29/08/2016

Brigada Victor Jara - Danças E Folias

Pop Rock

27 Setembro 1995

Abrigada nos clássicos

BRIGADA VICTOR JARA
Danças e Folias (9)
Ed. Farol

não existe um som Brigada da mesma maneira que existe um som Vai de Roda, um som Romanças, um som Ronda ou um som Realejo. Significa que falta personalidade a uma das bandas, juntamente com os Almanaque e o G. A. C., mais antigas do circuito folk nacional? A questão deve ser respondida a outro nível. A banda de Manuel Rocha, Ricardo Dias e Aurélio Malva, para citar apenas três dos seus principais solistas, tem vivido, desde o ano da sua formação, em 1975, do coletivo. Ao invés da procura e apuramento de uma assinatura singular, a opção, bem mais difícil, foi e continua a ser a de desenvolver um trabalho em profundidade em torno das nossas raízes. Se em anos anteriores este trabalho derivou para experiências de fusão, sobretudo em “Contraluz” e “Monte Formoso”, que resultaram ocasionalmente desequilibrados, em “Danças e Folias” assiste-se ao regresso a um certo classicismo, entendido – aliás, como referiu Manuel Rocha na entrevista que concedeu a este suplemento na passada semana – como uma postura mais próxima do formato tradicional da canção, que não das danças propriamente ditas (jota, chula, llaço, fofa, mazurca, chote), neste caso exploradas pelo seu lado mais intrinsecamente “musical”. A diversidade impera, fazendo prova do vasto leque de possibilidades que a banda tem ao seu dispor, ao mesmo tempo que de uma sensibilidade não confinada a fórmulas específicas ou estereotipadas.
O lado mais céltico, transmontano (incluindo dois temas de Rio de Onor, derradeira fortaleza comunitária, fiel aos ritmos e ritos da eternidade, oculta da modernidade nas faldas das terras para lá dos montes...) que enceta o disco esbarra ao quinto tema na surpresa de um dramatismo exacerbado, na vocalização – muito perto do paroxismo – do convidado Zeca Medeiros, uma força da Natureza à solta da sua ilha natal, S. Miguel, Açores. Uma mazurca palaciana, ainda aberta às reminiscências célticas, é por seu lado perturbada por uma das grandes canções do álbum, “Moda da zamburra”, canção de folia entoada no Entrudo, na Beira Baixa. “O mineiro”, melodia estremenha da região de Torres Vedras cruza-se com as síncopes e as modulações habituais na música da Bretanha, a bombarda substituída pela ponteira de Aurélio Malva e o sax soprano de outro convidado, Jorge Reis, a apontar para divertimentos bretões como os dos Gwendal ou Ti Jaz.
Muito a propósito, a Brigada volta a saltar para Trás-os-Montes, para o canto mirandês, o convénio das percussões e a chamada de veludo (nada frequente no meio da rudeza rochosa destes lugares...) da gaita-de-foles, em “Faile Cornudo”, outro dos temas em destaque em “Danças e Folias”. O violinista Manuel Rocha mostra ser o Dave Swarbrick português no “Chote” muito Fairportiano que se segue. “Donde vas” fecha em beleza, com um romance uma vez mais recolhido nos silêncios escuros de Rio de Onor, iluminado pela voz de Margarida Miranda, aqui assombrada pela mesma interrogação que traz suspensa Né Ladeiras em “Traz os Montes”, e o longo solo de filiscórnio, imbuído de religiosidade e o espírito barroco, de Tomás Pimentel. “Danças e Folias” aí está como exemplo para os aprendizes de feiticeiro que julgam poder fazer num dia o que demora uma vida a aprender.

Domingo gordo [Four Men & A Dog - 6º Festival Intercéltico do Porto]

