23/01/2015

Música catedral [Valentin Clastrier]



Crítica Música

Música catedral
Valentin Clastrier
Estremoz
Teatro Bernardim Ribeiro
Dia 6 de Outubro, às 22h.
Sala quase vazia

Valentin Clastrier é um dos maiores músicos do universo. Passou por Portugal a semana passada, onde realizou uma mini digressão de cinco concertos, no âmbito do festival Sete Sóis Sete Luas, o último dos quais teve lugar em Estremoz no passado sábado. Valentin Clastrier é um dos maiores músicos do universo mas teve a vê-lo, no cine-teatro de Estremoz, cerca de duas dezenas de pessoas. Algo esteve mal para que tal pudesse acontecer. Ao desinteresse da câmara juntou-se o alheamento da organização, na apresentação daquele que é uma das figuras mais impressionantes da música do nosso tempo: Valentin Clastrier, compositor único, executante de exceção da sanfona eletro-acústica, presença incontornável das novas músicas, parceiro de Michel Portal, Michael Riesseler, Henri Texier, entre outros.
Além de tudo isto, que faz parte do seu currículo, Valentin Clastrier é um místico, herdeiro da espiritualidade cátara medieval. Um intérprete do sagrado. Assistir a uma apresentação deste homem que permanece de olhos fechados enquanto toca, é uma experiência emocionante, mesmo arrebatadora. A sua música não se explica. É eterna, acontece porque algo de transcendente toma conta da sua alma e das suas mãos. Encontra-se nela elementos do free jazz, da música folk europeia, da eletro-acústica contemporânea, da música de câmara mas, acima de tudo, há algo, uma força, que é pertença exclusiva dos predestinados.
Em Estremoz, apesar da escassez do público, Valentin Clastrier deu tudo. Só, com a sua sanfona modificada, de maneira a soar como uma orquestra, uma igreja, uma guitarra elétrica ou um… sintetizador eletrónico, o músico francês exibiu, além do mais, um virtuosismo de tirar o fôlego. Domínio sobrenatural das cordas, ora em dissonâncias de acordes traficados, ora em fraseados sem conotação visível com qualquer género musical conhecido, ora ainda em drones oceânicas que fizeram estancar o tempo. Entre a composição e a improvisação, a vertigem tomou conta da sua música.
Valentin Clastrier usou a sanfona como arsenal de explosivos, a ondulação do mar, uma fábrica de sonhos. Percutiu-a (e percutiu com os pés o estrado, amplificado, marcando a loucura de certos compassos), arranhou-a e afagou-a. Limpou-lhe o suor e a poeira e, no final, quando ainda arranjou disponibilidade para explicar à plateia o funcionamento do seu protótipo, chamou-lhe “mulher”.
Cada um dos temas que interpretou em Estremoz ficou como entrega e dádiva. Mundos de beleza que não se explicam. “Comme dans un train pour une étoile” (inspirado em Van Gogh e com dedicatória a Artaud), “Toujours”, “Endura”, “Gala” (inspirado na mulher e musa de Éluard e Dalí, e na sua própria filha), “Et la roue de la vie…” foram algumas das composições que Valentin Clastrier trouxe a Estremoz e poucos aproveitaram. À sombra da grande heresia dos cátaros, a iluminar o futuro.
O sublime aconteceu quando Clastrier fez nascer da sua sanfona, que é também o corpo da sua alma, o som de sinos de igreja, o rasto de cometas, a dança de galáxias finalmente unificadas num coro gregoriano. Música catedral.


EM RESUMO

O pior A ausência constrangedora de público na sala

O melhor A grande música de Valentin Clastrier, cuja entrega em palco foi total

"Sou a cabra mais anti-social do mundo" [Diamanda Galás]



QUINTA-FEIRA, 8 NOV 2001

“Sou a cabra mais anti-social do mundo”


ENTREVISTA COM
DIAMANDA GALÁS

Diamanda Galás é a incomodidade em pessoa. A voz que faz despertar todos os demónios. A cantora de ascendência grega vem atuar ao vivo pela segunda vez em Portugal, para apresentar “Defixiones, Will and Testament” sobre o tema do genocídio.

