PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 21 SETEMBRO 1992 >> Cultura
Meredith
Monk encerrou, sábado e domingo, os Encontros Acarte 92
O canto da respiração

Começou por um sopro gelado.
Acabou num tango. Em Meredith Monk a voz é ação, dança, vibração primordial. O
auditório da Gulbenkian, em Lisboa, transformou-se em palco do mito. No final,
a cantora conseguiu a proeza de pôr o público a cantar, a três vozes, um
“canon” da Idade Média.
A ideia é simples. Tão
simples e luminosa que a razão pode ser surpreendida. Meredith Monk é uma voz.
À volta dessa voz existe um corpo e coisas que na origem não têm nome. Se o
teatro se constrói de gestos, em Meredith Monk o gesto começa pelo sopro, pela
respiração, pelo princípio vital – pneuma. Por isso a nudez exterior da
encenação, em “Facing North”, apresentado na primeira parte da atuação, sábado
à noite, da cantora americana com Robert Een.
Não há razões, em “Facing
North”. Apenas a recriação de um mito, em que o Norte, o polo Norte, o seu
silêncio e a nudez crua da luz branca, funcionam como espaço atemporal,
uterino, vazio e, ao mesmo tempo, de fio condutor de uma ação que se desenrola
toda ela no interior. Encarar e encontrar o Norte – uma questão de orientação –
significa encontrar e viver o sentido da vida e das pequenas coisas que escapam
à prisão conceptual. Esse sentido é o amor.
Onde, numa estrutura
narrativa convencional, o aspeto dramático se desenrola através do discurso
linguístico, em “Facing North” tudo se passa antes do drama, da divisão e da
Queda. De “Facing North” apetece dizer que recria a não-história de Adão e Eva
no paraíso. Um homem e uma mulher brincam do lado de fora do tempo. Os
movimentos das vozes de Meredith Monk e Robert Een acompanham e determinam os
movimentos dos corpos. Corpos que jogam e descobrem. Se jogam e se descobrem na
relação amorosa. São corpos de crianças. Meredith Monk inflete amiúde em
registos vocais infantis onde se manifestam o espanto e o prazer. Os corpos
balançam-se, caminham e gesticulam enquanto as vozes estabelecem a ligação,
respirando-se em conjunto, ora simiescas, ora angélicas, patéticas umas vezes,
litúrgicas, outras. E entre cada encontro, cada gesto, o grande silêncio, que
só os constantes ataques de tosse de uma assistência nervosa ou constipada pelo
frio polar conseguiram perturbar.
Na segunda parte foram
apresentadas quatro peças para voz, teclado e violoncelo – instrumento
pneumático – por ordem diferente da prevista. “Travelling”, do álbum “Dolmen
Music”, deu o mote à temática da viagem – viagem extática, astral, da voz que,
centrada e aparentemente imóvel, percorre os diferentes planos que tecem o
mundo. “Madwoman’s voice”, do álbum e do filme “Book of Days”, corporizou, no
contraponto vocal entre os dois intérpretes, o diálogo e o cruzamento entre a
Idade Média e o mundo moderno, a visão premonitória da pequena Eva e a
perspetiva global da “mulher louca”, capaz de dar um sentido ao Apocalipse. De
novo a coincidência e a sabotagem das redes do tempo, essa ilusão que o nosso
cérebro fabricou. Seguiram-se excertos da ópera recente, “Atlas” – cuja
temática gira em torno de uma mulher em demanda do Graal, espécie de Parsifal
feminino que finalmente regressa ao ponto de partida para descobrir a
importância das pequenas coisas como “beber café”. A importância do “aqui e
agora” – frisou a cantora – do eterno presente que é o cerne da realidade.
“The Tale” (também de “Dolmen
Music”), cantada em inglês, encerrou a sequência sobre o tema da morte. Onde se
conta a história de uma mulher que recusa a morte apresentando uma lista do que
possui, das alergias à filosofia (que Meredith Monk conseguiu pronunciar em
português). Repetiu-se o que já fora dito antes, o confronto entre o Ser e o
Ter, e a falência do discurso racional, coincidente com a separação e a morte.
Meredith Monk foi a
celebrante de um ritual que escapou à malhas da intelectualidade. No primeiro
“encore” exigido por uma audiência extasiada, conseguiu romper a solenidade e a
distância, e pôr toda a gente a cantar, a três vozes, um “canon” medieval,
ainda por cima afinada – “o importante é manter “pulse” – “you know – rock ‘n’
roll!”. Um declamado “Tango de Meredith”, composto por Robert Een em homenagem
à cantora, acabou de forma despropositada o espetáculo a todos os níveis
memorável. Apesar da tosse, respirou-se bem, neste fim-de-semana, na Gulbenkian
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