04/03/2019

UHF - La Pop End Rock


Y 20|JUNHO|2003
música|uhf

Nos 25 anos de carreira, um auto-retrato em forma de ópera-rock. António Manuel Ribeiro, Joad, numa viagem que se inicia no rock e não se sabe como termina. “La Pop End Rock”.

cavalos de corrida


2003 não é boa altura para se fazerem óperas rock. Aconselha a prudência a que se apague, pelo menos, o termo “ópera”. Os UHF fizeram ouvidos de mercador e foram para a frente com o seu último projeto, uma “ópera rock” intitulada “La Pop End Rock”, lançada – oh, heresia! – em duplo CD, com um rótulo a assinalar 25 anos de carreira.
            Os UHF podem não ser o grupo mais sofisticado do mundo mas serão, e sobre isso haverá poucas dúvidas, um dos mais coerentes e corajosos. Sempre fizeram o que achavam que deviam ser feito, sem olhar a preconceitos nem se deixando levar pelos ventos da moda. “La Pop End Rock” é, segundo os próprios, uma “obra ficcionada sobre a carreira oficial e a vida não documentada dos UHF”. Ficcionada ou não, as letras e as notas informativas sobre cada tema, que podem ser lidas no “livrete” fornecido independentemente (não cabia na caixa de plástico) do CD, remetem para ou descrevem episódios nos quais é difícil não descortinar peripécias e personagens reais que atravessaram a vida do grupo.
            António Manuel Ribeiro (AMR) é Joad, o herói, como Peter Gabriel o fora, com o pseudónimo Rael, em “The Lamb Lies down on Broadway”. As restantes personagens incluem uma fada, Ana, um crítico, um fã, o velho pastel, Shi, um dealer, o agente e duas groupies. E um coro (personificado num “grito de mãe”, no “homem da garagem” ou na “voz da serpente”), que a intervalos sublinha ou antecipa a ação, proclamando em registo épico: “genial”, “hospital”, “anormal”, “tribunal”. O tema de abertura, “Nascer/Os Primeiros acordes”, conta com a intervenção de uma orquestra sinfónica e, lá mais para a frente, é possível escutar-se naipes de cordas, além das guitarras de António Côrte- Real, o piano e Jorge Manuel Costa e, claro, a voz, mas também os sintetizadores, de AMR.
            Ao todo são 35 histórias/episódios/fragmentos, em registos que vão do confessional ao descritivo, do esoterismo místico dos contactos com uma misteriosa fada ao realismo exacerbado da vida na estrada – “Mais frango, não”, brada AMR em “Uma história com (a)gente”. Histórias que falam da droga, do álcool, da noite, da solidão, das ressacas, do desencanto, da desistência, do abandono e da reconciliação. De amores passageiros e amores que deixam marcas para sempre. Encontros e separações. Glória e rotina. Da alegria e das pulsões suicidárias. Dos palcos, das terras por onde se passa até se lhes esquecer os nomes, e dos hotéis. Dos críticos e de canções. Dos putos – os fãs, todos “número um”. Da raiva, de quimeras e de guitarras elétricas. De Joey Ramone. Do rock‘n’ roll. E, em epílogo, do DJ que”como ninguém, quer matar a cantiga”.

