01/12/2025

Stivell desafinou [Alan Stivell]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 19 ABRIL 1991 >> Cultura

 

II Festival Intercéltico e Semana da Bretanha, no Porto

 

Stivell desafinou

 

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A Bretanha invadiu a capital nortenha, ao som da harpa eletrificada de Alan Stivell. Não houve feridos – em nítida baixa de forma, o bardo não conseguiu fazer a festa e desiludiu os entendidos. Diferente opinião tiveram os milhares de pessoas que encheram o Teatro Rivoli, no Porto, e que no final aplaudiram de pé.

 

Quem desde a época brilhante de “La Renaissance de la Harpe Celtique” e “Chemins de Terre” tem vindo a acompanhar a obra de Alan Stivell, não pode deixar de se sentir desiludido com a fraca amostra a que teve direito na noite de anteontem. Acompanhado somente por Yves Riblis, nas guitarras acústicas e sintetizador, Alan Stivell trocou notas, falhou tempos e desafinou, chegando ao ponto de, num dado momento, a voz lhe faltar completamente, obrigando à interrupção e ao recomeço do tema.

Unanimemente reconhecido como um dos grandes intérpretes da harpa céltica e arauto da cultura bretã, Alan Cochevelou, de seu verdadeiro nome, mais parecia um novato, à procura da afinação certa e do registo vocal adequado. Saiu-se melhor nos poucos temas em que utilizou o “tin whistle”, típico pífaro metálico irlandês, ou a bombarda, com a qual tentou “agarrar” o público, através de uma das suas habituais cedências ao rock ‘n’ roll. Quanto à gaita-de-foles, sempre presente nos discos, nem vê-la – “em cena, só no meu grupo de rock” – explicou. O alegado cansaço (três horas de sono, na véspera, entre várias viagens de avião) não desculpa porém a falta de brio profissional de que deu mostras, mais parecendo, a certa altura, tratar-se de um ensaio e não de um espetáculo pago.

Por seu lado, Yves Riblis, coitado, lá ia acompanhando como podia a falta de swing evidenciada pelo mestre (certas incursões na atonalidade contemporânea não servem de justificação para o dedo que falha a corda…). Por fim preferiu perguntar pelo resultado do Porto – Benfica.

 

Novo disco inspirado em Avalon

 

Resta a consolação de um novo disco, a sair em breve, “The Mist of Avalon” [As Brumas de Avalon], gravado na Irlanda e inspirado na obra de Marion Zimmler Bradley. Álbum “conceptual, de canções girando à volta do conceito arturiano” – nas palavras do autor. Alan Stivell assegura que “os franceses ficaram deslumbrados com o romance” e com a sua “maneira diferente de rever a lenda do rei Artur, a partir de um ponto de vista feminino e de uma visão pré-céltica das origens, anteriores ao Cristianismo”.

A Tradição, como ponte para o Futuro, tem sido desde há muito a cruzada pessoal do músico bretão, empenhado em participar na construção dos alicerces musicais da “nova idade” – “correspondente aos próximos 2000 anos”, período que acredita ser o da “reunificação da Humanidade” e da “comunicação total”. Recordem-se, a propósito, o seu último disco até à data, “Harpes du Nouvel Âge” ou o duplo “Symphonie Celtique”, de 1980, manifesto de confluência das músicas e culturas do universo, no mundo celta. Curiosamente, Alan Stivell afirma que no início, não pretendia senão “fazer rock bretão, ou céltico, sem recorrer forçosamente aos instrumentos tradicionais”. Chega a irritar-se quando chamam “cósmica” ou mesmo “céltica” à sua música – “procurar etiquetas, não faz parte de uma verdadeira atitude céltica. A noção de que tudo, o mundo, o universo, tem de ser analisado e dividido em pedaços, é tipicamente latina. No fim de contas é a maneira de funcionar do cérebro, tal como um computador. É uma noção latina que o povo celta não compreende”. A acreditar na teoria, chega-se facilmente à conclusão de que os portugueses nunca foram afinal, nem são, um povo latino.

As propostas de instauração planetária da “nova idade”, em que os celtas desempenhariam o principal papel, são à partida, louváveis: “Trata-se de reunir tudo, mas em que, ao mesmo tempo, nada ficará completamente unido. Cada indivíduo do planeta concretizará, à sua justa escala, a sua própria reunificação e terá acesso à grande biblioteca mundial”. E que “o macrocosmos e o microcosmos existem em todos e em cada um”, logo também “em cada música será possível escutar todas as músicas do planeta”. Decerto que sim, mas se nos cingirmos ao concerto de anteontem, fica-se mais com a ideia de que o mundo passará a ser como um quintal, em vez da grande e tão apregoada fraternidade universal.

