20/10/2014

Gotas de um mundo gelado [Brian Eno]



Y 15|JUNHO|2001
música|brian eno

No novo álbum, Drawn from Life, com o dj J. Peter Schwalm, Eno mete a “ambiente music” no congelador do chill-out. O naturalismo e a “música discreta” cederam ao frio e à desumanização. Ou será ainda um novo e inesperado ângulo de visão a revelar-se na esquina de um jardim zen? Ao vivo, no Coliseu do Porto.

gotas de um mundo gelado

“Drawn from Life”, o novo álbum que Brian Eno vem apresentar ao Porto, no sábado, naquela que sera a sua estreia absoluta, ao vivo, em Portugal – no Coliseu, às 22h0 –, insere-se na corrente da “música ambiental”, género que ajudou a criar.
            Mas a música congelada neste CD de parceria com J. Peter Schwalm não é a mesma que Brian Peter George St. John le Baptiste de la Salle Eno assina em álbuns como “Discreet Music” (1975), “Music for Airports” (1978), “On Land” (1982), “Apollo Atmospheres & Soundtracks” (1983), “Thursday Afternoon” (1985), “The Shutov Assembly” (1992) e “Neroli” (1993). É “chill-out”. Ambient tecno. Algo que Eno tocara pela primeira vez com a sua varinha transfiguradora, em “The Drop”, álbum de 1997, em particular na sequência ártica do tema “Iced world”.
            Ainda que o anterior “Nerve Net” (1992) explorasse já algumas das coordenadas dos subúrbios da “dance music”, foi “The Drop” que escancarou a porta para uma paisagem desoladoramente vazia. Um vazio nos antípodas do silêncio – berço da “ambient” que Eno cultivou nas obras mencionadas. O mesmo silêncio que se insinuou através da colunas avariadas de um sistema estéreo, a minimizar o tédio numa cama de hospital onde esteve internado, e que lhe ensinou as premissas básicas da “discreet music”. Uma música no limiar da capacidade auditiva que deveria harmonizar o ouvido humano com o ruído exterior. Uma música, enfim, que ensinava a ouvir música.
            No excelente livrete que acompanha a antologia (seis CDs) de Brian Eno publicada em 1993, compara-se a música ambiental do compositor ingles a um jardim zen, cuja “tranquilidade parece desencadear um estado de apaziguamento da mente e que, ao mesmo tempo, sintoniza os recetores do corpo para um meio ambiente vibrante de acontecimentos em miniatura: uma borboleta que pousa no musgo, gotículas de água tombando ininterruptamente, zumbidos e insetos, reflexos da ondulação aquática nas canas de bamboo...”. Caos, ordem e coincidência. Segundo um equilíbrio de contrários em permanente mutação que é a realidade tal qual a percecionamos.
            John Cage, claro, já o teorizara nas suas concetualizações sobre o silêncio e a musicalidade do ruído. Eno, discípulo espiritual de Cage, aplicou-as a seu modo, tirando partido da aleatoriedade como instrument de composição musical. As suas “estratégias oblíquas”, sistema de cartas, como um Tarot, desenhadas em conjunto com o artista plástico Peter Schmidt, estiveram na base da criação dos álbuns “Taking Tiger Mountain (By Strategy)” (1974), “Another Green World” (1975) e “Before and After Science” (1976). Eno fundou ainda a coleção “Obscure”, de inspiração cageiana, onde podem ser encontradas obras de Tom Phillips, Jan Steele, Gavin Bryars, Christopher Hobbs e do próprio Cage.

            Chill-out vs. natureza. O “chill-out” reflete outra realidade. O seu silêncio não é o silêncio prenhe da noite, dos sons dos animais, da terra, dos lagos e das estrelas que fazem de “On Land” uma sinfonia da Natureza cantada na primeira pessoa, mas o silêncio da ausência. “On Land” é a música do mundo ao qual puseram na frente os microfones. A capa de “Cluster & Eno” (1976), outro clássico da “ambiente music”, gravado com a dupla alemã Cluster, mostra um microfone instalado em pleno campo, apontado ao vento e ao céu no crepúsculo.
            O “chill out” de “Drawn from Life”, pelo contrário, é a panaceia para uma ferida virtual. Imagem sonora digitalizada, anestesia. Um ecrã insistentemente em branco contra o qual se evaporam as derradeiras gotas de suor de uma “rave” sem memória.
            Os genes desta música tão branqueadora como um comprimido de Prozac, mas cruel ao ponto de deixar o espírito abandonado numa noite sem sonhos, podem ser encontrados ainda antes de “The Drop”, em “Evening Star” (1975), gravado de parceria com Robert Fripp, guitarrista dos King Crimson. O tema que preenche todo o segundo lado deste disco banhado na claridade de um corredor da morgue, “An Index of Metals”, anunciava já a paisagem desolada do novo milénio, ao som dos sinos de loucura que sempre se fazem ouvir quando algum fim se aproxima. “Evening Star”, a estrela da tarde, é Vénus, zénite planetário de Lúcifer, o rei carmesim, King Crimson, Robert Fripp… Na foto da contracapa de “Evening Star”, Eno quase é esmagado pela figura altiva de Fripp, o guitarrista discípulo das doutrinas mágicas de Gurdjieff e J. G. Bennett. Fripp, que no seu álbum de estreia a solo, “Exposure” (1979), dissemina entre o clamor torturado das suas “frippertronics” a leitura de textos sobre o apocalipse.
            Duas décadas volvidas, o próprio Eno se encarregaria de fazer a “exposição” fotográfica da mesma obra ao negro, no registo ambiental que lhe é peculiar. Em “The Drop”, precisamente…
            “Drawn from Life” suaviza o retrato, mas a realidade que lhe está subjacente permanece tão terrífica quanto antes. Ou mais, porque agora o pin com um “smile” que tem colado na aba do casaco faz a morte parecer a miúda atraente com quem se tem um flirt no conforto de um sofá forrado de veludo.


