17/12/2014

Yesss! [Yes]



MÚSICAS

LENDA DA MÚSICA PROGRESSIVA ATUA NO PORTO E EM LISBOA

YESSS!

OS YES, UM DOS EMBLEMAS DA MÚSICA PROGRESSIVA DOS ANOS 70, ATUAM PELA PRIMEIRA VEZ EM PORTUGAL. O PÚBLICO FALOU COM O VOCALISTA DO GRUPO, JON ANDERSON, O OTIMISTA POR EXCELÊNCIA. PRESTES A ATINGIR-SE O NOVO MILÉNIO OS YES VOLTAM A ESTAR “CLOSE TO THE EDGE”.

PARA JON Anderson o mundo é um local aprazível. Desde sempre líder espiritual dos Yes, o cantor afirma com otimismo que “é importante fazer da vida uma aventura”. A aventura dos Yes ainda não terminou.
            PÚBLICO – “The Ladder” é um bom álbum para os conhecedores dos Yes. E para as gerações mais novas que nunca ouviram falar do grupo?
            Jon Anderson – Estão sempre a aparecer novas pessoas a ouvir a nossa música. As que gostam dos nossos discos dos anos 70 apercebem-se que “The Ladder” segue o mesmo estilo. É um álbum clássico.
            P. – Esses que gostavam dos Yes dos anos 70 sentiram-se chocados com a entrada para o grupo, na década seguinte, dos dois elementos dos Buggles. Não foi uma mudança contra-natura?
            R. – Foi mais uma estratégia comercial do que outra coisa, quando a editora percebeu que tinha em mãos um “hit” potencial, com o álbum “90125”. Eu queria fazer uma coisa diferente mas o resto do grupo rendeu-se às pressões da editora para a qual o importante era repetir o êxito do single “Owner of a lonely heart”. A indústria quer o artista perfeito! Acabei por compensar a insatisfação com a gravação de “Anderson, Bruford, Wakeman and Howe” e com as colaborações com Vangelis.
            P. – Nos dois volumes de “Keys to Ascension” e em “The Ladder” chamaram outra vez Roger Dean para fazer as capas. Era mesmo necessário?
            R. – Foi um “feeling”. Há cinco anos o Roger andava a trabalhar em “computer art”, técnicas pelas quais eu sempre me interessei. No caso dele as habituais cenas voadoras, as paisagens, funcionam muito bem desta forma. Em relação a “The Ladder” quis um conceito alargado que funcionasse também em vídeo. Mas, uma vez mais, a editora não tinha a mesma opinião… Optei então por um jogo de computador com base no tema “Homeworld - the ladder”. Está a ser um êxito.
            P. – O tema dessa faixa – uma antiga civilização em demanda de um lar – é muito semelhante ao do seu primeiro álbum a solo, “Olias of the Sunhillow”, de 1976. Estava a pensar nele quando idealizou o argumento?
            R. – É um jogo muito “state of the art”, numa linha de ficção-científica que vai, de facto, na sequência de “Olias the Sunhillow”. Aliás, estou a pensar gravar a segunda parte desse álbum. E talvez até uma terceira. Uma trilogia que provavelmente acabarei quando tiver 80 anos (risos).
            P. – É verdade que o título do álbum se inspirou numa exposição de arte onde John Lennon e Yoko Ono estavam presentes?
            R. – É apenas uma das histórias. Alan White, o nosso baterista, tocou com Lennon na época de “Imagine”. Conta-se que nessa exposição John Lennon subiu umas escadas para espreitar por uma lente apontada a um ponto minúsculo. Sobre o ponto podia ler-se “Yes”. Eu diria que “a escada” é a escada que conduz ao sucesso, na música como na vida. Estamos sempre a subir escadas na tentativa de nos tornarmos pessoas melhores.
