08/05/2026

Para ouvir de olhos fechados [Harold Budd, Bill Nelson]

 

PÚBLICO DOMINGO, 3 NOVEMBRO 1991 >> Cultura

 

Harold Budd e Bill Nelson na Aula Magna

 

Para ouvir de olhos fechados

 

A música de Harold Budd e Bill Nelson deve ser ouvida com as pálpebras em descanso. Para meditar sobre a vida, desfrutar de uma grande paz interior ou simplesmente dormir. Houve quem adorasse e quem se entediasse. Em todo o caso fez-se silêncio na Aula Magna, em Lisboa.

 

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Pouco mais de meia casa espalhada, anteontem à noite, pelo auditório da alameda da Universidade, disposta a, melhor ou pior, descansar do “stress” citadino, já que a música da dupla a tal se presta, independentemente da sua vertente transcendental. Com alguns minutos de atraso sobre a hora prevista Bill Nelson sobe ao palco para anunciar que o “set” iria ser dividido em três partes: guitarra solo e fitas pré-gravadas, Harold Budd em piano solo e, por último, os dois juntos.

Percebe-se de imediato que Nelson não se sente muito à vontade a tocar em público. Não para quieto um minuto, ameaçando a todo o momento derrubar o microfone com o braço da guitarra ou tropeçar num fio qualquer. O primeiro tema é uma improvisação de guitarra, estilo Robert Fripp, sobre sons eletrónicos e um discurso previsivelmente incompreensível de William Burroughs. Nos seguintes, Bill Nelson toca guitarra, estilo Robert Fripp, sobre sons eletrónicos e um discurso incompreensível de William Burroughs. Momento alto quando o guitarrista toca guitarra, estilo Robert Fripp, sobre sons eletrónicos e um discurso incompreensível de William Burroughs. Silêncio. Apresenta Harold Budd, “um grande amigo, grande pianista e grande compositor” e retira-se.

 

Um descanso

 

Budd agradece aos portugueses a sua “gracious hospitality” e toca ao piano uma sequência improvisada, nos acordes de ré bemol maior, “the ultimate chord”, como lhe chama, o mesmo da célebre peça para gongo que dura 24 horas, e Mi maior, respetivamente, naquele que constitui o melhor momento de todo o concerto. Apetece fechar os olhos e entrar no nosso nirvana particular. Até porque um holofote de luz rosa (a mesma que um dia Philip K. Dick tomou por Deus e o enlouqueceu?) está apontado aos nossos olhos, acrescentando tonalidades irreais e problemas oftalmológicos à candura hipnótica da música. Música inviolável às investidas do tempo e da razão. Sons do céu, que elevam e enlevam. Para ouvir em solidão. Tudo o resto acabou por ser supérfluo.

Bill Nelson regressa na terceira parte para se juntar ao pianista que, até ao fim, veste a pele de Erik Satie, fornecendo o suporte harmónico sobre o qual o guitarrista vai tecendo delicadas filigranas, na guitarra elétrica ou na acústica, com ou sem efeitos, em “estilo Fripp” ou na técnica “bottleneck”, em “glissandos” intermináveis ou, em certos momentos, unicamente com a emoção. Por instantes a música sugere a dos Cluster com Brian Eno, em sobreposições rítmicas e repetições próximas do minimalismo. Budd recita, numa voz pausada e monocórdica, alguns poemas, acompanhados ao piano. Bill Nelson não consegue resistir ao efeito “Lorenin”, mal disfarça um bocejo e dá dois ou três pulinhos para acordar.

Um dos melhores momentos do dueto, uma peça abstrata à maneira de ‘Karlheinz Peixinho’ com toques de ‘Zé Maria Xenakis’, rompe no espaço silêncios e ecos desmesurados mas é interrompido de forma abrupta pelo aplauso prematuro de alguém talvez arrancado em sobressalto aos prazeres de Morfeu. Como se os músicos receassem, de algum modo, aborrecer. Não aborreceram nada, antes pelo contrário, para muitos foram um descanso. Finda a função, o público pede, por delicadeza, um “encore”. Os músicos anuem e voltam ao embalo. A calma quase se transforma em coma. Já tocou para a saída?