PÚBLICO
cultura TERÇA 11 ABRIL 1995

Festival Intercéltico termina no Terço em delírio

Domingo gordo

ALTO! PAREM as rotativas! O maior espetáculo e o gordo com mais talento do universo estiveram no Intercéltico do Porto! O espetáculo chama-se Four Men and A Dog e o gordo, Gino Lupari. Arrasaram o Terço com o seu “cocktail” explosivo de música sem fronteiras e humor. “It’s only folk and roll, but I like it!” O triunfo pertenceu uma vez mais aos irlandeses.
            Se, como dissemos, os Skolvan escreveram na véspera uma das páginas douradas da história deste festival, domingo, a fechar mais uma edição do Intercéltico, à sexta, os irlandeses Four Men and A Dog escreveram um livro inteiro. O cinema do Terço enlouquecu, contagiado pelo vírus de demência propagado por estes quatro homens e um cão imaginário, sob a batuta de um gordo impressionante que só por si deu um espetáculo à parte.
            A música dos Four Men and A Dog mistura as tradições norte-americana e irlandesa, com um versão frenética do novo clássico “folk”, “Music for a Found harmonium”, dos Penguin Cafe Orchestra, a batida do rock’n’roll e os “jigs” e “reels” tradicionais. Convém esclarecer que um “jig”, para os Four Men and A Dog, é uma coisa elástica que até pode ter um título como “Michael Jackson’s jig”. Uma amostra desta combinação pode ser apreciada no último álbum da banda, “Doctor A’s Secret Remedies”, do qual foram selecionados seis temas para o concerto.
            Cathal Hayden é um “fiddle player” do que engrenam da quinta velocidade para cima e só param depois de rebentarem todas as cordas do arco. O segundo homem do arco, Gerry O’Connor, não lhe fica atrás, mostrando-se ainda um endiabrado tocador de banjo. As corridas que travaram entre si à desfilada, vão perdurar na memória por longo tempo. Na guitarra, Kevin Doherty, foi obrigado a refrear um pouco o entusiasmo, sob pena da sala se transformar em palco de um holocausto. E Gino Lupari, o gordo imenso, com cara de criança, género Dom de Louise infinitamente com mais piada? Gino é um portento no “bodhran” (instrumento de percussão irlandês), um brontossauro de “swing”. Gino levou tudo à sua frente, acelerou loucamente, ribombou nas peles, foi subtil nos “bones” (tocados como castanholas), criou a plataforma rítmica para a loucura. Imagine-se 250 kilos a emborcar cervejas, a perguntar entre dois temas pelo resultado do último jogo do Manchester United – “há coisas mais importantes que a música!” –, a cantar como um possesso o bom velho “rock ‘n’ roll” e a meter apartes simplesmente hilariantes! Imagine-se ainda os mesmos 250 kilos com uma expressão de querubim compenetrado, a tocar um sininho minúsculo! Ou a menear-se pelo palco, baixando a alça do seu fato-macaco. 250 kilos de comunicabilidade com o público e entrega total à música e ao espetáculo como nunca se viram em seis anos de Intercéltico. Gino Lupari, os Four Men and A Dog, tocaram até não poderem mais. O público sentiu que estava a viver um momento irrepetível. A Irlanda, uma vez mais, venceu.
            Na primeira parte atuaram os Luar na Lubre, da Galiza. Uma bela atuação deste octeto que apenas se pode queixar de ter tocado antes dos Four Men. Com uma postura semelhante à dos Milladoiro e uma escolha de reportório que privilegiou a vertente mais intimista – com lugar para um “an dro” bretão e um par de jigas irlandesas –, os autores do recente “Ara-Solis” criaram uma atmosfera de encantamento. E se a pureza da voz de Ana Espinosa não teve um som à altura já Bieito Romero provou ser um gaiteiro de exceção, nas “muiñeiras” da praxe. Numa delas, “Muiñeira de Malpica”, o mesmo Bieito fez a apresentação de Eduardo Mendez, um novato que já é uma certeza entre a nova geração de gaiteiros galegos, entrando ambos num empolgante duelo. Os Luar na Lubre cumpriram o que deles se esperava, deixando no ar uma “moira soidade”.
            Caído o pano sobre o festival, cabe destacar mais uma vez a organização da MC – Mundo da Canção, um aparelho que não falha, juntando o profissionalismo à excelência das relações humanas. Razão por que os músicos passam palavra, fazendo da sua participação no festival um ponto de honra. Todos querem voltar. E o Porto ganhou mais uma lenda: Gino Lupari.

Um "gwerz" para o milénio [Skolvan - 6º Festival Intercéltico do Porto]

POP ROCK
Quarta-feira, 5 Abril 1995

UM “GWERZ” PARA O MILÉNIO

Entre os vários nomes que vão estar presentes no Intercéltico os Skolvan são talvez os que melhor souberam estabelecer o compromisso entre a fidelidade às origens e a invenção de linguagens mais ajustadas à realidade dos tempos atuais. Com três álbuns no ativo, “Musique à Danser”, “Kerz Ba’n’ Dans” e “Swing & Tears”, este último considerado pelo POPROCK um dos melhores de 1994, a banda bretã promete figurar no quadro de honra do festival. A conversa com o acordeonista do grupo, Yann-Fañch Perroches, facultou-nos uma ideia mais clara sobre o estado em que se encontra hoje a música tradicional na Bretanha.

