22/03/2017

O bolerista e os soneros [Vitorino e Septeto Habanero]

cultura TERÇA-FEIRA, 4 JULHO 2000

Vitorino e Septeto Habanero atuam juntos em mini-digressão

O bolerista e os soneros

Vitorino, o bolerista, e os soneros Septeto Habanero voltam a apresentar-se juntos e ao vivo em Portugal, retomando uma colaboração encetada em disco com o álbum "La Habana 99". Boleros para fazer dançar Portugal até ao final de Agosto.

O bolero, uma das danças típicas e mais românticas da música tradicional cubana, há muito que anda a bailar na cabeça do cantor alentejano Vitorino. Um amor antigo, moldado em recordações de infância, filtradas "através do travesseiro duma cama de ferro", em casa do avô Salomé, onde, no rés-do-chão transformado em sala de ensaios, mesmo por baixo do seu quarto, uma pequena orquestra da família "executava com enorme prazer e divertimento as grandes canções clássicas dos anos 40/50 americanas, assim como os velhos boleros, mambos e tchás". "A minha avó mandava-me cedo para a cama e eu adormecia num delicioso sono de acordes longínquos e que a distância e a espessura das paredes adoçava e transformava em música de anjos brincalhões e heróis, que me enchiam a imaginação e os sentidos", recorda o autor de "Flor de la Mar" na folha de apresentação do álbum "La Habana 99", gravado no ano passado em Havana, com o Septeto Habanero, formações mítica da música cubana. Com a gravação deste disco ficava concretizada metade desse sonho.
            A segunda cumprir-se-á finalmente através de uma série de espetáculos que hoje, amanhã e na quarta-feira têm lugar no Teatro Tivoli, em Lisboa, prosseguindo ainda este mês em Vila Nova de Famalicão (dia 7), Braga (dia 8) e, já em Agosto, Portimão (14), Açores (18), Porto (19) e Viseu (26). Para trás ficam as más recordações da estreia ao vivo do cantor alentejano com o grupo cubano, no ano passado, no Parque das Nações, ao ar livre de uma noite gelada de Fevereiro, onde faltou clima e público a uma música toda ela apaixonada pelos perfumes e danças dos trópicos. "Entrava-nos a nortada pela boca adentro", recorda Vitorino ao PÚBLICO. Entre esse Inverno e este Verão, gravaram no ano passado em Havana o álbum "La Habana 99" que com as suas 30.000 unidades já vendidas em Portugal se prepara para ser disco de platina.
            Desta feita, "com condições ideais" e numa "sala lindíssima", tudo se conjuga para uma noite que permitirá reviver os sons e as imagens da época dourada, os anos 40 e 50, das danças de salão. Vitorino é o cantor convidado do Septeto, após se ter oferecido como "voluntário". "Eles procuravam um cantor para cantar com eles em Portugal e eu disse logo: Sou eu!". Vitorino enviou-lhes alguns discos seus, os cubanos ouviram, gostaram, e escolheram as canções. "Sou como um vocalista à boa maneira dos anos 20" explica, com orgulho e visível satisfação, o cantor alentejano que em breve lançará com o seu irmão Janita Salomé um álbum ao vivo de canções menos conhecidas de José Afonso.
            Quando subir esta noite ao palco do Tivoli, Vitorino representará com gosto a mesma personagem dessa época que teima em persistir em Cuba que encarna na capa de "La Habana 99", a do cantor romântico, estrela de Santiago de Cuba e de Hollywood. Do cantor de boleros, "porque o bolero é branco, o que tem a pele mais clara, enquanto o 'son' já é mulato", diz, assumindo-se como europeu. "Eles [o Septeto Habanero] avaliaram com muita acuidade as minhas características e acharam que eu era bolerista. Sonero creio que não sou", confessa. "Soneros são eles, eu sou bolerista". E pormenoriza, dando mostras do conhecimento profundo que tem desta música presente no seu imaginário desde criança: "O que eles fazem é o bolero-son, não é o bolero-filin, um bolero muito declamado, próximo do fado".
            Fazem parte desta lenda viva da música de Cuba, que Vitorino honrará com todo o seu saber e experiência de grande cantor do Sul, o veterano Pedro Ibañez (voz, guitarra e líder do grupo), Emílio (voz e guijo), Digno (voz e clave), Joselito (voz e maracas), Chino (trompete), Faustino (baixo9, Ferro (bongo) e Felipe (guitarra).