 

 

Nils Lofgren - Silver Lining

 

Pop Rock

17 de Abril 1991

 

Nils Lofgren
Silver Lining
LP e CD, Essential, distri. Anónima


 








É guitarrista, mas Neil Young convidou-o para tocar piano em “After the Goldrush” e, mais tarde, já o instrumento certo, em “Tonight’s the Night” e “Trans”. Após uma passagem rápida pelos Grin, lançou-se numa carreira a solo relativamente bem sucedida, assinalada pela gravação de álbuns de rock “mainstream” (“Grin”, “Nils Lofgren”, “Back it up”, “Cry Tough”, “Night Fades Away” ou “Wonderland”, entre outros) que lhe valeram o estatuto de “guitar hero” capaz de proezas acrobáticas, como tocar de costas em salto de trampolim ou, segundo reza a lenda, de prodigiosos triplos saltos mortais com “flic flac” à retaguarda. Entrou para a E Street Band, de Bruce Springsteen, e parece que ficou mais sossegado. Agora, regressa a solo com “Silver Lining”, mas não há nada de particularmente interessante a registar – o mesmo “rock’n’roll” honesto de sempre, as mesmas baladas agradáveis e inócuas, o virtuosismo guitarrístico que se lhe reconhece. Uma referência final para a lista de convidados especiais: Bruce Springsteen, Levon Helm, Billy Preston e Ringo Starr. A música, infelizmente, nada tem de especial. **

Eles os dois são ela [Eurythmics]

 

PÚBLICO SÁBADO, 13 ABRIL 1991 >> Local >> Televisão

 

Eles os dois são ela

 

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ELA É ANNIE LENNOX. Ele Dave Stewart. Ele toca, compõe e arranja. Canções, claro. Ela é a voz, o rosto e o corpo dado ao manifesto. Ele é a música, o profissional na sombra que faz mexer os cordelinhos. Ela é teatro, instinto, sedução. Ele – óculos escuros – tocava com Elton John e abusava das drogas. Ela – cabelo louro muito curto – cantava nos Tourists. De tão diferentes, ligam bem um com o outro. São os Eurythmics – fábrica de sonhos prontos a consumir. Ou de espelhos. “Sweet dreams are made of this”, afinal de contas.

No início, o frio de um jardim de Colónia: “In the Garden”, gravado nesta cidade, com Holger Czukay e Jaki Liebezeit, dos Can, e os dois D.A.F., Robert Görl e Gabi Delgado. Disco eletrónico, distante, fatal. Em 1981, dançava-se ao som das máquinas. Depois, o golpe de magia de “Sweet Dreams (are made of this)”, um milhão de discos vendidos e “top one” nos Estados Unidos. Os tijolos do caminho tornam-se dourados: “Touch” – e a versão mini, para discoteca, “Touch Dance” –, “1984 (for the love of big brother)” – banda sonora do filme inspirado na obra de Orwell –, “Be yourself tonight”, “Revenge”, “Savage” e “We two are one too” desmentem o provérbio – com os Eurythmics, tudo o que luz é ouro.

Canções de êxito, nem se fala: “Love is a Stranger”, “Right by your side”, “Here Comes the Rain”, “Sex Crime”, “Sisters are Doing it for Themselves” (em dueto com Aretha Franklin), “Beethoven (I love to listen to)”. “There Must be na Angel”, com certeza. Há. Chama-se Annie Lennox. Vamos vê-la e ouvi-la, a propósito de “We two are one too”, ao vivo, no mundo real, e em “clips”, no mundo da ilusão. Os dois são um.

 

Canal 2, às 00h25

A eternidade em cinco horas [Wim Wertens]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 5 ABRIL 1991 >> Cultura

 

Minimalista Wim Mertens lança obra em sete CD

 

A eternidade em cinco horas

 

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MINIMALISTA, monárquico, pós-moderno, genial e louco são alguns dos adjetivos aplicáveis ao compositor belga Wim Mertens. Sobretudo os dois últimos, se levarmos em conta o seu mais recente trabalho, “Alle Dinghe”, com mais de cinco horas de duração, só ao alcance dos iniciados.

“Alle Dinghe” cumpre uma promessa antiga. Desde o ano passado, quando o músico, monárquico e tradicionalista convicto (tocou em particular para o rei de Espanha...), atuou a solo no Teatro S. Luiz em Lisboa, que a ideia germinava no seu cérebro fervilhante. Ao ritmo dos passos e das vibrações da serra de Sintra, Wim Mertens discorria, num monólogo interminável, sobre aquela que seria a obra-chave, solução definitiva para os mistérios que a sua música encerra, vitória sobre o tempo, a eternidade, em suma.