 

Flamenco, do coração aos pés [Paco de Lucía]

 

PÚBLICO SÁBADO, 2 NOVEMBRO 1991 >> Cultura

 

Paco de Lucía em concerto telúrico, em Lisboa

 

Flamenco, do coração aos pés

 

Com Paco de Lucía e o seu sexteto, a música sobe da terra pelo corpo acima, passando pelo coração para acabar nos pés. Foi assim anteontem à noite no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

 

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Lotação esgotada para assistir ao flamenco e sentir o sangue correr nas artérias, nas veias e na música de Paco de Lucía. Estranhamente, era escasso o contingente cigano presente no recinto. Costuma ser ele a fazer a festa. Sem o fogo cigano, houve maior comedimento no aplauso, que não menor entusiasmo.

Paco de Lucía e os restantes seis músicos que constituem a sua atual banda de suporte deram espetáculo, em várias aceções da palavra – de virtuosismo técnico, de emoção, de comunicação com o público. Sobre um palco decorado com um friso de plantas a sugerir ambiências tropicais, Paco de Lucía começou por tocar a solo, na guitarra de flamenco que é parte de si próprio, um tema que deu o mote ao resto do concerto: a miscigenação de estilos, o cruzamento de referências e linguagens, servidos sempre por uma sensibilidade extrema e alicerçados na rítmica do flamenco.

Aos poucos foram surgindo os restantes músicos. Primeiro, apenas dois para marcar com batimento de palmas o intricado do compasso sobre o qual o guitarrista deu livre curso à sua faceta de genial improvisador. Finalmente, e depois de um novo duo, desta vez em instrumentos de percussão, o sexteto inteiro em incursões ora na genuína música cigana, sentida até ao fundo nas vocalizações de José Sanchez Gomez, ora em aproximações ao jazz ou à música árabe.

Sem negar as virtudes da criação coletiva, pelo menos na primeira parte do espetáculo, foi notória uma menor energia, quando comparada com o telurismo arrasador das prestações de Paco de Lucía, a sós com a guitarra.

O intervalo parece ter sido benéfico para os intervenientes em palco. Como se a primeira parte tivesse sido um aquecimento para a segunda, pondo de lado todas as reservas relativas a uma “traição ao flamenco” e à “pureza” do mesmo. Seria caso para dizer que “traidores” desta estirpe são sempre benvindos. Num ápice esqueceram-se a objetividade e as ferroadas da razão. O corpo fazia valer os seus direitos. Manoel Soler salta para um palanque situado frente aos músicos e é o terramoto cigano. As mãos voam, desenham figuras no espaço, os pés sapateiam ora com asas ora como tiros, matraqueando a madeira, com ternura, com fúria, com o ritmo a marcar as pulsações do coração. Os gestos evocam os do toureio. Como se ao homem fosse natural o desafio, a arte de domesticar a besta, o instinto sublimado na dança. Só não dançou o público, por falta de espaço.

Momentos altos foram também um belo solo de flauta de Jorge Pardo, trazendo para o Coliseu reminiscências do feitiço árabe ou o espantoso dueto/diálogo/confronto entre a guitarra de Paco de Lucía e a “bandurria” de Ramon Sanchez Gomez, numa cavalgada empolgante que, na vertigem e no transe da dança, se confundiram com um “dervishe” acelerando no corpo e no espírito mediterrânicos.

Retiraram-se os músicos mas a assistência queria mais, batendo por sua vez com os pés no soalho do Coliseu. Desejo parcialmente satisfeito nos dois “encores” em ritmo de descompressão, incluindo uma música de feira perfeitamente dispensável, insuficiente para estragar um espetáculo a todos os títulos notável. À saída do caldeirão de emoções, houve talvez quem, cigano ou não, se sentisse, mais do que nunca, nómada da vida. O flamenco continuava a pulsar, agora no coração da noite.

 

O verbo em movimento [Harold Budd]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 1 NOVEMBRO 1991 >> Cultura

 

O pianista Harold Budd atua hoje em Lisboa

 

O verbo em movimento

 

Música e poesia confundem-se na obra de Harold Budd, compositor/pianista que hoje atua em Lisboa. Não é todos os dias que se assiste ao espetáculo do verbo em movimento.

 

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Harold Budd, que hoje atua, às 22h30, na Aula Magna, em Lisboa, acompanhado pelo guitarrista Bill Nelson, aprendeu o ritmo e a circularidade do tempo com os minimalistas americanos, integrado na cena “avant gard” californiana dos anos 60, essa época de todos os possíveis.

Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley inventavam então a música sem fim. Vagas cósmicas que ainda hoje afluem à praia, a que chamaram “minimalismo” e “repetitivas”, por insuficiência da razão. Mais longe foi o papa do movimento, La Monte Young, no seu “Teatro da música eterna” seguindo pelas ondas até ao oceano do Silêncio. Com ele Harold Budd compreendeu o valor da distensão temporal, da hipnose. Gravou uma peça para gongo chinês solo “The candy-apple revision” que ressoava ininterruptamente por 24 horas. “Madrigals of the Rose Angel”, escrito para um coro feminino em “topless”, mostra que o humor nunca deixou de estar presente na sua música.

O mundo só percebeu que existia Harold Budd quando um aristocrata chamado Brian Eno resolveu iluminar, de forma discreta como é seu timbre, as bizarrias dos então “outsiders” Gavin Bryars, Michael Nyman, David Toop e Penguin Cafe Orchestra, entre outros, na editora “Obscure”. “The Pavillion of Dreams”, editado nessa série, dava a conhecer um Harold Budd dividido entre a interiorização extática e um estilo pianístico próximos de Erik Satie e as liberdades jazzísticas concedidas ao saxofone de Marion Brown.

 

O som das palavras

 

“The Plateaux of Mirror”, o álbum seguinte, viria a mostrar a via escolhida para o futuro: a viagem até à nascente, ao “não-ser” que serve de alavanca e motor do mundo. A descoberta da força das palavras, além dos significados. E de que a poesia começa pelo som. Música das palavras, por natureza livres, mágicas, antes de enformarem o conceito. Antes mesmo de se mitificar no símbolo, o Verbo é esse Som que rasga as trevas, permitindo a organização harmónica a que chamamos Vida.

“Lovely Thunder”, “The Moon and the Melodies” (com os Cocteau Twins), “The Pearl” (com Brian Eno), “The Serpent in the Quicksilver” (música para instalações), “The White Arcades”. Que América se desvela nessas melodias que as palavras libertam? A revelação deu-se, curiosamente, com a visão de uma obra do artista italiano Sandro Chia, reunindo pintura e poesia. “Uma luz desceu sobre a minha cabeça”, afirma o compositor quando se refere à génese poética do seu novo álbum, “By the Dawn’s Early Light”, primeiro em que o texto irrompe através da voz humana, na introdução e conclusão declamadas.

A outro nível, a música e os títulos referem-se a uma geografia específica, a lugares habitados pela imaginação e gravados no marfim das teclas do piano, qual estrada de Santiago, onde as estrelas se erguem no eixo vertical aos veios da terra, delimitando o caminho a seguir até a catedral. Imagine-se então e habite-se essa catedral de luz erigida nos grandes espaços de uma Califórnia mítica, de contornos indefinidos ao ponto de se evolar, miragem, nos grandes calores do deserto em Victorville que o pianista aprendeu a decifrar. Chame-se a Harold Budd “ambiental”, “minimal”, “impressionista” ou, seguindo a moda, “Pós-moderno”. Qualquer das definições se lhe aplica. Nenhuma é suficiente para exprimir a serenidade admirável de uma música que, gerada pelo génio humano, se eleva a outras esferas. Acima de tudo, uma música que ensina a escutar.

 

"Ver a vida através da guitarra" [Paco de Lucía]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 31 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

Paco de Lucía traz o flamenco a Lisboa e ao Porto

 

“Ver a vida através da guitarra”

 

Nómada de alma cigana e andaluza, Paco de Lucía transporta na guitarra flamenca o fogo e a inquietude. Mas também a alegria do ritmo e a proximidade de todas as músicas do mundo. Hoje à noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, vai perceber-se por que cantou um dia: “Solo quiero caminar”.

 

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Fala devagar, pausadamente, quase para dentro. Como que temendo desconcentrar-se, por um segundo, da guitarra omnipresente. Para Paco de Lucía tudo se resume ao instrumento que desde os oito anos de idade aprendeu a tocar: a guitarra de flamenco. “Instrumento muito ingrato” – diz, com um sorriso cúmplice –, “basta uma semana sem pegar nela para se desaprender a tocar”.

Claro que não é assim. Paco de Lucía vibra em consonância com as cordas da guitarra. Segundo a lei dos mestres, funde-se na unidade de um corpo único, feito de carne e de madeira, animado pelo fogo: “Para tocar bem guitarra, é necessário dedicar-lhe toda a vida e abdicar de coisas talvez mais agradáveis. Mais é preciso ver a vida através da guitarra, o que se pode tornar muito pesado.”

