27/04/2016

Segundo milagre de Fátima Miranda

22 de Janeiro 1999

Segundo milagre de Fátima Miranda

Ao contrário do que aconteceu no Verão Passado no Centro Cultural (CCB), em Lisboa, no Rivoli do Porto ninguém abandonou a sala. Fátima Miranda foi arrebatadora nesta sua segunda apresentação em Portugal, com uma encenação vertiginosa que leva aos limites a voz humana.

Na primeira das suas duas apresentações, quarta-feira, no Pequeno Auditório do Teatro Rivoli, no Porto, Fátima Miranda fez abrir a boca de espanto a um público que encheu por completo o recinto. Mas se a falta de conhecimento prévio da obra da autora de "Concierto en Canto" é susceptível de provocar um choque nos auditores mais desprevenidos não é menos verdade que o impacto e a surpresa jogam a favor da cantora, transformando-nos em espectadores de um jogo que a cada momento nos leva a interrogar sobre a interpretação e a essência do canto. "De Ida y Vuelta", como se designa o espetáculo, integrado no ciclo "Caminhos da Índia", começa pelas mãos. "Dhrupad dream" nasce das trevas do palco, com os projectores iluminando apenas um par de mãos que se movem como entes autónomos. A voz acompanha os movimentos das mãos, em tempo real e pré-gravada, criando uma sobreposição de "drones" (sons contínuos) e glissandos que partem da assimilação das técnicas Dhrupad do canto indiano para se afastarem progressivamente em direção ao desconhecido. Fátima Mirada afaga a voz, dá-lhe a forma das mãos, estende-a num fio invisível que afasta ou puxa para si. As mãos adquirem o feitio de uma ave, de uma medusa, de estrelas-do-mar, de uma concha, numa metamorfose que sublinha os tempos, as texturas e as interjeições vocais. "Diapassion" prolonga a ligação à Índia mas vai mais longe na viagem. Agora Fátima Miranda está sentada em frente a um ecrã colorido, fazendo-se acompanhar pela respiração de um pequeno órgão de foles. A voz fica suspensa, eleva-se a impossíveis agudos para logo descer em cascata até murmúrios guturais. Vão-se abrindo sucessivamente pequenas caixas de onde brotam sons de grilos. Faz-se noite e a Natureza entrega-se a esta feiticeira que tudo domina com a sua voz. Mas Fátima Miranda não se limita a cantar. Também o seu corpo faz questão de dar a conhecer a originalidade, o drama e o humor, do seu discurso. É o teatro que surge em "Asaetada". Nos pés descalços que marcam o compasso enquanto Fátima segura a roda da saia e personifica a megera que discute e provoca, arrancando à voz onomatopeias de riso e desafio. Em "Tala tala, que tala tala? Que tal" aparece vestida com um vestido garrido, em vermelho e negro, numa pose "kitsch" de bailarina de flamenco. Uma faca atravessa-lhe a cabeça de lado a lado. Quem esteve no espetáculo do CCB, assistindo de longe a esta "performance" em que a inocência se confunde com a crueldade, não pôde aperceber-se do jogo facial de Fátima Miranda que nesta peça vai afivelando uma gama inacreditável de expressões que vão da boneca de trapos à atrasada mental, da Lolita à "tia" enfastiada. Impossível não soltar uma gargalhada. Logo a seguir a um curto interlúdio em voz "off", "Hálito", Fátima termina com "El Principio del Fin" um dos temas do seu álbum "Concierto en Canto". Aqui o virtuosismo confunde-se com o exibicionismo, num prodigioso contraponto da voz real com uma polifonia de vozes gravadas, da Fátima real com as quatro Fátimas virtuais que cantam em vídeo em absoluta sincronização com ela. As palavras desmultiplicam-se em repetições criando ciclos rítmicos minimalistas que evocam algumas das experiências fonéticas de Paul de Marinis e Scott Johnson. Mas Fátima Miranda, mais uma vez, vai muito além do simples canto, assumindo agora a figura mundana que esbraceja na febre de Sábado à noite. Provocante, coquete, de uma feminilidade absurda, enfiada no seu traje noturno de negro e lantejoulas, Fátima Miranda faz desfilar o seu delírio de diva com voz de polvo. Termina deste modo um espetáculo de extrema originalidade ao qual o público corresponde aplaudindo de pé, obrigando a cantora espanhola a regressar para um "encore", "Canto Largo", onde fica uma vez mais evidente a excepcionalidade dos seus recursos vocais. Onde nasce e morre, afinal, a voz, sem princípio nem fim, de Fátima Miranda? Provavelmente, no oceano de silêncio que se estende para lá da loucura.