            um género que fez história. Foi nos anos 70 que o género “ópera rock” levou ao absurdo a fórmula do “álbum conceptual” que animou uma fatia razoável do rock progressivo. Se o rock progressivo era sonho, ambição e literatura, a “ópera rock” foi teatro e exagero. “Tommy” e “Quadrophenia”, dos The Who, permanecem como paradigmas de um género que, já no ocaso da década, originou “The Wall”, dos Pink Floyd e que antes passara, mais ou menos camuflado, por “The Lamb Lies Down on Broadway”, dos Genesis. Já “Hair”, “Oh, Calcutá” ou “Jesus Christ Superstar” inserem-se sobretudo na tradição do teatro musicado, no “music hall”, imbuído do espírito “hippie”, mais do que no teatro popular, de cabaré e cariz ideológico marcadamente de esquerda, desenvolvidas por Brecht, Kurt Weill e Hans Eisler. Antepassados da ópera rock, encontramo-los recuando aos anos 60, em obras como “S. F. Sorrow”, dos Pretty Things (da qual se diz ter influenciado Peter Townshend na idealização dos seus projetos megalómanos com os the Who) ou “The Story of Simon Simopath”, da banda inglesa de pop psicadélica Nirvana.
            Na atualidade, músicos/escritores como Philip Glass, Laurie Anderson, Robert Ashley, Meredith Monk, Heiner Müller ou Tod Machover subtraíram ao género o “rock”, substituindo-o por “vídeo”, “multimédia”, “performative art”, “programático”, etc, de acordo com conceções que revertem as formas tradicionais do teatro para os novos moldes permitidos pela introdução das novas tecnologias eletrónicas, tanto ao nível gráfico e cenográfico como musical. Os UHF apenas pretenderam contar uma história. A sua história. Com circunstância e alguma pompa. “Ópera rock” oblige...

            pela estrada certa. As pretensões dos UHF são mais modestas. Embora AMR, referindo-se à efeméride do 25º aniversário do grupo, afirme, sem falsas modéstias: “Se fôssemos americanos estávamos a caminho de sermos carimbados no rock ‘n’ roll hall of fame!”. Em vez de um álbum de tributo (“significa em geral que já se está com os pés para certo sítio!...”) preferiu a “provocação” do formato “ópera rock”. “Resolvemos ser nós a fazer a nossa história antes que aparecesse alguém a fazer alguma parvoada”.
            Fazer este duplo álbum exigiu dedicação a tempo inteiro. Só “La pop end rock”, chave do álbum, garante o veterano rocker nacional, “passou por três arranjos diferentes”. “La Pop End Rock” é álbum que permitirá aos admiradores do grupo, além da música, deliciar-se com a decifração das charadas que se encontram disseminadas pelas letras (quem é “Aime eme ra”?). “La Pop End Rock” tem orquestra, tem canções com a força de “Cavalos de corrida”, tem uma mística que o grupo, a mal ou a bem, tem conseguido manter intacta e bem colada ao corpo.
            Há quem odeie, quem encolha os ombros com desdém, mas também quem sinta uma curiosidade irresistível de espreitar para dentro de “La Pop End Rock”, nem que seja para avaliar o estado do rock em Portugal. Históricos ou dinossáurios, não desistem de dar o salto em frente e de não estancarem o fluxo de adrenalina que continua a escorrer sempre que se liga uma guitarra elétrica à corrente. AMR, Joad, é o herói com uma causa, o sobrevivente, o noctívago-agora-menos que fala dos Velvet, dos Doors, de Neil Young, de Keith Richards e de Peter Hammill, que afirma que “o rock português é do mais bem escrito do mundo” e que permanece à boca de cena a cantar “Do céu ao inferno, pode ser assim, do céu ao inferno, sem sair daqui!”. Provocatório, “La Pop End Rock” é um álbum sem papas na língua que obrigou mesmo a que se lhe colasse na capa o rótulo “linguagem explícita”. AMR é um pedaço vivo da tradição do rock ‘n’roll em busca, ainda e sempre, da redenção. “Por três minutos na vida/Acharei a felicidade/Na canção prometida/A minha felicidade”.
            Entre os naipes de violinos, o piano introspetivo, as guitarras galopantes e melodias que não cessam de dar a volta ao que sempre se trauteou dos UHF, descobrem-se boas canções: “Um anjo no meu quarto”, “Fora da garagem, já!”, o sarcástico “Quero um lugar no top inglês”, “Uma história com (a)gente”, “Joey Ramone”, “A noite inteira”, “A lágrima caiu”, “Por uma guitarra elétrica”, “Aqui vamos nós/sem disfarce”, a velvetiana “Memórias de hotel”, “Por três minutos de vida”, “Ai eme ra”... Joad há-de continuar a procurar, pela estrada, a que seja perfeita. A cantar “Eu escolhi a estrada certa”. A máscara de AMR é transparente.