Enoglobal
Alguns dos álbuns com a assinatura de Brian Eno, enquanto compositor, produtor ou músico participante. Não foram considerados os álbuns dos Roxy Music nem a sua discografia a solo.

ANOS 70
Trabalho febril. Incursões no som de Canterbury (Matching Mole, Quiet Sun, Lady June, Phil Manzanera) e no Progressivo (Genesis, Camel) e colaborações com os seus amigos John Cale e Robert Wyatt são o lado mais visível de uma atividade que se estendeu ao minimalismo de Michael Nyman, ao ambientalismo de câmara de Gavin Bryars e à world imaginária dos Penguin Cafe. Sobreviveu a choques sucessivos com Robert Fripp e saiu ileso do túmulo de Nico, arranjando ainda tempo para navegar no space rock de Robert Calvert, da troupe Hawkwind. O futuro inventou-o na trilogia de Berlim de Bowie, que não seriam nada sem o design prévio dos Cluster, e em “My Life in the Bush of Ghosts”, mas também a recriar a “de-evolution” dos Devo e a dar polimento ao funk da Idade dos Jetsons dos Talking Heads. Foi a Nova Iorque partir os dentes ao rock no disco-manifesto da vaga “no wave”.

MATCHING MOLE: Little Red Record
ROBERT FRIPP & BRIAN ENO: (No Pussyfooting); Evening Star
ROBERT CALVERT: Captain Lockheed and the Starfighters; Lucky Leif and the Longships
JOHN CALE: Fear; Slow Dazzle; Helen of Troy
LADY JUNE: Linguistic Leprosy
NICO: The End
GENESIS: The Lamb Lies Down on Brodway
PHIL MANZANERA: Diamond Head
QUIET SUN: Mainstream
ROBERT WYATT: Ruth is Stranger than Richard
GAVIN BRYARS: The Sinking of the Titanic
MICHAEL NYMAN: Decay Music
PENGUIN CAFE ORCHESTRA: Music from the Penguin Cafe
HAROLD BUDD: The Pavillion of Dreams
DAVID BOWIE: Low; Heroes; Lodger
ULTRAVOX: Ultravox!
CLUSTER & ENO: Cluster & Eno; After the Heat
PHIL MANZANERA: Listen now
CAMEL: Rain Dances
TOM PHILLIPS: Irma
DEVO: Are we not Men? We are Devo!
TALKING HEADS: More Songs about Buildings and Food
VÁRIOS: No New York
ROBERT FRIPP: Exposure
TALKING HEADS: Fear of Music
DAVID BYRNE & BRIAN ENO: My Life in the Bush of Ghosts

ANOS 80
Os anos 80 foram mais calmos. Tempo para espalhar pelo mundo o ambientalismo de Harold Budd, Michael Brook, Daniel Lanois, Laraaji e do seu irmão Roger, “satieano” convicto. Permitiu aos U2 renascerem das cinzas e coloriu os cocktails de Carmel e o betão dos He Said, uma derivação dos Wire. Com Jon Hassell desbravou o continente das músicas do quarto mundo. E os Talking Heads nunca tinham fervido tanto como em “Remain in Light”.

TALKING HEADS: Remain in Light
HAROLD BUDD & BRIAN ENO: The Plateaux of Mirror
LARAAJI: Day of Radiance
JON HASSELL: Possible Musics; Dream Theory in Malaya; Power Spot; The Surgeon and the Nightsky Restores Dead Things by the Power of Sound; Flash of the Spirit
DAVID BYRNE: The Catherine Wheel
HAROLD BUDD: The Pearl; The White Arcades
U2: The Unforgettable Fire
MICHAEL BROOK: Hybrid
ROGER ENO: Voices
CARMEL: The Falling; Set me free
HE SAID: Hail
U2: The Joshua Tree; Rattle & Hum
DANIEL LANOIS: Acadie
JOHN CALE: Words for the Dying

ANOS 90
A década da dispersão e de todos os convites. Tornou-se moda. Uma espécie de Midas tão apto a participar na world global de Geoffrey Oryema e Baaba Maal como na pop apenas pop de Jane Siberry ou dos James. Coisas mais sérias que têm impressas a sua impressão digital são os álbuns de Laurie Anderson e de Arto Lindsay. Foi buscar um disco de “ambiente kraut” perdido nos anos 70 com os Harmonia ao mesmo tempo que passeou por uma das mais belas sinfonias ambientais de Joachim Roedelius, dos Cluster. Irritou-se com a etnoseca de Jah Wobble, foi apropriado pelo pós-rock dos Ui e, uma vez mais, o seu nome figura na ficha técnica de uma obra-prima: “Shleep”, de Robert Wyatt. Não consta que tivesse ficado chocado quando “Velvet Goldmine” desenterrou o seu passado glam, de plumas e falsetto.