22/04/2016

Radiohead para acabar de vez com a amnésia [Rock Progressivo]

Y 19|JULHO|2002
música|radiohead

Radiohead
para acabar de vez com a amnésia

Trazem o rock progressivo de novo à ribalta. 20 minutos voltou a ser o tempo de uma canção. “Kid A” e “Amnesiac” são pretensiosos? Ainda bem. Divagações, na vinda da banda a Portugal.

Uma mentira mil vezes repetida acaba por redundar em “verdade”. Vilipendiado por muitos, acossado por uma crítica que não viu nem ouviu, o Progressivo tornou-se no saco de levar porrada da pop, o bode expiatório de quem apenas consegue abarcar a faixa compreendida entre os quinze minutos de fama de Warhol e a “next big thing”, eternamente adiada, contida nos três minutos de paixoneta adolescente. Pop produto, querida da Indústria, encaixada nas “play lists” da mediocridade e na negociata dos tops. Vitória da amnésia. Se não é líquido que a vinda a Portugal dos Radiohead – cinco concertos, 22, 23 e 24 em Lisboa, 26 e 27 no Porto –, e o culto que lhes é votado tenham como consequência a revalorização de uma música por demais maltratada, não deixará de provocar perplexidades e reacender dúvidas.
Até porque a vingança, como se sabe, é um prato que se serve frio. Hoje, “progressivo” volta a ser politicamente correcto e os Radiohead (e Flaming Lips, Air, Elbow, Gorky’s Zygotic Mynci…) recuperaram-no para o léxico da pop. A proliferação de informação na net e de reedições tem contribuído para a descoberta de muitos tesouros escondidos do Progressivo e para a alteração do gosto do público.
E os músicos também crescem. Sabe-se como é. Banda nova não sabe tocar pelo que terá que arremessar pedras ao virtuosismo. Ao terceiro álbum, quando o domínio instrumental já atingiu patamares mais elevados, a banda já sorri com bonomia do passado e anuncia, com pompa e circunstância, o próximo disco, que será conceptual e se orgulhará de ostentar citações aos Pink Floyd, Can e Soft Machine.
Começando como grupo pop que não escondia a sua filiação nos Pink Floyd, os Radiohead trocaram a canção pop de “O.K. Computer” pelas atuais abstrações que tanto emanam a mesma anti-matéria de “Tilt”, de Scott Walker, como exploram o conceptualismo do Progressivo e o contragroove do krautrock. Num dos milhões de sites da Net que lhes são dedicados, são apontados como influências da banda de Thom Yorke os Can (“Tago mago”, “Future Days” e “Unlimited Edition”), Faust (“Faust”, “So far” e “The Faust Tapes”), Neu! (“Neu!” e “Neu! ’75”) e Tangerine Dream (“Pheadra” e “Stratosfear”). O que diz muito da dimensão espacial dos últimos álbuns, os gémeos “Kid A” e “Amnesiac”.
A emergência do pós-rock, na década passada, fez o resto. Subitamente, palavras proibidas como “cósmico”, “ambiental”, “conceptual” e “minimalista” ganharam nova visibilidade, não só nos Radiohead como nos Tortoise, To Rococo Rot, Tarwater, Mouse on Mars, Trans AM, Stereolab ou Godspeed You Black Emperor. Quando, em pleno ataque punk, alguns julgaram ter sido desferido o golpe mortal no Progressivo, Johnny Rotten, dos Sex Pistols, incluiu nas suas influências Peter Hammill e os Neu!…

