15/10/2026

A outra Europa [Folk]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 SETEMBRO 1992 >> Pop Rock

 

A OUTRA EUROPA

 

Uma imagem com mapa

Descrição gerada automaticamente

 

A outra Europa mantém-se firme. A outra Europa não diz nem não nem sim a Maastricht e não tem medo do marco. A outra Europa não passa por Paris, nem Bona, nem Londres. Muito menos por Tóquio e Nova Iorque. A outra Europa chama-se Galiza, Bretanha, Provença, Piemonte... por onde os caminhos são traçados pelas estrelas e pela Terra. A outra Europa não sofre de “stress” nem tem enfartes do miocárdio. As ruínas da outra Europa aguentam-se melhor que os edifícios de vidro e betão onde os burocratas da Europa assinam as suas certidões de óbito. A outra Europa não receia o futuro porque não acredita no tempo. A outra Europa está ligada por correntes subterrâneas e é iluminada pelos raios do Sol e pelos reflexos da Lua. A outra Europa não marcha, dança. A outra Europa não grita, canta. E se, do Leste, chegam horrores e sangue, antecipando o Apocalipse anunciado, é porque ao corpo de loba da Europa faltam a cabeça de leão e o coração de pomba. E não há meio de percebermos isto. A outra Europa é a verdadeira Europa.

A seleção seguinte, subjetiva como todas as seleções, apresenta alguns dos melhores álbuns de música tradicional das respetivas regiões da Europa. Certos nomes, como é óbvio, teriam direito a figurar com mais do que um disco nesta lista. Optou-se pelo critério um nome, um disco, visando uma maior variedade. Na página seguinte, discos novos.

 

1 – PORTUGAL

GAC – ... E Vira Bom (1977)

Brigada Victor Jara – Tamborileiro (Mundo Novo), 1979

Terra a Terra – Pelo Toque da Viola (Rádio Triunfo), 1981

Grupo de Cantares de Manhouce – Cantares da Beira (EMI-VC), 1982

Vai de Roda – Vai de Roda (Orfeu), 1983

Almanaque – Desfiando Cantigas (EMI), 1984

Ronda dos Quatro Caminhos – Cantigas do Sete-Estrelo (Rádio Triunfo), 1985

Maio Moço – Inda Canto, Inda Danço (ed. autor), 1987

2 – GALIZA

Emilio Cao – Fonte do Araño

Amancio Prada – Caravel de Caravells (Fonomusic), 1984

Milladoiro – A Galicia de Maeloc (Dial), 1984

Pablo Quintana – O Cego Andante (Edigal), 1984

Grupo Didactico-Musical do Obradoiro – Instrumentos Populares Galegos (Sonifolk), 1987

Luar na Lubre – Beira-Atlântica (Sons Galiza), 1990

Muxicas – Desafinaturum (Edigal), 1990

3 – ASTÚRIAS

Llan de Cubel – Na Llende (Fono Astur), 1990

4 – CASTELA

Manuel Luna – Como Hablan las Sabinas (RNE), 1987

La Musgaña – El Paso de la Estantigua (RNE), 1989

5 – ANDALUZIA

Rosa Zaragoza – Cançons de Noces del Jueus Catalans (Saga), 1987

Aurora Moreno – Aynadamar-La Fuente de las Lagrimas (Saga), 1988

6 – BRETANHA

Alan Stivell – Chemins de Terre (Fontana), 1973

An Triskell – Kroaz-Hent (Le Chant du Monde), 1977

Skolvan – Kerzh Ba’n’ Dans (Keltia), 1991

Strobinell – Na Aotrou Liskildri (Keltia), 1991

Storvan – Digor’n Abadenn (Keltia), 1991

7 – FRANÇA (geral)