UHF
La Pop End Rock
2xCD Capitol, distri. EMI – VC
7|10

Tomahawk - Mit Gas


20|JUNHO|2003 Y
discos|roteiro

TOMAHAWK
Mit Gas
Ipecac, distri. Sabotage
8|10

A capa é um delírio de arabescos e dourados à maneira de Rabih Abou-Khalil mas mal se põe a rodela no leitor, sente-se a queimadela. “Mit Gas” é um disco de rock daquele que rola e esmaga e queima. Os Tomahawk são um dos múltiplos projetos de Mike Patton, mas aqui não há nem a raiva cega dos Faith no More nem o humor alucinado dos Mr. Bungle, embora tenha um pouco dos dois. É rock, mesmo, de “caterpillar”, com níveis elevados de inteligência e espírito de risco. Guitarras esparramadas em “wall of sound” de mil e uma gravidades, eletrónica radiofónica, “free noise” e vocalizações que exalam o mau-hálito do inferno convergem num espetáculo de “grand guignol” que ata a fúria do punk à Broadway de espectros de Jim Thirlwell, quando travestido de Scrapping Foetus off the Wheel. Patton, como sempre, está bêbedo de ideias. Canta em espanhol em “Desastre natural”, soletra anedoticamente os Radiohead na entrada de “Capt midnight”, faz de “crooner” (Zappa em “Harelib”, Beefheart em “Aktion 13F14”), sampla os Negativland de “Is there any escape from noise?”, em “Harlem clowns” e em toda a sequência final de “Mit Gas” é uma queda no abismo da incongruência. Espantosa é a forma como os Tomahawk colam os cacos e constroem um painel que reflete a psicose dos dias de hoje. O rock, esse, foi uma vez mais salvo sobre a linha de chegada.

Mafalda Arnauth - Encantamento


20|JUNHO|2003 Y
discos|roteiro

MAFALDA ARNAUTH
Encantamento
Virgin, distri. EMI-VC
9|10

No meio das divas, semi-divas e candidatas a divas que vão proliferando no “novo fado”, Mafalda Arnauth continua na dianteira e a dar cartas. Antes de mais e antes que nos esqueçamos: “Encantamento” é o melhor disco de sempre da cantora e um dos melhores do fado, “tout court”, editados nos últimos anos. Mafalda está a cantar como nunca, sublimemente, o que se deve em parte às aulas de canto recebidas, que resultaram num domínio absoluto da respiração e da projeção, aliviando o “stress” e a pressão, enterrando o medo. Dizendo de outra forma: Mafalda canta agora como quem respira. Como quem vestiu, sem agasalhos, a alma inteira. As ornamentações e o rubato fluem com a naturalidade de uma...vamos mesmo ter que dizer o nome...Amália... embora nunca a originalidade de um canto e uma sensibilidade poética próprios se revelassem, como aqui, com a luminosidade – aquela onde a Beleza se cruza com a mágoa – que ressalta de fados como “As fontes”, “Sem limite”, “Da palma da minha mão” ou “Canção”. “Irei beber a luz e o amanhecer, irei beber a voz dessa promessa, que às vezes, como um voo, me atravessa e nela, cumprirei todo o meu ser”. As palavras são de Sophia de Mello Breyner, em “As fontes”. Mafalda Arnauth fê-las suas e cumpre a promessa.