apanhar o comboio errado. Compreende-se que, para o “status quo”, moldado na exploração do lugar-comum, o Progressivo fosse um bicho-papão. Faixas com 20 minutos, uma cornucópia de sonhos (lisérgicos ou não…) e toneladas de loucura são fatores de difícil controlo. Era disso – e do desejo genuíno de fazer música pela música – que se construiu o Progressivo nos anos áureos, entre 1969 e 1975.
Veio o Punk mas o Progressivo resistiu, assumindo a nova nomenclatura “art rock”. E foi nessa encruzilhada que a maior parte da crítica encalhou, ao apanhar o comboio do Progressivo dos anos 70 na estação terminal e, no transbordo, ao procurar na linha errada o ponto de partida para a viagem seguinte – a do rock sinfónico, que estiolava em bandas americanas, como Boston ou Kansas, e, em Inglaterra, a do malfadado “neo prog”, personificada pelos Marillion, Pendragon, I.Q., Pallas e quejandos.
Os primeiros eram criaturas balofas que retiraram do Progressivo apenas o formalismo “sinfónico”. Os segundos tentaram remoer a teatralidade dos grupos originais, cujo estilo se tornara imagem de marca, sendo por esse motivo mais facilmente copiáveis, como os Jethro Tull, Yes e Genesis.
À entrada na segunda metade da década de 70, a primeira geração do Progressivo agonizava. Os Yes e os Genesis apagavam os feitos heróicos do passado com simulacros cansados onde a visão já pouco alcançava para além do formalismo. O krautrock deixara marcas, mas seria necessário duas décadas para a sua influência se voltar a fazer sentir. Cluster, Faust, Can, Neu!, Harmonia, Amon Düll II, Klaus Schulze, Agitation Free, Guru Guru, Embryo, Wallenstein, Ash Ra Tempel, Kraftwerk, Tangerine Dream. A lenda propagou-se na medida inversa ao desconhecimento a que a sua música foi votada entre 1975 e 1995, excepção feita aos Kraftwerk, tornados gurus da tecno, e dos Tangerine Dream, colados ao calendário da “new age”. Houve, no entanto, quem não se esquecesse. Holger Hiller e Kurt Dahlke (Pyrolator) transportaram o facho durante a difícil travessia.
Foram três os músicos que lhe fizeram justiça e recuperaram não só o seu bom-nome como a importância musical que hoje é facto assente, já não somente em relação às bandas do pós-rock, mas também para o rock e pop tradicionais. Os três paladinos chamam-se Julian Cope, John McEntire e Jim O’Rourke. Cope é o “hippie” da idade do junk, lunático de génio, a quem se deve a publicação do livro “Krautrocksampler” e de álbuns magistrais. McEntire e O’Rourke são os papas do pós-rock de Chicago. Colheram da cultura do Progressivo e do Krautrock as raízes de um futuro onde as máquinas, a acidez e as estrelas se entrelaçam.
Em Inglaterra a revolução esteve a cargo de uma combo chamado Henry Cow. Três álbuns tão importantes para o rock como Bartok foi importante para a música erudita do séc. XX deram origem ao novo mundo do Progressivo: “The Henry Cow Leg End”, “Unrest”, “Desperate Straights”, “In Praise of Learning” e “Western Culture”. Quatro obras-primas que formularam as bases do “art rock” e do “chamber rock” que se disseminaria pela Europa e EUA.
O Progressivo depois do Progressivo não tinha por nome os Marillion mas estranhas designações como Art Zoyd, Univers Zero, Etron Fou Leloublan, Samla Mannas Mama, Picchio dal Pozzo, Débile Menthol, Muffins, Present, Miriodor, Biota, ZNR, Officer, ou Birdsongs of the Mezosoic, prosseguindo na actualidade nos 5 Uu’s, Motor Totemist Guild, Thinking Plague e U-Totem, dignos sucessores do que na década de 70 passou pelos Gong, Magma, Gentle Giant, Caravan, Matching Mole, Khan, White Noise, Second Hand, Red Noise, Curved Air, Gryphon, Moving Gelatine Plates, T.2, Premiata Forneria Marconi, Comus…

Os Radiohead acabaram por chegar lá. “Kid A” e “Amnesiac” foram considerados “pretensiosos” – o que é indicativo de inteligência em acção… –, “esotéricos”. E até há quem ache a voz de Thom Yorke tão irritante como a de Jon Anderson, dos Yes…

