18/09/2026

"Canto a rezar e rezo a cantar" [Frei Hermano da Câmara]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 12 MARÇO 1992 >> Cultura

 

Frei Hermano da Câmara comemora 30 anos de carreira no Coliseu de Lisboa e Porto

 

“Canto a rezar e rezo a cantar”

 

Para Frei Hermano da Câmara, cantor, sacerdote e “apóstolo de Santa Maria”, o espetáculo não é indissociável da vida contemplativa. Por isso, amanhã e sábado, no Coliseu de Lisboa, e a 21, no Porto, também no Coliseu, volta a encarnar o “Nazareno”, como forma de celebrar 30 anos de carreira, de “fazer apostolado cantando”. Uma coisa “fulgurante”. O próprio Cristo, avisa, “não vai ficar em casa”.

 

Uma imagem com texto, homem, pessoa, preto

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            Beneditino durante 23 anos, Frei Hermano da Câmara, o padre-cantor, acabou por fundar uma comunidade vocacionada para a música e para a oração. É “possível orar em qualquer lado” – diz –, num convento do Sameiro como sob os holofotes do Coliseu. Entre uma oração e o ultimar de preparativos para mais uma encenação espetacular, desta feita celebrando 30 anos de carreira e de apostolado, o PÚBLICO foi ao seminário falar com o “nazareno”.

PÚBLICO – O fado foi para si o ponto de partida para muita coisa...

FREI HERMANO DA CÂMARA – Comecei precisamente pelo fado. Nasci em Lisboa e sabe como é... Na época em que comecei a gostar de música o fado estava na moda. Mas a determinada altura passei a cantar um pouco de tudo, da música popular à música ligeira. Houve uma certa evolução, sobretudo depois da entrada para a vida religiosa.

P. – O fado funciona para si de algum modo como um complemento da vida religiosa, como uma outra forma de comunicar com o transcendente?

R. – O fado teve muita influência em mim, não só na minha vocação. Mexia muito comigo, com os meus sentimentos. Costuma às vezes dizer-se que o fado é uma música de taberna mas a mim elevava-me muito para Deus. De resto tive sempre uma fé muito viva.

P. – Depois da sua entrada para a vida religiosa, verificou-se alguma alteração nessa atitude? Porque, apesar de tudo, existe no fado um forte elemento profano...

R. – Quando entrei para a vida religiosa, cantei o célebre “Fado da despedida” mas logo a seguir senti necessidade de gravar uma “Avé-Maria” e espirituais angolanos. Fui aos poucos perdendo um pouco de interesse pelo fado e a ter vontade de cantar outras coisas, composições minhas, por exemplo, e de procurar letras com mensagem...

P. – Em que autores encontrou essa mensagem?

R. – Procurei-a e procuro-a em autores e livros conhecidos, portugueses: Miguel Torga, Pedro Homem de Mello, Augusto Gil, o padre Moreira das Neves...

 

Apostolado musical

 

P. – A que ordem religiosa se encontra ligado atualmente?

R. – Eu entrei para os Beneditinos: 23 anos de vida beneditina durante os quais criei uma fundação. Depois desliguei-me dessa ordem para fundar uma comunidade, os “Apóstolos de Santa Maria” de que sou atualmente responsável. Tenho também um seminário no Sameiro, ligado aos “Apóstolos”. O objetivo principal é o apostolado através da música.

P. – O facto de ter uma carreira artística conferiu-lhe algum estatuto especial, de privilégio, no seio da ordem religiosa?

R. – O problema principal é esse mesmo, o de conseguir conciliar a vida artística com a religiosa. A nossa vida como “Apóstolos de Santa Maria” é essencialmente contemplativa, de oração, e é esse o nosso carisma. Mas depois temos como objetivo o tal apostolado através da música. Digamos que existem duas facetas: uma contemplativa, outra ativa. As duas têm muita importância mas para mim a mais importante é a contemplativa. De tal maneira que se fosse preciso abdicar do canto e dedicar-me apenas à oração, fá-lo-ia. Acho que Deus quer a parte contemplativa mas não quer que eu abdique da música.

