23/05/2018

Mas e... a Meira Asher (Vítor Junqueira)



Fernando Magalhães
24.07.2002 130118

Não foi mau. Mas também não saí de lá deslumbrado e, muito menos, massacrado.

A performance dela e do Guy Harries, embora poderosa, soou-me nalguns momentos algo gratuita e previsível (o tipo aos berros, ela aos berros, os dois aos berros...) sobre uma base rítmica eletrónica que pouco adianta em relação à música industrial dos anos 80 (lembrei-me sobretudo dos primeiros Test Dept...).

No disco a coisa funciona, paradoxalmente (ou nem tanto...) melhor, na medida em que se consegue seguir os textos e há uma dimensão abstrata e de "não mostrado" que acaba por conferir ao todo uma outra dimensão, muito mais perturbante.

É como nos filmes de terror. Às vezes mostrar muito sangue, monstros, etc, não é a melhor solução para provocar o medo...

FM

A propósito de Cat Stevens



Fernando Magalhães
19.07.2002 150326

...E de uma referência ao "Father & son" a propósito do disco dos FLAMING LIPS, aproveito para propor uma audição despreconceituosa, sobretudo dos álbuns "Mona Bone Jakon", "Buddha & The Chocolate Box" e "Numbers".

Também aconselháveis, mas já mais "batidos": "Tea for the Tillerman" e "Teaser and the Firecat".

Mas a surpresa vem mesmo do 1ºálbum, "Matthew and Son" - pop eivada de psicadelismo bucólico que está para a discografia posterior do músico, como "David Bowie" está para a obra de Bowie.

FM

PS-Acho o álbum dos Flaming Lips irritante.

Site para FM




dubturn
17.07.2002 001235

Fernando, aproveito o thread para te perguntar sobre os italianos Banco del Mutuo Soccorso. É comparável a alguma coisa? Escaparam-me por completo.

Fernando Magalhães
17.07.2002 150304

Curiosamente, adquiri há dias um dos melhores álbuns deles, o "Darwin".

É um grupo bastante bom, mas a abordar com algumas reservas pelo Prog fan menos faccioso...

Instrumentalmente, são fabulosos, sendo a principal influência (no uso dos teclados) os Emerson, Lake & palmer, com a diferença de que soam totalmente italianos, com aquela vertente clássica/folk típica de muito prog deste país.

O vocalista é do tipo cantor de ópera (um "acquired taste" que pode causar sérias aversões ou...o efeito oposto). A questão está em que os BANCO são de facto muito bons, entrando pela experimentação e, por vezes, conseguindo canções capazes de causar arrepios.

"Darwin" e o álbum seguinte, "Io Sono Nato Libero" são os melhores. Ambos fundamentais numa coleção completista de Progressivo.

Tenho também "Garofano Rosso" (BSO), "Come in un Ultima Cena" e "Banco di Primavera".

FM

dubturn
17.07.2002 150350

Ok, obrigado pela info.

Perguntei-te porque, como te disse, me passaram ao lado e o Gnosis chamou-me à atenção para eles, porque no top 20, aparecem 3 vezes, duas delas no top 5.

Já agora, ficam aqui o top 20 álbuns para os 48 críticos da Gnosis, dos quais conheço apenas alguns nomes (o 1o lugar então é-me completamente desconhecido, como a maior parte do prog italiano - exceção para os PFM):

1. Ys - Il balletto di bronzo
2. Genesis - Selling England by the pound
3. Banco del Mutuo Soccorso - Darwin!
4. Banco del Mutuo Soccorso - Io sono nato liberato
5. Van der graaf generator - Pawn hearts
6. Yes - Close to the edge
7. National Health - Of queues and cures
8. King Crimson - Larks tongues in aspic
9. Genesis - Foxtrot
10. Premiata Forneria Marconi - Per un amico
11. Hatfield and the North - Rotter's club
12. Gentle Giant - In a glass house
13. Anglagard - Hybris
14. Banco del Mutuo Soccorso - Banco del Mutuo Soccorso
15. Jethro Tull - Quick as a brick
16. Magma - Hhai/Live
17. Area - Crac
18. Locanda delle fate - Forse le lucciole non si amano piu
19. King Crimson - In the Court of the Crimson King
20. Osanna - Palepoli


Fernando Magalhães
17.07.2002 160414

Lista estranha, essa!