Gianluigi Trovesi - Dedalo

Y 19|JULHO|2002
roteiro|discos

GIANLUIGI TROVESI
Dedalo
Enja, distri. Dargil
9|10 

Não vale a pena tentar fugir do labirinto. Não é que não tenha saída, acontece apenas que, depois de entrarmos, não temos vontade de sair. O dédalo é Gianluigi Trovesi, da Italian Instabile Orchestra, o homem que, com Louis Sclavis, Michel Portal e John Surman, ergueu tão alto como Eric Dolphy a música do clarinete baixo. “Dedalo” é a celebração orquestral, com a WDR Big Band alemã e as contribuições de Markus Stockausen (trompete), Fulvio Maras (percussão) e Tom Rainey (bateria), de peças compostas por Trovesi para formações mais curtas, nomeadamente para o clássico “From G to G” aqui recuperado na quase totalidade. Dispara-se um tirinho numa feira “vaudeville” de New Orleans, gargalha-se com Zappa, pisca-se o olho a Ellington, Gil Evans e Don Ellis, puxa-se o tapete ao Jazz Progressivo e ao jazzrock de 60/70, e apanha-se de chapa com o Verão inteiro do jazz. Trovesi é um compêndio vivo, capaz de concentrar num minuto 80 anos de história e conseguir espantar-nos com o fulgor e a adrenalina da sua música. Um dos grandes discos livres de 2002.

Stephan Micus - Towards The Wind

Y 19|JULHO|2002
roteiro|discos

STEPHAN MICUS
Towards the Wind
ECM, distri. Dargil
8|10 

Seis flamingos flamejantes sobrevoam a noite. Fogo, rocha, altitude. À semelhança da imagem da capa de “Towards the Wind”, a música de Stephan Micus desenvolve-se num jogo de contrastes com um ente da Natureza. Lentamente, estendendo ramificações, tateando os elementos e os timbres de instrumentos exóticos. “Towards the Wind” é uma raridade, na medida em que centra a atenção num instrumento de palheta, algo que não acontecia desde o já longínquo “Till the End of Time”, onde se podia ouvir um korthold medieval. Foi preciso o músico arménio Djivan Gasparyan lhe dar a conhecer e o ensinar a tocar o “duduk” para finalmente se operar a metamorfose no som que Micus tem “dentro da cabeça” e onde, diz, se cruzam “a respiração do vento, o grito dos seres humanos, o espaço do deserto, o mar e a luz pura das montanhas cobertas de neve”. A nostalgia do duduk, trazendo consigo o choro rarefeito das montanhas, eleva-se dos restantes quadros, pintado a kalimba, guitarra, shakuhachi, dondon, sattar e voz. O filme não é novo. Mas os filmes eternos não se gastam. Experimentem escutar “Birds of dawn” e voar nas asas do flamingo.

Flavio Benito - Mara + Radio Tarifa - Cruzando El Rio

Y 19|JULHO|2002
roteiro|discos

FLAVIO BENITO
Mara
8|10
Fonofolk, distri. Distrimusic

RADIO TARIFA
Cruzando el Rio
7|10

Flavio Benito é um recém-chegado gaiteiro asturiano cuja estreia não poderia ser mais auspiciosa. Na senda dos seus vizinhos galegos, Nuñez e Budiño, tem, para já, sobre estes, a vantagem de não sobrepor o virtuosismo à excelência de um programa instrumental de primeira água. Os dois primeiros temas são entusiasmantes, a fazer lembrar os Bothy Band. Benito é, de resto, um gaiteiro do tipo “irlandês” (ouça-se a canção de embalar “L’anada”), privilegiando a consistência do “drive” em detrimento do “ataque” que é timbre da música de gaita galega. A sanfona de Fonsu Fernandéz e a voz feminina de Ara Costas são outros dos atrativos de um álbum que apenas pecará por uma ou outra escorregadela no tapete dos teclados eletrónicos. Já os Radio Tarifa enfrentaram o difícil desafio de não baixar a fasquia erguida bem alto pelos dois álbuns anteriores, num regresso marcado pela sofisticação da produção, sapateados, Arábia new age, ecos de Manuel Luna, as palhetas duplas medievais do último tema e alguma sensação de “deja vu”. O “temporal” amainou...