            P. – Foi sempre o místico, o ecologista dos Yes. Os outros músicos partilhavam os seus ideais?
            R. – Mais ou menos… Estivemos muito próximos durante um certo período mas depois, como acontece em todos os grupos, cansámo-nos uns dos outros. Separámo-nos e voltámos a juntar-nos umas quatro vezes! Não é natural quando se passa mais tempo com os músicos do que com os nossos filhos, com a família. Toca-se na estrada, grava-se um disco, regressa-se à estrada. As pessoas dizem que é um modo de vida fantástico. Não é. Fazemo-lo porque queremos mostrar o nosso trabalho às pessoas. Em termos financeiros até compensa mas em termos artísticos fica-se completamente vazio.
            P. – Fiz-lhe a pergunta porque em “Relayer” só conseguiu cantar quase no fim do primeiro lado do disco, em “The gates of delerium”…
            R. – Mas esse tema foi inteiramente composto por mim! É um libelo contra a guerra. Detesto a guerra, é uma coisa estúpida. Mas a luz brilhará em breve… Um equilíbrio entre o Yin e o Yang. “The gates of delerium” joga com estas energias, um combate entre forças opostas.
            P. – Por falar em forças opostas, o que é que sentiu quando trabalhou com Robert Fripp, num álbum dos King Crimson, “Lizard”? Fripp é um homem bastante interessado pelas energias mais escuras e negativas…
            R. – Talvez seja necessária a presença tanto da luz como da escuridão para haver realidade. Os Yes foram sempre uma força positiva. Quem nos vir tocar ao vivo perceberá que continuamos a dizer e a ser “Yes”. Não jogamos jogos. Não tive qualquer tipo de relação com Robert Fripp, cantei e ponto. Três anos mais tarde toquei com eles tamborim, muito mal, diga-se de passagem… Depois disso ele tornou-se uma pessoa com quem é muito difícil falar.
            P. – Na sua obra a solo aproximou-se da música sul-americana, em “Deseo”, e da música céltica, em “The Promise Ring”. O que significaram estas duas incursões na “world music”?
            R. – Procuro passar pelo maior número possível de experiências musicais, não ficar preso a um determinado estilo. Cantei música irlandesa, sul-americana e até em português – não muito bem (risos) – em “Deseo”. Procuro tocar em diferentes pessoas e povos. É importante fazer da vida uma aventura. E estar apaixonado pela minha mulher, Jane.
            P. – A sua mulher que parece ter desempenhado um papel importante noutro dos seus álbuns a solo, “Earthmotherearth”. Nota-se esse estado de paixão…
            R. – Casámo-nos numa ilha do Pacífico, vivíamos junto ao oceano, a milhares de quilómetros longe de tudo. A única coisa que tinha comigo era um computador e foi com ele que fiz o álbum. Gravei os sons do jardim, o som dos pássaros…
            P. – Os Yes voltarão alguma vez a gravar longos temas de 20 minutos como fizeram em “Tales from Topographic Oceans”?
            R. – Absolutamente! O próximo álbum será um longo “opus” com uma hora de duração.
            P. – Prestes a atingir-se um novo milénio, os Yes estão, como estiveram há 30 anos atrás, “close to the edge” (título de um dos álbuns mais conhecidos do grupo)?
            R. – “Close to the edge”, à beira da realização. “Close to the edge”, à beira da compreensão. É tudo o que tentamos fazer.

