04/11/2026

Battlefield Band - Quiet Days


pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993

WORLD

 

Battlefield Band
Quiet Days
CD Temple, distri. MC – Mundo da Canção








 


Fase calma, a que os Battlefield Band atravessam de momento. De calma e de uma certa falta de inspiração. Começa a tornar-se evidente que a banda não é a mesma desde a saída de Brian McNeill, como de resto já era visível no álbum anterior, “New Spring”. É que se o espírito de celebração permanece, até porque o grupo carrega sobre os ombros a responsabilidade de se ter tornado numa instituição da música escocesa, a vivacidade e o entusiasmo perderam-se um pouco com a saída daquele músico. A falta faz-se sentir sobretudo ao nível das vocalizações, que em McNeill chegavam a atingir uma dimensão épica e na atual formação não encontraram substitutos à altura, soando os novos desempenhos, por comparação, quase vulgares. Não fariam mal os Battlefield em procurar um vocalista à altura, até porque instrumentalmente, embora se possa sentir a ausência da versatilidade das cordas e do violino de McNeill ou da subtileza das “pipes” de Dougie Pincock, a banda continua em forma. Na tradição dos bons gaiteiros que passaram pelo “campo de batalha”, Iain McDonald assina as melhores prestações de “Quiet Days”, no “medley” de abertura ou dois “tours de force” finais de “Col. MacLean of Ardgour/Pipe Major Jimmy MacGregor/Rocking the baby” e “Now will I ever be simple again?”, passando pelo magnífico diálogo em uníssono com o violino de John McCusker, em “The ass in the graveyard”. (7)

 

Barzaz - An Den Kozh Dall

 

pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993

WORLD

 

Barzaz
An Den Kozh Dall
CD Keltia, distri. MC – Mundo da Canção



 







Por norma, associa-se a música tradicional bretã às estridências da bombarda e do “biniou kozh” (gaita-de-foles). Em “An Den Kozh dall”, estes instrumentos apenas aparecem num tema, tocados por convidados. O que significa que sendo o som dos Barzaz forçosamente diferente do habitual, nem por isso deixa de estar ligado com firmeza às raízes culturais daquela região, sobretudo através da voz de Yann-Fañch Kemener, especialista das formas tradicionais do canto bretão e autor de vários volumes de “Chants Profonds de Bretagne”. À ortodoxia do canto responde ainda, segundo os cânones, a flauta de Jean-Michel Veillon. A responsabilidade do que faz a diferença dos Barzaz cabe na maior parte a David Hopkins, músico de origem irlandesa conotado com a “new age” (gravou na Wergo um álbum bastante citado neste género de música: “Gaia – An Ecological Meditation”) que aqui manipula percussões várias, flautas da Amazónia e didjeridu.

A tónica da música dos Barzaz é colocada então na criação de ambientes “naturalistas” criados por Hopkins numa girândola de efeitos, dos lampejos cristalinos de sinos e baques de madeira às “drones” obscuras do didjeridu. As típicas danças “Plinn” e “Fisel” ganham uma dimensão extra de espacialidade em ressonâncias que transportam para a Bretanha ecos das florestas da chuva da Amazónia. Mares que se misturam numa música simultaneamente densa e transparente, da cor dos musgos e das pedras molhadas da Bretanha. (9)

 

Barabàn - Il Valzer Dei Disertori + Naquane

 pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993

WORLD

 

Barabàn
Il Valzer Dei Disertori (10)
Naquane (9)
CD Associazione Culturale Barabàn, distri. MC – Mundo da Canção









 