P. – Mas isso conduz a uma questão delicada que tem a ver com venda de discos, concertos, lucros, enfim, aspetos muito pouco espirituais que envolvem o fenómeno artístico...

R. – Todos os lucros resultantes da venda de discos e de concertos revertem para os “Apóstolos de Santa Maria”.

P. – Consegue fazer passar a mensagem que há pouco referia, quando atua no estrangeiro, para estrangeiros?

R. – Canto essencialmente para portugueses. Mas já fui convidado, por exemplo, para ir à Grécia, cantar para gregos. Não havia um português na sala. Foi na catedral de S. Nicolau, na ilha de Creta, com um coro de crianças gregas a quem ensinei a cantar em português.

 

“O Nazareno”, ato II

 

P. – Por falar em mensagem, o “Nazareno” foi um espetáculo mediático, uma espécie de “Jesus Christ Superstar” à portuguesa. Os próximos concertos do Coliseu vão seguir a mesma tónica?

R. – A segunda parte vai ser fulgurante (na primeira vou cantar uma seleção dos meus maiores sucessos). Contará com uma orquestra dirigida pelo Jorge Machado, um coro de 75 vozes, um corpo de bailado e artistas convidados: as sopranos Hannelore Ficher e Teresa Couto, um tenor do Teatro de S. Carlos e o João Costa Campos. A Teresa Tarouca também participa. Vão aparecer de novo teatralizações do Nazareno, de Nossa Senhora, de Madalena, de Judas, mas numa ótica diferente da primeira apresentação, com inserção de números inéditos.

P. – Pode especificar em que consiste essa diferença?

R. – Vai ter o 2º ato do “Nazareno” – que é a parte dramática e também tem a “Ressurreição” – encaixando como que numa grande missa, no interior de uma catedral.

P. – O público aderiu sem reservas à primeira apresentação do “Nazareno”, sensível ao aspeto teatral, ao religioso, ou à mistura de ambos. Não há o perigo de a música passar para um plano secundário?

R. – Acho que as pessoas vão aos meus espetáculos à procura de algo mais. Se eu fosse cantar temas religiosos, sem mais qualquer coisa, que puxassem só para o “beato”, talvez não conseguisse chegar a todas as camadas de público.

P. – Uma solução de compromisso?

R. – Sim, sem abdicar no fundo dos meus temas que são sempre a figura de Cristo e o Evangelho.

P. – Mas não deixa de fazer uma certa impressão esse lado espetacular ligado à religião...

R. – Vou explicar-lhe como procedo para conciliar os dois: a nossa espiritualidade tende para uma oração contínua. Mas não é só quando se está na capela que se reza. Podemos rezar no trabalho, na rua, em qualquer parte. Costumo dizer que faço dos meus espetáculos uma oração. Canto a rezar e rezo a cantar. No próximo espetáculo participam doze “Apóstolos de Santa Maria” e eu preveni-os que Cristo não vai ficar em casa, no Sameiro. Cristo vem connosco. Claro que é preciso uma ginástica, um treino, mas temos de fazer esse esforço. É possível estar num teatro ou num ensaio e permanecer em união com Deus.

P. – Poder-se-á associar essa maneira muito especial de propagandear a mensagem de Cristo a um novo tipo de missionarismo?

R. – Acho que sim. Quem ouve dizer que os “Apóstolos de Santa Maria” são contemplativos mas andam a cantar por aí, pode achar que há uma grande contradição. Mas, no fundo, não há.

P. – Não receia que acusem os seus espetáculos de folclore, no mau sentido?

R. – Claro que há sempre críticas negativas, como aconteceu com o “Nazareno”. Admito que as pessoas possam dizer mal dos meus espetáculos e não estarem de acordo que eu encarne a figura de Cristo e outras coisas no género. Mas se um ator o pode fazer porque é que um sacerdote não pode?

P. – Como resumiria estes seus 30 anos de carreira?

R. – Foram 30 anos gastos ao serviço de Deus. No fundo, é fazer apostolado, cantando. Mas a parte mais importante, aquela que me realiza, é a parte de sacerdote, de direção espiritual das almas, a confissão. O que eu mais gosto é ajudar as pessoas espiritualmente.

 

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