Mertens considera-se um enviado dos deuses, portador de uma missão a cumprir – transmitir aos homens a verdade última – dos sons, da melodia e harmonia absolutas, ocultas na estrutura pitagórica do verbo composicional, estrutura já manifestamente evidente, aliás, nos dezassete minutos finais de harpa algébrica, para muitos insuportáveis, de “Educes Me”. Toda a sua obra anterior a “Alle Dinghe” (de que “Vergessen”, “Maximizing the Audience”, “Struggle for Pleasure” ou “After Virtue” constituem fases cruciais) avança por aproximações progressivas a essa essência. Para quem não conhece nem seguiu, passo a passo, nota a nota, esse percurso em direção ao segredo, torna-se incompreensível, senão mesmo penosa, a audição integral deste trabalho, só comparável, em depuração formal e duração, a “The Well-Tuned Piano”, do profeta La Monte Young.

 

O tempo imóvel

 

Dividida em três núcleos fundamentais, distribuídos por sete (!) discos compactos arrumados em três caixas, “Alle Dinghe” (gravado na editora “Les Disques du Crépuscule”, distribuída em Portugal pela Contraverso) dura exatamente cinco horas, cinquenta e cinco minutos, dezassete segundos. “Sources of Sleepness” constitui a matéria dos dois primeiros CDs – “Meinleib ist müde” e “Venerandam” num, “Sub Rosa” e “Le Bref” no outro. “Vita Brevis” estende-se, em sete partes, por mais dois compactos. Finalmente, “Alle Dinghe”, dividido em dez partes, preenche os restantes três.

Para a escuta contínua e integral da obra, torna-se necessário cumprir certos requisitos, a saber: jejum prévio durante os cinco dias (tantos quantas as horas de “Alle Dinghe”) anteriores à audição, depois do qual, no caso de se ter sobrevivido à fominha, se deverá dedicar cinco horas à meditação transcendental, de modo a evitar ao máximo possíveis acessos de impaciência, que, nestas circunstâncias, poderão ser fatais.

“Sources of Sleepness” recupera o formato instrumental dos Soft Veredict. Oito músicos dão corpo a este “perpetuum mobile”, através de uma combinação característica da música de câmara (tuba, clarinete, flauta, violino, violeta, violoncelo e contrabaixo) e de desenvolvimentos melódico-harmónicos que retomam o minimalismo na sua vertente mais radical.

“Vita Brevis” aponta para uma conceção temporal própria do Zen – sucessão cíclica de infinitos instantes, como um filme observado ao fotograma, micro-espirais de fogo desenroladas, ao longo de mais de uma hora, pelo fagote, em solo absoluto, de Luc Verdonck, à semelhança do que acontece nas “Instrumental songs” interpretadas, também em solo-absoluto, pelo saxofone soprano de Dirk Descheemaeker, no álbum do mesmo nome.

Os três últimos CDs correspondem ao desfecho em forma de odisseia extática, “Alle Dinghe”, síntese operatória e manifesto teórico das premissas subjacentes à música e conceções existenciais do seu autor – ultrapassagem da linguagem e do pensamento conceptuais, considerados prisões que obstam à pura contemplação da vida e do perpétuo e imprevisível movimento que, por essência, ela é. O “tal-qualismo” de que falavam os mestres Zen, visão das coisas “tal qual são” e não como as pensamos. Cada parte de “Alle Dinghe” recorre a fonemas destituídos de sentido (“zo”, “al”, “ook”, “et”, “tt”, “en”...), para descobrir o vazio que corrói a carne das palavras e ao mesmo tempo apontar o silêncio incomensurável do Todo, do Nada que é o tudo da realidade manifestada.

A música, enfim, liberta das grilhetas do significado. Reduzida a um trio instrumental violino/violoncelo/contrabaixo, a sequência final (e anti-apoteótica) de “Alle Dinghe” derruba todas as conceções, teoria e modos de perceção sonora que a construção fictícia do Ego geralmente implicam. Wim Mertens dá voz e espaço à liberdade anteriormente enunciada por La Monte Young, na vertigem silenciosa do “teatro da música eterna”. Não são diferentes, a Eternidade e o Instante.

 

28/11/2025

O som das portas que batem [The Doors]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 5 ABRIL 1991 >> Fim de Semana >> Na Capa

 

O SOM DAS PORTAS QUE BATEM

 

Os Doors marcaram a ferro e fogo uma geração distraída com os festejos da era de Aquário. Jim Morrison pôs o dedo na ferida, dando a provar o sabor do sangue e da desmedida. Poeta maldito ou mistificador perigoso, com ele o Rock vestiu-se de negro, na celebração feérica do Fim.