YES
PORTO Coliseu, dia 23, 4ª, às 21h30.
Bilhetes entre 3500$00 e 5500$00
LISBOA Pavilhão Atlântico, dia 24, 5ª, às 21h30.
Bilhetes entre 4000$00 e 5000$00


ARTES | sexta-feira, 18 fevereiro 2000

Voz de sol num cachimbo de água [Savina Yannatou]

MÚSICAS

SAVINA YANNATOU COM PRIMAVERA EM SALONICO NO CCB

VOZ DE SOL NUM CACHIMBO DE ÁGUA

EM TORNO DO MEDITERRÂNEO, EM VIAGEM COM OS JUDEUS SEFARDITAS, EM TRANSE NUM CAFÉ DE REBETIKA, EM LOUVOR DA VIRGEM MARIA. POR AQUI TEM ANDADO A VOZ SENSUAL DA CANTORA GREGA SAVINA YANNATOU, EXPOENTE DAS MÚSICAS DO SUL. ESTA NOITE, NO GRANDE AUDITÓRIO DO CCB, EM LISBOA, PODERÁ VOAR AINDA MAIS LONGE.

NÃO É PRECISO fumar haxixe por um narguilé para o cérebro ficar enevoado e o espírito se abrir numa dança de cambiantes eróticos. Escutar a voz da cantora grega Savina Yannatou tem o mesmo efeito. O Mediterrâneo transforma-se num mar de luxúria. Arrepios prometidos para hoje, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em concerto do Festival das Músicas e dos Portos.
            Mas não se imagine que vai ser uma pouca-vergonha. É verdade que a voz e a presença física de Savina Yannatou nos recordam que a ascese espiritual não dispensa um ou outro frémito do corpo. E que na origem da música rebetika (na qual, aliás, Savina faz ocasionais incursões) também estão umas boas cachimbadas de haxixe turco as quais, de certa forma, ajudam a que soe ainda melhor. Mas nela o erotismo radica em correntes mais profundas do ser, num veio de sol, aluz e mar que empurra suave, mas firmemente, a alma para o êxtase. Coisa mística, enfim. Mas deleitosa.
            Tudo isto a propósito da segunda vinda desta cantora grega a Portugal (passou despercebida na programação da Expo), desta feita acompanhada pelo grupo Primavera em Salonico, composto por músicos afetos à música tradicional e ao jazz.
            Poderia não passar de uma premonição, ou de um desejo, se antes não tivéssemos travado conhecimento com dois magníficos álbuns nos quais Savina demonstra tudo aquilo que escrevemos até aqui: “Primavera en Salonico”, de 1994, e “Songs of the Mediterranean”, de 1998. Já foi editado um terceiro, inteiramente preenchido com canções em louvor à Virgem Maria. A música que deles se evola faz-nos sentir apaixonados, infiltra-se pela pele até se alojar no coração. Ou mais fundo ainda.
            Savina Yannatou canta o Mediterrâneo. O mar e a terra em volta. Ela é o sal e o cálice que transborda. Em “Primavera en Salonico” a sua voz inflama principalmente as canções dos judeus sefarditas que no século XVI foram expulsos da Península Ibérica, disseminando-se um pouco por todo o Mediterrâneo. Savina canta neste disco em ladino, o dialeto destes judeus que marcaram de forma indelével a cultura de todo o Sul da Europa.
            Em “Songs of the Mediterranean” o canto de Savina Yannatou alarga-se, espreguiça-se, assanha-se, ganhando corpo nas margens e nas águas da sua Grécia natal mas também da Albânia, Itália, Sardenha, Israel, Andaluzia, Líbano, Chipre, Turquia, França, Córsega e Tunísia. Há nestes dois álbuns momentos sublimes que, a repetirem-se hoje no CCB, poderão garantir para o concerto um lugar entre os melhores do ano.

Ladina e rebetika

            Savina Yannatou nasceu em Atenas onde estudou canto no Conservatório, prosseguindo os estudos na Academia de Arte Vocal de Atenas, onde trabalhou com músicos reputados na área da música grega erudita, como G. Georilipoulou e Spiros Sakkas. As altas classificações proporcionaram-lhe uma bolsa em Londres, na Guildhall School of Music and Drama. Sim, drama! Porque além de cantora, Savina Yannatou não descura o teatro, tendo composto e executado as bandas sonoras de “A Caixa de Pandora”, uma pantomina, e da peça clássica “Medeia”, de Eurípides, pelo Teatro Nacional Grego.
            1979 assinala o ano de início de carreira. Quatro anos mais tarde encontra os Primavera en Salonico, grupo com o qual enceta um caminho comum que, para já, os coloca a ambos na vanguarda do panorama da world music atual. Com os Primavera en Salonico, impulsionados pelo rigoroso trabalho de investigação musicológica e pelos arranjos de Kostas Vomvolos (também acordeonista e executante de quanun, o saltério árabe), a música expande-se pelos territórios abertos pela improvisação. Não admira. Todos os músicos do grupo estão ligados ao jazz: Kyryakos Gouventas, violino, Yannis Alexandris, violeta e alaúde árabe, Haris Lambrakis, nay (flauta), Nikos Psofoyrogos, percussão, e Michalis Signadis, contrabaixo, este, por sinal, companheiro habitual de um famoso jazzman grego, o clarinetista Floros Floridis, e elemento da Black Sea Orchestra, formação de virtuosos que ontem se apresentou na Aula Magna, em Lisboa, no âmbito deste mesmo festival.
            Festival onde, além do fado, tem estado em destaque a música rebetika do porto do Pireu e de outras cidades onde teve origem, como Atenas, Larissa, Hermopolis (na ilha de Syrus), Salónica, Esmirna (na costa da Turquia) e Constantinopla. Uma música que começou por ser cantada e tocada ainda no século XIX, nos cafés musicais das zonas portuárias, antes de ser adotada pelos marginais, pelos presos políticos e em geral por todos os que, a seguir à Guerra de Independência grega, se opunham ao governo. Entre danças de volúpia e todo o género de improvisações, musicais e de outro tipo, sugeridas provavelmente pelas tais cachimbadas (no tradicional cachimbo de água, o narguilé) de haxixe que escorria em abundância da Turquia.
            Sem ser uma cantora exclusiva de “rebetika” Savina Yannatou não deixa, contudo, de abordar este forma de canção tão característica, quer através da interpretação de alguns temas “rembetes”, quer devido ao facto de alguns dos músicos do Primavera en Salonico pertencerem também ao grupo, este sim de rebetika pura e dura, Tambourlika Ensemble, acompanhantes da cantora Maryo, ou Maria Konstanttinidou, apelidada de “o mito do porto de Salónica”, que hoje e amanhã atuam no bar Speakeasy, às 24h.