Queda-se impotente a gravidade, mal os dedos afloram o metal. Chispas de lume interior, enfeitiçante. À semelhança de outros grandes guitarristas para quem a guitarra constitui uma religião (John McLaughlin, Carlos Santana, com os quais de resto já tocou), a prática musical reveste-se para si de um significado místico, ponte e porta para a transcendência, libertação: “Quando chega o duende da inspiração [chama-lhe, num disco, “Duende Flamenco”], tenho a sensação que me vou, que saio fora de mim, que flutuo no ar.” Inspiração. Respiração. “Depende do dia. Depende do que se tem na cabeça. A minha música é um abstração que provoca sensações animais. Não tem uma coerência literária. Não exprime ideias concretas. A única mensagem é emocional. Ou se sente ou não se sente.”

Por isso, nos Coliseus de Lisboa e do Porto onde tocará acompanhado por um sexteto constituído por Ramon Gomez, José Gomez, Ruben Dantas, Carlos Benavente, Jorge Pardo e Manuel Soler, tudo dependerá da inspiração do momento: “Vai haver muita improvisação.”

Dizer então apenas o som. E a luz. Luz mediterrânica do Sol andaluz. Demasiado branca, que cega a razão, obrigando-a a desejar, inconsciente, a água da fonte e a sombra dos pátios interiores da alma. Ou essa indefinição que tudo abarca (e tão presente também no fado português) gerada na conveniência cigana, essa raça “chegada à Europa há 500 anos, ainda sem uma música própria”, mas que, numa paragem do tempo “em cada lugar onde se estabelece, agarra na música local, adaptando-a à sua própria maneira de sentir”.

Paco de Lucía faz o mesmo com o flamenco – “nasci no flamenco, vivo no flamenco” – e com as outras músicas do mundo: “Sou alguém que não para de evoluir, à procura de conhecimento e de contacto com outros tipos de música, para as poder adaptar à minha própria criação.”

Busca incessante de infinito, no cruzamento com diferentes universos musicais, que o leva ao diálogo constante com intérpretes oriundos dos mais diversos quadrantes musicais: John McLaughlin, Carlos Santana, Larry Coryell, Al Di Meola. Há muito que pensa gravar um disco com Carlos Paredes. Só não o fez ainda por “falta de tempo para confrontar ideias e ensaiar”.

Também os discos refletem essa apetência pela variedade e pela síntese de linguagens: “Siroco” é trespassado pelos ventos africanos. “Zyryab” reinventa de forma exuberante o “flamenco-jazz”. O próximo álbum será uma interpretação do “Concierto de Aranjuez”, de Joaquín Rodrigo, com a guitarra clássica do original substituída pela maior dinâmica rítmica da sua congénere flamenca. Trata-se talvez dessa necessidade de “alimentar o espírito, bem mais complicada do que alimentar a barriga”, referida pelo músico. Afinal, uma questão de sobrevivência.


Humano demasiado desumano ["Tame Yourself"]

 

Pop Rock

30 OUTUBRO 1991

 

HUMANO DEMASIADO DESUMANO

 

Chega de crueldade. Sabe-se como os animais são pau para toda a obra. Em nome do progresso ou da vaidade humana, mata-se e destrói-se, no fundo, uma parte de nós mesmos. Disposto a enfrentar a situação, o PETA luta em várias frentes pela causa animal. Contra os dislates da besta humana, com a música de “Tame Yourself” a ajudar.

 

No reino animal, como nos outros, há bons e maus filhos e enteados. Há animais simpáticos, sem sombra de dúvida: o cão, o golfinho, a baleia, o esquilo, o panda, etc. Outros provocam uma indisfarçável repulsa: os vermes, as ratazanas, a lesma, algumas espécies de políticos ou os insetos em geral.

O ser humano tem o costume de dizimar indiscriminadamente uns e outros. No primeiro caso, trata-se de uma atrocidade. No segundo, de uma desinfestação. Matar um vison, para a confecção de um casaco que irá resguardar do frio um ser humano “desprotegido”, é uma atrocidade. Mas envenenar milhares de ratazanas que fazem pela vida na cidade, é uma desinfestação.

