PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 AGOSTO 1991 >> Pop Rock
O
CÂNTICO DOS ANDRÓIDES
Para os Kraftwerk,
a realidade é um filme de ficção científica, em que as máquinas desempenham o
papel principal. Ou pelo menos metade do papel. O conceito de “homem-máquina”
permite compreender a filosofia de Ralf Hütter
e Florian Schneider, dois revolucionários que preferiam ter metal em vez de
pele e um compuador de bolso no lugar do coração.
Como Ray Bradbury, os Kraftwerk
“cantam o corpo eléctrico” e, de acordo com as regras inerentes a um mecanismo
perfeito, desprezam a emoção humana. Ou como gostam de dizer: “O frio também é
uma emoção.” Em vez das reações primárias desencadeadas pelo rock ‘n’ roll,
preferem a “emoção mental” provocada pelos sintetizadores. Ao suor e às
descargas de adrenalina desencadeadas por uma guitarra elétrica, instrumento
que consideram “medieval”, contrapõem a linguagem implacável dos dígitos e a
perfeição do computador.
Brian Eno, David Bowie (que inclusive
dedicou um dos temas de “Heroes”, “V 2 Schneider”, a Florian Schneider), Arthur
Baker e os Afrika Bambaata de “Planet Rock”, a “House” de Chicago, ou os jovens
ingleses electropops de cabelo rapado, são devedores das inovações “techno”
destes dois alemães, para quem a música, mais do que uma arte segundo os
preceitos tradicionais, é uma técnica que não admite o erro humano.
Paradoxalmente, os americanos
renderam-se ao ritmo de “Autobahn”, “The model” e “Showroom dummies”, dançados
sem preconceitos nas discotecas. O paradoxo de uma música “fria” e “mental” que
afinal consegue seduzir os sentidos. Talvez por os Kraftwerk, como Ralf e
Florian garantem, terem conseguido introduzir o ritmo do corpo na música eletrónica.
Folk
industrial
Numa Alemanha devastada pela guerra,
onde tudo se reconstruía, os Kraftwerk renegaram o passado histórico do rock
para partirem à descoberta de algo inteiramente novo, expresso, a partir de
“Autobahn”, no conceito de união entre o homem e a máquina. Fechados no estúdio
Kling Klang (um laboratório onde “fazem coisas científicas”) em Dusseldorf,
Ralf Hütter e Florian Schneider buscam sem
descanso a resolução definitiva do conflito entre o humano e o maquinal.
Seja na descoberta de novos meios eletrónicos
de produção musical (aos Kraftwerk se deve a invenção de um modelo original de
sequenciador ou de uma célula fotoelétrica capaz de traduzir em impulsos
sonoros os movimentos do corpo) ou em teorizações mais ou menos fascizantes, o
objetivo permanece o mesmo: criar uma “música folk industrial em que as
máquinas sejam tratadas de igual para igual com o homem no processo criativo”,
uma “música que destrua a oposição entre o homem e a tecnologia”.
Importante, no processo de criação
artística, é – segundo afirmam – a “troca de energia entre o humano e a fonte de
energia”, numa relação dialética escravo-senhor (exemplarmente caracterizada em
“Voice of energy”, do álbum “Radio-Activity”), em que o homem ora é mestre da
máquina (por exemplo na programação de um computador) ora se torna seu escravo
(na medida em que essa programação acabe por ser condicionada pela estrutura e
pela lógica intrínseca da máquina).
Segundo os Kraftwerk, é necessário que
o homem se torne “amigo” das máquinas, se quiser impedir a sua revolta (a
poluição seria assim um grito de protesto das máquinas, fartas de ficar sempre
com os trabalhos “mais sujos”). No fundo, trata-se de um jogo de poder que só
terminará quando acabar a exploração da máquina pelo homem. Não são as máquinas
que são demoníacas mas os homens, que não sabem lidar com eleas – “um carro”,
por exemplo, funciona melhor se for “bem tratado” – ironizam.
O
culto da despersonalização
Trilogia do “admirável mundo novo”,
“The Man Machine”, “Computer World” e “Electric Café” traduzem na perfeição
toda essa estética que Hutter e Schneider assumem como filosofia de vida:
celibatários convictos, a maior parte do tempo é dedicada à pesquisa de estúdio
e à procura de novas sonoridades eletrónicas. Compreende-se agora melhor por
que razão ninguém, neste campo, os consegue igualar.
Não descuidam a imagem, no seu caso
uma anti-imagem, composta pelo ar distante e pelo envergar sistemático de fato
e gravata (como resposta ao facto de “hoje em dia toda a gente usar ‘jeans’”)
ou na escolha de poses que alguns identificam como inspiradas na ideologia
nazi. Os homens-máquinas afirmam que apenas gostam da “uniformidade” e que
nunca utilizaram suásticas. O culto da despersonalização é levado ao extremo
com o recurso em palco, nas capas de discos ou nas (raras) entrevistas, a
manequins-réplicas que procuram simbolizar a natureza andróide dos originais.
Para Ralf Hütter e Florian Schneider é tão simples
como isto: “Nós tocamos as máquinas e as máquinas tocam-nos a nós.” Neste
processo de simbiose gradual entre o organismo biológico e o organismo
cibernético, a etapa final está em “converter diretamente os impulsos cerebrais
em sons audíveis” e a técnica, capaz de materializa-la, terá que passar pela
“derradeira forma musical – a telepatia”.
O
corpo novo remisturado
“The mix”, novo disco de remisturas e
novas gravações de temas antigos, funciona assim como uma recapitulação ou um
compêndio documental onde se demonstra a eterna mutabilidade dos “cânticos
andróides” kraftwerkianos, chamemos-lhes assim, suscetíveis de infinitas
variações e múltiplas reinterpretações.
Se em “Autobahn” é a compressão do
tempo e em “Radio-Activity” a sua atualização (através da referência explícita
a Chernobyl) ou em “Trans Europe Express”, pelo contrário, a sua dilatação
levada ao barroquismo, em qualquer dos casos, trata-se sempre de expor, nas
suas múltiplas formas, a natureza e a “carne” infinitamente plástica de um
“corpo novo” surgido das cinzas do velho mundo. Como se os Kraftwerk tivessem
conseguido finalmente concretizar o sonho de Frankenstein e ultrapassado as
monstruosidades de Cronenberg.
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