PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 12 MARÇO 1992 >> Cultura
Frei
Hermano da Câmara comemora 30 anos de carreira no Coliseu de Lisboa e Porto
“Canto a rezar e rezo a
cantar”
Para Frei Hermano da Câmara, cantor, sacerdote e
“apóstolo de Santa Maria”, o espetáculo não é indissociável da vida
contemplativa. Por isso, amanhã e sábado, no Coliseu de Lisboa, e a 21, no
Porto, também no Coliseu, volta a encarnar o “Nazareno”, como forma de celebrar
30 anos de carreira, de “fazer apostolado cantando”. Uma coisa “fulgurante”. O
próprio Cristo, avisa, “não vai ficar em casa”.
Beneditino durante 23 anos, Frei
Hermano da Câmara, o padre-cantor, acabou por fundar uma comunidade vocacionada
para a música e para a oração. É “possível orar em qualquer lado” – diz –, num
convento do Sameiro como sob os holofotes do Coliseu. Entre uma oração e o
ultimar de preparativos para mais uma encenação espetacular, desta feita
celebrando 30 anos de carreira e de apostolado, o PÚBLICO foi ao seminário
falar com o “nazareno”.
PÚBLICO – O fado foi para si
o ponto de partida para muita coisa...
FREI HERMANO DA CÂMARA –
Comecei precisamente pelo fado. Nasci em Lisboa e sabe como é... Na época em
que comecei a gostar de música o fado estava na moda. Mas a determinada altura
passei a cantar um pouco de tudo, da música popular à música ligeira. Houve uma
certa evolução, sobretudo depois da entrada para a vida religiosa.
P. – O fado funciona para si
de algum modo como um complemento da vida religiosa, como uma outra forma de
comunicar com o transcendente?
R. – O fado teve muita
influência em mim, não só na minha vocação. Mexia muito comigo, com os meus
sentimentos. Costuma às vezes dizer-se que o fado é uma música de taberna mas a
mim elevava-me muito para Deus. De resto tive sempre uma fé muito viva.
P. – Depois da sua entrada
para a vida religiosa, verificou-se alguma alteração nessa atitude? Porque,
apesar de tudo, existe no fado um forte elemento profano...
R. – Quando entrei para a
vida religiosa, cantei o célebre “Fado da despedida” mas logo a seguir senti
necessidade de gravar uma “Avé-Maria” e espirituais angolanos. Fui aos poucos
perdendo um pouco de interesse pelo fado e a ter vontade de cantar outras
coisas, composições minhas, por exemplo, e de procurar letras com mensagem...
P. – Em que autores encontrou
essa mensagem?
R. – Procurei-a e procuro-a
em autores e livros conhecidos, portugueses: Miguel Torga, Pedro Homem de
Mello, Augusto Gil, o padre Moreira das Neves...
Apostolado musical
P. – A que ordem religiosa se
encontra ligado atualmente?
R. – Eu entrei para os
Beneditinos: 23 anos de vida beneditina durante os quais criei uma fundação.
Depois desliguei-me dessa ordem para fundar uma comunidade, os “Apóstolos de
Santa Maria” de que sou atualmente responsável. Tenho também um seminário no Sameiro,
ligado aos “Apóstolos”. O objetivo principal é o apostolado através da música.
P. – O facto de ter uma
carreira artística conferiu-lhe algum estatuto especial, de privilégio, no seio
da ordem religiosa?
R. – O problema principal é
esse mesmo, o de conseguir conciliar a vida artística com a religiosa. A nossa
vida como “Apóstolos de Santa Maria” é essencialmente contemplativa, de oração,
e é esse o nosso carisma. Mas depois temos como objetivo o tal apostolado
através da música. Digamos que existem duas facetas: uma contemplativa, outra
ativa. As duas têm muita importância mas para mim a mais importante é a
contemplativa. De tal maneira que se fosse preciso abdicar do canto e
dedicar-me apenas à oração, fá-lo-ia. Acho que Deus quer a parte contemplativa
mas não quer que eu abdique da música.
P. – Mas isso conduz a uma
questão delicada que tem a ver com venda de discos, concertos, lucros, enfim,
aspetos muito pouco espirituais que envolvem o fenómeno artístico...
