PÚBLICO SÁBADO, 4 JANEIRO 1992 >> Cultura
Pop
Dell’Arte inauguram catálogo de editora
João Peste impõe condições
“Ready-Made”, o novo álbum dos Pop Dell’Arte,
sairá em fevereiro na editora Variodisc. É a grande aposta para o lançamento em
força deste novo selo independente. Mas João Peste impõe condições.
“Ready-made” tem como data
prevista de lançamento o dia 6 de fevereiro. Já em meados deste mês o maxi “MC
Holy/2002” chegará aos escaparates nacionais. “Ready-made”, como os
surrealistas chamavam a objetos que a deslocação mágica do olhar e o humor
transformavam em obras-de-arte, reúne seis temas entre os quais “Ballad of
Lilly-Io”, “808 loop”, “Jani’s pearl” e versões diferentes das incluídas no
maxi, “MC Holy” e “2002”, recuperadas no de formato CD.
Gravado no Exit estúdio, em
Lisboa, o novo álbum tem produção de João Peste, Rafael Toral e Luís Sampayo e
a assistência técnica de Paula Margarida e, nalguns temas, de Jonathan Miller,
que já havia trabalhado no disco de estreia dos Resistência. Para João Peste o
novo disco não representa uma rutura com a orientação estética que a banda tem
vindo a seguir nos últimos tempos – uma mistura de “house” e pop psicadélico
embalada em doses industriais de teatro, eletricidade e “glamour”.
Quem controla quem?
Numa altura em que as bandas
nacionais parecem apostar em contratos com multinacionais, não deixa de causar
uma certa estranheza a opção dos Pop Dell’Arte por uma editora ainda sem provas
dadas, como a Variodisc. “O disco beneficiou de um orçamento global equivalente
ao de uma multinacional”, garante João Peste, para quem a proposta da Variodisc,
para além de “boa”, surgiu “na melhor altura”. Mas mais importante que o aspeto
financeiro é o “controlo em termos estéticos, de orientação e de promoção” que
os Pop Dell’Arte não dispensam à partida. “Uma garantia que a maior parte das
bandas portuguesas não tem”, mas que João Peste procura a todo o custo
assegurar, “de poder centralizar nas próprias mãos todos os aspetos ligados à
promoção do disco”. O ideal seria, ainda segundo Peste, o de “assegurar os
serviços” – pagos pela editora – “de alguém da confiança da banda para tratar
de todas estas questões”. De referir que o contrato agora assinado com a
Variodisc prevê a edição de um único disco. “Não há qualquer outro vínculo da
nossa parte em relação à nova editora”, como João Peste faz questão de
acentuar.
É neste ponto, sobre quem
assegurará o trabalho de promoção – alguém da editora ou a própria banda – que
parecem surgir os primeiros sinais de clivagem entre os Pop Dell’Arte e a
Variodisc, numa relação que, longe de se poder considerar conflituosa, poderá
não ser de todo pacífica. Fala-se em descoordenação (na Variodisc afirma-se,
por exemplo, que o maxi “MC Holy/2002” já fora distribuído antes pela Polygram;
João Peste insiste que o dico nunca saiu dos armazéns) e na pouca
sensibilização do “staff” da editora à música dos Pop Dell’Arte. O que nem será
de estranhar se atendermos a que um dos homens ligados à Variodisc, Pedro
Cardoso, esteve ligado a áreas musicais como o “heavy metal”, o “thrash metal”
ou o “hard core”.
Seja qual for a solução encontrada,
João Peste não prescinde do que considera uma condição necessária: “Mesmo que a
promoção seja entregue a alguém da editora, terá de ser em total coordenação
connosco”.
À conquista da Europa
Do lado da Variodisc, as estratégias
editoriais encontram-se em fase de definição. Formada em outubro do ano
passado, o novo selo dirigido por Pedro Cardoso, Carlos Alberto Pereira e
Alfredo Graça pretende, segundo o primeiro, “abarcar os catálogos não
distribuídos ou editados em Portugal”. Embora não haja “uma orientação estética
específica” esta por certo não deixará de contemplar os géneros mais pesados
atrás aludidos. O que não impediu a Variodisc de já ter lançado no mercado a
caixa dos Cocteau Twins ou uma série de discos piratas, dos Aerosmith, U2,
Rolling Stones e Led Zeppelin, entre outros, “tendo o cuidado de lançar
‘bootlegs’ de editoras, como a Pluto ou a Great Dane, que previamente e segundo
a legislação em vigor, depositaram uma soma a ser entregue aos artistas, por
cada exemplar vendido”, apressa-se Pedro Cardoso a explicar. Previsto está
também o lançamento dos primeiros discos da editora holandesa Provogue, da qual
a Variodisc é distribuidora oficial em Portugal.
Embora sem “o apoio de nenhum grupo
financeiro” o recém-nascido selo faz parte de uma “holding” nacional que inclui
um despachante, um transitário e uma firma de “import-export” com o escritório
na Holanda, a Vegatan, o que permitirá a distribuição neste país, no Benelux e
no resto da CEE, do novo disco dos Pop Dell’Arte e das outras bandas que vierem
a fazer parte do catálogo.
Para Pedro Cardoso, até há pouco na Anónima (agora ligada à Valentim de Carvalho) é a oportunidade de poder trabalhar com “eficácia e rapidez” ao contrário do que acontecia na antiga editora. “Detestava estar dois e três meses à espera de uma encomenda de discos, retida no despachante ou na alfândega, porque a Valentim de Carvalho tinha outras coisas pendentes, como os lançamentos da EMI. E a Anónima ficava sempre para trás”. Estas razões ditaram o afastamento do homem da “música pesada”. Acabou por tornar-se numa questão pessoal: “Quando souberam que tinham ficado ligado a esta nova editora e que procurava tentar importar alguns discos do catálogo da Anónima, deixaram de me falar e impediram-me de entrar nas lojas da VC”. “Estou à espera da versão deles”, afirma, resignado.
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