16/04/2015

Planetário [Biosphere]



Y 30|NOVEMBRO|2001
música|biosphere

Planetário

Poderá ser um dos concertos mais espetaculares do ano. O Auditório de Serralves abrir-se-á à música de Biosphere, projeto do norueguês Geir Jenssen. Imbuída de forte carga cinematográfica, a eletrónica de Biosphere conjuga a imensidão dos grandes espaços árticos e o brilho hipnótico de pequenas estrelas vivas. Para ver, ouvir e sonhar. Como uma estufa. Ou um planetário.

1. origem

Biosfera. “A fina camada da superfície da terra e do mar que contém a massa total dos organismos vivos existentes no planeta, que processam e reciclam a energia e os nutrientes disponíveis no meio ambiente” (in Enciclopédia Britânica). Em 90, ao tomar conhecimento do projeto científico “Biosphere 2 Space Station Project” – gigantesca cúpula de vidro no deserto do Arizona –, Geir Jenssen adaptou esta designação ao seu projeto musical. Na estação “Biosphere 2” testava-se a viabilidade da manutenção, no espaço, de uma colónia terrestre; na cúpula “Biosphere 2” habitaram várias famílias em isolamento do exterior. Da mesma forma, a música de Biosphere evoca a solidão dos espaços polares e recria a biodiversidade de organismos sónicos em mutação. A sua serenidade advém de uma visão distanciada do planeta, observado a partir do espaço.

2. ambiente

Nos anos 80, Jenssen integrou o grupo Bel Canto, responsável por dois álbuns editados na editora Crammed Discs, um dos quais, “White-out Conditions”, é um clássico da “pop atmosférica”. Atmosfera que viria a revelar-se ainda demasiado densa para o desejo de silêncio do norueguês. O passo seguinte dá pelo nome de Bleep. A eletrónica liberta-se da pop e passa a desenvolver-se através das pulsações da tecno ambiental. É já como Biosphere que grava os clássicos “Microgravity” e “Patashnik”, este último indutor de sonhos para a geração do “chill-out”. Transe boreal cuja síntese se encontra no cume gelado de “En trance”. Mas quando “Novelty waves”, retirado de “Patashnik”, é usado com anúncio da Levi’s, Jenssen percebe que chegara a altura de partir de novo. A viagem culminaria nas paisagens de “arctic sound” de “Substrata” e da obra-prima “Cirque”.

3. espaço

Depois de Bruxelas e Oslo, Jenssen estabelece a sua residência em Tromso, cidade norueguesa a 400 milhas a Norte do Círculo Polar Ártico. Aí, longe do caos urbano, a atmosfera é mais límpida e o céu parece mais próximo. Biosphere é um telescópio apontado ao negro do firmamento, emissão galática, pesquisa de sinais de vida extraterrestres, mas também colónia de organismos microscópicos em agitação atómica sob o manto do “groove” eletrónico. “Trabalho devagar”, disse Geir Jenssen em 1994. O espaço resolve-se no tempo e na distância, que o norueguês considera essencial para a criação musical.

4. cinema

Geir Jenssen afirma que toda a música que o entusiasma tem a capacidade de provocar visões na sua mente. Afinal, o mesmo estímulo que o cinema. Existe uma relação estreita entre som e imagem quer dentro da estrutura da música dos Biosphere, quer em bioeletroentidades compostas para bandas sonoras – como o clássico do cinema mudo soviético, “O Homem da Câmara de Filmar” (1929, Dziga Vertov), com o tema “The silent orchestra”, ou “Kill by Inches” (1999, Doniol-Valcroze), bem como a totalidade da banda sonora de “Insomnia”, de 1997, de Erik Skjoldbjærg. É ainda Jenssen quem aconselha o ouvinte a construir as suas próprias narrativas e visões.

5. iluminação

“Cirque” culminou um trabalho de depuração. Da embalagem – digipak povoado de texturas que por si só desencadeiam a projeção do filme interior – ao conteúdo, é um universo de temperaturas, ventos e alucinações, num espectro que vai da auto-descoberta e das paisagens glaciares ao beat minimal. Cristais de gelo, fauna e flora subliminares, contraponto glaciar da selva tropical noturna dos Can de “Future Days”. Inspirou-se no livro “Into the Wild”, de Jon Krakauer, crónica de viagens de Chris McCandless que, após deambulações pela América do Norte, terminou a sua demanda nas paisagens desoladas do Alasca, onde o seu corpo foi encontrado morto, com uma nota de SOS.

6. cristais

Geir Jenssen/Biosphere tem ainda a sua assinatura numa quantidade de álbuns, entre encomendas, compilações ou remisturas. Destacam-se “Nordheim Transformed”, recriação da música do compositor de eletrónica norueguês dos anos 70, Arne Nordheim, em colaboração com Deathprod, e os dois volumes de “The Fires of Ork”, de parceria com o alemão Pete Namlook. “Substrata 2”, já deste ano, é outro digipak com embalagem de luxo, onde cabe a versão remasterizada de “Substrata”, um dos melhores álbuns de “ambiente tecno”. Também deste ano, “Light” reúne os nove temas compostos para a banda sonora de “O Homem da Câmara de Filmar”.