A grande asneira começa logo pela 1ª posição. O grupo é que se chama BALLETO DI BRONZE, e o álbum "Ys". É um disco apenas bom, mas sobrevalorizado por muitos progsters. É King Crimson à italiana, mais classizante e, na minha opinião, com vocalizações a mais. Som denso, por vezes impressionante, mas longe, muito longe, de ser uma obra-prima.

Os ANGLAGARD, que nunca ouvi, são uma das bandas preferidas de muitos apreciadores de Prog. Mas, não sei porquê, cheira-me a neoprog com pretensões...a ver vamos...

O disco dos JETHRO TULL Chama-se "Thick as a Brick" e, na mesma linha, prefiro o "A Passion Play", que o próprio Ian Anderson considera ser o álbum mais difícil e estranho da banda.

MAGMA, o disco ao vivo?????? Vê-se que quem fez a lista desconhece por completo a grande discografia do grupo!!!

LOCANDA DELLE FATE, o que conheço deles, é rock sinfónico com algum bom gosto, delicado, mas, em última análise, fútil.

AREA. o "Crac!" é um bom disco mas os dois anteriores são bastante superiores, embora menos acessíveis ("Arbeit Macht Frei" e "Caution Radiation Area")

GENTLE GIANT- mais uma vez dá ideia de desconhecimento da 1º e melhor fase discográfica do grupo. Mas "In a Glass Houyse" é um grande álbum, atenção!

HATFIELD AND THE NORTH: Prefiro a estreia, "Hatfield and the North", mais simples mas com mais e melhores ideias.

Mesmo a escolha dos álbuns dos GENESIS e KING CRIMSON é discutível, mas enfim...

FM

Hoje não há thread de discos ouvidos



Fernando Magalhães
12.07.2002 160453

O BERNARD PARMEGIANI é provavelmente o mais importante compositor de música eletrónica/eletroacústica deste século, à frente dos igualmente importantes FRANÇOIS BAYLE, MICHEL CHION, MICHEL REDOLFI, CHRISTIAN ZÁNESI, etc, ou seja, a escola francesa ligada à INA. GRM (Institut National de L'Audiovisuel - Groupe de Recherches Musicales), que é também uma editora, aquela, aliás, onde "La Création du Monde" foi editada. Esta peça foi composta entre 1982 e 1984 e a primeira edição em disco, creio, é de 1991. O CD que tenho é já de 2000.

"La Création du Monde" é, juntamente com "De Natura Sonorum", uma das obras fulcrais do compositor, de quem, aliás, escrevi há uns anos uma crítica no SONS, a propósito de uma edição pela Ananana (?), Matéria Prima (?), de outro álbum excelente, "Pop'Eclectic".

"la Création du Monde" é, de certa forma, também a criação da música. Uma magma de eletrónica à base de texturas e granulados que vão do telúrico ao celestial, sons "sensíveis", quase palpáveis, numa metamorfose constante em busca da luz. Entre a abstração "monstruosa" e pulsações cósmicas, uma obra total. Fennesz e os tipos todos que só agora aprenderam a gatinhar :D devem tudo a este senhor.

És capaz de gostar muito é do FRANÇOIS BAYLE, cuja música é mais rendilhada e, em certo sentido, subtil e delicada, mais próxima da eletrónica que se fala aqui no fórum. Todos estes CDs se encontram na VGM (no Príncipe-Real, o "Paraíso" da eletrónica contemporânea, mas também música antiga, edições de jazz fabulosas já retiradas do mercado, etc).

FM

discos ouvidos



Fernando Magalhães
11.07.2002 160416

ANTHONY BRAXTON é complicado!... Eu também só agora estou a entrar neste universo de extrema complexidade. No disco que referi o AB, além de compositor dos 4 temas, participa apenas como maestro da orquestra.
Quanto à música, ainda não digerida, é mais contemporânea do que propriamente jazz - abstrata, por vezes violenta, formada por sobreposições múltiplas de timbres, quebras bruscas, estridências, de uma beleza convulsiva.

O disco do BEN ALLISON (considerado por alguns, como um dos melhores do ano passado) é bom mas...não me convenceu por completo...Não sei bem explicar porquê...talvez uma certa superficialidade, apesar de, na aparência, soar tudo muito bem...E acho a capa horrenda.

O "Something Else" é uma das obras-primas dos anos 60. o anterior "Face to Face" está quase ao mesmo nível.