At-Tambur - At-Tambur


Y 20|JUNHO|2003
roteiro|discos

AT-TAMBUR
At-Tambur
Ed. Tradisom
8|10

Depois dos Vai de Roda, Gaiteiros de Lisboa e dos Realejo, eis a mais recente revelação da folk portuguesa. Têm vários pontos a seu favor, o menor dos quais não será o de todos os seus membros saberem tocar, aliando a formação clássica de alguns deles e muito trabalho de ensaios. Inseridos numa tradição nobre da folk europeia, de grupos como Blowzabella, Lo Jai ou La Ciapa Rusa, os At-Tambur cultivam o gosto pelo ecletismo e pela improvisação, sem que isso implique o esquecimento das regras e das pulsações tradicionais. A partir de um reportório que inclui composições próprias, tradicionais portugueses (os únicos vocalizados), sefarditas e escandinavos, ao lado de um “jig” de Paul James (Blowzabella) e um “bourrée” de Gilles Chabenat (arranjado e executado de forma superlativa, os grandes grupos atrás citados fazem assim!), e utilizando uma paleta instrumental rica (sanfona, violino, flautas, acordeão, gaita, cordas, etc) os At-Tambur criam “tradições imaginárias”, passam pelo minimalismo, pela música de sabor antigo e pela excelência de baladas como “D. Fernando”, com um sentido estético inultrapassável que apenas pecará por certas “adiposidades” ao nível da improvisação. Nada que o próximo disco não lime. Um clássico instantâneo.

Chick na Matrix [Chick Corea]


14 JUNHO 2003
JAZZ
DISCOS


Na antecâmara do “jazz rock”, Chick Corea montou um jogo de ilusões onde a realidade do jazz não é o que parece. E afirmou e estendeu os seus limites quando toda uma geração se ligava à eletricidade.

