31/01/2011

Os maiores talentos portugueses dos anos 90

Sons

10 de Setembro 1999

Os maiores talentos portugueses dos anos 90

Luís Maio

Quisemos eleger os maiores artistas pop/rock/world portugueses dos anos 90. Não aqueles com uma carreira já antes estabelecida, que chegaram ou se mantiveram na ribalta nestes últimos dez anos, o que exclui à partida nomes como Madredeus ou Dulce Pontes. Mas apenas os novos talentos, que gravaram pela primeira vez em longa-duração e marcaram a música portuguesa (ou, para ser mais rigoroso, produzida em Portugal) nesta década. “Marcar” aqui, tem de se reconhecer, é um pouco ambíguo e esta escolha é um compromisso entre a importância objectiva dos artistas e os nossos gostos pessoais.
A conclusão a que chegámos é que há pelo menos dez nomes fundamentais dos nossos anos 90, o que já não é nada mau. Mas a impressão com que também ficámos, e deverá ficar como objecto de uma futura sistematização, é que esta década não foi genericamente tão produtiva quanto a precedente para a música portuguesa. Houve alguma necessidade da parte dos novos talentos de cortarem com a geração precedente, a dos GNR, Delfins, Trovante e Xutos, nomeadamente no sentido de questionar a necessidade de obedecer a um formato de canção pop/rock e de cantar em inglês. Mas essa ruptura não foi tão frutuosa ou ainda está em boa parte por cumprir.

1. PEDRO ABRUNHOSA (texto Pedro Ribeiro)

2. TRÊS TRISTES TIGRES

Já não há desculpa para se afirmar que não existe uma verdadeira banda portuguesa de pop psicadélica. Ela existe e chama-se Três Tristes Tigres. Mas se esta vertente, se não inédita (quem se recorda, no anos 70, dos Beatnicks, da “Cosmonicação”?), pelo menos muito pouco comum, da música popular produzida em Portugal, tem razão de existir, quando estamos prestes a entrar num novo milénio, tal deve-se ao “input” dos TTT de Alexandre Soares. Foi graças às novas ideias do antigo guitarrista dos GNR que a banda do porto renovou o seu stock de canções assentes no delírio sonoro e na qualidade dos textos escritos por Regina Guimarães. Com Alexandre Soares, os TTT entraram, sem medo, no comboio-fantasma da electrónica e dos sonhos com ligação directa, até ao mais recente, “Comum”, passando por “Guia Espiritual”, os TTT passaram de sonoplastas da palavra a arquitectos do inconsciente. Ana Deus, cantora dos TTT, faz a síntese do caminho recentemente aberto pelo grupo: “É perturbador!”. (texto FM)

3. GAITEIROS DE LISBOA
“Bárbaros!” Era o grito de susceptibilidade ferida com que o bardo Assurancetourix respondia aos insultos que o resto da tribo de irredutíveis gauleses lhe dirigia, quando se atrevia a cantar. Os Gaiteiros de Lisboa nunca foram propriamente insultados, mas, se o fossem, seria sempre por outras razões. Porque, antes deles, a música de raiz tradicional portuguesa descansava à sombra da bananeira, que é como quem diz, da papa toda feita nas décadas anteriores por José Afonso, dos que faziam das recolhas étnicas profissão de fé e do trabalho, sem dúvida louvável, mas sempre respeitador, da geração anterior de grupos da mesma área. Os Gaiteiros chegaram e deitaram tudo abaixo. Niilistas? Iconoclastas, talvez! Depois, sobre os escombros, edificaram um edifício novo tão ou mais deslumbrante que o antigo. Em apenas dois álbuns, “Invasões Bárbaras” e “Bocas do Inferno” (vencedor do Prémio José Afonso do ano passado), os Gaiteiros de Lisboa deram um rosto novo e de desafio à música popular portuguesa. Para muitos, o rosto de um demónio. Mas não é Lúcifer o anjo portador da luz? (texto FM)

