawn” e “Mirage”) como dos mais importantes precursores da nova escola etno-eletrónica.

 

 

DAVID CUNNINGHAM
Voiceworks
Eva, import. Contraverso

O tema é a manipulação da voz através da panóplia eletrónica colocada ao dispor de quem utiliza o estúdio como instrumento preferencial de composição. David Cunningham (dadaísta nos Flying Lizards, insondável em “Grey Scales”, monótono em “Water”) aponta as máquinas ao canto humano e faz sair do outro lado conversas de humanóide. Os maquinismos trituram as frequências naturais, segundo um processo inverso ao dos Balanescu Quartet, que em “Possessed” processam o som sintético dos Kraftwerk em sinais analógicos para quarteto de cordas. O compositor diz que “a voz é o elemento que unifica os diversos tratamentos sonoros” e recusa-se a definir “Voiceworks” como “systemas music” convencional. É um mutante com discurso próprio (que remete para uma obra composta por David Behrman nos mesmos parâmetros – “Leapday Night”), com a grandeza da “Carmina Burana” de Carl Orff e a voz tão resistente à tortura como as transfigurações vocais de Paul de Marinis.

 

 

TAMIA & PIERRE FAVRE
Solitudes
ECM, distri. Dargil

Música da voz, música de percussões, música religiosa. Tamia evolui entre a tradição e a experimentação, sem nunca perder de vista a harmonia e o equilíbrio tímbrico na conversa a dois com as percussões. Pierre Favre, reduzida a cinzas a fogueira do “free” e o frenesim da companhia de Michel Portal, vinga-se da violência e penetra no mundo dos toques subtis, dos elementos que roçam sem fragor, dos metais e da água em sobreposição. Gongos, chuvas de sinos, madeiras do deserto multiplicam-se em confrontos ou de mão dada com a voz que Tamia coloca entre Joan La Barbara e Meredith Monk (atrevida sem contudo atingir o paroxismo da primeira) ou de Lauren Newton e Shelley Hirsch. “World music” virtual, em solidões partilhadas na vibração do espaço sideral ou na escuridão de uma caverna pré-histórica, “Solitudes” limpa-nos da poluição sonora que se faz passar por música. E deixa-nos escutar o silêncio.

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