Grita-se de indignação ao mínimo gesto mais brusco para com um okapi do Alto Volta. Mas pontapear uma barata indefesa contra a parede, provocando-lhe fratura de crânio e outras lesões por vezes fatais, é considerado uma ação desejável, encorajada com um sorriso nos lábios.

Dá-se um ligeiro toque num urso polar e logo surge, lesto, o Greenpeace de polegar acusador a gritar: “Extermínio!” mas quando num laboratório se assassina, de uma penada, milhões de micróbios com uma única vacina, toda a gente desvia o olhar e finge que não vê.

 

Brincadeiras proibidas

 

Trata-se de uma problemática a que foram sensíveis músicos como Nina Hagen, Lene Lovich, Michael Stipe (nos últimos tempos tem ido a todas), K.D. Lang, Belinda Carlisle, Jane Wiedlin e os grupos Raw Youth, B-52’s, Erasure, Go-Go’s, Indigo Girls e Pretenders. Todos juntos resolveram gravar um disco em defesa dos direitos dos animais, intitulado “Tame Yourself” (já criticado no Pop Rock), sob os auspícios do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals). “Pet” quer dizer em inglês “animal de estimação”. Não é peta, é verdade. Fazem falta mais “PETAs" como esta, neste mundo-cão.

O tema que dá nome ao álbum, “Tame yourself” foi escrito pela nova banda Raw Youth, cujos membros aparecem, no “clip” promocional, envergando fatos de banho de pele falsa. No mesmo teledisco, aparecem ainda Chrysse Hynde, dos Pretenders, Fred Schneider e Kate Piersen, dos B-52’s, Howard Jones e outros, “dançando e brincando com vacas, porcos, cavalos e outros animais”, como diz a promoção. Vamos todos brincar e dançar com as vacas e os porcos, e dar uma ajudinha à PETA.

Os lucros de “Tame Yourself” destinam-se a apoiar várias iniciativas, empenhadas em pôr fim à “crueldade para com animais nas indústrias de cosméticos, laboratórios experimentais e no comércio de peles”. Ainda segundo a promoção, o álbum “celebra a vida, sem alienar aquelas pessoas que comem carne e vestem peles”. Porquê sem alienar? Tais pessoas deviam ser todas, e já, alienadas. Alienem-nas, para acabar de vez com esse gesto bárbaro que é comer um bife. Já agora, e sem querer desestabilizar, convém saber que também as plantas têm sentimentos, reagindo, tal como nós, à dor e à adversidade. Parece que até os iogurtes sentem. Está cientificamente provado.

Especificamente sobre o problema dos animais abatidos para o fabrico de peles, realizaram-se vários espetáculos (o de Washington atraiu, junto ao monumento, cerca de 35.000 pessoas), sob o título genérico “Rock against Fur”, nos quais participaram, entre outros, os B-52’s, Howard Jones, 10.000 Maniacs, Psychedelic Furs (precisamente…) e Sugarcubes.

 

O Homem contra a Natureza

 

É possível brincar com coisas sérias. Mas sabe-se como os animais são maltratados: costuma dizer-se que, pela maneira como cada um lida com os animais, assim lida com os humanos, e é verdade. Será utópico querer parar de repente com a violência que, em nome da ciência ou da vaidade humana, se comete, a cada momento, contra os animais e contra a natureza em geral?

O PETA já conseguiu resultados práticos. Campanhas efetuadas na Europa e na Austrália resultaram na proibição de utilizar animais em testes nas firmas Revlon, Avon, Benetton, Estée Lauder; a redução mundial das encomendas de casacos de pele; o encerramento, na Coreia do Sul e em Montana, EUA, de quintas de criação de animais, destinados exclusivamente à indústria de peles, ou do maior matadouro de cavalos da América do Norte. O fecho de um laboratório, pelo Governo americano, que levou, inclusive, à prisão de um vivisseccionista (embalsamador) e a denúncia sistemática das atrocidades cometidas sobre os animais, nos laboratórios, nos circos, nos zoos e em espetáculos são outras das vitórias alcançadas pelo PETA.

Mas a situação não se alterará radicalmente, enquanto o homem persistir em considerar-se o rei da criação. Enquanto encarar a natureza como uma matéria bruta a explorar em seu proveito. Enquanto não compreender que a vida é constituída por um elo único. Enquanto não admitir a sua própria estupidez.

Enquanto assim for, não há PETA que nos valha, ou melhor, que valha aos irmãos animais.