VITORINO COM SEPTETO HABANERO
LISBOA Teatro Tivoli, hoje, amanhã e 5ª feira, às 22h. Bilhetes entre 3000$ e 4500$.

O corpo é apenas um invólucro [Dulce Pontes]

cultura QUARTA-FEIRA, 28 JUNHO 2000

Dulce Pontes apresenta “O Primeiro Canto” no Coliseu dos Recreios, em Lisboa

O corpo é apenas um invólucro

Nus. O corpo e a voz. Em "O Primeiro Canto", lugar de encontro de Dulce Pontes com o sopro que anima o barro que dá forma aos sons. O álbum, galardoado com o Prémio José Afonso, abre novas vias de exploração a esta cantora que se enamorou pelos folclores do mundo. Hoje no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, Dulce fará uma vez mais a corte à tradição.

Primeiro foi o fado. O primeiro amor. Etapa inicial de um percurso feito de procura e inquietação. E de auto-descoberta. Álbuns como "Lusitana" e "Lágrimas" revelaram ao público português uma voz personalizada que em cada nota procurava o seu lugar, os seus lugares naturais. "A Brisa do Coração" e "Caminhos" abriam novas janelas e alamedas, mas ainda com o fado a servir de estímulo e protecção.
            Colaborações no álbum "Sognos" de Andrea Bocelli e uma participação na banda sonora do filme de Gregory Hoblit, "A Raiz do Medo" – que trouxe de novo à tona a "Canção do mar" antes imortalizada por Amália – projetaram em definitivo o seu nome aquém e além fronteiras. Esta noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, será mais uma consagração, depois da cantora ter feito dueto com Caetano Veloso, num espectáculo para 60 mil pessoas que teve lugar na Páscoa na praia de Ipanema, no Brasil.
            Mas Dulce Pontes queria mais, ir mais longe, afirmar-se não só como cantora de reconhecidos méritos como compositora capaz do confronto com os outros e consigo própria na descoberta de novos horizontes musicais. Descobriu-os em "O Primeiro Canto", vencedor do Prémio José Afonso deste ano, e a voz que no passado se agarrava às fraldas do fado de Lisboa, deixando-se acariciar pelos elogios dos que viam nela, como viam noutras, "A nova Amália", libertou-se das amarras e espantou-se com o universo.
            Com este passo Dulce Pontes deu o seu contributo na concretização de um novo rumo para a música portuguesa, espelhada na sua dimensão mais universalista. "O Primeiro Canto" permitiu de igual modo à sua autora completar o tríptico de vozes femininas que tiraram a música popular portuguesa do gueto das pancadinhas nas costas e da pequenez de ambições, juntando-se às de Maria João e Amélia Muge.

As estrelas certas

            Não esteve sozinha neste passo nem rodeada apenas de compatriotas. Para as gravações de "O Primeiro Canto" a cantora soube rodear-se dos nomes certos que lhe permitissem movimentar-se com a maior liberdade possível neste território recém-descoberto. E as "estrelas" não se fizeram rogadas, aceitando o convite: Kepa Junkera, o acrobata da "trikitixa" basco, Myrdhin, o bardo bretão da harpa céltica, Andres Norudde, iconoclasta dos suecos Hedningarna, Justin Vali, virtuoso da valiha, de Madagáscar, Wayne Shorter, um dos "gentlemen" pioneiros do jazz rock, Trilok Gurtu, mágico das percussões indiano, Jacques Morelenbaum, violoncelista e arranjador brasileiro, Waldemar Bastos, cantor angolano apadrinhado por David Byrne, Maria João, a voz-vozes.
            O objetivo começou por ser a criação de um álbum acústico, sem máquinas, onde se cruzassem cantos e tradições. Como em todo o ato de criação, foi exigida a nudez, o despojamento, condição necessária para se alcançar a essência que para Dulce Pontes constituiu o mote impulsionador deste trabalho. Moldou o barro, deu-lhe a forma de canções, umas próximas de nós, outras mais afastadas, e insuflou-as com o sopro da sua voz, finalmente embarcada numa caravela pronta a navegar.
            Trás-os-Montes, Alentejo, Lisboa... Mais ao largo, África, Índia... E lugares virgens por desbravar nos mapas da imaginação. Gelo, fogo, vento, rocha. Os quatro elementos em cruz. Sobre eles e com eles traçou Dulce Pontes a sua rota de viagens. Giacometti, José Afonso e Amália acenam adeus no cais que fica sobre as nuvens. Vislumbram-se outros cantos, novos cantos, para a música tradicional. Dulce Pontes soube, para já, responder aos desafios musicais de um planeta que rola para o final de um ciclo.
            Certa ocasião, durante o período de gravações de "O Primeiro Canto", Dulce Pontes contou o modo como se inspirou para compor a "Modinha das saias", durante uma viagem de automóvel a caminho de Miranda do Douro: "Tive a imagem de um vulcão na Ilha Graciosa em cuja cratera a luz penetra segundo uma determinada perspectiva e que tem uma reverberação sonora de onze segundos". Dulce Pontes nunca esteve fisicamente lá, recorrendo apenas à descrição que o músico e produtor Tó Pinheiro da Silva lhe fizera do local. E, no entanto, foi como se estivesse presente. Talvez porque, como ela diz, "o corpo é apenas um invólucro".