Senhora de uma voz demencial, Diamanda Galás não tem medo das palavras. Quando canta ou quando dá entrevistas, como aquela que concedeu em exclusivo ao PÚBLICO, o seu discurso é sempre perigoso, mesmo letal. A artista, que já cantou de seios nus e coberta de sangue numa igreja em Nova Iorque, que exorcizou a sida numa trilogia sobre o sofrimento, a morte e a religião, que faz do grito e da dor o veículo de uma expressividade sem limites, traz a Portugal “Defixiones, Will and Testament”. As palavras são de poetas arménios ou assírios contemporâneos e fala do exílio e do genocídio. A sua alma torturada faz o resto. Não há engano possível: Diamanda Galás é uma cantora de blues.
            PÚBLICO – “Defixiones, Will and Testament” é o título do espetáculo que vem apresentar em Portugal. O que significa?
            DIAMANDA GALÁS – “Defixione” significa em grego “maldição compulsiva”, a paralisia do adversário. Prende-se tudo com a falta de liberdade do indivíduo. No caso dos gregos e dos turcos, num sentido político, houve o genocídio dos turcos contra os cristãos arménios ortodoxos [em 1915, na I Grande Guerra]. Não o querem admitir, mas aconteceu. Os turcos querem entrar para a União Europeia, não têm interesse em falar dos seus crimes de guerra. Até hoje, as vítimas desses crimes continuam injustiçadas. Existem familiares das vítimas que vivem hoje na América, sem dinheiro, sem justiça. Foi-lhes tirado tudo. Não têm memória, não têm o direito de ver a morte ser reconhecida. Se olharmos para o que está a acontecer hoje na América, não é uma surpresa…
            Era essa a pergunta que lhe íamos fazer a seguir. Vive em Nova Iorque, em pleno coração do império…
            A América é quem decide tudo, quem escolhe os amigos e os inimigos. O Irão e o Iraque ora são amigos, ora inimigos, é tudo uma treta! Na América há a merda dos fundamentalistas cristãos. Do outro lado, os taliban, todos “bons rapazes”, iguais aos que temos cá. Fazem todos o mesmo, sentam-se numa mesa a planear isto e aquilo, não têm nenhum Deus, apenas se preocupam com eles próprios. Não são de modo algum “pessoas sagradas”.
            Trata-se afinal de uma e única coisa: o poder?
            Sem dúvida! Não é diferente nos EUA. Nos EUA vivem uns esquerdistazitos que tocam guitarras e cantam sobre a paz. Tudo tretas! “Sabem, os taliban, Bin Laden,,, É preciso saber compreendê-los…” Não há nada para compreender. O que está a acontecer vem muito de trás, desde o início da História. Houve sempre gente como Hitler. Pegam nos homossexuais e fuzilam-nos contra a parede. Pegam nas mulheres e disparam sobre elas no meio da rua. Não se importam se têm filhos, os filhos que vão para o inferno. Não é nada de novo para os cristãos do Médio Oriente.
            Não existe nenhuma solução?
            Quando aconteceu o genocídio dos arménios, toda a gente se esteve nas tintas. Mas as Torres Gémeas foram atingidas e aí já prestaram atenção. Os acontecimentos recentes só parecem constituir uma novidade porque aqueles que têm o dinheiro e o tal superpoder foram atingidos. A única solução que conheço é falar. Tenho um “site” na Net onde se fala destes assuntos, sou uma ativista individualista. Tento disseminar informação e desmistificar a contra-informação. Os turcos entram nas livrarias para deitar para o lixo os livros que falam do genocídio. Tenho um amigo meu de 75 aos que dá seminários sobre este tema. Apareceu um conselheiro qualquer turco, tirou-lhe os livros todos e enviou-os para Ankara para serem destruídos. Mas ele continua a falar. Eu continuo a falar. Aconteceu o mesmo com a epidemia de sida…