Chick na Matrix

Pianista de múltiplas facetas — do “latin jazz” ao free jazz, do “cool” ao “hard bop”, da música brasileira e das espanholadas ao jazz rock, passando pelo tecido impressionista e a improvisação, Chick Corea tem sido uma espécie de “rival” de Keith Jarrett, inclusive no bigode.
            O homem que em meados dos anos 60 substituiu Horace Silver no quinteto de Blue Mitchell, no Verão do Amor de 1967 marcou presença no quarteto de Stan Getz e, dois anos mais tarde, entrou para o quadro de honra de “In a Silent way”, de Miles Davis (tirando o lugar a Herbie Hancock), é o mesmo homem que, já na década de 70, cedeu ao sol e aos aromas de maresia da música brasileira (com os Return to Forever), cometeu o pecado do funk e da fusão (se “Romantic Warrior” e “The Leprechaun” são queridos mesmo dos apreciadores de rock progressivo, já coisas como “My Spanish Heart” e “Music Magic” são pastilhadas dificilmente tragáveis...) e, finalmente, sacudiu o rock do capote, redescobrindo na ECM e na GRP a luz e os prazeres do jazz.
            Mas, em 1968, o jazz corria ainda como jazz, embora as correntes de energia do rock estivessem prestes a infiltrar-se. “Now He Sings, Now he Sobs”, lançado nesse ano pelo pianista em trio com Miroslav Vitous, no baixo, e Roy Haynes, na bateria, é um clássico coreano. Ao contrário do vinilo, com selo Solid State, com apenas cinco faixas, a presente reedição em CD reúne a totalidade dos 13 temas da sessão original. Em remasterização de 24-bits.
            Percetível o gosto do pianista pelas ornamentações impressionistas e um fraseado onde a extrema precisão do “touching” se alia a um timbre cristalino. “The law of falling and catching up” prima pelo experimentalismo, com Corea a percutir as cordas do piano e Vitous e Haynes a pulverizarem o tempo, dando sequência a um fabuloso “Samba yantra”, onde o “hard” serve tanto o brasileirismo já latente nas suas conceções como um misticismo recorrente (outro ponto em comum com Jarrett...). “Fragments”, em regime “free”, joga com a aceleração, os círculos, a secura e um fantástico trabalho de pontuação de Haynes, enquanto “Windows” regressa à pura sedução da melodia e às tonalidades “cool”. Um original de Monk, “Pannonica”, e “My
one and only love” permitem vislumbrar por detrás da cortina os olhares de Bud Powell, Bill Evans, Hancock e McCoy Tyner, sublimados por uma síntese visionária.
            “Now He Sings, Now he Sobs”, no seu movimento dialético de aproximação e distanciamento da Beleza (“Clinging to beauty; clinging to ugliness”), apresenta ainda um curioso toque de profetismo, na faixa “Matrix”. “O vento sopra sobre o lago/E agita a superfície da água/Assim se manifestando os efeitos visíveis do invisível”, pode ler-se no emblema zen da capa. Ocultação/desocultação, realidade e aparência. Como é a própria estrutura, toda ela ilusória de “Now He Sings, Now He Sobs” (o disco foi montado a partir de fragmentos sabiamante colados e improvisações estruturadas “a posteriori”). “Matrix” que, de entre todos os temas onde o jazz se torna realidade a partir de jogos, é o único tema composto de forma tradicional. Corea, 30 anos antes de Neo, penetrara já no programa de “Matrix”.
            Igualmente disponíveis em reedição remasterizada da Blue Note estão “The Complete ‘Is’ Sessions”, gravadas em 1969 em Nova Iorque, por Corea, Woody Shaw (trompete), Hubert Laws (flauta, “piccolo”), Bennie Maupin (saxofone tenor), Dave Holland (baixo), Jack DeJohnette (bateria) e Horace Arnold (bateria e percussão).
            Corea integrava então o grupo que gravou com Miles Davis o álbum “Filles de Kilimanjaro”, com DeJohnette e Dave Holland. Período de excitação e descobertas. “Estávamos constantemente a forçar, a tocar de uma maneira completamente livre, à espera que Miles nos dissesse alguma coisa. Como não dizia nada, forçávamos ainda mais.” “The Complete ‘Is’ Sessions” reflete esta liberdade, constituindo um complemento perfeito para a música da fase elétrica do trompetista. Woody Shaw já inoculara no pianista a adrenalina e o veneno da fusão. Maupin delira no “free”. Laws confere lirismo e floreados progressivos. Corea passa grande parte do tempo agarrado ao piano elétrico, continuando as explorações encetadas com Miles, a abrir caminho para a entrada em cena de grupos como os Soft Machine e Nucleus (“Sundance” antecipa obras como “Third”, “42 e 5”, dos Softs, ou “Elastic Rock”, da banda do trompetista Ian Carr). Miles preparava a ogiva nuclear “Bitches Brew”. Os Lifetime de Tony Williams abriam trincheiras com arame farpado. John McLaughlin recebia instruções do seu guru para formar a Mahavishnu Orchestra. Wayne Shorter e Joe Zawinul tinham aprendido, ainda com Miles, os fundamentos que dariam origem aos Weather Report. Na época em que o “jazz rock” se preparava para virar o jazz do avesso, tudo se movia e transformava. Corea, curiosamente, relia os manuais do “hard bop” e do “free”, firme no meio da confusão e excitação que se instalara. Quando o “jazz rock” o agarrou, por fim, o tempo das descobertas, o seu tempo, tinha passado. “Is” é, paradoxalmente, a afirmação da tradição levada ao paroxismo e às fronteiras de um futuro que se revelaria glorioso ou letal para todos os “jazzmen” que ousaram dar o passo em frente.

CHICK COREA
Now He Sings, Now He Sobs
8 | 10
The Complete “Is” Sessions
2xCD
9 | 10
Blue Note, distri. EMI-VC

25/02/2019

Requiem pela dama de negro [Nico]


13|JUNHO|2003 Y
ciclo|cinema


requiem pela dama de negro

Warhol viu nela o escândalo. Garrel a beleza da tragédia. Nico passou pela vida e pela obra de ambos da mesma maneira que a sua música marcou os Velvet Underground e deixou cicatrizes dentro de cada um de nós. Não se adora a lua impunemente. Para adorar, na Cinemateca, este mês.