quais são as diferenças mais significativas entre uma “festoù-noz” (ou fest-noz”, abreviando), e as festas populares das outras reições de França?
            Yann-Fañch Perroches – A diferença essencial é a presença da música e da dança tradicionais. O objetivo de uma “fest-noz” é a dança. Ou seja, um baile. Nas outras regiões da França os bailes populares apenas conhecem as danças “modernas” (valsas, rock, etc) com orquestras que tocam os sucessos do momento, como variedades francesas ou internacionais. Este tipo de bailes também existe na Bretanha mas são mais raros. Muitas festas bretãs, religiosas ou mesmo casamentos, terminam em “fest-noz”. É de sublinhar a necessidade de que haja uma orquestra, cantores ou “sonneurs” para animarem uma “fest-noz”. Discos é que nunca, como acontece nos bailes vulgares. Uma “fest-noz” é ainda um lugar de convívio entre os músicos. O bar também é muito importante!...
            P. – À semelhança de outros grupos da Bretanha os Skolvan atuam tanto nas “fest-noz” como no círculo folk das cidades. Onde é que sentem mais prazer em tocar?
            R. – São ambos importantes. A “fest-noz” permite-nos comunicar com um público de dançarinos, logo, de conhecedores. A simbiose entre a música que tocamos e o prazer dos dançarinos é muito importante. Mas dar a conhecer a nossa música a outros tipos de público é igualmente interessante. Por outro lado os concertos são uma ocasião para tocarmos temas que não costumamos tocar nas “fest-noz”, como marchas ou determinadas melodias. Enfim, a “fest-noz” dá mais espaço à improvisação e à espontaneidade.
            P. – Depois do “boom” da música tradicional bretã desencadeado por Alan Stivell e Glenmor, nos anos 70, houve um interregno de quase duas décadas até ao aparecimento de uma nova geração de grupos como os Strobinell, Storvan e os próprios Skolvan. Mas enquanto a primeira vaga era bastante politizada, a nova parece ter sobretudo preocupações de ordem estética. Será que os músicos estão acomodados?
            R. – O que se passa é que não estamos habituados à situação política do país. A reivindicação é hoje mais subtil. É através da força da nossa música e da nossa cultura que reivindicamos. O Estado francês ainda não conseguiu asfixiá-las. Embora a necessidade de reconhecimento internacional o obrigue à concessão de algumas ajudas financeiras. Mas tem razão quando diz que o nosso percurso artístico é antes de mais (ou unicamente?) estético. Isto não significa que não possamos ser de certa forma militantes. Tocamos gratuitamente para escolas, na Bretanha e demos um concerto de solidariedade para com a Bósnia.
            P. – Os Skolvan mantêm uma postura diferente de grupos como os Bleizi Ruz, Ti Jaz ou le Gop, considerados de fusão. O que pensa deste tipo de opção?
            R. – Não somos juízes desses grupos. Mas, em geral, o resultado parece-nos bastante insuficiente, do ponto de vista estético, embora as experiências não sejam em si negativas. Creio que os Skolvan fazem também fusão, mas de uma forma talvez menos flagrante. Não queremos de modo algum transformar a essência da nossa música.
            P. – Declararam uma vez numa entrevista à “Trad. Magazine” (edição nº 94 de Set./Out. de 94), que “estava fora de questão transformar um ritmo ou um fraseado para a música soar como rock ou reggae”...
            R. – Ou, dito de outra maneira, nem pensar em mudar um ritmo, para parecer “reggae”... Mas se músicos de “reggae” quiserem trazer a sua música e confrontá-la com os nossos próprios ritmos, então tanto melhor! O resultado seria forçosamente música bretã, porque nós continuamos a tocar como antes. Em “Swing & Tears”, apesar do contributo de músicas diversas, como o jazz, o rock ou o reggae, todas as nossas danças, ritmos e pulsações são respeitadas. Eis a razão pela qual penso que os Skolvan são um grupo apreciado tanto pelos bons dançarinos como pelos “velhos” cantores e “sonneurs” tradicionais. Eles não têm a impressão de que a sua música está desfigurada embora, evidentemente, nós a tivéssemos “modernizado”.
            P. – Na mesma entrevista referem que a parte rítmica é o “ponto fraco” da música tradicional bretã...
            R. – Sim, mas apenas no sentido em que as percussões são muito pouco utilizadas. Está tudo por inventar. Tem havido poucas tentativas, salvo da parte dos bateristas de rock, mas essas não serão as mais convenientes para a subtileza dos nossos ritmos. Bateristas de jazz ou étnicos, indianos ou turcos, por exemplo, seriam bastante mais apropriados. Dito isto, no caso de “Swing & Tears”, o percussionista é Dominique Molard, um baterista bretão que toca numa “bagad” [banda de “cornemuses”, em bretão, “biniou” ou “biniou-kozh” (gaita-de-foles), bombardas e tambores, parente das “pipe bands” escocesas, por exemplo].
            P. – Na rapsódia “La banane das l’oreille”, falam de uma “tradição moderna”, o “Cercle circassien”, surgido recentemente nas “fest-noz”, referindo de passagem a Irlanda. Será algo parecido com a “irlandização” da música bretã?
            R. – Não tem nada a ver! O “cercle circassien” veio da Grã-Bretanha, pela via dos meios folk parisienses! É verdade que com alguma frequência o acompanhamento musical é constituído por “jigs” irlandeses, mas outro ritmo qualquer, desde que seja um 6/8, serve. Por exemplo, um dos temas mais populares é uma tarantela italiana. Estes “jigs” são em geral interpretados de forma caricatural, do ponto de vista rítmico. É com isto que nós nos divertimos um pouco no disco, tocando à maneira “rock” no primeiro tema, enquanto os dois últimos soam bastante “irish”.
            P. – Que técnica utilizam para trabalhar os diálogos, típicos dos “sonneurs”, no “biniou” e na bombarda? Estou a pensar no facto destes dois instrumentos serem tocados no grupo, pela mesma pessoa, Youenn Le Bihan...
            R. – Inspiramo-nos nas duplas de “sonneurs”, assim como nos cantores, mas apenas no espírito. O fraseado, as variantes, as improvisações do diálogo entre o “biniou” e a bombarda são reproduzidos por nós pelo “piston” [cornetim] ou o violino com o acordeão.
            P. – Quem é “Mme. Bertrand”, de quem o grupo utilizou um registo de voz, no tema “Gwerz Skolvan” e que volta a ser citada em “Tears”?
            R. – O nome dos Skolvan foi tirado diretamente da interpretação fantástica desse mesmo “gwerz” [forma de canção bretã] por Mme. Bertrand. É uma cantora mítica na Bretanha. Poucas pessoas a conheceram. Mas foi uma das maiores cantoras que a Bretanha alguma vez teve. Quisemos homenageá-la. Foi também uma maneira de mostramos o modo como nos inspiramos para fazer a nossa música. Os temas são em primeiro lugar escutados na sua forma mais despojada e depois arranjados de modo a chegarmos a algo tão elaborado como “Tears”.
            P. – Os Skolvan são tão sanguinários como o nome sugere [“Skolvan”, personagem terrífica...]?
            R. – Isso cabe a si decidir, depois das respostas que lhe dei...