 

07/05/2026

"Ao vivo é a hora de ser" [Marisa Monte]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

Marisa Monte traz novo espetáculo a Portugal

 

“Ao vivo é a hora de ser”

 

Há qualquer coisa em Marisa Monte que apela aos sentidos. A cantora brasileira impressiona pela voz envolvente, mas também por uma presença física que, na pose distante, sabe atear o desejo. Arto Lindsay, John Zorn e Ryuichi Sakamoto sucumbiram ao fascínio, no novo disco da jovem diva. Lisboa e Porto vão vê-la, escutá-la e pedir “Mais”.

 

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“A minha música e a minha presença em palco, são extensões do que eu sou” – explica ela. Talvez resida aí o segredo desse algo indefinível que “encanta as pessoas” e que os portugueses terão oportunidade de verificar “in loco”, dias 25 e 26 em Lisboa, na Aula Magna, e a 28 no Coliseu do Porto.

PÚBLICO – Em relação aos concertos de Lisboa e do Porto, quais serão as diferenças quanto à atuação de há um ano, no Festival “Sons do Mar”?

MARISA MONTE – Isso foi antes do meu segundo disco [“Marisa Monte”]. A principal diferença é que, desta vez, vou apresentar um maior aparato cénico. Trazemos alguns panos de fundo do Brasil, algumas projeções em 16 mm. É um “show” reduzido, diferente do que faço no Brasil mas, mesmo assim, bem melhor que a minha apresentação do ano passado. Vai ter uma hora e meia de duração.

P. – Que reportório escolheu para os dois espetáculos?

R. – Basicamente o meu reportório dos dois discos e músicas inéditas. Ao todo, o “show” vai ter umas 18 músicas, incluindo canções de Tim Maia, “Não quero dinheiro, só quero amar”, Johnny Nash, “I can see clearly now”, Lennon/McCartney, “Dig a pony”, uma de Tom Waits, “Temptation”. E uma ópera, “La Sonnambula”, de Bellini...

P. – Trata-se de um regresso às origens de cantora lírica?

R. – Há muito que tinha vontade de o fazer. Mas agora cantarei a ária sobre uma base totalmente contemporânea, sem o menor compromisso com a orquestração original de Bellini. Canto a melodia sobre uma base de banda, mesmo. É uma coisa que vou estrear aqui em Portugal.

P. – Em termos de apresentação visual, como será a imagem que vai dar de si às plateias portuguesas?

R. – É isso aí, quem vier verá...

P. – Costuma afirmar que não pretende assumir-se como estrela. Mas o facto é que, aos 23 anos e com apenas dois discos gravados, o seu sucesso já é imenso...

R. – Tenho que ter muita lucidez, porque o sucesso é uma coisa que, por pouco que nós mudemos, leva toda a gente a mudar em relação a nós. Então, não posso perder a noção de compromisso que tenho com a música, e não com a minha imagem, nem com essa coisa de ser estrela. Acredito que o meu sucesso se deve sobretudo ao trabalho.

P. – É por isso que tem o hábito de controlar até ao mínimo pormenor todos os aspetos da sua carreira, desde a preparação dos espetáculos, aos discos e à imagem?

R. – É uma característica importantíssima. O meu trabalho tem cada vez mais um traço não de compositora mas de autora. Escolher o produtor, a encenação, o reportório, ensaiar a banda, tudo isso são coisas que eu faço, pedindo sempre a opinião das pessoas que estão perto. Mas cada vez mais tenho maior autoridade sobre o meu trabalho. Autoridade, não autoritarismo.

P. – Com a sua idade revela uma grande maturidade...

R. – Não é fácil, porque se está a lidar com interesses diversos: da editora, da banda... Certas coisas podem parecer ótimas para toda a gente, mas não para você. Podem gritar “está ótimo, vamos nessa” e isso não ser realmente o melhor. Tenho o cuidado de não me expor demais. Acredito que o consumo é uma coisa perigosa por isso não o fomento: não vou à televisão, não faço “playback”. Sou uma pessoa que preza os princípios e a própria integridade.

P. – Essa recusa tem relação direta com a imagem de distanciação que parece cultivar?

R. – Mantenho essa distância em relação a certas coisas, e proximidade em relação a outras. O que não fomento é a imagem de estrela, para mim pejorativa. Sou uma pessoa normal e faço questão de o ser. Só assim é possível ter liberdade de movimentos e um mínimo de vida privada.

