16/05/2026

"Revolver" [The Beatles]

 

TELE PÚBLICO
Domingo 08.12.1991

NA CAPA

 

“REVOLVER”

 

Paul, John, George e Ringo são nomes próprios de uma década que sonhou mudar o mundo. Os quatro mudaram mais depressa do que o mundo e um deles mais depressa do que todos os outros. Só as canções são eternas. Há 30 anos tocavam numa “caverna” em Liverpool.




Escrever sobre os Beatles, porque não? Revolver o passado à procura do que não falta dizer. Difícil resistir ao apelo do óbvio, da devassa. Para o leitor é o prazer da mastigação fácil de algo já mil vezes digerido. Para o jornalista, o orgulho, apesar de tudo, de fornecer alguns dados novos.

Os Beatles (“escaravelhos”, sabiam?) eram quatro (sabiam?): John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. O primeiro, faz hoje onze anos, morreu assassinado à porta do seu apartamento em Nova Iorque, com um tiro de revólver. Não fora Mark David Chapman ter acordado mal disposto naquela manhã fatídica de 8 de dezembro e talvez os “fabulous four” de Liverpool tivessem podido realizar o sonho acalentado durante anos por milhões de fãs espalhados pelo mundo, de ver o quarteto de novo reunido, a cantar “All you need is love”. Mas para que tal acontecesse teria sido necessário que o carrasco, em vez de Lennon, tivesse disparado sobre Yoko Ono e Linda McCartney. E já agora, sobre Elton John. Infelizmente escolheu o alvo errado. O destino preferia os Rolling Stones.

Recuemos ao passado. Os Beatles começaram por tornar-se célebres pelo comprimento do cabelo. Foram eles que deram origem ao termo “cabeludos”, em geral utilizado pelos nossos pais com um sentido pejorativo, quando queriam refrear a nossa rebeldia. A música, tendo em conta o que à época se fazia, não era má: uma combinação explosiva dos “rhythm ‘n’ blues”, que então começavam a maçar os jovens britânicos, com uma indesmentível capacidade melódica e um jogo vocal que ameaçavam fazer sombra aos seus rivais americanos Beach Boys.

Foi graças a esta saudável rivalidade entre os dois grupos (ou será mais correto dizer entre Paul McCartney e Brian Wilson?), que a música Pop evoluiu, em termos de composição e de produção. As audiências, de um e outro lado do Atlântico rivalizavam, por seu lado, na histeria e nas receções apoteóticas.

Em agosto de 66 os Beatles editam “Revolver”. Os Beach Boys respondem no mesmo ano com a obra-prima “Pet Sounds”, que se diria inultrapassável em génio melódico e no aproveitamento das técnicas de estúdio. Mas Brian Wilson almeja a perfeição. “Smiley Smile”, aquele que seria o testemunho definitivo do seu génio, sofre sucessivos adiamentos motivados por uma crescente megalomania e insatisfação. Os Beatles não esperam e, em 1967, dão o golpe fatal com o clássico dos clássicos “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Para Brian Wilson era o fim.

Libertos do fardo da competição (os Rolling Stones eram um caso à parte e as suas histórias eram outras…) os Beatles têm agora tempo para se dedicarem ao psicadelismo, aos ensinamentos do guru Maharishi e às viagens de LSD em submarinos amarelos. Organizam “Magical Mystery Tours”, abrem boutiques de roupa e uma editora própria. Aproveitam e substituem as mulheres. Paul McCartney casa com Linda. Lennon sucumbe aos encantos (!) de Yoko Ono.

A partir dessa altura as coisas complicam-se. John e Yoko passam a maior parte do tempo nus, em frente às câmaras de televisão, a cantar “Give peace a chance”. Dizem-se virgens e gravam um disco de música experimental “Unfinished Music, no.1”. Paul, por seu lado, é mais dado às lides domésticas. George continua nas aulas de “sitar” enquanto Ringo vai contando anedotas.

Até 1968 e à gravação do célebre duplo-álbum branco, “The Beatles”, para muitos a derradeira obra aproveitável. “Abbey Road” (1969) e “Let It Be” (1970) fecham com chave de lata o jogo da glória. Os Beatles alcançam o estatuto divino (embora já tivessem declarado antes serem mais populares que Jesus Cristo) no momento em que decidem subir ao telhado dos estúdios “Abbey Road” e aí tocarem ao vivo, num gesto que marcaria a sua despedida como quarteto. Nunca chegaram a descer.

 

ARTES E LETRAS
DOM. 8, TV 2, ÀS 00H50

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