Pop
Rock
WORLD
DANÇA
DO FOGO
The Fire Aflame
CD Claddagh, distri. VGM
O ano editorial promete. “Vox de Nube” já levou muitos
ao céu. “Acrobats et Musiciens”, dos Lo Jai, de Eric Montbel (nos anos 70
ajudou a lapidar uma das jóias da Hexagone, os Le Grand Rouge), apresenta em
glória a música da região do Limousin, da Idade Média à Renascença. Há um álbum
novo a rebentar. Vindos do frio, os suecos Hedningarna (“Kaksi!”) são apontados
como verdadeiros renovadores da música tradicional europeia. Mas por agora
concentremo-nos, ainda e sempre, na Irlanda.
Confira, por favor, o nome dos músicos, “crème de la
crème”, “Irish coffee” da melhor qualidade: Matt Molloy, é “apenas” o melhor
flautista irlandês da atualidade. Dá a ideia que não necessita de respirar, tal
a técnica que possui. Passou pela santíssima trindade Planxty/Bothy
Band/Chieftains, fazendo parte atualmente desta última banda. O seu bar, em
Westport, foi placo da desbunda gravada para a Real World, “Music at Matt
Molloy’s”.
Sean Keane é, desde há anos (melhor dizendo,
décadas…), violinista dos Chieftains, depois de integrar as fileiras dos
lendários Ceoltóiri Chualann, de Seán Ó Riada. Quem o quiser ouvir mais em
particular procure-o no seu álbum a solo “Jig it in Style”. Acreditem que não é
só nas jigas que ele tem estilo. Até Ali Farka Toure, imagine-se, o convidou
para tocar consigo, em “The River”.
Liam O’Flynn, por seu lado, é um dos mestres atuais
das “uillean pipes”. Fez igualmente parte dos Planxty. Habitual solista nas
obras orquestrais de Shaun Davey (“The Brendan Voyage”, “The Pilgrim”,
“Granuaile”), discípulo dos grandes Leo Rowsome, Willie Clancy e Séamus Ennis,
trabalhou com John Cage e a companhia de dança de Merce Cunningham.
Arty McGlynn, claro, tinha de estar presente. É o
guitarrista dos guitarristas, rei e senhor na arte do contraponto. Felizes dos
que o viram e ouviram ao vivo com os De Danann, no Intercéltico do ano passado.
Noel Martin, membro da Belfast Baroque Consort, no violoncelo e teclados
(aparece em “Lament” – ver crítica nesta página), e Noreen O’Donoghue,
debutante nos Oisin e atualmente nos Bakerswell, em harpa e teclados, completam
o lote de participantes. Apenas resta entregarmo-nos às delícias da audição.
Os músicos disparam em classe pura até ao coração da
Irlanda. Jigs, reels, airs e hornpipes encontram aqui a sua expressão mais
elevada. Não é apenas o virtuosismo, nem sequer a energia contagiante desta
música que progressivamente se infiltra nos veios invisíveis do mundo, que
impessiona. “The Fire Aflame”, como o título deixa entender, é um ato de amor.
A síntese de vários talentos individuais acesos numa chama única, capaz de nos
conduzir ao centro do sonho, à Irlanda do mito que, rezam as lendas, continua a
irradiar de Tir Nan Aog. Não vale a pena racionalizar. Quer queiramos quer não,
há uma parte de nós que habita do lado de lá do nevoeiro. No único tema não
instrumental, Brian Keenan lâ um poema da sua autoria, “Night fishing”, em
cujas letras é possível vislumbrar o lado lunar, espelhado nas águas do
inconsciente, desta Ilha unida por um elo secreto a Portugal… Outras histórias…
Mas se não quisermos mergulhar nessas águas que tudo
religam (e afogam, se o navegante não souber a arte…) e ardermos no fogo que
tudo anima, consome e transforma (na Irlanda, acendiam-se e ainda se acendem,
no princípio de Maio, os fogos de Beltane, em louvor de Belenos – o Apolo dos
celtas – e da terra renascida), resta sempre a dança. Dança do fogo, que também
se aplica às jóias. O diamante lapidado com perfeição decompõe a luz branca nos
sete raios coloridos. Assim, de um diamante melhor ou pior lapidado se diz que
tem mais ou menos fogo.
Matt Molloy, Sean Keane e Liam O’Flynn são joalheiros
exemplares. Mais não posso explicar. (10)

Sem comentários:
Enviar um comentário