Nico, cantora e atriz – diz o mini-ciclo na Cinemateca Portuguesa. Nico, mulher fatal. Philippe Garrel, cineasta. Ele afirmou um dia que fazia filmes para não se suicidar. Ela tomava comprimidos para dormir, comprimidos para acordar e comprimidos para viver. Costumava desfalecer sem razão aparente. Estavam destinados a encontrar-se e a viver um com o outro. Assim aconteceu até ao dia em que ela morreu, a 18 de Julho de 1988, às oito horas da noite, no hospital de Nisto, em Cannes, aos 50 anos, vítima de uma hemorragia cerebral provocada por uma queda de bicicleta, ao esbarrar contra uma árvore quando dava um passeio por Ibiza.
            Ele nunca se conseguiu libertar do fantasma e continua a filmar como se ela continuasse presente – a esfinge. A deusa da lua, como lhe chamavam. Nico e Philippe Garrel. Como antes tinham sido Nico e Fellini, Nico e Brian Jones, Nico e Alain Delon, Nico e Bob Dylan, Nico e Andy Warhol, Nico e Lou Reed e John Cale, Nico e Jackson Browne. Nico e Warhol é igual a Chelsea Girls (vai ser exibido no dia 18, às 21h30). Nico e Garrel é igual a La Cicatrice Intérieure (dia 25, às 21h30) e a Les Hautes Solitudes (dia 26, às 21h30).
            Nico e a morte. Morte que cada um podia ver a brilhar nos seus olhos azuis de cristal, na sua voz de mármore, na sua música de orgasmos gelados. Nico foi a lápide erigida ao rock dos anos 60 que sobreviveu pela década seguinte como uma máscara de cera mantida viva artificialmente por alguns dos homens que a veneraram como se venera a noite. John Cale, produtor de álbuns como “The End” e “Drama of Exile”, que fez dela a diva petrificada da new wave, do gótico e da eletrónica zombie. E Garrel, claro, que com ela viveu, com ela enlouqueceu e com ela filmou “La Cicatrice Intérieure” (1972), “Athanor” (1972), “Les Hautes Solitudes” (1974), “Un Ange Passe” (1975), “Le Berceau de Cristal” (1976), “Voyage au Jardin des Morts” (1978), “Le Bleu des Origines” (1979) e, já como presença fantasmática, post-mortem, “J’Entends plus la Guitarre” (1991) ou “Sauvage Innocence” (2001).

            serei o teu espelho. E, no entanto, Nico era outra. Quem, não se sabe. Não se soube nunca. Apenas que era loura mas que ficou imortalizada como morena, cor mais adequada às feiticeiras. Ou “another cooler Dietrich for another cooler generation”, como alguém a caracterizou, adivinhando-lhe o carisma de mulher fatal, sem saber até que ponto este “fatal” seria levado à letra. Apenas que não se chamava Nico mas Christa Päffgen (foi um fotógrafo que, aos 15 anos, em Ibiza, lhe pôs este nome, em homenagem a uma namorada morta, Nico Papatakis, a morte, sempre a morte). Apenas que não era cantora mas que a sua voz, vinda sabe-se lá de que abismos do ser, não teve paralelo em nenhuma outra intérprete da música popular. Apenas que não era música mas que a música que nos deixou, composta embora por outros, nos arrepia. Como um romance de Lovecraft em que uma personagem louca desenterra o “Necronomicon” para insuflar vida aos mortos.
            Nico foi, acima de tudo, uma personagem. Um molde. Um silêncio adequado à construção do mito. Com “Bitter dreams are made of this” afixado em cartaz.
            Garrel fez dela uma presença (ou uma ausência) de luz negra, personificação daquela eternidade que os poetas românticos Holderlin e Novalis encaravam como a dissolução final nas trevas, na grande noite universal, mãe dos sonhos e das quimeras. Em “Le Bercaeu de Cristal” a única voz que se ouve é a dela, declamando um poema, sobre a música do guitarrista Manuel Gottsching, dos Ash Ra Tempel (a BSO está disponível em CD numa belíssima edição da Spalax), designação então já encurtada para Ashra, de cuja formação fazia parte, precisamente, Lutz Ulbricht, amigo e empresário da cantora e antigo elemento do grupo de “krautrock”, Agitation Free.
            Podemos encadear algumas peças soltas. O que Gottsching/Ashra compõe é um mantra de sonoridades cósmicas que, progressivamente, coloca o espectador em transe, num cume mental a que o final do filme põe termo de forma abrupta, como uma ressaca instantânea.
            São as “altas solidões” de que Nietzsche fala na sua obra poético-filosófica e são deste filme as imagens que ilustram a capa de “The End...”, álbum de 1974, com produção de John Cale, de cujo alinhamento faz parte uma versão, ainda mais agonizante que o original, de “The end”, de Jim Morrison que, por sua vez, travou conhecimento com a germânica em moldes que a câmara de Oliver Stone filmou – em “The Doors- O Mito de uma Geração”, biografia ficcionada dos The Doors – de forma pouco católica, elipse que subentende uma sessão de sexo oral entre os dois, num elevador. Dificilmente representável como ícone sexual ou erótico, independentemente das sugestões de necrofilia que a sua figura pode induzir (há quem jure ter visto o seu rosto transformar-se numa caveira, durante um concerto realizado numa catedral em França nos anos 70) restava, ainda neste caso, a representação pela ausência ou pela redução à sexualidade despojada de qualquer sentimento. Nico, ainda e sempre, a pedra tumular sob a qual se escondem segredos insondáveis.