Nick Drake, claro...

Jason Moran e Innerzone não conheço.

FM

aquisições, obrigado Fernando e, já agora... (Jorge Silva)



Jorge Silva
11.07.2002 160409

ajudas-me aqui?,
indica-me os dois ou 3 melhores discos de cada um dos nomes q vou lançar:
robert fripp,
julian cope,
yes,
peter hammill,
syd barrett,
jefferson airplane,

vi um disco do daevid allen chamado "banana moon", com o robert wyatt, vale a pena?

obrigado, sol para todos!

Fernando Magalhães
11.07.2002 170507

Ok. sempre às ordens!  :) :O

Ora bem, então apanha aí:

ROBERT FRIPP: Exposure (estreia a solo, com fabulosos participações vocais do...Peter Hammill)

God Save the Queen/Under Heavy Manners (com o David Byrne. Um senão - não existe em CD...)

JULIAN COPE: "Interpreter", sem sombra de dúvida. Cada vez gosto mais deste disco (o 8/8 que lhe dei na altura peca, e muito, por defeito...). O espírito do krautrock para o séc. XXI. Sempre que o ouço, dá-me vontade de desatar aos saltos!
O tema "spacerock with me" arrasa toda a concorrência!

O "Peggy Suicide", "Jehovahkill", "Autogeddon" e "20 Mothers" não me lembro se são 20...:D) são muito bons, também...

YES: Mais pop: "Yes" e "Time and a Word"

Mais rock: "The Yes Album" (muito king Crimsoniano, por vezes...); "Relayer".

mais prog e classizante: "Close to the Edge" (o álbum clássico dos Yes), "Tales from Topographic Oceans" (p/mim uma das obras máximas do grupo, mas quase toda a gente destesta e chama-lhe "pretencioso", "balofo", etc... :D)

SYD BARRETT. Não há muito por onde escolher. "The Madcap Laughs" e "Barrett"...

PETER HAMMILL. Aqui o caso muda de figura, tantas são as obra-primas. Tens um livro para apontar? :D :)

Há, porém, um que se destaca: "In Camera" - equivalente, em registo solo, ao "Pawn Hearts". O "1º lado" é uma coisa indescritível, temas como "Tapeworm" provam que o homem pode ter a dimensão do universo e explodir num holocausto de estrelas.
A sequência final de 17min. "Gog/Magog (In bromine chambers)" é a banda sonora do Apocalipse. A letra é qualquer coisa de épico, a música, bem...a música...na altura a crítica falou de uma orquestra de "ruído branco". A parte final, descreve-a o próprio PH como "música concreta". Que o é de facto. Quando as vozes aparecem, totalmente filtradas e esmagadas eletronicamente, é impossível não sentir um arrepio. Um monstro a enrolar-se na mente. A desumanização nos confins da galáxia e do cérebro.

Mas há mais.

"Over" (o disco dos discos dos corações despedaçados)

"The Silent Corner and the Empty Stage" (mais VDGG)

Numa linha eletrónica: a "trilogia" "The Future now", "PH7" e "A Black Box".

Como curiosidade, tens as duas versões (o PH procedeu a uma “correção”...) da ópera "The Fall of the House of Usher", inspirada na obra homónima de Edgar Allan Poe.

O principal "problema" da obra do PH é que funciona como um livro, em que cada álbum é, de certa forma, um novo capítulo que prolonga o anterior. Um "work in progress", musical e poético ímpar nos tempos de hoje, que já dura há 30 anos! (na Mojo, poem o tipo ao nível do Zappa e do...Picasso e chamam-lhe o maior génio da música inglesa do último século!).
Entrar a meio pode causar uma certa perplexidade.

JEFFERSON AIRPLANE: "After Bathing at Baxter's", "Surrealistic Pillow" e "Crown of Creation".

O "Banana Moon" é bom, no capítulo das excentricidades desbragadas. Tens também o "N'Existe Pas" e o mais recente e delicioso "Now is the Happiest Time of our Lives".

FM

18/05/2018

Preferências musicais



Fernando Magalhães
02.07.2002 160429

Cada um tem as suas.

Gosta-se de esta ou desta música, por causa de:

1) idade
2) educação musical (falo do gosto)
3) hábitos de escuta
4) Maior ou menor curiosidade
5) personalidade que se tem

Ou seja, gosta-se mais desta ou daquela música, em consequência, mais do que por aquilo que conhecemos, POR AQUILO QUE SOMOS.

