27/08/2014

Kid606 - PS I Love You



Y 17|Novembro|2000
escolhas|discos

KID606
PS I Love You
Mille-Plateaux, distri. Ananana
08|10

Nascido há 21 anos na Venezuela, Kid606 estabeleceu-se na Califórnia, onde vive agarrado a um sampler e desenvolve projetos paralelos na área da informática e da música, como Tigerboy, Kid606, Scsi Bear, Compact Digital Audio, Ariel e Matmos. “PS I Love You” é um agregado corrosivo de sonoridades tecno, house, click-house e electro experimental que desenvolve algumas das premissas lançadas pelos Tone Rec, Dat Politics e Pan Sonic, sem, contudo, atingir as fronteiras da inaudibilidade destes projetos. Twirl” é uma interessante convergência em aço pontiagudo da tecno com o krautrock, “Sometimes” um espaço de ruído rosa, “Now I wanna be a cowboy” uma amassadela a la Funkstörung e “Strum” minimalismo de metal como fazia Robert Merdzo. O apocalipse sónico está reservado para o final, “Fuck up everything you can before you plan on slowing down” – “Metal Machine Music” para a era digital.

Joe Jackson - Night And Day II



Y 17|Novembro|2000
escolhas|discos

JOE JACKSON
Night and Day II
Manticore, distri. Sony Music
07|10

Distantes vão os tempos em que Joe Jackson ensaiava os primeiros passos nas garagens da “new wave”. Com a passagem do tempo o Tintin do rock apurou o estilo, acendeu cigarros e enfrascou-se com “bourbon” no jazz canalha até chegar à depuração formal do classicismo, numa “Symphony No.1”, que lhe conferiu o estatuto de erudito. Mas como os amores antigos não se esquecem, eis que Joe regressa á cidade que o viu nascer, Nova Iorque, para reacender os holofotes numa sequela do aclamado “Night and Day”, de 1982. Voltam as canções, os ambientes “cool” e noturnos, embrulhados em roupagens “jazzy” ou em arranjos para cordas (pelo recém-criado quarteto Ethel), pretexto para o compositor e cantor mergulhar nos mundos paralelos e personagens bizarras que fazem a mística de NY. Três dessas personagens bem poderiam ser as cantoras convidadas Sussan Deyhim, Dale de Vere e Marianne Faithfull, cujas participações fazem a diferença no documentário.

Marechal "performer" [Felix Kubin]



Y 17|Novembro|2000
ao vivo|escolhas

FELIX KUBIN, AMANHÃ EM BRAGA, DOMINGO EM LISBOA

Marechal “performer”

Felix Kubin, marechal “performer” e dj “psycho-sci-fi-pop”, como a si próprio se define, e Aaviko, finlandeses auto-intitulados “Kings of Casio-Core”, suportados pelas manipulações no gira-discos de Georg Odjik, elemento da editora a-musik, preenchem o último dos três sábados “eletrónicos” do festival BRG2000 que tem estado a decorrer em Braga.
            Kubin atuou no ano passado em Portugal no festival Reset! a bordo de um cacilheiro, rubricando um “show” inesquecível que aliou a vertente vanguardista semeada nos anos 80 pelo seu compatriota Holger Hiller, o lounge e aa manipulação de velhos sintetizadores analógicos avariados com uma apresentação “camp” e um humor insuperável. Depois disso, atuou como dj em Lisboa e no Porto, fazendo a prova real de que é possível pôr o público a dançar recorrendo à inteligência e a discos arrumados nas prateleiras mais recônditas da estante.
            Felix Kubin é uma personagem de desenhos animados igual às que ele próprio concebeu musicalmente no álbum “Filmmusik”, para “cartoons” da cineasta Mariola Brillowska. A criação de um pacote de “locked grooves” para utilização nas suas atuações como dj ou a desconstrução da música de Jane Birkin, em “Jane B.” (que Lisboa pôde presenciar no cacilheiro) fazem parte da bagagem deste artista, que os Aaviko definira como “um demónio disfarçado de Deus”. “Se tivéssemos que escolher um ser humano para representar a Terra junto dos extraterrestres, esse seria Felix Kubin”, garantem ainda os Aaviko, banda finlandesa cuja música – dois sintetizadores e uma bateria – reúne todos os clichés do punk, surf, disco, música de feira, filme negro e folclore balcânico, com influências que vão de Booker T & The MG’s aos Laika e aos Kraftwerk.
            Para animar a noite de todas as bizarrias, o dj Georg Odjik, da a-musik, de Colónia, traz a Portugal um “showcase” da sua editora, onde por certo ao lado dos “grooves” de projetos como os Mouse on Mars e FX Randomiz (presente na primeira noite do BRG2000) se arrumam divagações lounge, jazz e outras eletrónicas que compõem a longa-metragem psicadélica da nova eletrónica alemã.

Gong - Zero 2 Infinitea



Y 10|Novembro|2000
escolhas|discos

GONG
Live 2 Infinitea
Snapper Music, distri. Música Alternativa
7|10

É COM UM FERVOR quase religioso que os adeptos dos Gong saudaram a música dos seus ídolos na digressão mundial realizada pelo grupo na Primavera deste ano. Trinta anos depois de terem engolido a poção original, Daevid Allen está com o aspeto de um ancião feiticeiro e Gilli Smyth com o de uma velha gaiteira de mini-saia, mas a música dos Gong soa com a frescura dos velhos tempos, parecendo almejar a imortalidade. “Live 2 Infinitea” recupera a música do recente álbum ao vivo “Zero to Infinity” – deixando as divagações jazz rock deste último, para se concentrar nas viagens psico, em que são mestres – e ressuscita a velha mística das sessões dos anos 70, com os glissandos cósmicos da guitarra e as fábulas lunares de Allen, os vagidos astrais de Smyth e o saxofone estrábico de Dider Malherbe. A “trip” dos Gong é, de facto, infinita. LSD em excesso no bule de chá.