Realejo em "Sanfona" [6º Festival Intercéltico do Porto]

POP ROCK
Quarta-feira, 5 Abril 1995

REALEJO EM “SANFONA”


A SANFONA, ESSE INSTRUMENTO COM ASPETO de besouro gigantesco – um cordofone tocado com teclas e onde é preciso girar uma manivela – cujo som se confunde com as próprias lamentações da Terra, ocupa o lugar de destaque na música dos Realejo. Fernando Meireles, além de as tocar, constrói ele próprio não só sanfonas como outros instrumentos utilizados pelo grupo. A música antiga escrita para este instrumento está na base da criação do grupo, de que fazem ainda parte Manuel Rocha, no violino e bandolim (também elemento da Brigada Victor Jara e, ocasionalmente, da banda acompanhante de Né Ladeiras), Amadeu Magalhães, na gaita-de-foles, flautas, sanfona, braguesa e cavaquinho, Rui Seabra, na guitarra, e Ofélia Ribeiro, a mais recente aquisição, no violoncelo. O reportório dos Realejo estende-se desde a Idade Média ao Romantismo, passando pela Renascença e pelo Barroco, com destaque para os compositores franceses – aqueles que, ao longo dos séculos, cultivaram com maior consistência tanto a construção como a música escrita para a sanfona (é em França que a prática e desenvolvimento deste instrumento se encontram mais desenvolvidos, com largas dezenas de executantes, entre os quais alguns de grande craveira, como Jean-François Dutertre, Gilles Chabenat e Valentin Clastrier, e a organização de concursos e seminários). A música portuguesa tradicional, claro, marca presença em força. Sobretudo a transmontana, cujas características musicais são especialmente “moldáveis à combinação da sanfona com a gaita-de-foles”, como acentua Manuel Rocha. Os Realejo não são um grupo populista, no sentido de fazerem uma música imediatista, antes evidenciam um outro tipo de postura que, em termos musicais, se traduz num classicismo assumido. “Música tradicional de câmara”, como escrevemos uma vez sobre o grupo. Não poderia começar de melhor maneira o Intercéltico. Ainda para mais, na mesma altura em que o grupo lançará o seu primeiro compacto, intitulado “Sanfonia”.

A máquina do tempo [6º Festival Intercéltico do Porto]

POP ROCK
Quarta-feira, 5 Abril 1995

A MÁQUINA DO TEMPO

Faltam dois dias para começar o Intercéltico. Os apaixonados pela folk preparam-se para viajar, com armas e bagagens, até ao quartel-general no Porto. De preferência, o mais perto possível do cinema do Terço, onde os concertos terão lugar. Estamos a falar dos peregrinos vindos das várias regiões do país, porque os portuenses, esses, estão em casa, prontos para acolher um dos acontecimentos culturais que, por força de um prestígio que se vem acentuando de ano para ano, é já um “ex-libris” da cidade, com projeção no resto da Europa. Neste ano, vêm os Realejo, Boys of the Lough, Skolvan, Fairport Convention, Luar na Lubre e Four Men and A Dog. Lisboa vai ter uma amostra.

tem sido assim desde o início. Cada vez com mais expressão. O Festival Intercéltico, neste ano na sua sexta edição, transforma as pessoas e os lugares. Aproxima os sons e as culturas. Redimensiona o tempo e convoca as memórias. Dá voz ao futuro. Tudo em nome de uma música, ou talvez algo mais, de uma particular conceção do mundo que, por todo o planeta, encontra um número de adeptos cada vez mais numeroso. Uma conceção do mundo como lugar de encontro, como unidade que se alimenta e enriquece da multiplicidade de culturas e do diálogo recíproco entre visões e conceções singulares que se complementam.
            A música folk, ou tradicional, ou étnica, ou o que lhe quiserem chamar, não é, nunca poderá ser, apenas um género, uma moda, um objeto de consumo, como alguns – ofuscados pela possibilidade da descoberta de uma nova galinha dos ovos de ouro – pretendem que seja e se apressam a empacotar, construindo para ela os mais belos aviários.

Profissionais da magia

            Não é isto a folk – vamos chamar-lhe assim, para simplificar – mas sim uma música que tem sabido resistir a ser considerada apenas como mais uma moda passageira e a todas as investidas e aliciamentos lançados pela indústria. Quem lhe franqueia as portas entra num outro lugar, de onde não voltará a ter vontade de sair e a partir do qual passará a olhar a realidade com outros olhos. O Intercéltico, as pessoas que fazem o Intercéltico – desde a produção, realização e divulgação, assegurados, com sempre, pela MC-Mundo da Canção, dando mais uma vez corpo a uma iniciativa do Pelouro de Animação da cidade, da Câmara Municipal do Porto, até ao público que enche as salas e sem o qual não existiria o ambiente de pura magia que se tornou numa das características mais aliciantes do festival – sabem tudo isto. Sentem tudo isto. O Festival está hoje completamente profissionalizado, é um facto, mas, por detrás da máquina, pulsa um coração. Um coração que, de há cinco anos a esta parte, por altura da Primavera, bate mais depressa e com mais força.