 

Os mitos também morrem. Parece até que mais facilmente que o comum dos mortais. Jim Morrison morreu só, na banheira (o elemento aquático está frequentemente associado ao passamento dos rockers cognominados de “malditos”, constituindo bom material para especulação metafísica), farto de nos aturar. Segundo alguns, o caso é mais problemático. Assim, as causas da morte teriam a ver, não só com o ataque cardíaco oficial, mas ainda com “overdoses” de heroína e cocaína, feitiçaria, arranque de olhos e conspiração política...). O excesso, sempre o excesso... O poeta escreveu um dia: “Congregamo-nos aqui, neste teatro antigo e louco, para proclamar a nossa ânsia de viver”. Bebeu o cálice da vida, ou de outra bebida qualquer, até ao fim. A morte era a sua única amiga, como diz na canção.

A música dos Doors reflete o percurso vivencial e demencial do seu líder – por vezes genial, noutras ocasiões simplesmente desequilibrada, quase sempre suficientemente forte e inovadora para justificar revisitá-la, sem excessos nem pressas suscetíveis de dar maus resultados. Por exemplo, o disco com a banda sonora do filme de Oliver Stone, agora estreado entre nós, foi feito à pressa e com vistas curtas. Deixa passar o que não devia e recupera o que de menos interessante havia para recuperar. Ignora clássicos que, fazendo parte da fita, se omitem no vinilo: “Five to one”, “Alabama song (whisky bar)”, “Strange Days”, “People Are Strange”, “The Soft Parade” são apenas alguns exemplos. Por outro lado não se compreende muito bem a insistência na montagem póstuma “An American Prayer”, da qual constam nada menos que cinco temas, querendo talvez acentuar o óbvio, ou seja, que Jim Morrison, antes de ser músico era poeta.

 

L’America

 

Assim, vale mais ir ter com os originais e analisá-los dentro do contexto em que foram gravados, num período compreendido entre 1967 e 1971. Quatro anos apenas, suficientes para registar sete (número mágico) álbuns que puseram em estado de choque uma geração hesitante na maneira de ultrapassar a década. Costuma dizer-se que a vida e obra dos Doors ou, se quisermos, da sua língua reptilínea e venenosa, Jim Morrison – o rei Lagarto – simbolizam integralmente o lado negro dos anos Sessenta. Convém assentar no significado da expressão, para melhor orientação no universo de ícones e memórias dispersas que, no nosso imaginário, querem dizer o sonho que temos desses anos. Sonhos americanos, acrescente-se, que quase todos por cá viveram como se de cinema se tratasse. De resto, a América é isso mesmo – cinema em estado puro, organismo feito de imagens em movimento, tal qual uma plasticina de luz eternamente disponível e moldável aos nossos anseios de Disneylândia. Acaso ou não, Jim Morrison começou pelo cinema, estudante ainda mas já cético quanto à veracidade do mundo que fica do lado de cá das portas. Só que em vez de cowboys justiceiros, detetives impolutos e damas de olhar cândido e fatal, filmou o pesadelo. Pesadelo que Coppola nos obrigaria a enfrentar em “Apocalypse Now”, ao som de “The End” – ruir definitivo do sonho americano, nessa viagem sem regresso ao coração das trevas, em que os heróis não são rebeldes, lutando por causas perdidas até que o inferno do napalm lhes consuma a própria alma.

 

Teatro da Crueldade

 

Anos Sessenta – San Francisco, paz e amor, “acid parties”, a descoberta interior e das possibilidades orgiásticas do corpo, Leary, Kerouac, Ginsberg, Marilyn, Kennedy, Luther King, Armstrong na Lua, o soldado desconhecido no Vietname, a anulação da História, a experiência da diversidade e da mistura de culturas no grande caldeirão da nação da Coca-Cola e Mickey Mouse. Na música era a época dos Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Country Joe & The Fish, das grandes “jams” psicadélicas e “happenings” sobre a relva.

Os três primeiros álbuns espelham o ambiente e o ritmo dessa era (“The Doors”, “Strange Days” e “Waiting for the Sun”) que Jim Morrison personificava, num misto de teatro e delírio poético, encharcado em álcool e com um rastilho atado. Acendido o rastilho bastava esperar pela explosão. Uma questão de tempo.