            a vida amarga. Christina Päffgen, ou Päfgens, ou Pfäffen, nasceu em Budapeste, em 1938, filha de mãe espanhola e pai jugoslavo (morto num campo de concentração nazi). Começou por ser costureira e, aos 13 anos, vendeu “lingerie”. Um ano mais tarde já trabalhava como modelo em Berlim. Participou pela primeira vez como atriz numa cena, filmada em Capri, de “For the First Time”, de Rudolph Maté, com Mario Lanza. Conheceu Ibiza e por lá ficou. A lua buscando a proteção do sol.
            De férias, em 1959, num “palazzo” em Roma, um amigo convidou-a para figuração em “La Dolce Vita”, de Fellini. Passeou-se no “plateau” com um candelabro nas mãos, numa festa. O realizador reparou nela (quem não repararia?) e convidou-a para participar no filme. Nascia o mito.
            Depois de assistir a aulas de representação no Actor’s Studio, de Nova Iorque, na mesma classe de Marilyn, conseguiu um dos principais papéis em “Strip-Tease”, de Jacques Poitrenaud. Gravou com Serge Gainsbourg o título-tema mas o single não foi editado, surgindo em seu lugar uma outra versão, por Juliette Gréco.
            Em 1964 conheceu Brian Jones, dos Stones, que a apresentou a Andrew Loog Oldham, então produtor do grupo. Gravou para o selo Immediate o single “I’m not sayin’”, composição de Gordon Lightfoot, com o guitarrista Jimmy Page, que se viria a notabilizar nos Led Zeppelin, e produção de Oldham.
            Uma relação amorosa com o ator Alain Delon, da qual nasceu um filho, Ari (há uma canção dedicada a ele, em “The Marble Index”) antecipou outro encontro, desta feita com Bob Dylan, que lhe ofereceu “I’ll keep it with mine” (mais tarde incluída no álbum de estreia da cantora, “Chelsea Girl”) e lhe dedicou “Visions of Johanna”, do álbum “Blonde on Blonde”. É Dylan quem, por intermédio do poeta Gérard Malanga, a conduziu à boca do lobo e da glória, Andy Warhol, que a convocou para participar nos seus filmes experimentais, como “The Chelsea Girls” (1966, mítico jogo de bobines intermutáveis das quais a cantora alemã protagoniza as marcadas com número de série 1, “Nico in kitchen”, e 12, “Nico crying”), “Screen Tests” (1964-66), “The Velvet Underground & Nico (A Symphony of Sound” (1966), “I, a Man” (1967, este com assinatura, na realização, de Paul Morrisey) ou “Imitation of Christ”.
            A sua vontade de fazer carreira como cantora, leva Warhol a integrá-la no espetáculo multimédia Exploding Plastic Inevitable e, consequentemente, nas gravações do mítico “álbum da banana” dos Velvet Underground, onde vocaliza três memoráveis composições de Lou Reed, “Femme fatale”, “All tomorrow’s parties” e “I’ll be your mirror”. Ao vivo, canta em clubes como o Blue Angel, acompanhada, além de Reed, Cale e Sterling Morrison, por futuros ilustres como Tim Hardin, Tim Buckley e Jackson Browne, com quem manterá uma curta relação e que lhe oferece as canções “These days” e “The fairest of the seasons”, ambas incluídas no disco solo de estreia.
            Mas os Velvet, no meio de disputas entre Cale e Reed provocadas pelo ciúme, não suportam a pressão de se verem ofuscados pelo brilho da estátua e despedem-na. É Cale, porém, quem relança a sua carreira a solo, ao produzir “The End...” (1974), já depois da cantora ter lançado em 1969 o que poderá ser considerado a sua obra-prima, “The Marble Index”, seguido do surreal “Desertshore” (1970), em cuja fotografia da capa se pode ver Nico numa cena do filme de Garrel, “La Cicatrice Intérieure”, que se estrearia dois anos mais tarde.

