PÚBLICO SÁBADO, 30 NOVEMBRO 1991 >> Cultura
Nigel
Eaton em digressão portuguesa
Sanfona
de baunilha
NIGEL
Eaton, tocador de sanfona e destacado representante da “terceira via” da “folk”
britânica, atua hoje em Coimbra. Na Guarda e em Algés, terça e quarta-feira.
Acompanhado pelo gaiteiro Paul James. Ambos fazem parte dos Blowzabella, cujo
novo álbum, “Vanilla” (“baunilha”), acaba de chegar aos escaparates nacionais.
Locais agendados são o Café Santa
Cruz, em Coimbra, o antigo café Mondego, na Guarda e o Palácio Anjos, em Algés.
Todos os espetáculos às 21h30. Em paralelo com os concertos haverá “workshops”
de sanfona e gaita-de-foles, nas localidades e datas assinaladas. A organização
é da “Etnia”, com o apoio das Câmaras Municipais da Guarda e de Oeiras e do
Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra.
De Nigel Eaton pode dizer-se que é um
mago da sanfona, de tal modo a sua mestria do instrumento lhe permite casar as
sonoridades da música medieval e da Renascença, com peças da tradição inglesa e
bretã ou com manipulações mais próximas da pop contemporânea.
A sua aprendizagem do instrumento
fez-se no seio da escola francesa, tendo vencido, em 1986, o concurso de
“maîtres-sonneurs de vielles et cornemuses” de Saint-Chartier, em França.
Gravou a solo, em compacto, “The Music of the Hurdy-Gurdy” (disponível entre
nós), “tour de force” de sanfona em obras tradicionais, de Vivaldi (“Il Pastor
Fido”) e da sua própria autoria.
Paul James, companheiro de Nigel Eaton
nos Blowzabella, além de exímio executante de gaita-de-foles, toca saxofone,
flauta, teclados e percussões. Vale a pena escutar as prestações de ambos nos
Blowzabella, grupo estranho, encantatório, diferente da maioria dos seus
congéneres. Depois de um álbum gravado ao vivo no Brasil (“Pingha Frenzy”)
assinaram a obra-prima “A Richer Dust” na qual pontifica a inesquecível suite
que ocupa todo o segundo lado do disco, “The Wars of the Roses”, inclusão
fascinante no universo da música antiga sustentada por uma energia que se diria
próxima do “rock”, apelativa mesmo para os ouvidos mais habituados ao frenesim
da modernidade.
Em “Vanilla”, gravado no ano passado,
os Blowzabella de novo dão a provar o doce sabor a terra, desenvolvendo essa
como que “terceira via” da música tradicional, de síntese entre o antigo e o
“atual”, do rigor com a alegria da transgressão, da veneração às origens com
novas e não menos atuantes formulações. À música dos Blowzabella chamou Nigel
Eaton “antiga caixa de ritmos”. Definição sugestiva para um percurso de
contínua aproximação ao que está prestes a irromper no final do milénio: a
eternidade incarnada no mundo e no tempo.
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