Os Doors assumiam o psicadelismo para lhe acrescentarem a violência do “rhythm ‘n’ blues” e a crueldade das palavras. Utilizavam os símbolos da época para os subverter a partir de dentro, minando-lhes o caráter pretensamente positivo e solar até revelar a chaga, o buraco negro aberto no seu cerne – “When the music’s over” e, claro, “The End” viajam desumanamente pelo interior da alma humana, sem contemplações, pisando pelo caminho os tabus mais enraizados. Jim Morrison foi tão longe quanto lhe era possível e permitido ir, atravessando de facto as portas da perceção. Para além delas descobriu o silêncio que ninguém quis ouvir.

 


O brilho das trevas, a escuridão da luz

 

O lado negro dos anos Sessenta confunde-se afinal com o seu contrário “imaculado”. Branco e negro são inseparáveis lados opostos e complementares de uma mesma realidade. No coração da negritude cintila a pureza. No cerne da virtude agita-se o demónio da perversão. O lado negro não é mais que o branco levado ao seu limite. Imagine-se (ou, como fez Morrison, viva-se) o sexo potenciado até aos extremos dolorosos do erotismo, a descoberta levada à últimas consequências, à visão do bem e mal absolutos, a excitação prolongada ao paroxismo, a paz continuada até à mortal e derradeira quietude. Não é agradável, pois não? Nas fronteiras da vida erguem-se os portões da morte. O contrário também é verdade e Morrison sabia-o. Experimentar a vida até ao seu limite implica morrer a cada instante, até que sobrevenha, no derradeiro orgasmo, o silêncio definitivo. Vida e Morte cruzam-se naquilo que os românticos chamavam Paixão. Jim Morrison viveu apaixonadamente e morreu como um romântico, no excesso e na volúpia de tudo querer devorar e, ao mesmo tempo redimir. O poeta e visionário William Blake dizia que “a estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Seguir por essa estrada é tarefa árdua, trágica, a cumprir no destino dos deuses de carne e osso. Carne, por natureza sensível à dor e ao prazer dos infernos, na embriaguez dos sentidos. O Espírito extasiado na contemplação das verdades eternas. Não há homem que resista. Jim Morrison resistiu enquanto pôde.

 

Das portas que dão para os blues

 

Os outros Doors, Ray Manzarek, Robby Krieger e John Densmore, limitavam-se a tocar, assistindo à ascensão e queda do ídolo. Os jovens ficavam-se por assistir aos espetáculos, comprar os discos e não compreender. Reproduziam da estrela o vestuário e a pose, assobiavam os refrões mas, quando chamados a participar e a partir, ao grito de “Break on through”, só se fosse para fumar umas passas, partir umas cadeiras ou fornicar fingindo ser Filosofia. “The Soft Parade” anuncia a desistência, ao som de violinos e metais. A América e a Humanidade não queriam ouvir a mensagem do xamã quando não a confundiam com pouca-vergonha.

Restava um cansaço infinito e o derradeiro apelo dos Blues, a voz das raízes, o sofrimento e alegria originais. Depois de “L. A. Woman” os Doors sugerem a hipótese de gravarem um disco inteiramente devotado às lamentações da Alma, rendida à força primordial dos blues, afinal sempre presentes, de forma mais ou menos camuflada em toda a sua obra (“Five to one”, “Roadhouse blues”, “Shaman’s blues”, “Been down so long”, “Maggie M’Gill”, “Wild child”, “Cars hiss by the window”…). Sobreviveram a ideia e a fantasia do que poderia ter sido. Jim Morrison abandonava o circo americano e partia para Paris, onde viria a frequentar o “Circus”, antro de mil perversões, como ele gostava. Escrever e descansar, os objetivos, na medida do possível. Somente conseguiria cumprir o segundo dos desígnios, afogada a dor no banho final purificador. Mágoas desfeitas pelas águas. Assim nasceu a lenda.

 


O palco da vida

 

Ao vivo, a música dos Doors, em noite sim, era simplesmente irresistível. Autêntico ritual de catarse física e emocional. Jim Morrison não descansava enquanto não punha a audiência inteira tão “alta” como ele. Depois, a comunicação perfeita, a vertigem de um cerimonial pagão, com os corpos ligados por uma corrente de que Jim era o condutor. Por vezes encarnava completamente o xamã, o feiticeiro. Então dançava, alheio ao universo, tal qual um índio verdadeiro, diante do olhar extasiado do resto da tribo. Celebração da vida na Terra. Apelo às forças telúricas, as mesmas que o demónio tão bem sabe manobrar.