SAVINA YANNATOU + PRIMAVERA EN SALONICO
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, hoje, às 21h30. Bilhetes entre 3000$00 e 1000$00.


ARTES | sexta-feira, 11 fevereiro 2000

Fábrica da música eterna [Tony Conrad]



DESTAQUE

JOHN CALE E TONY CONRAD NO PORTO

FÁBRICA DA MÚSICA ETERNA

TONY CONRAD, COM O SEU MINIMALISMO RADICAL, INTEGRA A SECÇÃO MUSICAL DA EXPOSIÇÃO “ANDY WARHOL: A FACTORY”, A DECORRER NO PORTO NOS PRÓXIMOS MESES. ELE, JOHN CALE E O PIANISTA JAY GOTTLIEB CABEM OS TRÊS NA FÁBRICA DE SONHOS QUE SERVIU AO HOMEM DA LATA DE SOPA CAMPBELL PARA ESCANDALIZAR A AMÉRICA E O MUNDO.

ANDY WARHOL foi uma lata de sopa, uma garrafa de Coca-Cola, bocas, muitas bocas, de Marilyn. Warhol foi também um aglutinador e uma faísca em torno do qual se juntaram e criaram algumas das personagens mais estranhas que nos anos 50 e 60 circulavam pela noite de Nova Iorque.
            Inventou um lugar onde essas estranhas personagens puderam dar livre curso à sua bizarria e chamou-lhe The Factory, a fábrica. Foi na Fábrica que os Velvet Underground montaram a sua divisória particular no circo de locura, “The Exploding Plastic Invisible”, idealizado por Warhol. Foi na Fábrica que outro tipo de insanidade se instalou, uma demência que deveria ser eterna, segundo a vontade do seu autor, La Monte Young, guru dos gurus do minimalismo, criador em meados dos anos 60, do “Dream Syndicate/Theatre of Eternal Music”, simultaneamente ensemble musical, palco de performances e conceito filosófico.
            Do grupo de músicos que contribuíram para a manutenção dessa “música eterna” que jamais cessaria de vibrar pelos tempos fora, fizeram parte, entre outros, Terry Riley (outro dos papas da escola minimalista norte-americana), o saxofonista de jazz Lee Konitz, o trompetista das “músicas do quarto mundo” Jon Hassell, John Cale, violista dos Velvet Underground, e o compositor e violinista Tony Conrad, outro minimalista, o mais obscuro e radical de todos.
            Estes dois últimos, John Cale e Tony Conrad, atuam em Portugal, integrados na programação musical da Exposição “Andy Warhol: A Factory”, Conrad incluído no ciclo On/Off, do qual fazem também parte os Pôle, Thomas Köner, Porter Ricks e Anabela Duarte. E se a visita do primeiro (em registo de apresentação acústica, a solo, dias 18 e 19 deste mês) não é inédita, prosseguindo uma série de presenças regulares em Portugal, já a vinda de Tony Conrad (a 11 de Março) se reveste de ineditismo e de uma importância que importa ressaltar.
            Tony Conrad nunca fez parte do grupo dos minimalistas “conceituados” que mais tarde se tornaram moda, como Terry Riley, Steve Reich e Philip Glass. Se a música destes três era considerada “difícil”, pelo menos dentro dos parâmetros em que se movia na época a música mais “mainstream”, no caso de Riley matizada por um acentuado misticismo e pela aproximação ao rock (materializada em disco de parceria com John Cale, no álbum “Church of Anthrax”, de 1971), a proposta de Tony Conrad impedia, por maioria de razões, qualquer abordagem mais supérflua.
            Nenhum levou tão longe nem tão à risca, o preceito enunciado por La Monte Young – “Traça uma linha direita e segue-a” –, que gastou cinco álbuns inteiros a tocar piano numa nota só em “The Well-Tuned Piano”… Tony Conrad traçou a sua linha e seguiu-a sem desvios num álbum lendário intitulado “Outside the Dream Syndicate” (o “sindicato dos sonhos” de La Monte Young) na companhia de três elementos da banda alemã Faust. “Outside the Dream Syndicate” (1972) apenas tem como concorrente à altura o duplo “Metal Machine Music” de Lou Reed (outra obra influenciada pelas teorias de La Monte Young) na categoria de “álbum genial mais insuportável do todos os tempos”. Ao longo de dois temas, “From the Side of Man and Womankind” e “From the Side of the Machine” (aos quais se juntou, na reedição em CD de 1993 da Table of Elements, “From the Side of Woman and Mankind”) Conrad espreme com laivos de sadismo o violino sobre “mantras” obsessivos de martelo-pilão. Curiosamente, esta música consegue provocar no ouvinte um estado de suspensão, como se fosse a única forma de escapar ao inferno…
            Posteriormente Tony Conrad editou em 1995 “Slapping Pythagoras”, sobre o sistema mágico-numérico deste filósofo grego. Há dois anos foi editado “Early Minimalism”, uma caixa de quatro CD com obras dos anos 60 deste compositor que o pós-rock adotou, através de Jim O’Rourke e David Grubbs, fundadores dos Gastr del Sol.
            Completa a programação, o pianista Jay Gottlieb (15 de Abril), especialista no reportório de compositores contemporâneos de Warhol como John Cage e Philip Glass e, em particular, da peça “Phrygian Gates”, de outro minimalista importante, John Adams.
            Se fosse vivo, Andy Warhol sentir-se-ia honrado. Haveria de fotocopiar os três, embrulhá-los em papel celofane e escrever por cima, com um spray vermelho, o seu nome.