Ouvimos/gostamos da música que nos satisfaz DE FACTO, emocional/intelectual e fisicamente.

Procuramos a música, enfim, que TEM A VER COM AQUILO QUE SOMOS. Que se adequa aos nossos ritmos e melodias interiores. Que nos preenche. Que vai ao encontro da nossa vida. Que dialoga com as nossas aspirações, as nossas alegrias, as nossas dores, mesmo os nossos medos.

Mesmo quando o ecletismo impera, dentro de cada música, procuramos ainda ISSO que tem a ver INTIMAMENTE connosco.

Evolui-se no gosto musical da mesma forma que se evolui na vida. Ou seja: crescemos.

Crescer é aprender. A ser melhor. A ouvir melhor. A tocar melhor. Um tocar que é musical mas também um toque nos outros.

Há músicas que intoxicam (as mais massificantes) e músicas que ajudam a crescer, que libertam, que provocam, que espantam. Em suma, que, desta ou daquela maneira, nos AFETAM.

Muitas vezes, consumimos informação, não música. E a intoxicação impede a clareza/disponibilidade de nos ouvirmos a nós próprios - condição necessária para a descoberta da TAL música "perfeita" que buscamos.

2

Pessoalmente, a música que me toca, tem, regra geral, excentricidade e uma dimensão de "fantástico" (como em "cinema fantástico". E um elemento "cósmico" (não confundir com o cliché...). Uma música que excita a imaginação, onírica.
Também procuro o experimentalismo. Pela curiosidade de saber como soa ou soará o que há-de vir. O risco. O desprezo pelas convenções.

Considero músicas "cósmicas" aquelas que se opõem a músicas "confessionais".

Um músico confessional fala se si próprio, da sua experiência pessoa (são músicos confessionais: Tom Waits, Nick Drake, Kristin Hersch, Peter Hammill, a maioria dos singers/songwriters). A pop, a boa pop, é maioritariamente confessional.

Música cósmica, é aquela que procura, ou tem, uma visão exterior ao indivíduo. Uma visão universalista. É música cósmica a de Peter Hammill/Van Der Graaf, Magma, Labradford...

Repararam que o Peter Hammill figura nos dois grupos...

O jazz, curiosamente, junta frequentemente estas duas vertentes.

Pode-se ser um confessional experimentalista (Tim Buckley) e um cósmico experimentalista (quase todo o krautrock).

A maior parte da música atual é mais "produto musical" do que música com "M" grande. Fruto das pressões da indústria e das pressões consumistas. As exceções estão quase todas fora do mainstream. Porque será que se fala tão pouco de AMON TOBIN?...

A conversa, caso haja interesse, continua...
:)

FM

dubturn
02.07.2002 170514

Acrescento (até podes considerar um anexo ao CRESCEMOS EM MÚSICA):

A importância de pessoas que nos "guiem" musicalmente não deve ser descurada (seja ela através de revistas, de music-opinion-makers, de pessoas que dizem 'gostas disto? então vais gostar disto...')

São todas estas sub-ramificações que ajudam tanto a que a gente cresça musicalmente. Pode-se chegar ao mesmo sítio de tantas maneiras diferentes, o krautrock tem sentido diferente para quem vem do jazz e para quem vem do prog rock, completamente diferente. A maneira como ambas essas pessoas sentem o kraut (falo do kraut, pode ser outra coisa qq) é diferente, porque vêm de sítios diferentes. É por isso que gosto de ouvir a opinião dos outros, porque fazem ligações que eu, por mim, seria incapaz de fazer.

Fernando Magalhães
02.07.2002 170545

A intuição, a disponibilidade e a predisposição jogam um papel importante na descoberta da "nossa música".

Há forças curiosas em jogo... : )

Quando comecei a comprar discos, fazia-o frequentemente completamente ás cegas. Ou quase. E era neste QUASE que tudo se jogava.

Mandava vir discos de Inglaterra, muitas vezes por uma capa que via reproduzida no "Melody Maker" ou no "NME", pelo texto de um anúncio (nos anos 70, os anúncios de discos na Imprensa eram bem mais fiáveis do que hoje em dia...), pelo nome mais exótico de uma faixa que tirava de uns livrinhos (c/excelente apresentação) enviados pelo correio pela COB (era daí que mandava vir os discos...) aos seus clientes, onde se especificavam todas as edições disponíveis e os respetivos alinhamentos de faixas de cada disco.