            Assunto que abordou na trilogia “Masque of the Red Death”, onde personificou a morte e a doença, uma espécie de exorcismo no limite do sofrimento…
            As pessoas andam apavoradas com o antraz. Eu rio-me na cara delas. “Queridos, andamos a lidar com uma crise – a sida – há 20 anos, acham que o antraz é um grande problema?” Vão-se foder. Os vossos amigos andam a morrer de sida, há funerais todos os dias! Querem falar da morte? Morreram seis mil pessoas nas Torres. Quantas morreram de sida, só na área de São Francisco? As pessoas veem apenas o que lhes convém. Vivo a duas milhas do World Trade Center, vi tudo a acontecer, o fumo entrou na janela do meu quarto. Dois dias depois viajei para Londres para dar um concerto! É preciso pagar a renda [risos].
            Por falar em morte, o seu próximo projeto é uma ópera intitulada “Nekropolis”, a Cidade dos Mortos.
            É sobre Constantinopla (reparou que até agora chamei sempre Constantinopla a Instambul?), onde ainda vivem dois mil gregos, na maioria velhos, que são proibidos de falar a sua língua. Sabia que a palavra “grego” significa “cão”, em turco? São tratados como criminosos. O que pretendo dizer em “A Cidade dos Mortos” é que os seus antigos habitantes já estão todos mortos. Já nem há sírios nem assírios, nem gregos, nenhum dos povos que lá habitava. Foram todos mortos. Os turcos aproveitaram as catedrais construídas na época bizantina, verdadeiras obras de arte, puseram-lhe no topo uma bandeira sua e dizem que são genuínos produtos da arte turca! Os turcos nunca criaram nada. Tudo o que têm foi roubado. Mesmo a religião que professam foi roubada dos árabes. A música, roubaram-na da Grécia. A única coisa que os turcos sabem fazer é cinzeiros. Falo sem ambivalências. Não tenho medo desses turcos de merda, estou-me nas tintas para eles! Mas toda a gente tem um medo de morte deles, como tinham antes medo de Hitler!
            Como vão ser os espetáculos do Porto e de Lisboa?
            Uma missa sobre o genocídio. Vou estar sozinha em palco, a voz apoiada num piano e eletrónica. Sou a cabra mais anti-social do mundo. Em termos vocais vou usar toda a espécie de técnicas que a humanidade hoje conhece [risos].
            Longe vão os tempos em que cantou em “topless”, coberta de sangue, na catedral de St. John, the Divine, em Nova Iorque. Na altura, foi um escândalo.
            Disseram-lhe isso? Só sei que o cardeal O’Connor tentou impedir-me, mas isso foi porque ele é idiota! Não queria ser escandalosa, apenas mostrar o que as mulheres sicilianas sentem quando alguém morre, as carpideiras, o seu pranto. Por isso, apareci com o tronco encharcado de sangue, não se tratava propriamente de um “show” de “striptease” [risos].
            Mas, afinal, como é que conseguiu autorização para esse espetáculo?
            Não consegui. Se pedires autorização para fazer certas coisas nunca vais conseguir fazê-las [risos]. Há coisas que não se devem pedir nesta vida. Se pedires autorização para tocar uma peça de Mozart, tudo bem. Mas na minha posição, sabe como é…
            Um dos seus álbuns tem por título “You must be certain of the Devil”. O diabo desempenha que papel na sua obra?
            Por outras palavras, o mundo de Lúcifer. Se ficarmos aqui mais três horas a conversar, podemos discutir o assunto…