ARTES | sexta-feira, 11 fevereiro 2000

14/12/2014

Polly super rock [Concertos 2001]



QUINTA-FEIRA, 28 DEZEMBRO 2000 cultura

Rickie Lee Jones e P. J. Harvey no Festival Super Bock

Polly super rock

Os três primeiros meses dos próximos mil anos não vão trazer grandes novidades em termos de concertos pop e rock. Além da chusma de DJ e de “habitués” dos festivais, Portugal irá receber o género “americana” dos Calexico e a pop artesanal dos Magnetic Fields. E estender a passadeira a quatro “personalidades”: o “punk tornado erudito” Joe Jackson, o dinossauro Eric Clapton, e duas grandes senhoras da canção, Rickie Lee Jones e P. J. Harvey.

A primeira boa notícia é que não se prevê para o primeiro trimestre do novo milénio qualquer atuação ao vivo em Portugal (seria para aí a 48ª…) dos Gene Loves Jezebel. Aproveite-se para ouvir e fazer outras coisas. Dançar, por exemplo, ao som do DJ inglês Fabio que atuará no Lux a 11 de Janeiro. Soul, funk e jazz fazem parte do seu cardápio, bem como o breakbeat, o dub e o tecno. Há quem o considere um guru. Já passou por cá, mas não consta que lhe tivessem construído um altar.
            Kid Loco é outro DJ de nomeada. Francês, de seu verdadeiro nome Jean-Yves Prieur, depois de uma fase mais dura, optou pelas aragens do easy listening, os tricôs do trip hop e os soluços do downtempo. A preparação pode ser feita com a audição dos discos “Kid Loco Presents Jesus Life for Children under 12 Inches” (boa piada, ó franciú!), “A Grand Love Story” e “DJ Kicks”. Senta-se ao gira-discos também no Lux, a 18 de Janeiro.
            LTJ Bukem, vulgo Danny Williamson, ideólogo do drum ‘n’ bass, apresenta as suas teorias – condensadas no álbum “Journey Inwards” – a 3 de Fevereiro no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Danças com cabeça, um pé no jazz e outro na soul.
            Ainda em Janeiro, a 12, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, atuam os Magnetic Fields. Banda de pop construída aos bocadinhos. Stephen Merritt é quem cola as peças de eletrónica kitsch que restam do desmantelamento dos Kraftwerk, farrapos sinfónicos e recordações dos Beach Boys, dos Abba e do som Motown. O resultado tem a consistência do plástico mas segue-se como uma telenovela.
            Uma pausa para espreitar os Gene Loves Jezebel. Não estão à vista. Podemos avançar.
            Rickie Lee Jones, grande dama da canção contemporânea (apesar de cantar como se estivesse constipada), atua pela primeira vez em Portugal no último dia de Janeiro, na Aula Magna. Grande talento, em curso para o desconhecido, do cabaré jazzy de “Pop Pop” para o teatro de sombras do inexpugnável “Ghostyhead”. A não perder.
            Joe Jackson, também conhecido pelo “Tintin da pop”, atua na mesma sala a 9 de Fevereiro. Ele não achará grande piada que o associem à personagem de Hergé, já que do punk destemido que passou pelo Pavilhão do Belenenses em plena febre da “new wave” resta nada. Hoje Joe Jackson é um compositor de sinfonias sobre as urbes modernas. Como Nova Iorque, que revisitou recentemente gravando uma sequela do clássico “Night and Day”.