DULCE PONTES
LISBOA Coliseu dos Recreios, 22h45.
Bilhetes entre 2000$ e 5000$.

India songs [Mercedes Sosa]

QUARTA-FEIRA, 28 JUNHO 2000 cultura

Lenda da canção argentina entusiasma a Aula Magna

India songs

AOS 65 anos, Mercedes Sosa continua a ser senhora de um vozeirão. A cantora argentina que é uma das lendas vivas da canção popular sul-americana levou ao rubro uma assistência composta maioritariamente por fãs que, na noite de sexta-feira, quase encheu a Aula Magna da Universidade de Lisboa.
            Apesar de ser uma viatura de luxo Mercedes entrou no espetáculo em regime de baixas rotações. Coberta da cabeça aos pés com um vestido e uma écharpe vermelha enrolada em volta do pescoço, a cantora veterana de rosto índio, parecia uma estufa ambulante. A voz, porém, impôs-se de imediato, mesmo se toda a primeira parte do concerto incidisse no reportório de baladas interventivas que construíram parte da sua reputação e ajudaram a fundar, nos anos 60, o movimento “Nuevo Cancionero Argentino”, culminando com uma tocante interpretação de “Gracias a la vida”, de Violeta Parra e com “Alfonsina y el mar”, a canção que lançou a sua já longa carreira.
            Impercetivelmente foi surgindo a outra Mercedes Sosa. Com a troca dos manifestos de liberdade pela liberdade do canto livre das ideologias, e da écharpe vermelha por uma verde.
            Uma espantosa sucessão de cinco temas encetados com o épico “Los hermanos” e coroada com “Como pajaros en el aire” mostrou a Mercedes étnica, um todo-o-terreno, digamos assim, que projetou a voz nos registos do grito e das técnicas de canto tradicionais tribais (improvisadas?) atirando as emoções para a flor da pele e expondo o canto nas suas texturas mais carnais. Socorrendo-se, num par de temas, de um tambor, Mercedes Sosa mostrou nessa altura toda a intensidade que a sua música pode ter.
            “De fiesta en fiesta”, “Vestido y un amor”, “Solo le pido a Dios”, “Viejas promesas” e “Sina”, do brasileiro Djavan, levaram o concerto ao colo até a apoteose, “Maria, Maria”, da dupla, também brasileira, Milton Nascimento/Fernando Brant, com o refrão, conhecido de todos, a ser entoado em coro, de pé, pela assistência em peso.
            Eram inevitáveis os “encores”, pedidos de forma insistente, quase em delírio, com gritos atirados da plateia a pedirem esta ou aquela canção. Mercedes Sosa, fatigada mas deliciada com o acolhimento do público português, acedeu, voltando ao palco por duas vezes, numa delas para interpretar novo tema de Violeta Parra, “Volver a los 17”, em ambas repetindo o refrão de “Maria, Maria”, aquele que estava no ouvido de todos. Ao fim de quase 40 anos de carreira, Mercedes está longe de precisar de ir à revisão.

