PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 2 DEZEMBRO 1991 >> Cultura
Maria
João apresenta “convidadas” em Lisboa
A
música suspensa do corpo
A cantora Maria
João atua hoje à noite no Teatro S. Luiz em Lisboa. Com a presença de
“convidadas” ligadas a outras áreas musicais: Lena D’Água, Teresa Salgueiro
(Madredeus), Anabela Duarte (ex-Mler Ife Dada) e Xana (Rádio Macau).
Adivinham-se surpresas. Maria João prefere guardar segredo.
Em princípio, tudo pode acontecer.
Acompanhada pelos habituais Mário Laginha, piano, Carlos Bica, contrabaixo,
José Peixoto, guitarra e José Salgueiro, bateria, Maria João, uma vez mais,
preferiu o prazer inesperado, o confronto com a novidade – “a ideia é
justamente pegar em pessoas que não fazem o mesmo que eu, construir qualquer
coisa com elas e ver a que é que soa. Isto é que é divertido e estimulante”.
“Uma ideia deliciosa” – nas suas próprias palavras.
Quem quiser pormenores, o melhor que
tem a fazer é deslocar-se logo às 22h00, ao Teatro S. Luiz, e ouvir para crer.
Que vai acontecer qualquer coisa diferente, é garantido, mas o quê? “Isso é
surpresa” – a cantora fecha-se em copas e apenas adianta que “como de costume,
vai haver lugar para a improvisação”. Trata-se, para Maria João, de uma
necessidade vital de movimento, de constante mudança: “Seria extremamente
aborrecido se fosse uma coisa fixa. Gosto muito de mudar as coisas. Até ao
último minuto.”
A solo, sabe-se que cantará temas do
seu mais recente álbum, “Sol”, gravado na Alemanha com o selo Enja e os mesmos
músicos do espetáculo de hoje à noite. Além de “outras pequenas coisas que não
estão lá, e as convidadas, claro”. Claro. Logo à noite se verá qual o segredo
que permite juntar, no mesmo palco, a pureza ascética de Teresa Salgueiro, o
jovial cançonetismo de Lena d’Água, a excentricidade de Anabela Duarte e a
energia rock de Xana, com o discurso libertário de Maria João
Entrega
total
A ideia de recrutar outras cantoras,
aquelas de que “mais gosta”, surgiu a partir de um projeto que desde há algum
tempo vem mantendo no estrangeiro, um trio vocal feminino do qual fazem parte
ela e duas americanas, a experimentalista Lauren Newton e a cantora de ópera,
residente da Filarmónica de Berlim, Catherine Geyer. Refira-se a propósito que
Maria João ainda tem tempo para se integrar num quarteto “com um programa
especial”, ao lado de Mário Laginha, a já citada Lauren Newton e o guitarrista
alemão Thomas Hortsmann. Já para não falar das aventuras em duo com a pianista
japonesa Aki Takase, das quais resultaram o magnífico “Looking for Love”, e em
trio, com Takase e o contrabaixista dinamarquês Niels-Henning Ørsted Pedersen,
no álbum “Alice”.
Seja qual for o contexto, o que mais
impressiona nesta cantora que, de uma maneira quase sôfrega, não para de
evoluir, é a paixão com que se entrega de corpo inteiro à música, numa relação
que tem muito de sexual. Tinham razão John Coltrane e John McLaughlin quando
defendiam que fazer música é deixar-se possuir e tocar por ela e que ao
intérprete se exija que seja o seu instrumento afinado. Afinação que exige uma
total transparência e a máxima tensão/atenção. Fazer música é saber ouvir a voz
que vem de dentro, o movimento cósmico que em cada indivíduo se manifesta e
traduz numa forma particular. No caso de Maria João essa capacidade passa pela
dimensão física, pela sensualidade dos gestos, pelo desnudar interior. Seria
isto o jazz se “isto” não fosse mais qualquer coisa.
Jazz
ou algo mais?
Eis-nos chegados ao pomo da discórdia,
para os que estão do lado de fora. Maria João é uma cantora de jazz ou não é
uma cantora de jazz? Ela não se importa nada com isso, desde que as pessoas a
ouçam e gostem do que ouvem. O termo “jazz”, há quem o jure a pés juntos, é uma
derivação fonética do verbo francês “jaser” – “tagarelar, conversar
animadamente e um pouco à toa sobre diversos assuntos”, segundo a “Grande
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras),
que era a que estava mais à mão.
À primeira vista poderá parecer ao
auditor médio português, habituado a ouvir Phil Collins e Madonna, que Maria
João canta “à toa”, isto é, “como uma maluca” a vociferar “coisas sem sentido”,
frequentemente “sem letra”, em suma, “esquisitas”. Mesmo quando essas “coisas”
são um tema de música tradicional portuguesa ou um “standard” de Billie
Holiday. É neste sentido que Maria João pode ser comparada, na atitude e na
maneira como vive e dramatiza a vibração musical, a Bobby McFerrin. Em ambos
existe o amor pela liberdade e uma fé. Ou a consciência, no caso feminino quase
táctil, de um ato mágico que só o verdadeiro músico vive e compreende, no qual a
ordem dos sons, a Harmonia, como que se organiza por si própria, cabendo ao
Intérprete, com “I” grande, centrar-se, coincidir, dizer e dizer-se, dançar e
dançar-se, e às vezes consumir-se, nesse fogo que dizemos vir de “cima”, ou de
“dentro”, quando queremos significar a transcendência.
Diz-se por outro lado, muito por força
do hábito, que o jazz é “música de negros”. A “Grande Enciclopédia Portuguesa e
Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras) faz mesmo questão de
acentuar a “natural disposição dos negros para a arte musical”. É verdade. Em
Maria João corre, do lado materno, sangue africano. É o polo energético
complementar: a natural apetência pelo ritmo, a assunção das forças da terra
que sobem dos pés até ao cérebro e os põem a dançar. É ainda a sensualidade e,
se levada ao extremo, a dor, alegria insana dessa entrega. E no limite do
humano, a loucura.
Talvez por isso Maria João (como
Meredith Monk ou Shelley Hirsch) saiba a exigência do método (o “haikido” –
não, não é porrada – que praticou, ajuda muito), da justa medida, a necessidade
de equidistância entre o oceano e o raio. Decerto que sabe.
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