Le Bourdon – Le Galant Noyé (Le Chant du Monde), 1975

Malicorne – Almanach (Hexagone), 1976

Vielleux du Bourbonnais – Vielleux du Bourbonnais (Hexagone), 1979

Mélusine – La Treizième Heure (Polydor), 1979

Jean Blanchard & Eric Montbel – Cornemuses (Hexagone), 1979

Maluzerne – Nous Sommes Venus Vous Voire... (Le Chant du Monde), 1981

La Bamboche – Quintessence (Hexagone), 1990

8 – GASCONHA

Verd e Blu – Musica de Gasconha (Menestrêrs Gascons), 1990

Perlinpinpin Folc – Ténarèze (Compas), 1991

9 – PROVENÇA

Mont-Jòia – Cant e Musica de Provenca (Le Chant du Monde), 1976

10 – PIEMONTE

La Ciapa Rusa – Stranòt d’Amur (Madau), 1984

11 – CÓRSEGA

Les Nouvelles Polyphonies Corses (Philips), 1991

12 – SARDENHA

Elena Ledda & Suonofficina – Sonos (Biber), 1989

13 – CHIPRE

Ensemble Cypriote de Musique Ancienne – Chants Épiques et Populaires du Chypre (Arion), 1991

14 – ESCÓCIA

Silly Wizard – Caledonia’s Hardy Sons (Shanachie), 1978

Battlefield Band – Home is Where the Van Is (Temple), 1980

Robin Williamson – Mabinogi (Claddagh), 1983

Savourna Stevenson – Ticked Pink (Springthyme), 1985

Tannahill Weavers – Dancing Feet (Green Linnet), 1987

Hamish Moore – Open Ended (Dunkeld), 1987

House Band – Word of Mouth (Topic), 1988

Gordon Mooney – O’er the Border (Temple), 1989

Catherine Ann-McPhee – Chi Mi’n Geamhradh (Green Trax), 1991

15 – INGLATERRA

Fairport Convention – Liege & Lief (Island), 1969

Shirley Collins & Dolly Collins – Anthems in Eden (Harvest), 1971

Steeleye Span – Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides Again (Chrysalis/Shanachie), 1971

Ashley Hutchings & John Kirkpatrick – The Compleat Dancing Master (Hannibal, 1973

Tim Hart & Maddy Prior – Summer Solstice (Shanachie)

Albion Country Band – Battle of the Field (Island/Carthage) 1976

June Tabor – Ashes and Diamonds (Topic), 1977

Brass Monkey – See How It Runs (Topic), 1986

Blowzabella – A Richer Dust (Plant Life), 1988

Martin Carthy – Right of Passage (Topic), 1988

Silly Sisters – No More to the Dance (Topic), 1988

John Kirkpatrick & Sue Harris – Stolen Ground (Topic), 1989

16 – IRLANDA

Planxty – Cold Blow and the Rainy Night (Polydor/Shanachie), 1974

Chieftains – The Chieftains 5 (Island/Claddagh), 1975

Bothy Band – Old Hag You Have Killed Me (Polydor), 1976

De Dannan – The Mist Convent Mountain (Gael-Linn), 1980

Dolores Keane & John Faulkner – Broken Hearted I’ll Wonder (Green Linnet), 1981

Whistleblinkies – Whistleblinkies 4 (Claddagh), 1986

Boys of the Lough – Farewell and Remember me (Lough/Shanachie), 1987

Patrick Street – Patrick Street (Green Linnet), 1987

Moloney, O’Connell & Keane – Kilkelly (Green Linnet), 1988

17 – LAPÓNIA

Mari Boine Persen – Gula Gula (Real World), 1990

18 – SUÉCIA

Filarfolket – Smuggel (Temple), 1988

19 – DINAMARCA

Dronningens Livstykke – Traditional Arranged (Pan), 1990

20 – RÚSSIA

Tüva – Voices from the Land of the Eagles (Pan), 1990

21 – HUNGRIA

Kolinda – Kolinda (Hexagon), 1978

Sebö Ensemble – Hungarian Folk Music (Rounder), 1980

Márta Sebestyén & Muzsikas – Muzsikas (Hannibal), 1987

22 – BULGÁRIA

Bisserov Sisters – Music From the Piri Mountains (Pan), 1980

Le Mystère des Voix Bulgares (4AD), 1986

 