Gostava de interromper as canções, para conversar com o público ou simplesmente criar um espaço de silêncio, no interior de certas canções (imagine-se o efeito em “The end”...). Momentos de tensão, por vezes intoleráveis, para uma audiência em ponto de rebuçado. Jim sabia controlar as pulsões emocionais das massas e isso divertia-o. Sobre esses silêncios provocados dizia que “excitavam e assustavam – as pessoas gostam de ficar com medo. Exatamente como o momento antes de se ter um orgasmo. Toda a gente quer isso. É uma experiência máxima”.

Ray Manzarek chamava a Jim Morrison o “xamã elétrico” que, em certas ocasiões, se tornava sensível às vibrações elétricas ao ponto de Manzarek o fazer saltar ao simples toque de uma tecla do teclado electrónico. Sobre o palco a comunhão funcionava também entre os quatro “Doors”. Sem Ray, Robby e John, Jim não conseguia a força necessária para voar ou para mergulhar no abismo. Se o réptil humano representava a imagem, a alma, o sexo e a voz, os outros eram o resto do corpo, máquina energética, organismo ordenado e ordenador capaz de equilibrar as pulsões dispersoras e destruidoras do seu centro nervoso. Não devia ser fácil trabalhar com alguém interessado por “tudo o que se relaciona com a revolta, a desordem e o caos”. O rei Lagarto clamava: “I am the king Lizard” – I can do anything”. Não era bem assim.

 

Dias estranhos, no estúdio

 

Durante as gravações era diferente, mas nem sempre. Em “You’re lost little girl” (de “Strange Days”), Jim só conseguiu cantar com a ajuda da sua “companheira cósmica”, Pamela Courson, que ali mesmo na cabine, se entreteve com atividades cujo teor e detalhes a censura e o pudor não deixam descrever. Outras vezes era mais poético. Para “I can’t see your face in my mind” (também de “Strange Days”) recriou-se no estúdio uma ambiência oriental. De uma maneira ou de outra tinha que haver estímulos exteriores – álcool, drogas, sexo, ou, à falta de melhor, a simples fantasia.

“The Doors”, “Strange Days” e “Waiting for the sun” constituem a trilogia dourada da banda. O psicadelismo, os “blues”, o ódio mas também o amor (de novo os extremos que se tocam, em “Love street”, dedicado a Pamela, “Wintertime love”, “Hello I love you”), o órgão eletrónico de Manzarek, que, desde “Light My Fire”, cedo definiu o essencial do som dos Doors, aliados a experiências estilísticas como a utilização de música concreta em “Horse latitudes”, a cadência Weilliana de “Alabama song” ou o flamenco da guitarra acústica de Krieger, na introdução instrumental de “Spanish caravan” e à criatividade poética de Morrison, tornam, nesta época, a música dos Doors em algo de verdadeiramente inovador. Sobre ela dizia o crítico Gene Youngblood: “Os Beatles e os Stones existem para rebentar a mente. Os Doors existem para o que se segue quando a nossa mente tiver desaparecido”.

Neste três álbuns, gravados no curto espaço de dois anos (67 e 68), encontra-se a maioria dos clássicos: “Break on through”, “The crystal ship”, “Alabama song”, “Light my fire” e “The end” (“The Doors”), “Love me two times”, “People are strange”, “When the music’s over” (“Strange Days”), “Hello I love you”, “The unknown soldier”, “Five to one” (“Waiting for the Sun”).

“The Soft Parade” (69) é para muitos uma desilusão, na maneira como a energia se dispersa entre arranjos orquestrais sofisticados e desnecessários. Para a posteridade ficou o título-tema, cínica litania sobre as virtudes da sociedade e das luzes do espetáculo. “Morrison Hotel” (70) recupera parte da força inicial. Álbum de rock, forte e feio, em que Robby Krieger mostra aquilo que vale. “Roadhouse blues”, “Waiting for the sun”, “Ship of fools” e “Maggie M’Gill” demonstram-no à exaustão. Antes do fim, tempo ainda para o duplo “Absolutely Live”, um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos, e para a serenidade (aparentemente) reencontrada em “L. A. Woman” (71), de “Love her madly”, “L. A. Woman”, “L’America”, “Hyacinth house” e “Riders on the storm” – testemunho derradeiro da vida e do destino das “portas que abrem para o outro lado”, ao ritmo encantatório do piano elétrico de Manzarek. O resto é História.

 

26/11/2025

Danielle Dax - Blast the Human Flower

 

Pop Rock

 

3 ABRIL 1991

LP’S


DANIELLE DAX
Blast the Human Flower
LP / CD, Sire, distri. Warner port.