Boa música a más horas [Dervish]

cultura SEXTA-FEIRA, 23 JUNHO 2000

Dervish atuaram de raiva em Santa Maria da Feira

Boa música a más horas

O timbre, a pureza, a força da voz de Cathy... Meu Deus, quando canta, a pequena irlandesa transforma-se numa deusa! Em Santa Maria da Feira, a desoras e com um som impróprio, ela e os Dervish fizeram esquecer as adversidades e levaram-nos para o céu.

Fazendo jus à designação da entidade organizadora do concerto que teve lugar na noite da passada quinta-feira em Santa Maria da Feira, o festival Sete Sóis Sete Luas, os Dervish começaram a tocar duas horas e meia depois do previsto. Assim, em vez das 22h30, a banda irlandesa deu início à sua atuação por volta da uma da manhã. Mais um esforço e tinham esperado até de manhãzinha pelo nascer do sol... Problemas com o som (o costume...) provocaram o atraso.
            Sara Tavares e a sua banda foram os primeiros a sofrer com o desatino da equipa responsável pelo som que, segundo a opinião de alguns, está mais habituada a trabalhar em comícios políticos do que com música tradicional da Irlanda o que, convenhamos, não é exatamante a mesma coisa... Um som que, volta e meia, pura e simplesmente, desaparecia, ia-se abaixo, dava o berro, deixava os músicos no palco a chuchar no dedo. Para uma música que vive da energia e da constância do andamento "funky", pode ser fatal. Eles, apesar de tudo, aguentaram-se bem e souberam aquecer o público.
            Consumada a primeira atuação da noite, já os ponteiros do relógio tinham ultrapassado há muito a meia-noite, tirar os instrumentos do palco e não tirar, experimentar os microfones, ligar e desligar cabos e amplificadores, quando os Dervish subiram para o palco, era uma da manhã. Previa-se o pior. A assistência, saturada com a espera, dava mostras de alguma e justificada impaciência. Quando o violinista do grupo, Tom Morrow, testou o som do seu instrumento, logo alguém da primeira fila lançava o comentário mortífero: "Olha um violino, agora é que vou adormecer!".
            Insensíveis ao ambiente de contestação, os Dervish procuravam o melhor som possível. No mínimo, "um som", fosse ele qual fosse. Lá o encontraram, por fim, partindo, surpreendentemente e dadas as circunstâncias, para um concerto memorável, de raça e de raiva.
            O frio da noite e as agruras da espera desapareceram como que por encanto. O septeto agarrou num ápice a assistência com um "set" inicial de jigs arrebatador. Os corpos agitaram-se, arrancados do torpor para as alegrias da dança. Liam Kelly, o primeiro a solar, na flauta, mostrou que já não falta muito para igualar as proezas de Matt Molloy, o mestre que passou pelos Planxty, The Bothy Band e The Chieftains.
            Quando a vocalista do grupo, a bela e franzina Cathy Jordan, cantou a primeira balada da noite, todo o sofrimento ficou para trás. Cathy está simplesmente divinal. A pureza do timbre, a força, a interiorização, as ornamentações combinam-se num todo sem paralelo no panorama atual da música tradicional irlandesa. A par disto, e ao contrário das anteriores apresentações que vimos dela em Portugal, Cathy aprendeu a tirar partido do corpo e da sua muito peculiar forma de sensualidade, ilustrando cada canção com uma coreografia gestual de cigana céltica. Envergando um vestido vermelho-sangue, Cathy arrebatou os olhares e os corações.
            Os outros músicos da banda são, como se costuma dizer, "uns senhores". Sobretudo Liam Kelly, na flauta, Tom Morrow, no violino, e um notável Shane Mitchell, no acordeão, revelaram um virtuosismo a toda a prova. Uma coisa são os jigs e reels da praxe tocados com competência, outra, bem diferente, para melhor, é ouvi-los tocados por quem os sente na alma e na pele. O coração afeiçoado a esta música sem igual no universo nota a diferença. É o swing, o feeling, a força que vem de dentro para se aliar ao talento e à técnica.
            No meio do público, era visível a satisfação. Tornava-se difícil permanecer quieto, mesmo aqueles para quem a simples visão de um violino é um convite à sonolência. Mesmo esses renderam-se ao entusiasmo, à energia e à entrega dos Dervish que, em certas alturas, pareceram fazer deste concerto uma questão de vida ou de morte.
            Com um reportório baseado sobretudo nos álbuns "At the End of the Day" e o novo "Midsummer's Night", os Dervish provaram em Santa Maria da Feira porque são considerados uma das maiores bandas irlandesas da atualidade. Só foi pena terem tocado tão pouco tempo, cerca de 50 minutos, sem "encores", devido ao adiantado da hora. Mesmo assim, numa atitude de extrema cortesia, pediram encarecidamente ao público para não debandar depois da sua atuação, alertando para a qualidade do grupo que atuaria a seguir, a Ala dos Namorados, que Cathy considerou dos melhores que alguma vez ouviu, "com vocalizações excecionais".
            O vocalista excecional, claro, era Nuno Guerreiro, acompanhado pelo resto da Ala dos Namorados. Quando começaram, passava das duas da manhã. Já era muito tarde para se apreciar em pleno a música do grupo e, no recinto, apesar do pedido dos Dervish, foram poucos os resistentes. A "vingança" da Ala dos Namorados está marcada para Pontedera, em Itália, onde, no próximo mês, decorrerá mais uma das extensões do festival Sete Sóis Sete Luas.