12/04/2016

O Verão é... (em 50 discos)

Y 12|JULHO|2002
música|capa

o verão é...
em 50 discos

“summertime and the living is easy...”. E o Verão é… melancólico, preguiçoso; apetece a pândega e o surf. Queima. E a música? Diz-se que é para todas as estações. Mas pode ser como o Verão: melancólica, preguiçosa, tão veloz como uma prancha e tão ardente como o sol. Finalmente, como uma miragem, porque é no Verão que o Outono mostra os primeiros sinais. O Verão é... em 50 discos – e em todos os outros que está a ouvir

Nota: artigo coletivo em que FM assinava os seguintes textos:

THE B-52´S, 1979
The B-52´s

No pico da new wave, quando não havia tempo para o Verão, os B-52’s bombardearam a pop com os penteados “Empire State Building” e as micro-saias de duas cantoras com nome de boneca: Cindy e Kate. Isso e o facto de as canções serem desalmadamente pop, plastificadas e tresandarem àquele tipo de inconsciência adolescente que faz a imbecilidade parecer um sentimento épico bastaram para colorir as festas de Verão montadas nesse final de década em todas as garagens de todas as casas de todos os subúrbios.

ORANGES & LEMONS, 1989
XTC

Apelidaram-nos de excêntricos. Eles encolheram os ombros e meteram mãos à obra na edificação de um dos edifícios mais sólidos da pop. Andy Partridge é um daqueles cérebros com circunvalações a mais, um espírito barroco e um génio da melodia, capaz de nos prender a alma com o acorde perfeito. “Oranges & Lemons” não será um dos melhores do grupo, mas é o que a capa mais psicadélica, com laranjas e limões a fingir de sóis, bons para espremer no Verão. Citrinos funk, um naipe de metais lambuzados de limonada, gomos de arco-íris e aquele tipo de voz que vai perder o comboio que só os ingleses excêntricos têm. E tem “The loving” – garantia de um arrepio de prazer.

STAN GETZ & JOÃO GILBERTO, 1964
Stan Getz/João Gilberto

Quando proliferam cocktails estragados de eletrônica, música de dança e Brasil, sabe bem “the real thing”. “The girl from Ipanema”, “Desafinado” e “Corcovado”, os clássicos, luzem. Interpretados com a alegria magoada de alguém que se sente só mas sente prazer na solidão. “Ah, porque estou tão sozinho?/ Ah, porque tudo é tão triste?/ Ah, a beleza que existe.../ A beleza que não é só minha/ Que também passa sozinha...”. É isso a bossa-nova: a tristeza mais quente do mundo, melancolia do fim do Verão, sabendo-se que tudo recomeçará sempre de novo.

MEDDLE, 1971
Pink Floyd

Depois de a chuva Syd Barrett ter passado, a música dos Pink Floyd clareou. A frescura e a indolência estivais chegaram com “Meddle”. É tudo água neste disco, das longas gotas que pingam, ondulando no lago de uma alucinação, da “suite” “Echoes”, a canções lânguidas que tentam fazer crer que tomar banho na praia do LSD não requer a digestão feita nem boia salva-vidas. “A Pillow of winds”, “Seamus” e “San Tropez” (o ácido fez cair o “it”) são passeatas nas nuvens, um piquenique no Sol, a olhar muito devagar e muito longe cá para baixo...

PARIS MILONGA, 1981
Paolo Conte

Este Piemontês de 65 anos é um génio. O crooner de um filme de Fellini, com o canto grave de Tom Waits, o talento de arranjador de uma Carla Bley, a pose “cool” de um Bryan Ferry e o humor de um faz-tudo à deriva num novelo de “spaghetti” sentimental. Tangos, variedades de faca e alguidar, as piscinas mal esvaziadas de Inverno, praias de Cinzano, o champanhe entornado na ressaca. Conte canta tudo. “Paris Milonga” é o Verão que imaginamos quando caminhamos ébrios ao longo da marginal.


calor é com eles

Barry Adamson na câmara escura, Perry Blake na Califórnia, Springsteen na América rural, Sakamoto em idílio brasileiro. O Verão vai ser com eles.

Nota: texto assinado por F.M., R.M.P. e V.C.