 







Na frente da capa, luminosa, Danielle Dax tem olhos e cor de fada. No verso, o inverso – arma em punho, colar de balas, maquilhagem de negro e desespero, em pose de mulher habituada à escuridão. Imagens opostas definidoras de uma atitude ambígua perante o mundo. Danielle inclui-se naquela faixa obscura de cantoras marginais, nascidas da “new wave”, que não sabem muito bem para onde se hão-de voltar. Mas enquanto se deixa ficar no limbo das indecisões, consegue perturbar. Agita fantasmas e acorda outros. Professa uma religião estranha, segundo os ritos de um “rock’n’roll” cinzento e doentio atravessado por bizarras incursões de psicadelismo orientalizante (“Tomorrow never Knows”), versão do tema da dupla Lennon/McCartney, em espirais de “loop” próximas das de Brian Eno em “No one Receives” e o tema final “16 Candles”, sombrio e obsessivo à maneira dos Velvet Underground).

“Bayou” abre-se ao canto de criaturas nocturnas voando sobre ritmos tribais. O espectro dos Velvets e de Nico em particular assoma de novo em “Daisy”. “King Crack” destila veneno e violência por todos os poros e “Deadman’s Chill” faz enregelar a alma. Versão britânica, bem mais convincente, de Nina Hagen, Danielle Dax faz passar discretamente a mensagem: “Ao canto de cisne do planeta Terra/ maravilhamo-nos com um remédio bem simples/ pegar na roupa/ limpar a ardósia/ retirar calmamente a fina camada de ferrugem/ e fazer ir pelos ares a flor humana.” Perigosa, a senhora. ***

 

Boicote à cooperativa "marginal" [UPAV]

 

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 2 ABRIL 1991 >> Cultura

 

Discotecas recusam vender discos da UPAV

 

Boicote à cooperativa “marginal”

 

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A cooperativa cultural UPAV queixa-se que algumas discotecas do país não compram os seus discos. Fala-se mesmo de boicote. Noutras lojas, os discos da UPAV vendem-se bem. Prontos a sair, com o selo “Play On”, vocacionado para as áreas da música alternativa, estão discos de José Peixoto (“El Fad”), Cal Viva e do compositor cabo-verdiano Vasco Martins. Resultados encorajadores de uma ideia peregrina.

 

Nem tudo é límpido no negócio dos discos. Em fevereiro último, a UPAV, União Portuguesa de Artistas de Variedades, lançou no mercado uma série de álbuns de música portuguesa. Alguns retalhistas recusam-se a comprá-los, alegando terem sido gravados numa editora “marginal”.

O conceito de “marginalidade” prende-se aqui a uma nova maneira de encarar a edição discográfica da música portuguesa e a proteção aos seus artistas, segundo estratégias inovadoras que escapam aos tentáculos das multinacionais (ver PÚBLICO de 18 de fevereiro).

Para José Mário Branco, músico e sócio fundador da UPAV, a questão reveste-se de alguma gravidade – “tem havido discotecas, algumas bastante importantes, não só em Lisboa, que pura e simplesmente não compram os nossos discos. Só por si, isso não teria grande importância, embora pensemos que deveria haver um esforço para acarinhar a música portuguesa, muito desfavorecida em termos de mercado.

 

Interesses ocultos

 

Admito até que haja discotecas especializadas que entendem haver determinados tipos de música que não lhes interessa vender. Mas não é o caso. Muitas vezes, algumas lojas grandes, não só não compram os discos como têm atitudes que achamos desonestas. Mais grave ainda é o facto de muitas dessas discotecas não terem os discos à venda e induzirem em erro o cliente, dizendo que ainda não saíram ou pura e simplesmente que estão esgotados”.

Recorde-se que os discos entretanto lançados pela UPAV, “Correspondências”, de José Mário Branco, “Fado – Histórias, Baladas e Lendas”, de Rodrigo, “Aqui e Agora”, de Dina, “Maria Guinot”, de Maria Guinot, “Poemas de Bibe”, de Mário Viegas e Manuela de Freitas, “Jorge Lomba”, de Jorge Lomba e “Terreiro das Bruxas”, dos Vai de Roda, são distribuídos pela Mundo da Canção, do Porto. José Mário Branco assegura que tanto a UPAV como a distribuidora “visitaram todas as discotecas do país, solicitando-lhes que pusessem os nossos discos à venda”.

Não se citam nomes, para evitar que a situação se torne “ainda pior”, já que para aquele músico, “existem interesses ocultos e má vontade da parte de alguns negociantes”.