4. ITHAKA (texto Tiago Luz Pedro)

5. BELLE CHASE HOTEL (texto Rui Catalão)

6. UNDERGROUND SOUND OF LISBOA (texto Vítor Belanciano)

7. DA WEASEL (texto Tiago Luz Pedro)

8. AMÉLIA MUGE

A conquista recente do Prémio José Afonso, pelo álbum “Taco a Taco”, não fez mais do que reconhecer a importância da obra de Amélia Muge enquanto herdeira daquele que foi, em Portugal, o arauto da insatisfação, do empenhamento ideológico e da inovação estética: José Afonso. Como o autor de “Cantigas do Maio”, Amélia Muge não dispensa a interrogação dos propósitos e motivos que conduzem à criação musical, o que significa que o disco, mais do que produto de uma indústria, deverá ser o espelho da história – do criador e do tempo em que vive. Mas a esta necessidade de conceptualização correspondeu desde o início, com o álbum de estreia, “Múgicas”, essa outra necessidade de arriscar e pôr em causa o que se fez e pensou antes. Amélia Muge, para além do prodígio de força e expressividade que é a sua voz, possui esse outro talento, bastante mais raro: do fogo de uma alma em eterna demanda. Com ela a música tradicional e o legado de autores como José Afonso ou José Mário Branco ganhou verdadeiramente o direito de entrar no 5º império. (texto FM)

9. REPÓRTER ESTRÁBICO (texto Vítor Belanciano)

10. MOONSPELL (texto Pedro Ribeiro)

Richard Thompson - Mock Tudor

Sons

10 de Setembro 1999
POP ROCK

Quadros de um rapaz dos subúrbios

Richard Thompson
Mock Tudor (8)
EMI, distri. EMI-VC


“Pode tirar-se o rapaz dos subúrbios, mas não se pode tirar os subúrbios do rapaz.” A frase, que um dia alguém aplicou a David Bowie, natural de Brixton, nos arredores de Londres, assenta como uma luva a Richard Thompson, outro nativo dos subúrbios londrinos, temática que este músico já havia abordado com a sua então mulher, Linda Thompson, em “Sunnyvista”, e que agora retoma neste seu mais recente capítulo a solo, depois do duplo “You? Me? Us?”, de 1996. Com produção de Tom Rothrock e Rob Schnapf (trabalhou com Elliott Smith), “Mock Tudor” está dividido em três “capítulos”, correspondentes aos períodos cronológicos que marcaram a relação de Richard Thompson com Londres, mais concretamente, a zona norte da cidade: “Metroland” (1953-1968), “Heroes in the suburbs” (1969-1974) e “Street Cries and Stage Whispers” (1974 até hoje).
Está ao nível dos melhores trabalhos deste músico cuja carreira se iniciou nos Fairport Convention até se tornar nome de referência para gente como os REM, Bruce Springsteen, David Byrne, Nancy Griffith, Elvis Costello, Shawn Colvin, Evan Dando e Bob Mould. Sem atingir o estatuto de obra-prima de “I Want to See the Bright Lights tonight” (com Linda Thompson) nem explodir no delírio de excentricidade de “In Strict Tempo”, “Mock Tudor” ilustra, no entanto, o que de mais consistente – folk-rock personalizado ao mais alto nível – existe na sua veia criativa, num álbum que carrega com menos força do que é habitual na tecla do sarcasmo e da miséria.
Do rock ‘n’ roll de coração adolescente do tema de abertura, “Cooksferry queen”, ao pungente tema final, “Hope you like the new me” (evocativo da tristeza que se infiltrava no âmago da música de três grandes nomes, entretanto desaparecidos, da folk contemporânea, e aos quais o álbum é dedicado: Nick Drake, Sandy Denny e Lal Waterson), “Mock Tudor” traça o quadro subjectivo dos subúrbios da capital inglesa na última metade deste século, com o cinzento do cimento polido pela chuva e a vida aprisionada nos reflexos das poças de água das ruas. Há grandes canções neste tríptico, como “Uninhabited man” (com Thompson na sanfona), “Sibella” ou “Hope you like the new me”, uma “pastische” dos Police, em “Crawl back (under my stone)”, apontamentos “country” (“Walking the long miles home”) e sequências de folk-rock evocativas dos Fairport de “Liege & Lief” e “Full House”, (“Two faced love”). Richard Thompson não é um compositor simpático e a sua obra adquire, por vezes, uma irritante opacidade. Por isso a relação de “Mock Tudor” com o auditor poderá ser semelhante à do músico com a sua cidade natal – de “amor-ódio”, como ele próprio diz. E a sua música, como Londres, “um lugar idealizado para se viver”.