Klangkrieg - Radionik



Y 30|NOVEMBRO|2001
escolhas|discos

KLANGKRIEG
Radionik
Cling Film, distri. Matéria Prima
8|10

Ultrapassado o obstáculo inicial que é conseguir (literalmente) destruir o invólucro de borracha que sela o CD, “Radionik” constitui um bom exemplo da vertente eletrónica mais conotada com o industrialismo “kraut” de nomes como Asmus Tietchens ou Conrad Schnitzler. É também a revelação do lado mais conceptual e experimentalista de Felix Kubin, que nos habituámos a ver como genial “jongleur” da eletrónica “nonsense” como é praticada para os lados da editora Stora. O som dos Klangkrieg – Kubin e Tim Buhre – joga-se no campo oposto, dos sons escuros, dos circuitos (mal) integrados, dos testes de frequências e da maquinaria feroz. Não são já, sequer, as fábricas românticas onde trabalhavam os Cluster, mas armazéns abandonados, contaminados por lixos tóxicos, que os Klangkrieg percorrem, armados com os seus instrumentos de análise e disseminação de ruído. A samplagem de uma fuga de gás no tema inicial, “Gas”, serve de introdução a este cenário pos-apocalíptico onde a desolação escorre através de um labiríntico sistema de oleodutos residuais.

Ecos do passado [Pink Floyd]



Y 30|NOVEMBRO|2001
escolhas|discos

PINK FLOYD
Echoes - The Best of Pink Floyd
2xCD EMI, distri. EMI - VC
8|10

pink floyd ecos do século passado

Normalmente, as coletâneas “o melhor de…” são desperdício para o fã deste ou daquele grupo, para quem o que conta são os álbuns originais que traçam o percurso histórico e sinalizam as diversas fases de evolução dos artistas da sua preferência. Não é o caso de “Echoes”, primeiro “Best of” de sempre dos Pink Floyd, ao cabo de 35 anos de carreira. Não é uma coletânea como as outras, da mesma forma que os Pink Floyd nunca foram uma banda como as outras. Da embalagem, delicioso jogo de espelhos e “trompe l’oiel” que tanto evocam o design da campanha Hipgnosis como os ilusionismos gráficos de Escher, ao som, objeto de nova remasterização que faz empalidecer as anteriores, nada foi deixado ao acaso. “Echoes” foi construído como uma história imaginária que acentua a intemporalidade de música dos Pink Floyd. Em vez do alinhamento preguiçoso de faixas, por ordem cronológica, optou-se por arriscadas transições que unem, através de “editing”, “See Emily play”, de 1967, a “The happiest day of our lives”, de 1979, “Learning to fly”, de 1987, a “Arnold Layne”, de 1967. O incrível é que faz sentido, dando a entender uma outra lógica de encadeamento que manipula e altera de forma eficaz e, por vezes, surpreendente, as emoções que julgávamos definitivamente arquivadas na enciclopédia dos Floyd.
            Ao todo, “Echoes” junta 28 temas do grupo que, com os Soft Machine, foi responsável pela introdução, em 1967, do Psicadelismo em Inglaterra, nos tempos épicos das atuações no clube londrino UFO. Nunca a voz e o surrealismo mental de Syd Barrett, em temas como os já citados “Arnold Layne” e “See Emily play”, mas também “Jugband blues” e “Bike”, soaram tão luminosos. A faceta “space rock” faz-se representar pelos incontornáveis “Astronomy Domine”, “Set the controls for the heart of the sun” e o mais tardio “The great gig in the sky”, já do mega-sucesso “The Dark side of the Moon”, cuja presença em “Echoes” se faz sentir ainda nos demasiado “gastos”, “Time” e “Money”. “Wish you Were Here”, com a tocante homenagem a Barrett que é “Shine on you crazy diamond”, a abrir do disco 2, e “The Wall”, de 1979, álbum chave para a compreensão da atitude que orientou grande parte da produção rock e pop dos anos 70 e do talento como compositor e dos fantasmas que fervilhavam no cérebro de Roger Waters, fazem-se obviamente representar neste “Best of” que consegue o prodígio de fazer soar fresca uma música mil e uma vezes ouvida.
            Mesmo os temas de álbuns menores, como “A Momentary Lapse of Reason” e “The Division Bells”, ganham uma insuspeita credibilidade graças a um alinhamento que os recontextualiza. São ainda recuperados dois álbuns de transição, “Animals” e “The Final Cut”, e um tema (“When the tigers broke free”) da banda sonora de “The Wall”. A única mácula de “Echoes” será talvez o corte de seis minutos (de 22 para 16…) na suite, com o mesmo nome, que ocupa o lado dois da edição original em vinilo de “Meddle” – mas o “novo” som, fabuloso, faz esquecer esta “traição” de uma coletânea onde são notórias a inteligência e uma compreensão genuína do que os Pink Floyd representaram para a música popular do século passado.