 

Sons de hoje

 

Mas na UPAV a palavra de ordem é “ação”. Assim, já depois de amanhã, às seis e meia da tarde, vão ser apresentados no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores, dois novos discos de música portuguesa, gravados para a etiqueta subsidiária da União, “Play On”, vocacionada para a música contemporânea, jazzística, aquela que mais foge dos esquemas comerciais e que todos na UPAV designam pelo lema “sons de hoje”.

“El Fad”, de José Peixoto e um álbum homónimo dos Cal Viva (constituído por Peixoto, Carlos Bica, José Salgueiro e Martin Fredebeul) são as primeiras realizações da “Play On” na área do jazz. Prevista ainda a edição, em maio próximo, de dois CDs do compositor cabo-verdiano Vasco Martins.

 

Circuitos alternativos

 

Outra das preocupações dos membros da UPAV é o circuito das atuações ao vivo. “Dentro daquela ideia geral que é a gestão integrada da carreira artística, estamos a tentar fazer um trabalho de fundo que consiste em criar circuitos regulares de “tournées” no nosso país. Coisa que não existe...”. A ideia consiste em criar uma espécie de rede de espetáculos, previamente negociados com as Câmaras Municipais das diversas localidades, a percorrer posteriormente pelos músicos. Noites musicais, com dois artistas (sócios ou não da UPAV) destinadas a públicos específicos. O “cachet”, negociado para toda a “tournée” é sponsorizado ou mesmo pago em regime de mecenato.

Às Câmaras cabe cobrir as despesas relativas à estadia da caravana, fornecer a sala (com lotações médias de 800 espectadores) e comprometer-se a comprar os bilhetes não vendidos, o que na prática significa que à partida estão asseguradas sempre lotações esgotadas. Aqui reside o aspeto mais revolucionário do sistema, já que esse dinheiro se destina a pagar todas as despesas de produção (técnicos, luzes, viagens, cartazes), libertando assim os artistas deste encargo.

Compreende-se que as Câmaras tenham todo o interesse em que os espetáculos sejam um êxito. “Quanto mais bilhetes venderem, menos pagam e podem até não gastar nada se trabalharem bem, em termos de promoção, através da difusão, apoio, sponsorização local ou regional, publicidade na imprensa e rádios locais, em empresas da região, etc.

 

A regra dos três terços

 

As Câmaras começam a perceber que lhes convém lidar diretamente com os artistas”. Em princípio, o protocolo assinado com as entidades camarárias prevê sempre a realização de pelo menos seis espetáculos. Só neste ano a UPAV tem já agendados, a nível nacional, cerca de 180 espetáculos.

Mas, se nos espetáculos ao vivo, o artista tem direito a receber dez por cento do “cachet” líquido (“ao contrário do praticado no mercado, em que essa percentagem incide sobre o “cachet” bruto, cabendo normalmente ao artista pagar as despesas de produção...”) já em relação aos lucros provenientes da venda de discos o pagamento se processa de maneira diferente, de acordo com a chamada “regra dos três terços”. “O princípio é de que a mais valia de um disco pertence ao seu autor. A regra que escolhemos ‘obriga’-o, porém, a oferecer um terço dos resultados líquidos à cooperativa. No fundo beneficia disso porque ele próprio é sócio. O segundo terço vai para o bolso do artista e ninguém tem nada com isso. O terceiro terço continua a ser propriedade do artista, mas terá que ser obrigatoriamente investido num fundo editorial gerido pela UPAV, destinado a financiar novas produções”.

Em relação aos discos já lançados no mercado, há casos (como os de Mário Viegas/Manuela de Freitas e de Rodrigo) em que, mesmo antes de serem gravados, já estavam a dar lucro, tendo em conta as vendas antecipadas (na ordem dos três mil exemplares, para cada um dos sete discos editados). Mas se as produções mais baratas rentabilizam rapidamente, outras como as “Correspondências” de José Mário Branco levam mais tempo a recuperar os investimentos – “são muitas horas de estúdio, muitos músicos, capa dispendiosa” – como faz questão de afirmar o seu autor -, “portanto não espanta que o saldo continue negativo”.

 

Novos valores

 

A UPAV não esquece os novos valores. Se por um lado as portas permanecem sempre abertas à admissão de novos sócios (Paulo de Carvalho aderiu recentemente), nem por isso os novos nomes são deixados de lado. Para José Mário Branco um dos objetivos prioritários da cooperativa passa mesmo pelo lançamento, todos os anos, de “dois ou três músicos desconhecidos que aparecem com as primeiras obras”.

Assim, para além da edição próxima dos dois trabalhos de José Peixoto, preparam-se já as estreias discográficas de Amélia Muge ou, numa veia mais comercial, de Adriano. Se a deixarem, a UPAV há-de continuar saudável, a crescer.