Mistério de Cracóvia no festival do Seixal [Festival Cantigas do Maio]

cultura QUARTA-FEIRA, 7 JUNHO 2000

Trio polaco assina atuação impressionante no Cantigas do Maio

Mistério de Cracóvia no festival do Seixal

Música sobrenatural no Cantigas do Maio. Os polacos Kroke impregnaram a Fábrica Mundet com o aroma do sagrado. A tradição klezmer sem tempo nem fronteiras numa experiência que rondou a transcendência. Desiludiram os Verd e Blu. O festival fechou com rituais africanos da África do Sul e Moçambique.

São apenas três os músicos que constituem os Kroke, em homenagem à cidade polaca de Cracóvia que antes da 2ª Grande Guerra alojava 64 mil judeus e hoje apenas conta umas escassas centenas. Chamam-se Tomasz Kukurba, no violino, Jerzy Bawol, no acordeão, e Tomasz Lato, no acordeão. Steven Spielberg "descobriu-os" há sete anos quando os viu atuar, nessa mesma Carcóvia, na época em que procedia às filmagens de "A Lista de Schindler". O Seixal ficou deslumbrado com os Kroke na noite de sexta-feira. Uma atuação que deixou marcas.
            A noite começou, porém, com alguma desilusão causada pela atuação, aquém das expetativas criadas pelos discos, dos gascões Verd e Blu. Trajando de forma talvez demasiado informal (leia-se "abandalhada") para uma apresentação em público, para mais num festival com a importância do Cantigas do Maio, de bermudas, t-shirts de alças e chinelos, davam a imagem de um grupo de turistas recém-chegados de uma tarde de praia na Caparica. Não seria grave se a prestação musical não se tivesse pautado, como se pautou, pela mesma nota de amadorismo. Os Verd e Blu trataram a belíssima música da Gasconha ("a mais bela do Cosmos", como insistentemente referiu o vocalista e acordeonista Joan-Francés Tisnèr) com uma displicência que não se pode confundir com humor.
            As piadas constantes não disfarçaram a falta de rodagem, as hesitações e as quebras. É verdade que a beleza das polifonias e das melodias instrumentais da música da Gasconha são suficientes para impressionar qualquer público mas fez pena assistir ao modo como os Verd e Blu quase a delapidaram.
            A festa não dispensa o rigor e bem faria o grupo em meditar sobre a diferença entre informalidade e descuido.
            Os Kroke atuaram a seguir. E fez-se luz. Seguindo de perto o alinhamento do novo álbum "The Sounds of the Vanishing World", o trio polaco atuou em crescendo, impondo impercetivelmente um clima de espiritualidade e mistério.
            Ao contrário dos Verd e Blu, surgiram trajados a rigor, a preto e branco, todos de chapéu, com o violinista Tomasz Kukurba, no centro do palco, a impor a imagem de um Freddy Kruger redimido pela sacralidade dos sons. Ele é, de resto, a alma e o ponto focal dos Kroke. A uma técnica irrepreensível alia uma intensidade e uma capacidade de interiorização que ficaram bem patentes no Seixal. A força da música dos Kroke passa em grande parte por esta concentração absoluta de Tomasz Kukurba, pela forma como todas as notas nele se aprumam num eixo apontado para as estrelas.