            o abandono. Após um interregno de sete anos, durante os quais assombra os palcos na companhia do seu “harmonium” (a sua imagem, de pé, hirta, atrás deste instrumento, é um dos primeiros paradigmas gráficos do “gótico”), do álcool e da heroína, compondo dedicatórias aos amigos mortos, reaparece com “Drama of Exile” (1981), já aureolada com o estatuto de “punk goddess”, concluindo-se a sua discografia a solo com “Camera Obscura” (1985), tentativa de reciclagem, novamente a cargo de John Cale, destinada a apresentá-la num novo formato eletrónico. Além destes álbuns, circulam no mercado quantidades consideráveis de “bootlegs”, coletâneas e arquivos ao vivo. Faltava esperar pelo fim.
            “Ibiza é o meu local favorito, é lá que hei-de morrer”, afirmou numa entrevista. O destino e uma árvore, contra a qual esbarrou durante o tal passeio fatídico de bicicleta, fizeram-lhe a vontade. Ela que também dissera: “Tenho o hábito de abandonar os sítios nas alturas erradas, precisamente quando algo de bom está prestes a acontecer-me”.
            O seu corpo repousa ao lado do de sua mãe, num cemitério na floresta de Grunewald, numa das margens do rio Wannsee, em Berlim. Pode lá ir-se, num velho autocarro que parte de hora a hora da estação de metro de Wannsee. De Inverno o cemitério fecha cedo. Conta-se que, durante o enterro, um grupo de amigos tocava “Desertshore” num gravador de cassetes. Quase juraríamos que a faixa final, “Le petit chevalier”. Onde Nico é conduzida pela voz de uma criança.

Daniel Lanois - Shine


Y 13|JUNHO|2003
roteiro|discos

DANIEL LANOIS
Shine
Anti, distri. Compact Records
6|10

Pop ambiental. Pop feita com mil cuidados na cozinha, isto é, no estúdio. Daniel Lanois é uma espécie de Brian Eno sem o génio. Como Eno, produziu os U2, mas também Peter Gabriel ou Dylan. Também como Eno, decidiu a dada altura assinar ele próprio os discos. “Shine” vale, como os anteriores, pelo som. Quanto às canções, fica a sensação de terem resultado de fórmulas previamente ensaiadas até atingirem o ponto em que não provocam nem repulsa nem paixões. “I love you” é uma mistura de Velvet com U2 que conta com a voz de Emmylou Harris e, logo a seguir, “Falling at your feet” lança-nos à cara Bono como convidado. Já “As tears roll by” envereda pelo registo dos primeiros discos de canções de Eno. Sem o génio. Lanois tem, contudo, a noção da melodia, da coloração e do espaço. Que povoa com slide guitars (“Transmitters” e “JJ leaves LA” soam tão bem como Ry Cooder ou B. J. Cole), a solidão do “bayou”, algo de Badalamenti em “Matador”, respirações pausadas, o ar frio de uma noite sinalizada pelo canto dos grilos e transmissões de rádio fantasma. “Shine” brilha com uma chama azul.