Ali Farka Touré - Niafunké + Afel Bocoum - Alkibar

Sons

10 de Setembro 1999
WORLD

Ditado sem erros

Ali Farka Touré
Niafunké (7)

Afel Bocoum
Alkibar (6)
World Circuit, distri. Megamúsica


Nas margens do Níger, na fronteira com o Sara, no “Mali profundo, onde a música vive”, segundo as suas próprias palavras, fica Niafunké, cidade-natal de Ali Farka Touré. É aqui que o mestre dos “blues” africanos tem vivido nos últimos anos, dedicando-se em exclusivo à agricultura (“Sou em primeiro lugar agricultor e só depois músico”, diz), actividade que abandona apenas para fazer um ou outro concerto no estrangeiro, o que se vai tornando, de resto, cada vez mais raro.
Sem gravar há seis anos (“Talking Timbuktu”, com Ry Cooder, saiu em 1993), autor de dois trabalhos magníficos, “The River” e “The Source”, Ali Farka Touré regressa mais próximo das raízes do que nunca (“Conheço as escalas ocidentais mas acabam todas por não me servir”) com uma série de captações em “take” único realizadas, quase sempre ao fim da tarde, “quando as cobras e os mosquitos chegavam”, num celeiro em que a electricidade teve de ser fornecida por um estúdio móvel conduzido até ao local pelo próprio músico.
Apesar da proximidade do berço e das condições artesanais da gravação, “Nianfunké” não apresenta grandes diferenças em relação ao registo habitual do músico: cadências hipnóticas de guitarra, neste caso acompanhadas de um naipe de percussões, com as quais Ali Farka Touré nos arrasta para o coração de África. Música fora do tempo, como tal, avessa a qualquer tipo de evolução ou modificação para além das próprias transformações anímicas do intérprete, “Niafunké” reflecte pela eternidade fora os ciclos do homem e da Natureza.
Afel Bocoum é um discípulo de Ali Farka Touré, igualmente nativo de Niafunké. Nota-se. “Alkibar”, o seu álbum de estreia, para além de ter sido gravado no mesmo local, ser produzido pela mesma pessoa, Nick Gold, e ter o mesmo engenheiro de som, Jerry Boys (currículo feito nos Buena Vista Social Club), utiliza os mesmos instrumentos, além da guitarra (que Afel toca como Touré…), o njarka (violino de uma corda), o njurkçe (guitarra-ritmo) e percussões (djembé e cabaça). Imbuído (também como Touré, aliás) da tradição Sonrai, Afel Bocoum limita-se, por enquanto, a seguir as pisadas do mestre. Mais do que uma cópia, ou um ditado sem erros, um caso de (irremediável?) mimetismo.

