Pop Rock
13 NOVEMBRO 1991
LP’S
Domino One
CD, Made to Measure, distri. Contraverso
Das 17 peças que constituem o
dominó, as dez primeiras foram compostas para a peça de bailado “Via”,
coreografada por Régine Chopinot, as três seguintes para um vídeo do próprio R.
Matta e as quatro últimas para “El Laberinto”, peça teatral levada à cena pelo
Teatro de la Claca. Ramuntcho Matta é um compositor, guitarrista e teclista
chileno pouco ou nada conhecido entre nós. Estudou o tango argentino e as
técnicas vocais indianas. Em Nova Iorque, no início dos anos 80, conheceu e
sofreu a influência de John Cage e de Laurie Anderson.
“Domino One” exige ao auditor um
total desprendimento e o abandono dos hábitos ocidentais de escuta. É um
espécime diferente, exemplificativo de um certo “concretismo étnico”, que, no
aspecto formal, é devedor das teorias de Cage. Disco estranho, meditativo,
nalgumas faixas (sobretudo nas curtas sequências de guitarra acústica)
recolhido num primitivismo que do despojamento de meios parte para a criação da
hipnose. Como em “O Clapo”, sete minutos de sussurros de Eli Medeiros sobre o
ritmo do chapinhar de água.
A influência indiana detecta-se em
particular nas sequências de percussão de “Zoique III” ou em “Ne”, pequena
maravilha burilada em vento, tablas e sons residuais da Natureza. “Domino One”
desenha as paisagens do paraíso anterior à técnica, em exotismos de cor,
arritmias pré-históricas, ruídos selvagens, melopeias infantis, cacarejos de
galinhas e o som indescritível de uma “marimbula”. Abordagem intuitiva dos
sons, deixados a voar à solta num redemoinho de sensações. A sequência final,
acompanhando os vários momentos do dia, sendo a única descritiva, é também a
única que permite uma identificação com os parâmetros ocidentais – um jazz
tribal, apoiado nos fraseados guturais do saxofone de Cacau (tocou
com Hermeto Pascoal) e do trompete de Guillermo Fellove. Música anterior ao
pecado original. (7)
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