Está cada vez mais pequeno, o mundo. Músicas e culturas, tecnologia e pessoas, símbolos e modas, tudo se cruza e imiscui na auto-estrada da informação, em viagens mais e mais rápidas. Baile de máscaras, orgia ou reunião de trabalho, a verdade é que as diferenças se esbatem neste convívio por vezes forçado.
            Não será o caso do japonês Ryuichi Sakamoto, turista da arte há muito habituado a viajar em primeira classe, com bilhete de ida e volta, no Expresso-Oriente. O seu próximo álbum, a editar a 12 de Agosto (Sony), recria a música do brasileiro Antonio Carlos Jobim (em quem, mais do que o compositor de bossa-nova, Sakamoto viu um parente espiritual dos impressionistas franceses, como Debussy e Chopin) em colaboração com Jacques e Paula Morelenbaum.
            Mas o que poderia passar por mais um disco de versões é algo mais profundo. “Casa”, como o nome indica, foi gravado na casa de Tom Jobim, no Rio, tendo o japonês tocado no próprio piano, “ainda manchado de whisky e queimado por pontas de cigarro”, do brasileiro. As janelas estiveram abertas durante as gravações, deixando entrar o som das ondas e o bruá da cidade. Talvez mesmo algo mais, admite, referindo-se ao pássaro que entrou e pousou no tampo do piano, a meio de uma canção, para entoar a sua melodia. “Foi Tom Jobim que entrou ali, encarnando na ave, a exprimir o seu prazer, cantando uma vez mais a sua música”.
            Se Sakamoto e a ave-Jobim são música branca, o novo trabalho de Barry Adamson, “The King of Nothing Hill” (2 de Setembro, Zona Música), é, como é hábito, um filme negro imaginário, como crimes, charadas e diabolismos vários, no que o autor define como um disco sobre as “ilusões do poder”, se não mesmo sobre a vida enquanto suprema ilusão. Não por acaso, o antigo teclista dos Magazine e dos Bad Seeds de Nick Cave, já compôs para David Lynch. “The King of Nothing Hill” abre com funk e termina com pop. Pelo meio, o recheio é o mais interessante, como o próprio admite – um ambientalismo escuro, feito de conotações indecifráveis e máquinas devoradoras de cabeças. Verão na câmara escura, com papões.
            E se um jardim irlandês se transformasse no Verão californiano? “Got to get out of this place tonight”, começa por cantar Perry Blake (“This Life”), e a seguir já está numa canção chamada “California”, onde não pode deixar de assinalar que está em terra de Beach Boys e onde confessa que “a new life is what we need (...) maybe go to California, where it‘s warm”. O jardim do irlandês fez-se “road to Hollywood”, a soul refresca um universo que já chegara à saturação, a voz dá-se ares de Marvin Gaye, os horizontes alargam-se. Mantém-se a melancolia, a estrutura repetitiva... Provavelmente Blake nem se mexeu muito: “California”, o álbum (Universal, Agosto/Setembro) é uma daquelas viagens em que não chega a sair do mesmo sítio; em que o movimento é apenas ilusão.
            Se Perry Blake nos leva até uma imaginária Califórnia, Bruce Springsteen transporta-nos até à América rural. Regressa com “The Rising” (Sony, 29 Julho), o primeiro disco gravado com a E Street Band desde 1984. Da ruralidade, para uma imensidão de paisagens da América: o terceiro disco dos Queens Of The Stone Age, “Aongs for the Deaf” (Universal, 26 de Agosto), é um meio termo entre o saturado álbum de estreia e “Rated R”, o espantoso segundo disco; dos Sparta e dos Mudhoney haverá, respetivamente, “Wiretap Scars” (Universal, Agosto) e “When we were translucent” (Música Alternativa, Agosto).
            Depois do murro no estômago que foi “Xtrmntr” (“Exterminator”), o grupo de desestabilizadores liderados por Bobby Gillespie voltará a assaltar quem escutar “Evil Heat”. É o sétimo álbum dos Primal Scream (Sony Music, 5 de Agosto). Antes dele, a 22 de Julho, sai o novo dos Public Enemy, “Revolverlution”. Segue a linha dos anteriores trabalhos de Chuck D, Flavor Flav e Professor Griff: política e “scratching”.
            Mas, se existe projeto conotado com a leveza do Verão é o dos norte-americanos Thievery Corporation. Vão regressar em época de calor: “The Richest Man In The Babylon” (Setembro, pela Última). Quem também vai estar de volta em Setembro é o músico e produtor de Filadélfia King Britt. O projeto que lidera chama-se King Kooba e o nome do álbum diz tudo: “Indian Summer” (Ananana).
            De todos os nomes da inglesa Ninja Tune, poucos têm o sentido de humor e a “joi de vivre” de Mr. Scruff. Se quer ficar bem disposto no Verão aponte na agenda: 9 de Setembro. É nesse dia que sai “Trouser Jazz” (Ananana). Para um Verão mais preguiçoso convém ouvir o hip-hop de DJ Vadim – o disco dai a 23 de Setembro, pela Ananana.
            Outro trabalho a ter em consideração: os Steroid Maximus, um dos vários projetos de J.G. Thirwell (Foetus, Clint Ruin, Wiseblood). Em “Ectopia” ele dá largas a sua veia de compositor imaginário de bandas sonoras de filmes negros, num registo próximo do de Barry Adamson – um pouco menos glamoroso.