            Para grandes criaturas como os dinossauros, grandes salas. Como o Pavilhão Atlântico, em Lisboa, que a 20 de Fevereiro receberá Eric Clapton, sinónimo de guitarra elétrica na sua dimensão mais virtuosística. O “crème de la crème” que temperou o psicadelismo dos Cream antes de se empaturrar com molho de heroína, entrar para uma clínica de reabilitação e, finalmente, afinar a guitarra por Deus.
            A 26 e 27 de Fevereiro, respetivamente nos Coliseus de Lisboa e Porto, chegam, vindos da Califórnia, os Deftones. Os metaleiros vão adorar. Pertencem à mesma família dos Jane’s Addiction, Körn, Limp Bizkit, Slipknot e Faith No More e gravaram este ano um álbum, “White Pony”, que faz disparar os níveis de adrenalina. Se, mesmo assim, for insuficiente para o tirar da apatia, o remédio será dirigir-se, no dia 12 de Fevereiro, com passo firme, ao Pavilhão Atlântico, onde, aí sim, poderá estoirar à vontade os tímpanos com os Offspring.

Placebo glam

            Março vai ser mês de “americana”, género aglutinador de todos os ícones musicais da América do Norte das últimas quatro décadas: country, swing, mariachi, rock & rol, jazz, soul… Os Byrds levaram-no ao top nos anos 60, os REM ajudaram-no a atravessar os 80 e cavalgou nos 90 sobre a sela dos Giant Sand e dos Calexico, banda de cowboys que montará o “rodeo” a 4 de Março, no Paradise Garage, em Lisboa e, no dia seguinte, no Hard Club, em Vila Nova de Gaia. Até lá escute-se o álbum “Hot Rail” e grite-se “Aiô Silver!”.
            Polly Jean Harvey, a querida e “maldita” P. J., regressa a Portugal, desta feita para cantar no Coliseu de Lisboa a 14 de Março. Ao contrário do “cool” e do distanciamento de Rickie Lee Jones, P. J. Harvey tem um conceito diferente do amor: mortífero e mortal. Ela mesmo perguntou num dos seus álbuns: “Is This Desire?”. O novo chama-se “Stories from the City, Stories from the Sea”.
            Entre os gordos raivosos do rock, Frank Black, ex-Pixies e ovnilogista convicto, apenas terá como rival David Thomas, dos Pere Ubu. Black também já andou por cá a espumar pelos festivais. Poderá fazê-lo de novo na Aula Magna, em Lisboa, a 17 de Março, por sinal o mesmo local que Thomas “conspurcou” com a sua esquizofrenia iluminada. Black virá acompanhado pela sua banda The Catholics mas suspeita-se que a Igreja não irá dar a sua bênção. Vale a pena conhecer os álbuns “Frank Black” e “Teenager of the Year”.
            Glam, modelo anos 90, igual a Placebo. Entraram em “Velvet Goldmine”, de Todd Haynes, adoram Marc Bolan, Lou Reed e Iggy Pop. E Bowie, claro, que lhes abriu as portas do sucesso ao convidá-los para tocar ao vivo o single “Nancy boy”, na festa do seu 50º aniversário. Este ano os Placebo editaram um novo álbum, “Black Market Music”, e parece que estão a ficar machões.
            Os concertos dos Deftones, Calexico, P. J. Harvey, Frank Black e Placebo fazem parte da programação do festival Super Bock Super Rock que poderá ainda contar com a cantora Goldfrapp. Resta esperar pelas festas da Queima das Fitas para dar de novo as boas-vindas aos Gene Loves Jezebel.