A música das regiões celtas do Norte de Itália, da Lombardia e Piemonte, tem sido até agora praticamente sinónimo dos La Ciapa Rusa. Os Barabàn repartem com o grupo de Maurizio Martinotti o mesmo trabalho de investigação e uma atitude idêntica de “revivificazione” do passado. A par, é claro, da utilização dos mesmos instrumentos populares da região: o “piffero”, o “organetto” diatónico, a sanfona (“ghironda”) e a gaita-de-foles (“musa”). A semelhança entre as duas bandas é percetível sobretudo ao nível das vocalizações masculinas. Temas como “Gentil galente” ou “La brunetta”, de “Naquane”, enquadram-se na perfeição na estética dos La Ciapa Rusa. Em “Il Valzer dei Disertori”, de 1987, a banda de Giuliano Grasso e Aurelio Citelli assinou um trabalho sem mácula, de personalidade mais vincada, que restitui ao presente, com o mínimo de desvios permitido pelo tal processo de “revivificazione”, toda a beleza das baladas, “monferrinas”, “alessandrinas” e, neste caso, das valsas piemontesas. “Naquane” apenas sofre do uso, por vezes despropositado, das programações de computador, algo incomodativas no tema “Stranot di Lisander”, problema que os La Ciapa Rusa resolveram da melhor maneira em “Faruaji” e “Ratanavota”. Pormenor de somenos importância num álbum de aquisição indispensável.

 

Bryan Ferry - Taxi

 

pop rock >> quarta-feira, 24.03.1993

 
Bryan Ferry
Taxi
LP/MC/CD Virgin, distri. Edisom



 







Para entreter enquanto não sai o novo de originais, Ferry, o galã “chic” e decadente que veste “Comme des Garçons”, voltou a apostar na fórmula “álbum de versões”, já seguida, de resto, anteriormente, em “These Foolish Things” e “Another Time Another Place”, com resultados por vezes brilhantes. Só que desta feita pouco se aproveita, sendo demasiado visível que Ferry se limitou a assinar o ponto, num disco totalmente falho de paixão, coisa que deveria estar sempre presente quando se trata de cantar as canções do próximo, e que ele parece ter guardado para o próximo disco. “Taxi” acumula truques de produção, batidas “disco” enjoativas e interpretações que, não raras vezes, roçam a sonolência. Mais valia ter ficado quietinho ou ter-se limitado a um “single”. Até há uma versão engraçada, levezinha, de “All tomorrow’s parties”, que servia bem para o efeito. Entre os convidados isentos de bandeirada estão Robin Trower, Chris Stainton, David Sancious, o português Luís Jardim, Flaco Jimenez, o antigo companheiro nos Roxy Music Andy MacKay e dois velhinhos King Crimson, Mel Collins e Mike Gilles. Bryan Ferry define-se como um perfecionista. Se “Taxi” é o que ele entende por perfeição, vou ali, já venho. Chamada ao telemóvel número... (4)


Sax supersónico [John Zorn]


Cultura >> domingo, 21.03.1993

 

Concerto de John Zorn em Portugal

 

Sax supesónico

 

John Zorn, o saxofonista supersónico, regressa a Portugal, com um concerto marcado para o próximo dia 2 de abril, no Armazém 22, em Lisboa, numa produção da Simbiosis. Acompanham Zorn, nesta sua terceira deslocação ao nosso país, o baixista Bill Laswell e Mike Harris, do grupo “hardcore” Napalm Death, num novo projeto com a designação Painkiller.

Considerado um inovador do saxofone alto e um dos pilares do movimento “downtown” de Nova Iorque, John Zorn revolucionou as bases do “bebop”, para partir ao encontro do rock “hardcore” que o músico considera ter “uma intensidade igual à do ‘free jazz’ nos anos 60” e cuja estética desenvolveu até ao delírio nos Naked City, outro dos seus projetos iniciado nos anos 80, ao lado de Fred Frith, Bill Frisell, Joey Baron e Wayne Horvitz. Em 1989, o saxofonista assinara já a sua versão “hardcore” de temas de Ornette Coleman, em “Spy vs. Spy”.