29/01/2011

Norma Waterson - The Very Thought Of You + Lal Waterson & Oliver Knight - A Bed Of Roses

Sons

23 de Julho 1999
WORLD

Waterson & Waterson, o génio em família

Norma Waterson
The Very Thought of You (10)
Hannibal, distri. MVM

Lal Waterson & Oliver Knight
A Bed of Roses (8)
Topic, distri. Megamúsica


“The Very Thought of You” apresenta uma das vozes com mais profundidade e carregada de emoção da música popular inglesa. E não dizemos folk, porque Norma Waterson é, hoje, a voz de muitas músicas. A veterana cantora dos Watersons, formação vocal pioneira do movimento de revivalismo folk que eclodiu em Inglaterra nos anos 60, faz-se acompanhar neste álbum – dedicado à sua irmã, Lal Waterson, recentemente falecida – por dois membros do clã Carthy, o marido, Martin, e a filha, Eliza, e por dois Thompson, Richard, o ex-Fairport Convention, e Danny, o ex-Pentangle. E é, precisamente, na composição assinada pela irmã, “Reply to Joe Haines” – resposta a uma carta, considerada “infame” pela cantora, publicada no “Daily Mirror” pelo dito Haines, a propósito da morte, de sida, de Freddie Mercury –, que “The Very Thought of You” atinge um grau de intensidade emotiva e uma beleza quase insustentáveis. Um tema para a eternidade.
Na canção anterior (Norma juntou-as aos pares sobre um mesmo tema), “Love of my life”, com a assinatura do próprio ex-cantor dos Queen, Norma faz coincidir o passado e o presente, o amor e a tragédia, num registo influenciado pelo pessimismo caro a Richard Thompson, que aqui contribui com dois temas da sua autoria: “Josef Locke”, outro dos momentos de maior intensidade interpretativa do disco, e “Al Bowlly’s in heaven”, ainda sobre a temática da morte, neste caso de Fred Astaire. Loudon Wainwright II, Nick Drake (“River man”, outro clássico, transformado num tema de folk de câmara pelo violino da filha, Eliza Carthy) e John Martyn (com “Solid air”, folk-jazz ao mais alto nível), dois nomes cujas obras têm em comum mais do que se possa imaginar, e Clive Gregson contribuem também com composições para “The Very Thought of You”. Um álbum que vai do clássico “Over the rainbow”, do filme “O Feiticeiro de Oz”, aos dias da rádio e ao jazz que se ouvia na rádio (o título-tema), das baladas mergulhadas num tempo já desaparecido à própria suspensão da temporalidade.
Em “The Very Thought of You” Norma Waterson pegou em canções com história e atirou-as para os braços da eternidade. Não há muitas cantoras, no mundo inteiro, que consigam aliar a tradição e a modernidade da maneira como ela o faz. Depois da estreia, com o álbum homónimo, de 1996, Norma Waterson assina em “The Very Thought of You” um dos melhores discos do ano.
Disco do ano foi, em 1997, para este suplemento, “Once in a Blue Moon”, de Lal Waterson e Oliver Knight. À semelhança do que acontece com Norma, que se socorreu dos serviços da filha Eliza, em “The Very Thought of You”, também Lal gravou “A Bed of Roses” com a ajuda do filho, Oliver Knight, o que já se verificara aliás, no disco anterior da dupla. Em “A Bed of Roses” há mais folk e menos fantasmas à solta do que em “Once in a Blue Moon”. E um pedaço de fado (!), pelo bandolim de Jody Stecher, em “Columbine”. Compreende-se, mais do que nunca, ao escutar temas como “Bath time” ou “Long vacation”, a influência que a cantora inglesa exerceu em Marianne Faithfull. E, no lugar onde ambas se encontram agora, decerto que Lal e Nico se terão encontrado para trocar segredos e maldições.
Em Lal Waterson, na sua voz impregnada de histórias, quase todas elas tristes, habitava o desamparo e a solidão dos exilados. Mesmo quando a intrusão de uma guitarra eléctrica “progressiva” se faz sentir, como acontece em “Train to bay”, é impossível escutar “A Bed to Roses” sem sentir uma gota fria de inquietação. E deslizar por um abismo de recordações saídas dos recantos mais escuros da memória, cercados por uma coroa de flores como as da capa, tão geladas quanto a voz e a música de Lal Waterson, uma cantora que ficará para a história como das mais enigmáticas da folk britânica. O tema, já sem a sua voz, é o espaço que fica depois da morte. Um espaço vazio.