Percussão contrabaixo

            A meio da atuação já o concerto se transformara num ritual. Kukurba acrescentou ao som amplificado do seu violino, o assobio e a voz, num complemento tímbrico justaposto ao do instrumento. De notar que certas acelerações do violino deveram muito do seu impacto ao fraseado, absolutamente espantoso, do acordeonista Jerzy Bawol, este sim, com uma condução em alta velocidade. Tomasz "aproveitou" esta estrutura milimétrica para colocar, como se costuma dizer, a cereja no cimo do bolo, desenhando ornamentações e uma espacialidade que definem a música do grupo.
            Já perto do final, num dos muitos momentos exaltantes da atuação dos Kroke, Kukurba fez um solo de percussão no tampo do contrabaixo, ao mesmo tempo que Tomasz Lato solava nas cordas. A música klezmer (música judaica tradicional instrumental da Europa do Leste) cortava as amarras do tempo e da história, projetando-se na contemporaneidade e na experimentação. Quando, por fim, os três músicos abandonaram o palco da Mundet, já o espírito dos assistentes planava sobre o Seixal.
            Terra, cores quentes, tambores, danças guerreiras. A noite de encerramento do Cantigas do Maio decorreu num registo diametralmente oposto ao da véspera, com a África a ocupar em toda a linha o festival. Primeiro com as polifonias zulus dos ex-mineiros Colenso Abafana Benkokhelo, da África do Sul, a seguir com a orquestra de timbilas e dançarinos de Venâncio M'bande, de Moçambique.
            Recorreram ambas as formações a coreografias tradicionais ligadas aos usos e costumes das respectivas regiões de origem. Os Colenso mostraram semelhanças com os mais mediáticos Ladysmith Black Mambazo, enquanto os moçambicanos criaram um padrão infantigável de micropolirritmias nas timbilas (família dos xilofones) que permitiu compreender uma das fontes onde foi beber o minimalista Steve Reich... E ou se mergulha nesta música de corpo e alma e se viaja até ao coração da África profunda até se alcançar o transe ou se fica de fora a assistir e então, rapidamente, o fastio se instala. Houve na assistência quem reagisse das duas maneiras. Nós aventurámo-nos na selva e elegemos esta atuação uma das melhores do festival.
            Uma palavra final para os Folia, da Galiza, que, nestas duas últimas noites, a seguir aos concertos principais, souberam criar o melhor ambiente na tenda de convívio, e para a organização, a Associação José Afonso, que, em conjunto com a Câmara do Seixal, contribuíram, uma vez mais, para o progressivo aumento de prestígio do Cantigas do Maio, um festival que em definitivo se institucionalizou como um dos melhores do género em Portugal.

"Fugiu-me para o fado" [Argentina Santos]

cultura SEXTA-FEIRA, 28 ABRIL 2000

Argentina Santos homenageada hoje à noite no Coliseu dos Recreios, em Lisboa

“Fugiu-me para o fado”

Podia ter feito carreira no fado. Preferiu permanecer fiel à sua Parreirinha de Alfama, onde cozinha e canta há mais de 50 anos. Voz e presença únicas do fado, Argentina Santos vai, finalmente, ter a sua consagração num grande espetáculo em Lisboa com a presença outros grandes fadistas. Vão lá estar todos os seus amigos. E afinal, como ela diz, "mais vale ter-se amigos do que dinheiro".