Adepto da colagem sonora e da velocidade de interpretação, a par do fascínio pelas perversões sexuais sado-masoquistas, conceitos que exercitou em álbuns como “The Big Gundown”, sobre música de Ennio Morricone, “Spillane”, inspirado no escritor policial Mickey Spillane, ou na longa e magistral sequência que ilumina a coletânea “Godard, Ça Vous Chante?” dedicada ao profeta da “nouvelle vague” do cinema francês, John Zorn atingiu o limite em “Speed freaks”, tema de menos de um minuto de duração no qual incorpora 32 estilos musicais diferentes.

Entre os álbuns mais importantes de John Zorn contam-se os dois volumes de “The Classic Guide to Strategy”, “Locus Solus”, “Cobra”, “News for Lulu” e “Torture Garden” (com os Naked City). Quem preferir escutá-lo em perfeito estado de enamoramento pelo “bebop” deve procurar nas águas mais calmas, mas não menos brilhantes, de “Deadly Weapons”, na companhia do pianista excêntrico inglês Steve Beresford, David Toop e a cantora Tonie Marshall.

 

Lisa, a magnífica, contra pacote [Lisa Stansfield]


rádio e televisão >> sexta-feira, 19.03.1993

DESTAQUE

 

Lisa, a magnífica, contra pacote


Uma imagem com Cara humana, vestuário, pessoa

Descrição gerada automaticamente

 

Devemos ser isentos. Informar sem influenciar. De maneira a permitir ao leitor e telespectador um julgamento e uma escolha imparciais. Lisa Stansfield e “Red, Hot and Dance”, um compacto de remisturas de temas famosos (não muito) por artistas de dança, são as propostas para hoje à noite do Últimas Notas, um programa que põe o poder nas mãos do povo que vê televisão.

Lisa Stansfield é uma cantora brilhante, bonita, que veste bem, culta, asseada, filha de boas famílias. Irradia felicidade, beleza e “Coco” Chanel por todos os poros. Em matéria de música, de algum interesse para o seu perfil, forma em 1986 o celebérrimo agrupamento Blue Zone, com os não menos celebérrimos Andy Morris e Ian Devaney. Três anos mais tarde grava o seu primeiro álbum a solo, intitulado “Affection”, que sobe ao segundo lugar do “top” britânico e onde é possível apreciar a cantora no esplendor da sua arte.

Na primavera e verão do ano seguinte realiza digressões triunfais pela Inglaterra, América do Norte e Europa, diante de assistências de mais de mil milhões de pessoas. Mais pessoa menos pessoa. Talvez menos. Grava entretanto “Down in the depths”, um tema de Cole Porter incluído no álbum coletânea de canções deste autor, “Red, Hot and Blue”, editado com o objetivo de ajudar no combate contra a sida. O segundo longa-duração de Lisa Stansfield, “Real Love”, de 1991, atinge vendas na ordem das três milhões de cópias.

Em 1992 vamos encontrá-la a atuar para 75 mil pessoas, no Estádio de Wembley, em Londres, no concerto de homenagem póstuma a Freddie Mercury. O espetáculo a que todos deverão, digo, poderão assistir esta noite foi gravado ao vivo na Wembley Arena. Um espetáculo inolvidável, absolutamente a não perder. Nele vão poder escutar canções maravilhosas como “Set free”, “Little more love”, “Soul deep”, “Time to make you mine”, “This is the right time” e outras tão ou mais belas do que estas. A produção é de Jazz Summers e a realização de Marion Waldorf, uma dupla com provas dadas, não me recordo agora bem onde. Se a sua escolha não incidir hoje em Lisa, depois já deve ser difícil. Sem querer influenciar, como é óbvio.

A alternativa é uma seleção de artistas de dança apertados no pacote “Red, Hot and Dance”, volume de remisturas em pezinhos de dança da série “Red Hot”, que inclui os Inxs, EMF, Seal, Dream Warriors, Jimmy Sommerville, P.M. Dawn e Lisa Stansfield, ela própria, aqui um pouco deslocada. Nada de especial.