R. – Todos os lucros
resultantes da venda de discos e de concertos revertem para os “Apóstolos de
Santa Maria”.
P. – Consegue fazer passar a
mensagem que há pouco referia, quando atua no estrangeiro, para estrangeiros?
R. – Canto essencialmente
para portugueses. Mas já fui convidado, por exemplo, para ir à Grécia, cantar
para gregos. Não havia um português na sala. Foi na catedral de S. Nicolau, na
ilha de Creta, com um coro de crianças gregas a quem ensinei a cantar em
português.
“O Nazareno”, ato II
P. – Por falar em mensagem, o
“Nazareno” foi um espetáculo mediático, uma espécie de “Jesus Christ Superstar”
à portuguesa. Os próximos concertos do Coliseu vão seguir a mesma tónica?
R. – A segunda parte vai ser
fulgurante (na primeira vou cantar uma seleção dos meus maiores sucessos).
Contará com uma orquestra dirigida pelo Jorge Machado, um coro de 75 vozes, um
corpo de bailado e artistas convidados: as sopranos Hannelore Ficher e Teresa
Couto, um tenor do Teatro de S. Carlos e o João Costa Campos. A Teresa Tarouca
também participa. Vão aparecer de novo teatralizações do Nazareno, de Nossa
Senhora, de Madalena, de Judas, mas numa ótica diferente da primeira
apresentação, com inserção de números inéditos.
P. – Pode especificar em que
consiste essa diferença?
R. – Vai ter o 2º ato do
“Nazareno” – que é a parte dramática e também tem a “Ressurreição” – encaixando
como que numa grande missa, no interior de uma catedral.
P. – O público aderiu sem
reservas à primeira apresentação do “Nazareno”, sensível ao aspeto teatral, ao
religioso, ou à mistura de ambos. Não há o perigo de a música passar para um
plano secundário?
R. – Acho que as pessoas vão
aos meus espetáculos à procura de algo mais. Se eu fosse cantar temas
religiosos, sem mais qualquer coisa, que puxassem só para o “beato”, talvez não
conseguisse chegar a todas as camadas de público.
P. – Uma solução de
compromisso?
R. – Sim, sem abdicar no
fundo dos meus temas que são sempre a figura de Cristo e o Evangelho.
P. – Mas não deixa de fazer
uma certa impressão esse lado espetacular ligado à religião...
R. – Vou explicar-lhe como
procedo para conciliar os dois: a nossa espiritualidade tende para uma oração
contínua. Mas não é só quando se está na capela que se reza. Podemos rezar no
trabalho, na rua, em qualquer parte. Costumo dizer que faço dos meus espetáculos
uma oração. Canto a rezar e rezo a cantar. No próximo espetáculo participam
doze “Apóstolos de Santa Maria” e eu preveni-os que Cristo não vai ficar em
casa, no Sameiro. Cristo vem connosco. Claro que é preciso uma ginástica, um
treino, mas temos de fazer esse esforço. É possível estar num teatro ou num
ensaio e permanecer em união com Deus.
P. – Poder-se-á associar essa
maneira muito especial de propagandear a mensagem de Cristo a um novo tipo de
missionarismo?
R. – Acho que sim. Quem ouve
dizer que os “Apóstolos de Santa Maria” são contemplativos mas andam a cantar
por aí, pode achar que há uma grande contradição. Mas, no fundo, não há.
P. – Não receia que acusem os
seus espetáculos de folclore, no mau sentido?
R. – Claro que há sempre
críticas negativas, como aconteceu com o “Nazareno”. Admito que as pessoas
possam dizer mal dos meus espetáculos e não estarem de acordo que eu encarne a
figura de Cristo e outras coisas no género. Mas se um ator o pode fazer porque
é que um sacerdote não pode?
P. – Como resumiria estes
seus 30 anos de carreira?
R. – Foram 30 anos gastos ao
serviço de Deus. No fundo, é fazer apostolado, cantando. Mas a parte mais
importante, aquela que me realiza, é a parte de sacerdote, de direção
espiritual das almas, a confissão. O que eu mais gosto é ajudar as pessoas
espiritualmente.
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