A eterna questão

            Durante três dias, de sexta a domingo, vão passar pelo Terço alguns dos nomes mais importantes da música folk europeia atual. Neste ano, o cartaz anuncia, por ordem de entrada, os Realejo, Boys of the Lough, Skolvan, Fairport Convention, Luar na Lubre e Four Men and A Dog. Se, em anteriores edições, o programa foi pensado e estruturado em obediência a uma unidade temática (a Bretanha em 1991 ou a folk no feminino, no ano passado), a escolha dos participantes deste ano corresponde a uma certa descompressão, livre de compromissos, estéticos ou de atitude. Em vez disso, a ideia é dar a conhecer e pôr em confronto perspectivas plurais sobre a eterna questão: modernizar ou conservar? Traduzir ou transcrever? Adaptar ou modificar? Aprofundar ou aligeirar?
            A resposta para esta e outras questões até poderá ser encontrada num outro quadro de referências. A linearidade não existe, nesta música para a qual o tempo se molda numa malha de contornos e texturas difíceis de definir. No editorial do programa – o já tradicional “livrinho”, em cada ano com uma cor diferente, que apetece ter e devorar –, pode ler-se sobre a “necessidade de assumir, com rigor e enraizamento, relações interculturais determinadas pelo diálogo fundamentado no respeito mútuo entre os povos. Sem fusões (que normalmente não são mais do que confusões) formalistas nem preocupações ‘world-mercantilistas’, mas antes como ‘cor’ cuja universalidade reside justamente na sua especificidade própria, enraizada e, como tal, identificadora”, Os genuínos amantes da música tradicional, irmanados no sonho – e no ato – de desvelarem uma ilha dos amores que se estenda pelo mundo inteiro, não renegam para afirmar. Sabem que as princesas, os feiticeiros e os dragões apenas mudaram de forma, de castelo e de vestuário. Rompem preconceitos e neblinas. Viajam na máquina do tempo.

Reflexões, entre o musgo e o granito

            Ao lado dos concertos vão estar as chamadas atividades paralelas. Como não podia deixar de ser. Neste aspeto, o Intercéltico funciona como uma espécie de seminário, sem testes nem exames (embora, quem quiser, possa pòr-se à prova...) onde o termo “cultura” se confunde com “festa” e “celebração”. Os diversos itens incluídos são de molde a satisfazer, a vários níveis, o interesse e a curiosidade crescentes que o grande público vem dedicando a esta área e, em particular, ao festival.
            Assim, neste ano, haverá, no sábado, a partir das 16h, nos jardins do cinema do Terço ou, se o tempo não o permitir, numa sala do castelo de Santa Catarina, um debate subordinado ao tema “A imprensa folk europeia”. Nele vão estar presentes, além dos portugueses, jornalistas de conceituadas publicações estrangeiras, como a “Folk Roots” inglesa, representada por Andrew Cronshaw, a “Trad. Magazine”, francesa, por Phillipe Krumm, a “The Living Tradition” escocesa, por Pete Heywood, e a “Ghaita” galega, por Antonio Alvarez, além do jornal galego “A Nosa Terra” que se fará representar pelo já indispensável, nestas andanças intercélticas, Xoan M. Estevez.
            No domingo, terá lugar uma “escapada intercéltica”, com partida do castelo de Santa Catarina, às 10 horas da manhã. O passeio inclui uma visita à Citânia de Briteiros, “para um reencontro com o nosso passado celta, num espaço de reflexão céltico-filosófico temperado pelos granitos e pelos musgos seculares” e um “repasto celta” no alto da Penha, em Guimarães, com cozinha tradicional minhota, seguido de um “passeio digestivo-reflexivo” pela cidade ou, em alternativa, uma visita ao Museu Martins Sarmento, onde poderão ser apreciados vestígios celtas das citânias de Briteiros e do Sabroso.
            Para os mais sedentários, não faltarão, no “hall” do cinema do Terço, a habitual banca de discos e a projeção de diapositivos e filmes alusivos à temática do festival. Ao longo de todo este mês e até princípios do próximo, estará ainda patente, no mercado Ferreira Borges, uma exposição sobre José Afonso, “Andarilho, poeta, cantor”.
            Agora é arrumar as malas e partir. No Intercéltico, a viagem promete terminar no infinito.