A escolha é difícil (Lisa é uma cantora e uma mulher espantosa), mas é sua.

 

ÚLTIMAS NOTAS
TV 2, às 00h40


03/11/2026

Mário Pacheco + Quadrilha + Shalom

  

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993
World

 

MPP – MÚSICA POPULARUCHA PORTUGUESA

 

MÁRIO PACHECO
Um Outro Olhar (2)
LP/MC Philips, ed. Polygram

QUADRILHA
Contos De Fragas E Pragas (3)
LP/CD, ed. Ovação

SHALOM
Dar de Vaia (0)
LP/CD Disconorte

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

Tudo somado, não é nada. A música portuguesa de raiz tradicional incorre atualmente no mesmo tipo de equívoco em que incorreu o rock da era “Chico Fininho” e Luís Filipe Barros. Ou seja, quando a maré parece estar de feição, editar a eito, esquecendo critérios de qualidade e tentando enganar o incauto com o rótulo, de novo na moda, “música popular portuguesa”. Da mesma maneira que se chamava “rock português” às montanhas de lixo que então invadiram os escaparates, também agora dizer “música popular portuguesa” serve de disfarce a todo o tipo de mediocridades e oportunismos.

Esclareça-se desde já o seguinte, para que não haja dúvidas: qualquer destas três “propostas”, agora atiradas para a praça pública, não tem rigorosamente nada a ver com a dita música popular e muito menos com a tradicional. “Popularucha”, sim, assenta-lhe como uma luva. Comparados com elas os ranchos de Pedro Homem de Mello passam por tratados de etnografia.

Dos três, os Shalom (como é possível existir uma banda com um nome destes?) são os que reivindicam com mais força o rótulo “tradicional”. “Dar de Vaia” – expressão popular sinónima de encontro e solidariedade – é o único elemento genuíno num disco que, entre caixas de ritmo e imitações sintéticas de acordeões, não passa de um postal ilustrado para confundir turistas, em tons de rosa “shocking” e azul cueca. De fugir a sete pés – ou dar de frosques, para utilizar também a terminologia popular.

Os Quadrilha (antes davam pelo nome de Peace Makers – como é possível ter existido uma banda com um nome destes?), por seu lado, assumem-se como “um grupo de música folk com raízes na tradição celta”. Olha a novidade! Quem é que não se assume? Se até o José Cid se assumiu da “tradição celta” no recente Festival RTP da Canção! Encheram a capa com reproduções de instrumentos medievais e escolheram como logotipo uma harpa estilizada semelhante à que aparece num disco de William Jackson (“Heart Music”). Na prática, seguem na peugada dos Romanças, com um cheirinho a Fausto nas vocalizações, mas perdem-se nos arranjos à base de teclados “tapa buracos”. São mais sérios que os (argh!) Shalom, atrevem-se a cantar José Afonso – em “Chamaram-me cigano” e “A mulher da erva” – e são capazes de ter um caminho a desbravar, a julgar pelos pormenores de qualidade que aqui e ali pingam a conta-gotas em faixas como “Fraga” e “Desnorteio”. Positivos são ainda os textos assinados por Sebastião Antunes, a merecerem melhor sorte do lado musical.

Finalmente, Mário Pacheco, guitarrista, é, dos três, o que tem menos pretensões. O que não significa que seja melhor. Filho de um famoso guitarrista de fado, António Pacheco acompanhou, entre outros, Tristão da Silva, António Mourão, Hermínia Silva (anda, Pacheco!), Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, João Braga, Nuno da Câmara Pereira e... Amália Rodrigues. Não se lhe negam as qualidades de acompanhante à guitarra. O pior são as composições, da sua autoria, de “Um Outro Olhar” (a exceção é um tema de Egberto Gismonti), que vão do fado-anemia ao “muzak” de supermercado e “hall” de hotel. Pode haver quem goste. Há gostos para tudo...