 

ANDY IRVINE & DAVY SPILLANE
East Wind
Tara, distri. Mundo da Canção

Andy Irvine (ex-Planxty, no bouzouki, sanfona), juntamente com o produtor e teclista Bill Whelan, são os mentores deste projeto, dedicado ao folclore dos Balcãs. Davy Spillane, mestre das “uillean pipes”, membro dos Moving Hearts e músico muito dado aos “blues” e ao rock, deixou-se levar. Os irlandeses fazem o que podem na reprodução dos difíceis compassos típicos da música desta região (7/8, 11/16, etc). Conseguem-no em termos técnicos, falham em termos anímicos. São síncopes que não lhes saltam de forma natural no coração. Márta Sebestyén vem do céu da Hungria para interpretar as baladas, procurando levar consigo, para o alto os seus  compenetrados companheiros. Seduzidos pelos ventos de Leste, participam ainda os “virtuoses” Máirtín O’Connor, no acordeão, e Michael O’Súilleabháin no piano. (7)

 

LA CIAPA RUSA
Retanavota
Robi Droli, import. Etnia

Quinto álbum da discografia da banda de Piemonte e quinta obra-prima. Maurizio Martinotti, Beppe Greppi e os novos elementos – Devis Longo, Patrick Novara e Bruno Raiteri – voltam a construir um monumento ao folclore piemontês. Donatta Pinti, que faltou ao recente concerto do grupo no Porto por causa dos gatos, imprime à música, com a sua voz característica, uma nota de intimismo nas baladas, que alternam com o tom mais ensolarado dos instrumentais. Os Ciapa Rusa percorrem todo o espectro que vai da música antiga à ligeireza das “monferrini” da região. A sanfona eletroacústica de Martinotti, simbolizando a aliança perfeita entre as margens do tempo, lidera uma lista de instrumentos e uma diversidade de registos que parecem não ter fim. Perfeito. (10)

 

ELENA LEDDA & SUONOFFICINA
Sonos
Biber, import. Etnia

Pela Sardenha passaram as culturas e civilizações fenícia, cartaginesa, romana, bizantina e árabe, entre outras. Mais tarde fez-se sentir aí a influência espanhola e de regiões como a Sabóia ou o Piemonte. Na atualidade, o império americano, das centrais nucleares e do turismo, tomou o seu lugar. Na música de Elena Ledda há revolta, lirismo e dramatismo. Como no flamenco, nos “blues” ou no canto vocal corso. “Sonos”, sobre uma textura cristalina de guitarras e percussões, recupera a linhagem nobre dos instrumentos de sopro na Sardenha, das ancestrais “launeddas” (cuja sonoridade oscila entre o clarinete e a gaita-de-foles) ao saxofone atual. Vozes antigas e contemporâneas, numa odisseia contra a dominação estética alheia em que a assimilação das diversas músicas do Mediterrâneo pode funcionar como uma estratégia de sobrevivência. Só a voz de Elena, xamânica, lunar, é toda ela uma revolução. (9)

 

THE HOUSE BAND
Stonetown
Harbour Town, import. Etnia

São escoceses, o que não quer dizer que sejam avaros nas músicas que tocam. Para além da Escócia e da vizinha Irlanda, os House Band interpretam, com o mesmo à-vontade, temas tradicionais da Dinamarca, Noruega, Bretanha, Bélgica e Bulgária, ao lado de uma canção de Elvis Costello, outra de Archie Fisher e originais de Ged Foley, vocalista e tocador de gaita-de-foles de Northumbrian e antigo membro dos Battlefield Band. Os House Band passam pelas várias tradições europeias sem se comprometerem com um estilo ou região particulares, à semelhança de uns Ad Vielle Que Pourra, com quem partilham, de resto, um certo tipo de sonoridade nas combinações gaita/acordeão/bombarda. (9)

