Domingo 13.09.1992
JIMI HENDRIX: FOGO POSTO
JIMI HENDRIX
SEX. 18, TV 2, ÀS 00H50
Há quem tenha esticado até ao limite as cordas do excesso. No caso de
Jimi Hendrix, o excesso tomou o nome de uma guitarra: Fender Stratocaster. As
drogas ajudaram a atear o incêndio. O homem, esse não conseguiu suportar o peso
que os deuses lhe depositaram sobre os ombros. Desistiu cedo demais. A tempo de
se juntar aos heróis.
Tinha o hábito invulgar de pegar fogo às guitarras. Como se essa fosse a
derradeira maneira de as vencer e subjugar. Cataclísmico é o adjetivo que
melhor se aplica ao seu estilo. Explosivo, explorando ao máximo as
possibilidades que uma guitarra elétrica podia então oferecer. A inspiração
nascia-lhe de dentro. Ou do alto. Jimi Hendrix dizia-se intérprete da música
das esferas e portador da mensagem divina. Talvez tivesse razão. Não escapou à
descida aos infernos. Nas mãos do guitarrista negro, a guitarra transformava-se
numa máquina de guerra. E de sofrimento. Jimi Hendriz nasceu há 50 anos, na
cidade de Seattle. Começou cedo a tocar guitarra e logo de forma pouco
convencional, mesmo quando a matéria eram os “blues” de B. B. King e Muddy
Waters. Com os “blues” aprendeu a tocar e a ser tocado pela dor. Nashville, os
Casuals, Bobby Taylor & The Vancouvers foram etapas que percorreu como um
meteoro, antes do encontro com Little Richard. Este ensinou-lhe os truques que
fizeram o folclore. Hendrix aprendeu depressa a pegar fogo às guitarras, a
tocá-las com os dentes ou atrás das costas. Seria fogo-de-artifício se as
chamas não queimassem mais fundo. O génio consome-se na sua fogueira pessoal,
servindo-se do corpo e do espírito como combustível. As drogas – LSD e heroína
– permitiram-lhe a ilusão de sobreviver às queimaduras e o aumento do campo de
visão. O preço a pagar foi o inevitável, nestes negócios de troca: a morte. A
esta entrega ao abismo chama-se paixão. Ao apaixonado (há quem diga “possesso”)
não interessa o objeto, o outro, mas o ato de posse de si próprio, visto ao
espelho. “Um homem que prefere fazer amor com a sua música em vez de fazê-lo
com a sua mulher” canta Jimi Hendrix em “Manic depression”, uma das faixas do
genial “Electric Ladyland”, em cuja capa se amontoavam corpos de mulheres nuas.
Talvez das “groupies” com que se entretinha a contradizer a letra da canção.
Como músico, o guitarrista atingiu o auge com a Jimi Hendrix Experience,
ao lado de Noel Redding, no baixo, e Mitch Mitchell, na bateria, formação que
deixou gravados os clássicos “Are You Experienced”, “Axis: Bold as Love”, ambos
de 1967, e o já citado “Electric Ladyland”, de 1968.
Sobreveio célere a paranóia. O guitarrista acusa Little Richard de desvio
de “cachets”. Em “Voodoo chile” afirma-se um extraterrestre chegado à Terra
para anunciar um novo ciclo cósmico. Aos poucos, Jimi Hendrix foi-se afastando
do mundo, a linguagem da guitarra tornada quase incompreensível. Inesquecíveis,
perturbantes, os sons e imagens de loucura e abandono com que assinou a
sentença de morte do Psicadelismo, em pleno Woodstock, numa interpretação
apocalíptica do hino americano, “The star-spangled banner”. Nos últimos tempos
de vida, Hendrix anunciava o fim do planeta, preconizando a fuga em massa para
um refúgio submarino escondido nos oceanos. Despediu-se (e seguiu para o
refúgio?) em 1970, com a gravação de “Band of Gypsys” e a atuação no Festival
da Ilha de Wight, onde também participou Jim Morrison.
Alan Douglas, amigo e editor das obras póstumas do autor de “Purple
Haze”, costumava dizer que Jimi Hendrix tocava como uma personagem de ficção
científica e que o seu corpo se assemelhava estranhamente a uma guitarra.
“Uma história de Vida”, de uma vida?
“Mais breve que um piscar de olhos”, escreveu Hendrix na véspera da sua morte,
a 18 de setembro de 1970, em Londres, causada pela ingestão em excesso das
substâncias do costume. “Uma história de amor? Olá e adeus, até que nos
voltemos a encontrar.”
Voltamos sempre.

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