Fado é destino. O de Argentina Santos tem corrido quase sempre na sombra. Espetáculos esporádicos no estrangeiro, como no Festival de Edimburgo, há três anos, constituem exceção numa carreira que não o chegou a ser, se a compararmos, por exemplo, com as das suas contemporâneas Amália Rodrigues e Hermínia Silva. É hoje à noite homenageada no Coliseu, em Lisboa.
            A Parreirinha de Alfama, restaurante e casa de fados, tem sido desde há muito a sua casa. É aí que, todas as noites, dirige as operações na cozinha, onde confecciona um arroz de tamboril do qual só ela detém o segredo. É aí também, sempre que estão presentes "pessoas que gostam realmente de fado", que canta como só ela o sabe fazer. Sem concessões de qualquer espécie. "Não sei cantar a 'Casa portuguesa', não sei cantar os 'Caracolitos', o 'Cheira a Lisboa', essas coisas... Uma vez tentei cantar 'Uma casa portuguesa' e fugiu-me para um fado...". Fadista de corpo inteiro, Argentina Santos, nessas ocasiões espera "que os turistas saiam", para começar a cantar.
            O grande público ficou a conhecê-la um pouco melhor, graças à sua participação, como convidada, no espetáculo de Carlos do Carmo, realizado em 1994 no Centro Cultural de Belém.
            Carlos do Carmo que esta noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, será, por sua vez, um dos convidados na festa de homenagem à fadista sobre a qual o escritor Baptista-Bastos, no seu livro "Fado Falado", escreveu: "Tive, como diria o Eugénio de Andrade, um alumbramento com aquela mulher. Uma mulher absolutamente espantosa, em cuja cara se pode ler a geografia da cidade de Lisboa. Argentina Santos é um bairro, no que um bairro tem de mais específico e de mais resistente à aculturação. É também uma grande mulher do jazz, a voz humana em pleno voo". E é no silêncio que Argentina Santos melhor voa: "Não é improvisar, há é uns sítios em que é bonito fazer umas paragens".
            Argentina Santos está nervosa, perante a perspetiva de um momento que lhe vai ser absolutamente dedicado. "Estou quase doente", diz, reconhecendo a importância do acontecimento. Depois o nervoso passa. "Quando começo a cantar".
            "Fado menor" vai abrir o espetáculo, "uma coisa que já canto há muito tempo, o rei dos fados". Uma letra de Linhares Barbosa com música de Fontes Rocha e "Lágrima" são outros dos fados que Argentina Santos irá cantar no Coliseu, terminando com "Lisboa, casta princesa". "Sou alfacinha, gosto de cantar a minha Lisboa". Um final alegre, "para as pessoas saírem animadas" que contrasta com o outro fado, melancólico, que é o que Argentina Santos mais gosta de cantar. "São os que mais sinto. Os que falam da minha vida, de mim própria, onde cada frase, cada palavra, me fazem sentir coisas minhas".

“Nunca tive muitos estímulos”

            Além do autor de "Um Homem na Cidade" participam no espetáculo, Maria da Fé, Mafalda Arnauth, Camané, Jorge Fernando, Rodrigo e Carlos Macedo.
            Argentina Santos nasceu no bairro da Mouraria há 75 anos mas foi em Alfama que se estabeleceu desde os onze. E foi em Alfama, no Parreirinha, que cantou o fado pela primeira vez, em público. Quadras soltas, à desgarrada, do fado "Mouraria". Nunca mais se separou desta casa que desde então se tornou o seu segundo lar e local de romaria para quem gosta de complementar a espiritualidade do fado com os prazeres da boa mesa. Nunca quis, ou nunca teve oportunidade, de viver o fado de outra maneira.
            "Sabe, casei-me, o meu marido não era muito dessas coisas. E à parte isso as pessoas também se esqueceram de que eu existia. Foi só depois do Carlos do Carmo me ter chamado para o espetáculo dele que as pessoas começaram a dizer que sabiam que eu existia, que cantava... A verdade é que nunca tive muitos estímulos. Sou muito estimada pelos meus clientes e pelos meus amigos, mas quanto ao resto... Sabe, fui uma criança sem mimos, criada quase sozinha, tudo isso me vem à memória e agora sinto-me muito comovida, ao fim destes anos todos, mas mais vale tarde do que nunca, como costumo dizer. E ter-se amigos é melhor do que ter-se dinheiro".
            Terá sido a luz de Amália que tudo ofuscou à sua volta? Para Argentina Santos não terá sido a excelência da diva – "uma pérola que caiu do céu, uma voz divina como não aparece outra" – que fez esquecer as restantes vozes do fado que com ela coabitaram, mas "as pessoas que, realmente, entendiam que só deviam falar dela". "Mas havia mais gente a cantar bem nesse tempo", recorda a fadista para quem as vozes de Hermínia Silva, Maria José da Guia, Fernanda Maria e Anita Guerreiro eram as suas preferidas.
            Só esporadicamente o público teve oportunidade de ver e ouvir Argentina Santos cantar fora do templo. Em 1996, nas Festas de Lisboa, integrada no "elenco de ouro" (ao lado de Beatriz da Conceição, António Pinto Basto, Rodrigo e Carlos do Carmo) que em Junho atuou em vários locais da capital. No ano seguinte, no Teatro Nacional de S. João, do Porto, no espetáculo cénico-musical "Raízes Rurais – Paixões Urbanas", dirigido por Ricardo Pais. De novo nas Festas de Lisboa, nesse mesmo ano, desta feita ao lado de António Pinto Basto, Maria Armanda, Rodrigo e Vicente da Câmara. E em 1998, no tal espetáculo de Carlos do Carmo, no CCB, que catapultou o seu nome para as primeiras páginas dos jornais, colocando-o finalmente na lista dos mais importantes de sempre do fado.
            Em disco, Argentina Santos pode ser ouvida no CD "Meus Fados" ou na coletânea "Fados do Fado". Hoje à noite será a mais do que merecida consagração desta fadista que, ainda nas palavras de Baptista-Bastos, "canta como se estivesse a orar a um Deus desconhecido".