6º Festival Intercéltico do Porto
REALEJO • BOYS OF THE LOUGH
SKOLVAN • FAIRPORT CONVENTION
LUAR NA LUBRE • FOUR MEN & A DOG
Cinema do Terço • Porto • 21h30

Noites folk na Aula Magna
BOYS OF THE LOUGH
FAIRPORT CONVENTION
Aula Magna • Lisboa • 22h00


FAIRPORT CONVENTION

OS FAIRPORT CONVENTION, muito mais que um simples grupo folk, são uma instituição. O seu maior feito é a invenção do “folk rock”. Outro é o facto de ainda existirem, mantendo uma vitalidade e uma teimosia que são de assinalar. Os Fairport Convention são ainda os detentores do maior título de sempre para uma canção, devidamente registado no “Guiness”: “Sir B. McKenzie’s daughter’s lamente for the 77th mounted lancer’s retreta from the Straits of Loch Knombe, in the year of Our Lord 1727, on the occasion of the announcement of her marriage to the laird of Kinleakie”. Além disso, o grupo é um manancial de memórias, atravessando épocas e correntes, sempre com a mesma integridade, o que lhe tem permitido ultrapassar obstáculos e tentações – o mesmo já não se podendo dizer em relação a um certo esgotamento de ideias, aparente sobretudo na sua obra discográfica a partir dos anos 80.
            Pelos Fairport Convention – uma banda que começou por tocar canções de Bob Dylan antes da descoberta da música tradicional do seu país, a Inglaterra – passaram nomes que ainda hoje fazem história: Ashley Hutchings, pai do “morris rock” (designação agora inventada); Richard Thompson, o guitarrista depressivo que alinha com os Pere Ubu e os Golden Palominos; Ian Matthews, o baladeiro que emigrou para a América; Dave Swarbrick, o grande-mestre do violino que solava com o cigarro ao canto e se viu obrigado a abandonar o grupo sob pena de ficar surdo; Dave Mattacks, também muito solicitado pelos grupos alternativos, e Dave Pegg, hoje nos Jethro Tull, os dois sustentáculos rítmicos da banda; Ric Sanders, outro violinista de exceção, elemento dos Soft Machine e ex-Albion Band... Para o fim ficou a lenda, Sandy Denny, a cantora de voz inimitável, dama das damas da folk britânica, tragicamente falecida no ocaso dos anos setenta – uma voz que se revelou nos Strawbs, explodiu nos Fairport, amadureceu nos Fotheringay e se pôs à prova no álbum dos quatro símbolos dos Led Zeppelin.
            A história dos Fairport Convention confunde-se com a da própria folk inglesa ao longo das últimas três décadas. O grupo tornou-se um ponto de referência, pelo modo criativo como quase sempre conseguiu conciliar a energia do rock com a vertente tradicional. Vale a pena mencionar os concertos de aniversário celebrados anualmente com a participação de convidados. Num deles, por acaso transmitido há anos na televisão portuguesa, recorda-se as canções de Richard Thompson, a prestação desastrosa – creio que numa delas – de June Tabor (foi na fase em que andava nos Oyster Band...) e os gloriosos despiques de violino travados entre Ric Sanders e Dave Swarbrick. Lambra-se ainda uma atuação memorável dos Fairport Convention, numa das primeiras edições da Festa do Avante! Tronco principal de uma genealogia extensa, os Fairport Convention estão na origem de projetos como os Steeleye Span, Matthews Southern Comfort, Fotheringay, Albion Band, Whippersnapper, Sour Grapes e The Bunch.
            Entre a discografia dos Fairport Convention, contam-se alguns clássicos. Nos anos 60, “Liege & Lief”, de 1969, considerado por muitos uma das obras-primas de sempre do folk-rock britânico. Na década seguinte, o destaque vai para “Full House”, de 1970 – talvez ao mesmo nível de “Liege & Lief”, com um trabalho fabuloso, enquanto instrumentista e vocalista, de Dave Swarbrick –, os conceptuais “Babbacombe Lee”, de 71, história de um inocente condenado à morte, salvo por milagre após três falhas consecutivas da forca, e “The Bonny Bunch of Roses”, de 77, sobre as guerras napoleónicas, além de “Tippler’s Tales”. A década de oitenta vale por “Expletive Delighted”, de 86, um álbum totalmente instrumental. A partir daí, os discos escutam-se com a simpatia e o respeito que a banda merece. Quanto ao novo “Jewel in the Crown”, ainda não houve oportunidade de o escutar. As boas notícias são que, no Intercéltico – e em Lisboa, na Aula Magna –, os Fairport Convention irão tocar clássicos como “The Lark in the Morning”, “Dirty linen”, “Sir Patrick Spens”, “Crazy man Michael”, “Matty groves” e “Meet on the ledge”.