O elefante visto de muito perto [Sei Miguel]

Sons

16 de Julho 1999

Sei Miguel lança “Token”, um duplo com “single” para o Verão

O elefante visto de muito perto

Sei Miguel situa a origem da sua música nos blues. Um blues, definido como um bicho “de que não se consegue ver a totalidade por se estar mesmo em cima dele”, é a longa peça de violoncelo solo que ocupa meia hora do seu novo trabalho, um CD duplo intitulado “Token”.

Contando com um naipe de colaboradores mais numeroso do que o habitual (Rodrigo Amado, Rafael Toral, Bernardo Devlin, Luís Desirat, Manuel Mota, Pedro Chuva, Fala Miriam e Rute Praça, entre outros) e com uma diversificação de sonoridades que vão da bateria electrónica ao theremin e do trombone ao violoncelo, “Token” permite uma aproximação diferente da de álbuns anteriores. A sua estranheza é o seu principal fascínio.
Sei Miguel faz uma apresentação mais simples: “É o meu disco mais concreto.” Um disco “muito elaborado” que demorou “quatro anos ou mais” a fazer. E também bem-humorado, como atesta a referência a um “djembé temperado”. “É francamente irónico”, admite, referindo-se também ao tema que abre “Token”, uma suite estruturada segundo os andamentos clássicos do barroco, com o título “real dancer suite”. “Estou a ironizar sobre a própria noção de ‘suite’ que, neste caso, foi composta para ‘ballet’. Gravei-a praticamente sob contrato e acabou por dar em nada, daí ter assumido a suite até ao fim. É um objecto um pouco sarcástico.” No fundo “é mais um blues”, diz, desta feita a brincar.
São os blues que animam por dentro muita da música composta por Sei Miguel. “Estão na essência de ‘The ring’, tema que já me disseram ser demasiado longo.” O “demasiado longo” deste tema incluído em “Token” significa mais de meia hora de um desempenho de um violoncelo solo por Rute Praça. “E eu respondo: nem queiram saber até que ponto eu acho que é demasiado longo!”, corrobora Sei Miguel para logo acrescentar que foi “de propósito”. “Faz parte intrínseca do peso do blues. Esse peso está ali. É um blues à primeira irreconhecível, como o desenho de um elefante visto de muito perto, em que não se consegue ver com a sua presença, enquanto instrumentista, embora isso se deva, também, a ter sido feito, como acima se entende “em circunstâncias muito duras”.
Todos os paradoxos se desvanecem e todas as abstracções se iluminam se conseguirmos entrar nos meandros do pensamento do músico, encontrando no significado de cada palavra desvios ao que a norma lhes impôs. “Token”, insiste, “é um disco muito técnico.” Não usa o termo como um elogio. “Talvez seja o desequilíbrio dele – o Paulo [da editora Ananana] mata-me [Risos.] – em comparação com ‘Showtime’ que é um disco muito mais ‘soft’, no bom sentido”. “Showtime” é “um disco de jazz”, afirma, enquanto “Token” é “um disco de um músico de jazz”. Diferença subtil onde se manifesta o sentido essencial de alguém que, contra todas as aparências, a si mesmo se define como “um músico de jazz”.
“A composição e improvisação são termos úteis à tradição ocidental, académica, mas que o jazz transcendeu.” Ser músico de jazz é “participar na forma mais inacabada e mais actual de fazer música. E mais contraditória, também, porque é a música que tende mais para o abstracto”, embora continue “longe das academias e a ser uma música de rua”. E se à improvisação é possível arranjar uma definição, então ela é “estar mais próximo do mais antigo, do mais básico, do material musical e, ao mesmo tempo, estar obrigatoriamente, como consequência, na última vertente, no que se está a fazer. Na vanguarda, para utilizar uma palavra que hoje não está muito na moda”.