 

“Playboy”, não

 

P. – Ao vivo, essa distância desaparece, anulada pela gestualização extrema e por uma entrega total ao espetáculo, que lhe são características...

R. – Ao vivo é a hora de ser. Se há um momento em que eu tenho de estar exposta, esse momento é no espetáculo. Agora não faço campanha política, nem apareço “pelada” na “Playboy”. Não faço fotografia de moda, nem cinema, nem “comerciais” na televisão. Existem muitas solicitações e oportunidades, mas nem todas são boas. Às vezes é preciso saber perder uma oportunidade...

P. – Até agora a escolha do seu reportório tem incidido em “standards” ou em temas de outros compositores. Considera-se uma intérprete de música brasileira ou apenas uma intérprete que, por acaso, nasceu no Brasil?

R. – Ah sim, o Brasil no mundo! Não o Brasil para dentro do Brasil. O Caetano fez isso no estrangeiro, entrou em contacto com a Pop internacional, com outros músicos. Lá porque sou brasileira tenho de cantar só músicas brasileiras?

P. – Mas o Caetano manteve-se de certa forma fiel às origens brasileiras. Não receia o perigo da descaracterização?

R. – Mas o meu segundo disco [“Mais”, produzido por Arto Lindsay e com a colaboração de nomes sonantes da “downtown” nova-iorquina, como John Zorn e Bernie Worrell ou o japonês Ryuichi Sakamoto] é muito mais brasileiro do que o primeiro. Acho fundamental manter essa ligação, se não teria sido uma cantora lírica. Há em mim toda uma formação ligada à música brasileira, ao Cartola, à Carmen Miranda, ao Assis Valente, compositores de todos os tempos. O Caetano, o Gilberto Gil, o João Gilberto gritam dentro de mim. Não tenho qualquer intenção de ir viver para fora do Brasil e de fazer uma carreira em inglês, tipo Cindy Lauper. Antes de ser cantora, sou brasileira.

P. – Agora que cada vez mais se fala em “world music”, apetece lembrar uma frase de um jornalista brasileiro: “estar na moda é saber renovar a tradição”. Esta frase aplica-se à sua música?

R. – Acho que sim. O mundo está cada vez mais ligado. É um só planeta. As distâncias tornaram-se menores e as músicas de cada país influenciam-se mutuamente. No Brasil isso aconteceu muito. “Mais” é um disco gravado em Nova Iorque e no Brasil mas, apesar disso, destina-se ao mercado brasileiro. Não seria louca ao ponto de fazer um disco para o mercado internacional sem ninguém me conhecer. Só que a qualidade técnica, de produção, permite o lançamento em qualquer parte do mundo.

P. – Com uma carreira ainda curta, pode dizer-se que chegou, viu e venceu. Como encaram os seus colegas da MPB, que demoraram anos a chegar ao topo, essa sua ascensão quase instantânea?

R. – É apenas uma questão de trabalho.

P. – Trabalha então mais que todos eles?

R. – Pelo menos mais do que a média... acho que sim.

Vladimir Estragon - Three Quarks For Muster Mark

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

VLADIMIR ESTRAGON
Three Quarks for Muster Mark
CD, Tip Toe, import. Dargil

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Os Vladimir Estragon contribuem, sem complexos, com a sua quota parte para a aniquilação, há muito anunciada e sempre adiada, do jazz. E não só por nas suas fileiras militar um dos demolidores de serviço nos Einstürzende Neubauten, F.M. Einheit. Exéquias celebradas nas contorções, sublimes e subliminares, do saxofonista e clarinetista Alfred 23 Harth (precisamente, antigo companheiro do homem dos Cassiber, Heiner Goebbels). Ulrike Haage fornece o suporte eletrónico, entre o martelo-pilão digital e o indizível de impossíveis manipulações sonoras. Einheit acaba com o resto, recorrendo às suas percussões metálicas e a eventuais curto-circuitagens elétricas: em “Seine Register” o CD ameaça explodir em estilhaços devido ao ruído parasita, ultra-amplificado, de um disco de grafonola riscado. Phil Minton, quando lhe dão espaço, amassa a própria voz como se fosse plasticina, moldando-a entre o gutural concreto de “Der verbleibende Haufen” e a microscopia a Schumann, “Die Nachtigall”. Na Alemanha os muros continuam a cair. (9)