BOYS OF THE LOUGH

ESTÃO PRESTES A ATINGIR trinta anos de carreira, o que faz dos Boys of the Lough uma das bandas de maior longevidade no ativo. Nasceram em 1967, no mesmo ano que os Fairport Convention. Registe-se a coincidência de estas duas bandas já terem tocado na Festa do Avante!, sendo ainda as únicas que, além do Intercéltico, vão atuar no próximo fim-de-semana na capital.
            De início, as influências vieram da América, por via de Leadbelly e Woody Guthrie, da Inglaterra, por via do “folk rock” dos Fairport, Steeleye Span ou dos mais antigos Watersons, e da Irlanda, por via dos Clancy Brothers e Chieftains. Deste emaranhado, os Boys of the Lough evoluíram para uma música que junta as tradições da Irlanda, da Escócia e das ilhas Shetland. A posição do grupo em relação à música tradicional é explicada em termos bastante claros por Aly Bain, o virtuoso do violino Shetland: “Desde o início que nos comprometemos a manter o modo tradicional, tocando sem interferir muito com os cânones (...). Pode pensar-se que tocar da maneira como sempre foi tocada a música tradicional é mais fácil, mas é mais difícil do que fazer arranjos. É mais difícil tocá-la como sempre foi tocada do que modificá-la”. “Lembro-me de, uma vez, Karl Dallas [jornalista do ‘Melody Maker’] nos ter perguntado quando é que íamos passar para os instrumentos elétricos. Mas eu nunca entendi isso como sendo uma evolução. De facto, penso que significa precisamente o contrário”. O que não impediu que os Boys, no seu mais recente álbum, “The Day Dawn”, já com distribuição portuguesa, dedicassem alguns temas às tradições “célticas” do Norte da Europa, em particular às de Inverno. Outro “virtuose” do grupo é o flautista Cathal McConnell, irlandês, campeão aos dezoito anos, neste instrumento e no “whistle”. Dave Richardson, no bandolim, banjo e concertina, substituiu, em 1973, o “político” Dick Gaughan. A ele se deve grande parte da sofisticação instrumental que o grupo passou a ostentar a partir de meados dos anos 70. Christy O’Leary e Tim O’Leary completam a atual formação dos Boys, uma banda importante da grande legião celta mas que passou praticamente desconhecida na sua primeira deslocação a Portugal, há dois anos, na Festa do Avante! De uma discografia de 16 álbuns, realce para o clássico “To Welcome Paddy Home”, “Farewell and Remember Me”, “Sweet Rural Shade” e “The Fair Hills of Ireland”.


LUAR NA LUBRE

QUEM SOMOS? PARA ONDE vamos? Seremos todos irlandeses? Vale a pena pagar uma conta exorbitante de eletricidade? Estas são algumas das questões que, de há uns anos a esta parte, afligem os nossos vizinhos da Galiza, indecisos quanto ao futuro a dar a um legado tradicional riquíssimo. Alheios a toda esta confusão, os Luar na Lubre, como os Milladoiro ou os Muxicas, prosseguem tranquilamente o seu caminho. Não precisam de teorizar, muito menos de buscar alento no jazz, no rock ou na “new age”, à semelhança do que fazem outros grupos galegos. Os três álbuns que editaram até à data contam-se entre o melhor que a música tradicional desta região produziu nos últimos anos. “O Son do Ar”, de 1988, “Beira Atlantica”, de 1990, e “Ara-Solis”, de 1993 – todos com distribuição portuguesa pela MC-Mundo da Canção, embora so dois primeiros, sem edição em CD, sejam difíceis de encontrar – formam uma trilogia de beleza inigualável, urdida com névoas e encantamentos, envolta numa noite que “nunca sabemos onde começa ou acaba”, para utilizar as palavras do poeta galego Manuel Maria. “Uma estranha música que canta no nosso ser crente e duvidoso”. Os Luar na Lubre – luz da lua batendo sobre a “lubre”, pedra sacrificial – formaram-se em 1986, na Corunha, para fazer “música tradicional galega, com raiz celta”. Um celtismo que eles não renegam, antes afirmam com orgulho: “Acreditamos que existe uma música celta, ainda que, na Galiza, existam influências de outros tipos de música, mas isso não significa termos que renegar a componente céltica, por muito que isso custe a alguns”. Comparados por alguns aos Milladoiro, talvez pelo rigor e complexidade que põem nos arranjos, os Luar na Lubre tomam como base os cancioneiros tradicionais, a que acrescentam um trabalho de composição fundamentado na pesquisa etnomusicológica. “O que fazemos”, diz Bieito Romero, gaiteiro do grupo, “é uma música de raiz com uma evolução: incorporamos instrumentos, imprimimos-lhe uma determinada matriz sonora que não corresponde ao que se escuta a um camponês ou às orquestras tradicionais. O mais importante já está feito; agora trata-se de assegurar uma certa continuidade: aulas de gaita-de-foles, lugares onde se possa apresentar a música...” Palavras que infelizmente não encontram eco em Portugal. Enquanto celtistas e não-celtistas esgrimem argumentos, os Luar na Lubre continuam a tecer os seus encantamentos de “druidas envoltos nos fumes das lubres”. Bieito Romero encolhe os ombros: “Para mim, a expressão ‘música céltica’ é adequada, pois designa a música que se faz nos países célticos e estes existem. O único país que duvida, ele próprio, que é celta é a Galiza!”