 

IVO PAPASOV & HIS ORCHESTRA
Balkanology
Hannibal, import. Mundo da Canção e MVM

Quem viu Ivo Papasov tocar na televisão, numa emissão recente da Música no Dois, deve ter ficado sem respiração. O búlgaro toca clarinete como um diabo. Diz-se que a mãe de Ivo lhe cortou à nascença o cordão umbilical com a palheta de uma zurna. Nas festas de casamento de aldeia, para onde é muitas vezes solicitado, é costume a banda tocar toda a tarde e toda a noite, provocando a loucura coletiva. Ivo Papasov é o John Zorn da folk dos Balcãs. E “Balkanology” um vento de demência: ragtime, baladas ciganas, improvisações “free”, danças búlgaras (horo, ruchenitsi, Kopanitsa...) e turcas em ritmo de “reggae”, de rock, de swing, seja o que for, em velocidade desenfreada. Três temas chegam para a voz, impressionante de “tremolo” e modulações, de Maria Karafezieva falar com Deus. (9)

 

MUXICAS
Escoitando Medra-la Herba
Edigal, import. Etnia

Galegos até à medula, os Muxicas são um dos poucos grupos da sua região a resistir à eletricidade e à “irlandização” que parece afetar atualmente grande parte dos seus conterrâneos. “Escoitando Medra-la Herba” permanece ancorado ao campo e aos seus rituais, às “muiñeiras” e ao cancioneiro medieval. Percussões, muitas, gaitas e sanfonas, marcam a pulsação do sangue e da terra. Uma criança conta uma história de gnomos e de uma pulga que sorri. Uma caixa-de-música faz parar o tempo, enquanto um “boneco de palla” com coração escuta a voz do senhor dos ventos. Os Muxicas são populares sem serem popularuchos. Estão nos antípodas dos Milladoiro e sintonizados com os Obradoiro, a quem dedicam uma canção. “Para os que gostam de escoitar o silencio. Sen presas, sen pausas”. (8)

 

THE TANNAHILL WEAVERS
Cullen Bay
Green Linnet, distri. Megamúsica

Os Tannahill Weavers são um grupo emblemático da folk escocesa, conhecido em Portugal através dos álbuns anteriores “Dancing Feet” e “Land of Light”, que voltam a estar disponíveis nos escaparates. “Cullen Bay” apresenta a música tradicional da Escócia em toda a sua integridade. Excelentes as harmonias vocais e o virtuosismo dos executantes, com destaque para Iain MacInnes, nas “highland pipes”. “Cullen Bay” sintetiza o lirismo do canto gaélico, o ritmo marcial das tradicionais “pipe bands” e uma enorme fluência instrumental. Uma das canções fala de um homem que se apaixona (literalmente) por uma ilha. Não se veja aí nenhuma perversão. “Um escocês pervertido” – dizem os Weavers – “é uma coisa completamente diferente: um homem que prefere as mulheres ao whisky”. (8)

 

VASMALOM
Vasmalom II
RG Music, import. Etnia

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Na Hungria existe uma tradição de bons agrupamentos folk: Muzsikas, de Márta Sebestyén, Kolinda ou, menos conhecidos, Zsarátnok e Sebo Ensemble, citando apenas os que tiveram direito a importação nacional. Servindo-se de elementos comuns – a música cigana, as danças típicas, a música religiosa, sagrada ou profana, as baladas de amor e de trabalho – os Vasmalom diferem daqueles por um desejo incontrolável de transgressão. Heterodoxia que os leva às proximidades do jazz, à improvisação, à utilização do estilo vocal mongol (emissão simultânea de dois sons) ou, no tema final, um “blues” à boa maneira magiar, à paródia. Fora de série são a voz de Éva Molnár, uma potencial rival de Márta Sebestyén, e os fraseados de cristal de Kálmun Balogh, no “cimbalon”, espécie de saltério gigante. (9)


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