WORLD
Light and Shade (9)
CD Claddagh, distri. VGM
Trian
Trian (9)
CD Flying Fish, distri. VGM
Por vezes dá a ideia de que a música
tradicional da Irlanda sofre de excesso de abundância e oferta. Grupos e
solistas, ainda por cima de alta qualidade, existem às dezenas, senão às
centenas, pela ilha Esmeralda. Novos nomes surgem a um ritmo alucinante,
enquanto a velha guarda se divide por múltiplos projetos, explorando novas
ideias e trocando sensibilidades. Aos leigos, já o ouvi da boca de alguns, a
música irlandesa soa sempre igual. Pura ilusão. Esquecem, ou não sabem, que o
prazer, resultante do convívio sistemático com este tipo de música, reside em
grande parte na descoberta de diferenças, na comparação de estilos, individuais
e coletivos, no confronto de abordagens diversas a uma música que
constantemente se renova e inventa novas vias. Tudo isto se aplica aos discos
em questão. Os Skylark, em segunda etapa, a seguir a “All Of It”, e os Trian,
em estreia, partilham entre si semelhanças óbvias. O gozo está em avaliar as
diferenças. E em saborear, caso se esteja nas tintas para o raciocínio
analítico, a excelência da música, independentemente dos modos da sua criação.
A primeira semelhança é visível logo
no formato instrumental. Skylark e Trian apresentam a configuração típica
violino/acordeão/guitarra, no caso dos Skylark aumentado por um bodhran. Os
instrumentistas são, em ambas as formações, virtuosistas do mais alto grau.
Máirtin O’Connor, dos Skylark, considerado o expoente máximo do seu instrumento
na Irlanda, rivaliza com Billy McComiskey, do lado dos Trian, no acordeão. A
vantagem pende para o lado do primeiro, mas não por margem folgada. Contra a
veterania do mestre, o novato apresenta já credenciais de grande executante.
O caso do violino é mais bicudo. Gerry
O’Connor, pelos Skylark, contra Liz Carroll, pelos Trian. O som desta última
(que já nos impressionara num anterior álbum a solo ou, na qualidade de
convidada, num dos projetos de Mick Moloney com Eugene O’Donnell, “Uncommon
Bonds”) é mais encorpado. Gerry O’Connor, aparentando maior agilidade, possui
um estilo mais aéreo. Liz vence-o em dramaticidade. Gerry ganha-lhe em leveza.
Finalmente os dois guitarristas, Dáithi Sproule (vale a pena escutá-lo com
maior pormenor em “Carousel”, ao lado de Seamus e Manus McGuire), dos Trian, e
Garry O’Briain, dos Skylark, são dignos um do outro e candidatos ao trono
ocupado por Arty McGlynn, na justeza com que tecem as típicas malhas rítmicas
em contratempo.
Len Graham é o tocador de bodhran nos
Skylark, cargo que desempenha com eficácia, embora seja nas vocalizações que
revela dose superior de talento, através de uma profundidade e pureza de timbre
que, uma vez mais, deixam ver as marcas deixadas na música irlandesa pelos
Planxty. O mesmo acontece aliás, com Dáithi Sproule, também ele um vocalista de
recursos, do lado dos Trian.
Os membros dos Trian residem em
Chicago, onde vive uma das colónias de irlandeses mais ativa e interveniente da
América do Norte. A distância serve-lhes para reforçarem o cordão de prata que
os une à ilha-mãe. Daí talvez a sensação de urgência que se desprende da sua
música, quase um amplexo. Os Skylark, por seu lado, ostentam a naturalidade de
quem tem as raízes bem seguras ao chão. Muitos tocam, e bem, este estilo de
música. Mas poucos conseguem fazê-lo com a convicção e empenhamento destes dois
grupos. Explorem-se os seus detalhes e segredos. Para descobrir as razões que
fazem da tradição da Irlanda uma das mais ricas e férteis do planeta.

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