Diamanda Galás
VILA NOVA DE GAIA Hard Club. Hoje, às 22h30. Tel.: 223744755.
Bilhetes a 3500$00 e a 4000$00.
LISBOA Aula Magna. Sáb., 10, às 22h. Tel.: 218820890.
Bilhetes a 4000$00 e 5500$00.

A grande arte dandy dos XTC



Y 5|OUTUBRO|2001
música|reedição

a grande arte dandy dos XTC

A reedição, em imaculadas miniaturizações, da discografia correspondente á primeira vida do grupo, volta a repor no imaginário pop das últimas duas décadas a grande arte “dandy” dos XTC.

XTC sabe a “ecastasy”. No ano em que os XTC se formaram, em 1976, ainda não tinham aparecido as pastilhas que dão cor aos olhos e asas aos pés. Mas estava certo. Quando, já no final da década, o punk conseguiu por fim arranjar espaço para introduzir a energia bruta e a boçalidade na então depauperada indústria da pop, os XTC mostraram que afinal era possível ser forte e inteligente sem ter que dar um pontapé no traseiro da tradição.
            Hoje os XTC são sinónimo de sofisticação levada aos limites do hedonismo e de arranjos que exigem do estúdio no mínimo 72 pistas de gravação, de forma a fazer valer os seus direitos. Mas nem sempre foi assim.
            A história da pop, ao contrário de todas as outras, repete-se. A dos XTC volta a ganhar honras de escuta, agora dignificada por um pacote de reedições, da responsabilidade da EMI Toshiba japonesa (distribuição EMI-VC), da sua discografia maioritariamente dos anos 70 e 80. Fabulosas reproduções miniatura cartonadas dos originais em vinilo de “White Music” (1978), “Go 2” (1978), “Drums and Wires” (1979), “Black Sea” (1980), “English Settlement” (1982), “Mummer” (1983, “The Big Express” (1984, “Skylarking” (1986), “Oranges and Lemons” (1989) e “Nonsuch” (1992).
            Corria ainda a gloriosa época do rock progressivo quando Andy Partridge, futuro líder venerado dos XTC, formou em Wiltshire, Inglaterra, em 1972, os Star Park (Rats Krap ao contrário). No ano seguinte o grupo, já como o novo elemento, Colin Moulding, alterou o nome para Helium Kids, sob a influência corrosiva do proto-punk de Detroit dos MC5 e do “camp” sanguinolento de Alice Cooper. Ninguém adivinharia que o futuro haveria de se chamar estilo, inteligência e sonho.
            Ainda hesitante entre mudar de novo de nome, para XTC ou The Dukes of Stratosphear, Partridge optou pelo mais curto, ainda que os segundos tenham chegado a gravar os obscuros e psicadélicos “25 O’Clock” e “Psonic Psunspots” (Partridge costumava dizer que tinha nascido com duas décadas de atraso – a sua pátria era o psicadelismo). O punk chegara. Mas para os XTC a fase do “noise” e da adrenalina gratuita já pertenciam ao passado. Não admira que o álbum de estreia, “White Music”, fosse recebido com exclamações de admiração, como reação à “coragem” demonstrada pelo grupo. A “coragem” estava no fator melódico. Nas canções cantaroláveis. Numa “britishness” de dandies diletantes que contrastava fortemente com o cinzentismo dos prosélitos do alfinete. Tudo isto se encontra em “White Music”, álbum que contribuiu para que o punk se passasse a chamar “new wave”. Mesmo assim, é o álbum mais energético dos XTC, quase tosco, em comparação com as sinfonias pop que estavam para vir.
            “Go 2” é mais minimalista e urbano, atravessado por refregas industriais. Por esta altura, e em consequência de uma digressão conjunta com o grupo americano, era costume apelidar os XTC de “Talking Heads ingleses”. Fazia sentido. Mas enquanto a banda de David Byrne sobrevoava a América desenhando o mapa das suas paranóias, os XTC optaram por flutuar de balão sobre a velha England, fascinados pelos seus prados, os homens de chapéu de coco com o “Times” debaixo do braço, e os telhados de Londres num dia de chuva.

            Sinfonias barrocas. Com “Drums and Wires” a metamorfose estava completa. Os XTC tinham-se tornado uma banda pop com engenho e arte para preencher as “charts” com canções de irresistível apelo, como “Making plans for Nigel” e o míssil melódico “Senses working overtime”. Os cinco sentidos faziam mesmo horas extraordinárias.
            “Black Sea” apresenta-se já como um objeto de luxo, fruto de uma relação intensa com o estúdio. Andy Partridge, apesar de excêntrico e de se vestir de forma ridícula, como os “mods” dos anos 60, ou de calções e boné de ciclista, é um perfeccionista que sempre preferiu a confeção laboratorial em estúdio do que expor-se à avaliação ululante dos espetáculos ao vivo. Como Ray Davies, dos Kinks, tornou-se o retratista dos tiques, dos lugares e das personagens de uma Inglaterra presa entre as rendas vitorianas, as chaminés das fábricas, as tragicomédias familiares que se ocultam atrás de paredes de tijolo, e uma aristocracia de sonâmbulos e “toilettes” à deriva entre Wimbledon, Brighton e Ascot.
            O duplo “English Settlement” e “Mummer” são obras-primas de pop mesclada de folk e fantasia. Chamam-lhes os “álbuns rurais” e as capas de ambos são de facto manchas de verde, mar, bosques e humidade. É necessário ouvi-los muitas vezes para se colher deles o maior número de emoções.
            O comboio retrocedeu ligeiramente na estação de “The Big Express”. Canções saídas de uma rotativa em andamento acelerado, tiveram pouco para se cuidar em frente ao espelho.
            Mas acordados pela Primavera de “Skylarking”, o narcisismo e o gosto pela arquitetura barroca renasceram em todo o seu esplendor. Cada canção é uma filigrana de melodias, ora alinhadas ora em contramão. Os arranjos, entre o chilrear de aves do paraíso, orquestras campestres e guitarras de lâmina afiada, têm a mão de um deus qualquer. Provavelmente Todd Rundgren, que se encarregou da produção, um dos génios e magos de estúdio mais menosprezados da pop artificial, autor da descomunal alucinação sónica que é “A Wizard/A True Star”. Tão alto voaram os XTC em “Skylarking” que alguns atreveram-se mesmo a inovar o nome sagrado dos Beatles…
            Atingido o cume segue-se a queda. É inevitável. Mas os XTC caíram devagar. Primeiro em “Oranges and Lemons”, o álbum funky, das canções longas e ritmos musculados. A seguir, as melodias arrevesadas de “Nonsuch”, que tombam como flocos de neve.
            Com a chegada do Inverno, os XTC retiraram-se para hibernar. Regressaram em 1999, mais pujantes do que nunca, para orbitarem em torno de Vénus e morderem a maçã, na “continuing story”, “Apple Venus”. Mas essa é já outra história, com novos cambiantes. Comprovativa de que a história que Andy Partridge tem para contar, esteja ou não longe do seu epílogo, terá sempre um final feliz.