FOUR MEN AND A DOG


“A NOSSA MÚSICA É LIVRE e espontânea, e é isso que a mantém fresca e atrativa. Se sentimos que nos apetece andar às voltas pelo palco, então fazemo-lo. Mas, se nos apetecer beber algo em pleno palco, nós bebemos. E, se quisermos gritar, por que não fazê-lo?” Quem o diz é Gino Lupari, figura carismática, de porte imponente, tocador de “bodhran” e contador oficial de anedotas dos Four Men and a Dog. Quem já os viu em palco diz que são fogo. “Demónios celtas” foi a melhor maneira que um elementos dos asturianos Llan de Cubel encontrou para definir a prestação ao vivo desta banda originária do Ulster, na Irlanda do Norte. “Penso que somos um grupo a vapor (...). Não levamos nada demasiado a sério (...). Ensaios? Quem precisa deles?”, diz ainda Lupari, para quem o grupo apenas procura divertir-se e divertir o público. Com um reportório baseado na música de dança, os Four Men & A Dog são, porém, capazes de surpreender com baladas de “crooners” alcoolizados ou desbundas de experimentalismo que os colocam numa posição sem paralelo na grande família das “Irish traditional bands”. Foi esta combinação de humor, irreverência e festa constante, aliada ao virtuosismo dos executantes, que levou a “Folk Roots” a considerar o álbum de estreia do grupo, “Barking Mad”, o melhor de 1991, para, alguns meses mais tarde, ser a vez dos leitores da revista elegerem os Four Men “melhor banda” e “melhor banda ao vivo”. Este e o álbum seguinte, “Shifting Gravel”, têm produção de Arty McGlynn, que chegou a fazer parte do grupo, tendo mais tarde abandonado. Outro ilustre da banda é Gerry O’Connor, emérito violinista e tocador de banjo, conhecido pelo seu trabalho nos La Lugh e Skylark. O novo álbum “Doctor A’s Secret Remedies” aguarda distribuição nacional. Entretanto, o que falta aos Four Men & A Dog para chegarem ao topo? Pouca coisa. Como diz Gino Lupari: “Brevemente seremos uma grande banda – só teremos que nos livrar do violinista, do guitarrista e do banjista!”

Hedningarna - Tra [Álbuns do ano em World]

Pop Rock

14 Dezembro 1994
ÁLBUNS DO ANO EM WORLD


HEDNINGARNA
Tra

Pelo segundo ano consecutivo, os Hedningarna assinam o melhor álbum do ano. Por este andar, e no caso de estes suecos lançarem anualmente um novo disco, arriscam-se a ter lugar cativo nesta secção. Para já, “Tra” está ao mesmo nível do anterior “Kaksi!”, considerado o melhor do ano transato.
A curiosidade estava desta vez em verificar de que maneira o grupo sueco conseguiria encontrar uma porta de saída que lhe permitisse continuar a ditar leis sem cair na repetição. Escolheram dar um passo em frente pelo lado da energia, levando ao absurdo as possibilidades oferecidas pela música tradicional nórdica. Ao ponto de se arriscarem a que se lhes chame um grupo de “rock’n’roll”, um rótulo que se calhar até nem os aborrecerá muito, de tal forma soltam a violência e os ritmos cerrados numa música que não se envergonha de ser totalitarista e avassaladora. Por onde passam, os Hedningarna deixam atrás de si terra queimada. O xamanismo mágico, essa técnica que visa a convulsão do corpo e do espírito para os libertar das grilhetas mentais, encontra aqui terreno fértil, mesmo que nem sempre da forma mais convencional. Para os Hedningarna vale tudo, desde a exploração quase indecente das sonoridades “proibidas” dos instrumentos tradicionais, como a gaita-de-foles e a sanfona, até caminhos que rondam áreas mais urbanas da música e passam, num dos temas, pela utilização “industrialista” de uma moto-serra. Depois, as vozes femininas de Sanna Kurki-Suonio e Tellu Paulasto também raramente têm um momento de sossego, em constante corpo a corpo com as percussões omnipresentes de Björn Tollin. Para os mais tradicionalistas, a audição de “Tra” poderá constituir uma experiência aterradora, podendo mesmo levantar-se a questão de se o que eles se propõem fazer não é afinal destruir a própria música tradicional, como a conhecíamos, para construir no seu lugar uma linguagem que Nietzsche não desdenharia perfilhar. Seja qual for a resposta futura, fica uma certeza, a de que os Hedningarna continuam a caminhar absolutamente sós num mundo novo cujo mapa só agora começamos a vislumbrar.


Não assinado

25/08/2016

Billy Bragg - Don't Try This At Home

BILLY BRAGG
Don’t try this at home
LP duplo/CD, Go! Discs, distri. Polygram



            Nem em casa nem noutro lugar qualquer. Billy Bragg prossegue a sua saga contra as injustiças do mundo, com os ocasionais interlúdios amorosos de permeio. Em relação a discos anteriores, assiste-se a um refinamento da produção (uma concessão ao “music-hall” que chegou ao ponto de o próprio produtor se chamar “Showbiz”), e até (pasme-se) do desempenho vocal deste “cantor de protesto”, para quem a música pop é o meio ideal de propaganda de uma boa (ou má) ideologia. As referências musicais são variadas, para que a mensagem seja destilada da forma o menos enfadonha possível. Há um pouco de tudo em “Don’t try this at Home”): ecos de Leonard Cohen (“Moving the Goalposts”), dos Moody Blues (será possível? – em “Cindy of a thousand lives”), de Julian Cope (“Trust”, “Sexuality”), juntamente com as cordas, plenas de dramatismo, de “Rumours of war” ou o encosto à country em “You woke up my neighbourhood”. Entre a vulgaridade mais ou menos bem disfarçada, o melhor acaba por ser as letras, um catálogo completo das obsessões e preocupações do autor. Para dourar a pílula, não falta sequer a ajuda de nomes como Michael Stipe e Peter Buck (dos REM), Kirsty McColl, Johnny Marr e Danny Thompson, em “Dolphins”, uma das canções verdadeiramente belas de um álbum subjugado pelo peso da “mensagem”. **