Freire,
Fanhais e Barroso no S. Luiz
Encontro de amigos
Amigos, amigos, negócios à
parte, costuma-se dizer. Não é nem vai ser o caso de Manuel Freire, Francisco
Fanhais e Pedro Barroso, amigos de longas lutas contra o antigo regime, em
forma de canções. Ainda há quem se lembre que houve Abril, um certo Abril, e
que antes era difícil dizer o que havia a dizer. Três amigos voltam a
encontrar-se, a relembrar lutas passadas, a inventar, talvez, lutas futuras.
Manuel Freire, Francisco Fanhais e Pedro Barroso, num “Encontro de Amigos” a
realizar hoje e amanhã, em Lisboa, no Teatro Municipal S. Luiz, às 21h30, e dia
10 no Porto, no Teatro Rivoli, à mesma hora.
Acompanham os três cantores,
em palco, Jorge Gonçalves (acordeão, baixo e piano), Pedro Fragoso (guitarra,
cavaquinho, piano, guitarra portuguesa, sintetizador, viola campaniça e
braguesa) e Luís Sá-Pessoa (violoncelo). O espetáculo inclui textos e música
dos próprios, de António Gedeão, Manuel Alegre, Vinicius de Moraes, Rebordão
Navarro, José Fanha, Martinho Marques, José Afonso, António Cabral, Sophia de
Mello Breyner, Sebastião da Gama, Reinaldo Ferreira, Adriano Correia de
Oliveira, Rosalía de Castro, José Niza e António Portugal. Apoiam o “encontro”,
as Câmaras Municipais de Lisboa e Porto, a RTC – Radiotelevisão Comercial e RDP
– Antena 1, em colaboração com a MC – Mundo da Canção.
Francisco Fanhais abandonou a
batina e o seminário para se dedicar às baladas de intervenção. Ainda na
qualidade de padre e baladeiro atuou no mítico “Zip Zip”, em 1969, fazendo na
altura parte de um grupo de cantores que usavam “a poesia, a voz e a viola para
dinamizar inúmeras e acidentadas sessões de resistência ao Estado Novo”. Em
1971 foi com José Afonso para Paris, para a “resistência”. Cinco dias depois da
revolução dos cravos regressou a Portugal onde, desde então, tem tocado “um
pouco por todo o lado”. Mas os tempos não estão para revoluções. O ex-padre
resume a sua vida nos seguintes termos: “Dois filhos, dois discos, muitas
árvores, muitos amigos”.
“Não há machado que corte a
raiz ao pensamento/porque é livre como o vento...”. Quem nunca, numa ou noutra
ocasião, deu por si a cantarolar estes versos? Cantou-os Manuel Freire, outro
lutador, para quem a música sempre foi indissociável da crítica intervencionista.
Foi ele quem disse uma vez: “Eu canto textos de poetas especialmente porque me
sinto um poeta frustrado”. Esteve, como os outros, em Paris (ah, Paris, Paris,
que bem lá se estava, longe dos fascistas, nos boulevards e nas tertúlias do
Quartier Latin...), onde conheceu Luís Cília (grande músico) e José Mário
Branco. Também foi ao “Zip Zip”, claro, e cantou a “Pedra Filosofal”. Enfim, o
percurso habitual, problemas com a censura, o 25 de Abril surgido um pouco a
despropósito, a obrigar outros sons e outras palavras.
A mensagem de Pedro Barroso é
mais hiperbólica: “... Se me perguntarem hoje onde estou, para onde vou e de
que me alimento, a resposta surge – ‘longe daqui’. E tenho de ir buscar
diariamente à nossa história a alma vertical para poder continuar. E ao sonho
impossível da doce e laboriosa utopia do São Nunca”. Parece ser uma boa
mensagem, sobretudo no que diz respeito à alimentação, a julgar pelo bom e
nutrido aspeto que o cantor aparenta. “Zip Zip”, “baladas a desempenharem
importante papel de consciencialização e mobilização”, ator numa peça de
Mishima e campanhas de dinamização cultural do Movimento das Forças Armadas
fazem parte do seu currículo. Nele o mais interessante é o recurso à música tradicional,
às chulas, corridinhos e malhões, embora depois diga coisas do estilo “Tenho a
estrada suficiente para emitir opinião do ponto de vista étnico-social: o
cantor da eira aparece, nos recitais, cruzado com devaneios intimistas que
falam de mim”. Que falam dele. É um andarilho que evoca nas suas canções os
seus temas de sempre – “a mulher, o mar, a natureza dos tipos humanos, a
solidariedade, o amor e a portucalidade”.
São três amigos e vão fazer
de conta que nada mudou.
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