Anja Garbarek - Balloon

Sons

16 de Julho 1999
DISCOS – POP ROCK

Anja Garbarek
Balloon (7)
RCA, distri. BMG


Não há que enganar, Anja é mesmo filha de Jan Garbarek, o saxofonista norueguês que começou pelo jazz, derivou para a “new age” e acabou por despejar o açucareiro nos insuspeitos Hilliard Ensemble. E se é verdade que filho de peixe sabe nadar isso não significa que nadem no mesmo estilo. Anja mostra neste seu álbum de estreia estar ao corrente de algumas correntes em voga, distribuindo a sua voz fora do vulgar por um classicismo inspirado em Mathilde Santing, um ambientalismo pastoril regado no jardim de Virginia Astley, a infantilidade simulada de uma Stina Nordensteem e o mesmo culto da originalidade, trabalhada em laboratório, de Björk. Se no tema inicial a voz de Anja sugere a segurança e o mistério de Mathilde Santing, logo a seguir, em “I. C. U.”, a cantora norueguesa procede à desmontagem do hip-hop, colorindo-o com uma orquestra de cordas em pano de fundo e uma vocalização onde Anna Homler, Laurie Anderson e um anjo de Boticelli se confundem. “Picking up pieces” e “The cabinet” aliam a herança estética do hip-hop com um experimentalismo sem fronteiras. O primeiro é uma união de “loops”, barulho de máquinas e uma emissão de rádios em ondas-curtas, com Holger Czukay no horizonte. O segundo abre-se em claustros de murmúrios e reverba, lembrando uma banda como os Double-X-Project que volta a intrometer-se no mais jazzístico “She collects (stuff like that)”. “Strange Noises” agradará aos adoradores de Meira Asher e “The telescope man says” leva Virginia Astley num foguetão até uma estação espacial, na mesma órbita do tema final, “Balloon moon”, lá muito no alto.

18/01/2011

Bomba ao retardador [Anabela Duarte]

Sons

9 de Julho 1999

Anabela Duarte comete “Delito”, sete anos depois…

Bomba ao ratardador


Anabela Duarte regressa “catastrófica” e mais multifacetada do que nunca, com um disco novo, intitulado “Delito”, que já foi gravado há sete anos. Confusos? Mas isso é o que a cantora quis e conseguiu sempre provocar nas pessoas.

PÚBLICO – “Delito” foi gravado ao vivo em 1991 e surge agora como o seu novo disco. Quais as razões deste intervalo tão grande?