Também ouvia muita rádio, claro! Descobri muitas coisas através da radio Luxembourg, nomeadamente o programa "Dimensions" do KID JENSSEN (hoje a fazer anúncios a colectâneas dos anos 60 na televisão...).

Costumava haver interferências e, às vezes, era frustrante ouvir um tema fantástico de 20 minutos, querer saber o nome do autor ou do grupo e o ruído radiofónico aparecer exatamente no momento em que o locutor dizia o nome do intérprete, impedindo de perceber uma palavra. : )
Mas acabava sempre por saber. : )

Hoje, são mais raros os media (jornais, revistas, rádio, TV...) que arriscam a divulgação de música mais afastada dos parâmetros mainstream, pelo menos em Portugal e de que eu tenha conhecimento.
Haverá uma relação porventura demasiado estreita com a Indústria (ou uma preguiça, não sei...) que impede a procura, mais do que do "novo", do DIFERENTE.

continua... : )

Jean
02.07.2002 170509

"Considero músicas "cósmicas" aquelas que se opõem a músicas "confessionais"."

acrescentaria que a dimensão cósmica tem dois sentidos, o positivo e o negativo - referindo-se a ciclos e arquétipos universais como o ying/yang.

a intenção positiva tende a experimentar mais, a procurar novos caminhos e a abri-los para todos.

penso que a música como qualquer estímulo sensorial deve ser aproveitada da melhor maneira possível seja no processo de criação seja no de perceção. está como o Fernando Magalhães diz, intimamente ligada ao q somos. conscientemente ou não, escolhemos uma direção. quanto mais consciente, responsável e livre for mais válida se torna.

Fernando Magalhães
02.07.2002 170554

Isso já são contas de outro rosário : ) Ou do mesmo, mas a outro nível... : )

Eu diria que há duas formas de audição, uma YANG, outa YIN, podendo (e devendo...) coincidir.

Chamo uma audição (um de atitude de escuta) YANG, aquela ATIVA, no sentido de que quem está a ouvir a música, está, no fundo, a REPRODUZIR (diria mesmo, a tocar...) em si mesmo o que os seus sentidos/cérebro/alma recebem. OUVIR e FAZER música coincidem.

É uma atitude de TENSÃO. Atenção. A-tensão.

Uma escuta YIN é uma escuta mais passiva, no sentido de estrita fruição estética da música, independentemente da coincidência entre as energias em jogo do emissor musical e do recetor. É a escuta do prazer, por oposição à escuta YANG, que até pode ser dolorosa...

Clone
02.07.2002 170559

Peter Hammill rules!!!!!
Are you already in "Autumn"...or else, in "This side of the looking glass"? (n.p. - isto continua a dar arrepios) I hope not... (a pergunta é retórica, não precisas de ser confessional).

Fernando Magalhães
02.07.2002 180632

O espelho, felizmente, tem mais do que dois lados.

Escapar à dialética é meio caminho andado para conquistar a liberdade.

Todavia, o lado da dor (e da loucura...), esse conheço-o bem...

"This Side of the looking glass" (e o "Over" em geral) é uma canção de facto...eu diria que TOCANTE...

A escrita poética do PH tem essa característica única, de conseguir fazer universais, experiências pessoalíssimas.
Claro - ele soube atingir a camada mais funda da psique humana - aí onde os mitos pertencem a todos - O Jung chamou-lhe Inconsciente (inconsciente?) coletivo...

Durante anos eu (e muitos mais, decerto, além de mim, ou talvez nem tantos como isso, quem sabe.. eu não sei...) houve uma coincidência absoluta entre o percurso interior do PH e o meu, isto porque, embora sejam divergentes as vidas de cada um, há pontes, mares, portos, tempestades comuns...

Seguir cada poema era como - lá está - olhar para um espelho. Um espelho das profundezas.

Lembro-me quando, após a 1ª extinção do grupo, ouvi o regresso, o álbum "Godbluff". Era a sequência absolutamente lógica do que ficara para trás - a viagem mantivera a sua absoluta integridade e... eu continuava a "estar lá".

O "Over", claro, está marcado pela dor da rutura amorosa. Mas o fator "cósmico"/mitológico continua presente, embora "diluído" na tal escrita mais "confessional".