PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 ABRIL 1992 >> Pop Rock >> LP’s
A CÂMARA ASSASSINA e outros
desenhos animados
A música de John Zorn é por natureza
cinematográfica. O saxofonista e compositor inglês disseca os sons, retalha-os
e reconstrói-os segundo um processo de montagem em tudo semelhante ao do
cinema. Sobretudo desde “Big Gundown”, Zorn tem vindo a entregar-se a um
meticuloso reprocessamento sonoro de variadíssimos estilos e “inputs” musicais
que, ao invés de tenderem para sínteses aglutinadoras, disparam em vertigem
centrífuga, em direção a uma “micro-música”, chamemos-lhe assim, de ampliação e
revalorização de pormenores. Como se a Zorn interessasse estudar o filme,
fotograma a fotograma.
Estética de fragmentação já presente
em obras como o citado “The Big Gundown” (ainda sustentada pelas partituras de
Ennio Morricone) e “Spillane” (outra referência explícita ao universo
cinematográfico, neste caso ao “filme negro”), na longa dissertação sobre
Godard incluída no álbum de homenagem a este cineasta, editado pela Nato, e
finalmente levada ao extremo na autodevoração de “Naked City” e “Torture
Garden”.
“Film Works” reúne as bandas sonoras
compostas por Zorn para os filmes “Hite and Lazy”, de Rob Schweber, “The Golden
Boat”, de Raúl Ruiz, e “She Must be Seeing Things”, de Sheila McLaughlin, e uma
versão “pastische” de “The Good, the Bad and the Ugly” para um anúncio da Camel.
As imagens sonoras de Zorn são sinónimo de agressão. O desenho da capa – uma
câmara de filmar que é ao mesmo tempo um revólver (símbolo/ícone já
anteriormente presente em “Spillane”, “Deadly Weapons”, com Steve Beresford e
David Toop, e “Naked City”) – ilustra bem o modo como o filme roda no cérebro
do seu autor.
Mais próximo de “Big Gundown”
e “Spillane” do que das torturas sónicas dos Naked City, “Film Works”
apresenta-se ainda como uma série de exercícios exploratórios sobre linguagens
musicais autónomas (blues, country, jazz, ambiental, no caso das composições
para Raúl Ruiz, reproduzidas sob a forma de “géneros” anedóticos e arquivadas
em títulos como “Jazz oboes”, “Horror organ”, “Slow” ou “Rockabilly”), com a
diferença de que aqui cada um deles se compartimenta e arruma num tema
específico, com tempo e espaço suficientes para respirar. Como se desta feita
Zorn (acompanhado pela “troupe” do costume: Robert Quine, Arto Lindsay, Carol
Emanuel, David Weinstein, Ned Rothenberg, Frisell, Previte, etc.) optasse por
escrever o índice completo e detalhado da sua obra, de modo a facilitar ao
ouvinte a decifração do labirinto.
John Zorn figura como músico
convidado em “Possession”, embora em termos sonoros os God não se afastem em
demasia do universo estético/terrorista dos Naked City, com quem partilham uma
especial preferência pelas virtudes do sadomasoquismo. No folheto interior,
entre corações de metal, máscaras e vísceras sortidas, os God deixam clara a
imagem que fazem do amor: “Being person who is owned and fucked becoming
someone who experiences sensuality in being possessed.” Aqui o filme é de
horror e o som abrasivo, feito de massas sonoras em descargas contínuas de ódio
e distorção. De “Fucked “ e “Return to hell” a “Soul fire” e “Hate meditation”,
os God mostram que são feios, porcos e maus. Registe-se como curiosidade a
inclusão no grupo de Tim Hodgkinson, que integrou a formação original dos Henry
Cow e agora se vê metido no inferno.
Antecedente principal e
referência paradigmática das estratégias Zornianas, a obra de Carl Stalling
prefigura-se, entre os anos 30 e 50, como uma das mais revolucionárias da época
na América. Vinte e poucos anos ao longo dos quais Stalling compôs as bandas
sonoras para os desenhos animados de Tex Avery para a Warner. “The Carl
Stalling Project” reúne gravações originais dessa era dourada da animação.
Cinco anos antes da sua morte, referia-se nestes termos ao cinema de animação
atual: “Têm tantos diálogos que a música deixa de ter significado.” Entre as
tropelias de Bugs Bunny e Daffy Duck, a música destas pequenas sinfonias
delirantes congrega em segundos toda a história da música americana que vai de
Ellington a Copland, de Ives a Cage, intercalada pelo “Mickey mousing” – termo
técnico que designa os ruídos onomatopaicos que acompanham a ação e os
distúrbios das personagens animadas.
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