GEOFFREY ORYEMA: Exile; Beat the Border
BRIAN ENO & JOHN CALE: Wrong Way up
U2: Achtung Baby; Zooropa
MICHAEL BROOK: Cobalt Blue
JANE SIBERRY: When I was a Boy
JAMES: Laid
HANS-JOACHIM ROEDELIUS: Theater Works
LAURIE ANDERSON: Bright Red; The Ugly One with the Jewels
ARTO LINDSAY: O Corpo Sutil
BRIAN ENO & JAH WOBBLE: Spinner
HARMONIA: Tracks & Traces
ROBERT WYATT: Shleep; Eps
BAABA MAAL: Nomad Soul
UILAB: Fires
BSO: Velvet Goldmine

Syd Barrett - The Best Of Syd Barrett: Wouldn't You Miss Me?



Y 15|JUNHO|2001
escolhas|discos

SYD BARRETT
Wouldn’t you Miss me? The Best of Syd Barrett
8|10
Harvest, distri. EMI - VC

Barrett in the sky with elephants

Que o rapaz era doido varrido, já toda a gente sabia. Que os Floyd sem ele passaram a ser uma banda totalmente diferente (para melhor, dizem uns, para pior, dizem outros) também é do conhecimento público. Que após a sua saída do grupo apenas conseguiu gravar – e a muito custo – dois álbuns a solo, antes de voltar a arrastar-se para debaixo das asas da mãe e de se enclausurar no sótão onde parece que passa atualmente o tempo a jogar dominó sozinho, também é assunto documentado. Agora o que nunca tinha acontecido antes, e já devia ter acontecido, era a possibilidade de escutar as canções de Syd Barrett em reedição remasterizada. Por fim, aconteceu, naquela que é a primeira coletânea de sempre do músico. E o prazer que constitui acompanhar em segurança a decadência dourada de um cérebro intoxicado pelo ácido e por visões demasiado enormes para lá caberem dentro, é agora mais forte do que nunca. Assiste-se mais de perto e com maior nitidez à combustão criativa, à fragilidade, aos solavancos do baloiço desequilibrado mas suficiente para servir de trave-mestra a todo o psicadelismo. Dos anos 60 até hoje. Não importa se a caminhada no estúdio para chegar à versão definitiva de cada canção era penoso. Isso também já dolorosamente o sabíamos através da caixa-antologia editada aqui há tempos. Syd arrastava a voz e a guitarra ao longo de 20, 30 takes antes do sol entrar de súbito e iluminar cada palavra aparentemente sem sentido, cada nota da guitarra que insistia em deslizar pelos acordes do desconhecido. “Wouldn’t you Miss me?” acena-nos de lado escuro da Inglaterra dos anos 60, agitando a solidão colorida de clássicos-do-asilo como “Octopus”, “Terrapin”, “Baby lemonade”, “Gigolo aunt”, “Dominoes” ou “Waving my arms in the air”, tirados de “The Madcap Laughs”, “Barrett” e “Opel” (o disco de raridades). Faltam pedaços da loucura mais negra e vampírica, de “Rats” e “Maisie”, os blues como Syd os arrumava na sua cela privativa, na sua câmara de tortura decorada com estrelas, mas o que se oferece neste “best of…” lança-nos ao rosto o rosto da demência e estilhaços de génio. E faz-nos perceber como é fácil o juízo de alguém desaparecer. O de Syd Barrett ficou a pairar no dorso de um elefante efervescente.

Sergej Auto - Achtung Auto



Y 15|JUNHO|2001
escolhas|discos

SERGEJ AUTO
Achtung Auto
Saas Fee, distri. Ananana
8|10

Capa kitsch? Rosto de galã com olhos de carneiro mal morto? Não há que enganar. É mais um agente russo infiltrado no mundo, até há pouco tempo bem comportado, da eletrónica. Melhor dizendo, é um agente checo, cartoonista de profissão, que se vem juntar às hostes circenses de Felix Kubin, Oleg Kostrow, Oleg Gitarkin e Messer Fur Frau Muller. O som é idêntico, um arranjo de pop eletrónica temperada por easy listening, música de spots televisivos dos anos 50 e 60 e todo o imaginário retro-futurista que Raymond Scott antecipou como coisa séria. Mas Sergej Auto ousa introduzir o mau humor no seio da brincadeira, conferindo-lhe um lado sombrio e mais conceptual. Sob o postal ilustrado esconde-se uma sensibilidade aberta ao minimalismo, à house mais dark e à sujidade eletrónica como foi esguichada pelos Suicide.