ANABELA DUARTE – De início, nem sequer sabia da existência destas gravações. Na altura em que trabalhava com o Paulo da Costa Domingos, surgiu a ideia de editar isto. Foram quatro espectáculos dos quais tive acesso a três cassetes DAT. Fiz a montagem no meu estúdio em casa das versões que me pareceram melhores.
P. – Mas considera mesmo que este é o seu “novo” disco?
R. – Mas o que é que se considera “novo”? Há muito tempo que não apareço e, neste sentido, é o meu disco novo, até porque mete um bocado em dia as coisas que eu quero fazer a partir de agora.
P. – Quer dizer que a Anabela Duarte de 1991 é a mesma Anabela Duarte de 1999. Foram gravações premonitórias, é isso?
R. – Sim, coisas ligadas ao campo da electrónica e à música mais pop. Claro que há coisas que não faria agora da mesma maneira, sobretudo ao nível das novas tecnologias que entretanto apareceram. Mas era um disco que estava um bocado à frente do que se andava a fazer. E nem sequer tenho manias de vanguarda…
P. – Falou na electrónica. É por aí que pretende seguir?
R. – Sim. Estou já a trabalhar nesse campo, a fazer novas composições mas já numa base de manipulação de samplers. Além dos músicos que trabalharam comigo neste disco, que se mantiveram todos, excepto o baixista, há também um DJ e programador, chamado Nuno Moita.
P. – Considera-se uma “outsider”?
R. – Claro! Se não, não tinha metade das dificuldades que tenho para fazer as coisas. E mesmo que não sentisse assim, sou forçada a senti-lo. Está tudo catalogado, embora já haja hoje uma certa abertura a coisas diferentes. Na altura este disco não fazia sentido. As pessoas interrogavam-se: “Como é que uma gaja que está na música pop vai para o fado e depois se mete no canto lírico?”
P. – Que música anda a ouvir?
R. – Gus Gus. O disco da Mimi, o “Burn”. E fui ao concerto do Tricky. Gostei bastante. Em termos de vozes femininas, nunca tive modelos. Bem, a Björk foi uma inspiração para toda a gente. É completamente xexé, embora agora ande a fazer umas coisas um bocadinho mais comerciais, mas é uma referência, sempre.
P. – Alguns dos temas de “Delito” remetem para os Mler Ife Dada. Sente o mesmo?
R. – Concordo. Tudo isto tem muito a ver com eles. Na altura os Mler Ife já eram um microcosmo.
P. – Um dos temas é uma canção de Luciano Berio…
R. – … Que já aparecia no segundo disco dos Mler Ife, “Espírito Invisível”, numa versão com guitarra e umas flautas computorizadas. Em “Delito” fiz uma versão diferente, em piano. É uma das duas composições que foram gravadas agora. A outra é “Mangissa”, um dos temas tratados electronicamente e com o tal lado gótico que referiu na crítica. Há quem diga que devia ter aberto o disco com ele.
P. – Nas notas da capa fala em “sentimentalizar a máquina e maquinizar o sentimento”. É neste conceito que está a trabalhar?
R. – Esse texto, como os restantes, é recente, um pouco para fugir às letras. Neste caso, letras de há nove anos que não têm piada nenhuma…
P. – Mas a palavra ocupa um lugar de destaque na sua obra, não é verdade?
R. – Sim, mas a palavra fonética.
P. – Então e o disco de poesia que gravou?
R. – É verdade, com o Paulo da Costa Domingos e o Hélder Moura Pereira. E no meu próximo trabalho vou usar um texto do Keats, aproveitado de uma sessão que fiz em Março deste ano na casa Fernando Pessoa, no lançamento desse disco, onde li, além de Keats, Lorca, Pessoa, o Hélder e o Paulo, claro, e um excerto de uma antologia de poesia, uma cantiga de amigo, do Herberto Hélder.
P. – O título de “Visão Lynch” é uma referência explícita ao cineasta?
R. – Sim, na altura vi alguns filmes dele. Tem um lado catastrófico e psicanalista que tem a ver comigo, com a minha sensibilidade. Sou catastrófica mas não no sentido de irmos destruir isto tudo ou de atirar uma bomba… Embora, às vezes, até me apetecesse (risos). É no sentido em que há um lado deprimente, uma tendência para fatalizar.
P. – Se pudesse, onde é que deitaria a bomba?
R. – Não era aqui no PÚBLICO. Ainda não! [risos] Deixe sair esta entrevista primeiro. Seria nas editoras. Só apostam em coisas comerciais que, às vezes, nem sequer dão resultado.
P. – De futuro, pensa cultivar algum tipo de imagem?
R. – Preocupo-me. Para este disco fui buscar, para fazer o styling, um estilista, o Dino Alves, que tem um lado de “enfant terrible”. As fotos são da Adriana Freire.
P. – Estudou canto lírico. Nunca pensou em fazer o mesmo em relação a técnicas de canto ligadas às culturas tradicionais, uma tendência, aliás, agora muito em voga?
R. – Não faço isso cientificamente, como a Fátima Miranda, por exemplo, em que passa anos a trabalhar aquelas coisas. Fiz isso em relação ao canto lírico, é verdade, mas já viu o que era outros nove anos para os outros? Quando chegasse aqui, já andava de bengalas! [risos]