22/01/2015

Mão Morta - Corações Felpudos



PÚBLICO / POP ROCK
26 de Setembro de 1990
O APELO DO SANGUE

MÃO MORTA
Corações Felpudos
LP, Fungui

Sangue, muito sangue! – clamam, sedentos, os Mão Morta. A banda de Adolfo Luxúria Canibal não faz a coisa por menos: faixa sim, faixa não, escorre hemoglobina a rodos, tornando o coração mais felpudo numa massa ensopada de vermelho. A ideia que têm das atividades geralmente designadas de "amorosas" consiste basicamente em espetar facas na barriga do parceiro(a). Tudo é escuridão e terror. "Corações Felpudos" (título sugerindo coisas como Gremlins sequinhos ou bichos de peluche) esconde horrores inomináveis, abomináveis, perversões. "Gritos e lâminas afiadas / tingem de sangue os lençóis", crimes, reais ou sublimando uma sexualidade cruel, em que o prazer se alcança inevitavelmente pela dor. "Este punhal uma ilusão / que seguro firme contra o corpo / metal frio de carne sedento". Enquanto os Xutos se divertem e enriquecem à custa da Pepsi e os UHF militam no combate a velhos fantasmas - os Mão Morta encarnam a violência e o vazio urbanos do final do século.
Adolfo Luxúria Canibal não canta – berra, vocifera, blasfema, esbofeteia os preconceitos auditivos, destila ódio, como no tema do mesmo nome, um dos melhores do disco, fazendo de cada palavra uma faca, cada entoação uma punhalada dirigida ao âmago das pequenas e grandes coisas que fazem da vida um inferno. No limite do ódio, a paranóia absoluta - "As trevas estão por aí escondidas / à espera que eu apague a luz / para se lançarem sobre mim" ou a violência ritual exemplificada no tribalismo onomatopaico de "É Uma Selvajaria" (outro dos grandes temas do disco). "Facas em Sangue" sumariza na perfeição as cores prevalecentes: negro e vermelho, o sangue e a noite, onde se gritam blasfémias e se ama até ao aniquilamento. "Das trevas nasce a luz / mas a luz sempre às trevas regressa" – eterna e cíclica viagem sem redenção possível, que só a morte liberta.
Musicalmente, "Corações Felpudos" investe no furor das guitarras, no ruído controlado, na repetição angustiada, na brutalidade dos arranjos. Em alguns temas notam-se algumas influências ou meras semelhanças, nada de grave, se considerarmos a excelência das mesmas: Pere Ubu (o desfalecimento das guitarras nos instrumentais "Olho da Máscara" e "Santana Menho"), Einsturzende Neubauten (nalgumas vocalizações de A.L. Canibal e na organização do ruído, como em "Ventos Animais") ou, curiosamente, Snakefinger (em "Freamunde, Acapulco" e no instrumental final "Arlequim").
Com "Corações Felpudos" os Mão Morta situam-se definitivamente do lado mais negro e marginal do rock português. Onde outros procuram a claridade dos tops, alcançada quase sempre à custa de cedências, Adolfo Luxúria Canibal, Joaquim Pinto, Zé dos Eclipses, Carlos Fortes e Miguel Pedro escolhem deliberadamente mergulhar no abismo. Acompanhá-los no mergulho pode ser penoso. Como apertar a mão a um cadáver e senti-la latejar.