Laurie Anderson - Live At Town Hall, New York City, September 19-20, 2001

Y 5|JULHO|2002
roteiro|discos

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LAURIE ANDERSON
Live at Town Hall, New York City, September 19-20, 2001
2xCD Nonesuch, distri. Warner Music
7|10

A 11 de Setembro do ano passado, parte do Ocidente ruiu. A queda das torres acarretou a queda das nossas certezas. E veio o medo. Oito dias volvidos, Laurie Anderson atuava ao vivo na cidade que fora palco da tragédia. Nesses concertos (a 19 e 20 de Setembro) que considera os “mais intensos” da sua carreira, a autora de “Strange Angels” sentiu a mudança. “A atmosfera na cidade era fantasmagórica, como durante umas férias estranhas. De repente, os habitantes de Nova Iorque experimentaram um enorme medo e insegurança. Incapazes de prever o futuro, estávamos simplesmente a ver e a ouvir”. O medo dissipou-se entretanto, diluído na rotina egoísta segundo a qual “o mundo até pode acabar hoje desde que seja a mais de 500 metros do meu quintal”. Recuemos então.
            Houve quem não resistisse à tentação de ver “a posteriori” em algumas das letras escritas pela nova-iorquina há mais de 20 anos um elemento profético que a própria se encarrega de desmentir nas notas que acompanham o disco. “Here come the planes. They’re american planes. Made in America”, canta em “O superman”, do álbum de estreia, “Big Science”. Um arrepio... Mas não, os aviões são outros. “Escrevi a canção em 1980, durante o conflito com o Irão, que agora surge como parte de um conflito mais vasto, fruto do ódio entre o mundo islâmico e o Ocidente. Falava de uma guerra que prosseguiu até hoje. Perda, traição, morte, tecnologia, ira e anjos, são estas as coisas sobre as quais tenho escrito com frequência. No Town Hall de Nova Iorque, por uma vez, cantei sobre o Presente absoluto”. Todavia, entre o esclarecimento e a palavra em si, liberta das motivações, a coincidência obriga a um deslocamento da visão...
            Perante o enquadramento em causa, é difícil avaliar estas canções, recolhidas de álbuns antigos e de trabalhos recentes, como “Stories from the Nerve Bible” e “Life on a String”, à luz fria de uma análise formal. Gravado em quarteto na companhia de Sküll Sverrisson (baixo e concertina), Jim Black (bateria e percussões eletrônicas) e Peter Scherer (teclados e samplers), “Live at Town Hall” permite comparar, por exemplo, a transposição do calor dos sintetizadores analógicos das canções escritas nos anos 80 para as novas máquinas digitais, “demasiado transparentes”, o que levou, inclusive, a que Laurie tivesse reintroduzido alguma “sujidade analógica” nesses temas. Tudo o resto, porém, se ilumina, ou não, consoante a subjetividade que lhe quisermos atribuir. É nessa intensidade partilhada, e apenas por aí, entre a memória e o documento, a emissora e o receptor, que “Live at Town Hall” adquire relevância. Incomparavelmente mais simples que as de estúdio, as novas versões ganham a força do rock’n’roll, em “Poison”, para se assumirem como manifestos poéticos declamados do discurso mutante com que a cantora vem dissecando a (in)comunicação. A partir de agora, mais do que nunca interligado ao que poderíamos chamar uma semiótica do subconsciente.
            Fica a conjectura: como seria se nada tivesse acontecido uma semana antes? “Live at Town Hall” é uma lição da história ou a história de como a música é também a projeção afetiva de uma irrealidade, neste caso, projetada sobre a mais dura das realidades.