HOMENAGEM A ARGENTINA SANTOS
ARGENTINA SANTOS, COM MARIA DA FÉ, MAFALDA ARNAUTH, CARLOS DO CARMO, CAMANÉ, JORGE FERNANDO, RODRIGO E CARLOS MACEDO
Lisboa, Coliseu dos Recreios, às 22h.
Bilhetes entre 3000$ e 4500$

23/02/2017

O dia do juízo final [Magnólia]

DESTAQUE

CANÇÕES DE AIME MANN SUSTENTAM FILME DE ANDERSON

O DIA DO JUÍZO FINAL

"MAGNÓLIA" É UM DOS MAIS BELOS FILMES ALGUMA VEZ FEITOS SOBRE A CONDIÇÃO HUMANA. CONSTRUÍDO COMO UMA SINFONIA A PARTIR DE PEDAÇOS DE SENTIMENTOS ARRANCADOS A CANÇÕES POP, O FILME DE PAUL THOMAS ANDERSON HARMONIZA OS ANDAMENTOS DO DESTINO E O AJUSTE DE CONTAS DE CADA UM CONSIGO PRÓPRIO, COM OS OUTROS E COM DEUS.

"MAGNÓLIA" É – seja qual for o prisma por que se analise – uma obra-prima. E, como todas as obras-primas, é uma obra total, avassaladora, capaz de despoletar as emoções mais escondidas e de oferecer ao cérebro material suficiente para uma tese de doutoramento.
            Quando do visionamento, já lá vão quase duas semanas, desta terceira longa-metragem de Paul Thomas Anderson, saí da sala arrasado. Despedaçado. Com a impressão de ter assistido a algo excessivo, de que o realizador terá ido longe demais, entrando em regiões proibidas do cinema e de nós próprios, habitualmente seladas.
            Mas o milagre – e este é um filme assaltado por milagres na dialética que se estabelece entre a visão dos homens e a visão de Deus – impregna toda a estrutura cinematográfica de "Magnólia", com as soluções, formais e de argumento, que Paul Thomas Anderson faz saltar da cartola, levando-nos do espanto ao deslumbramento, numa sucessão de momentos/movimentos que fazem subir os níveis de tensão até esta se tornar quase insustentável.
            Mas no instante exato em que tudo parece comprimir-se contra a última e mais espessa das barreiras e ao mesmo tempo ser sugado pelo vértice da morte (que é, de resto, a principal personagem de "Magnólia", quer na insistência com que a doença, o cancro, nos é apresentada como instrumento do juízo final, quer no disfarce com que em geral ela se apresenta aos olhos dos homens e ao qual chamamos "vida") eis que um raio de luz – ou uma canção – irrompem a pôr ordem no jogo.
            Encarado numa perspetiva formal, e considerando a sua génese, "Magnólia" é uma sinfonia. Sabe-se que o realizador partiu para a feitura deste filme inspirando-se nas canções da cantora Aimee Mann, até à data, com os álbuns "I'm with Stupid" e "Whatever", uma intérprete de doçuras pop, mas que agora, revista à luz do filme, escutamos com a suspeição de que um qualquer pormenor perverso nos terá escapado... Aproveitamento que chega a ser literal no modo como a letra de uma das canções da banda sonora é integralmente convertida num dos diálogos entre o polícia e executor da vontade divina, Jim Kurring (John C. Reilly), e a desesperada Rose (Julianne Moore).
            Não deixa de ser curioso, neste aspeto, que da música com óbvios contornos pop como é a de Aimee Mann, tenha Paul Thomas Anderson erguido uma arquitetura sinfónica. É óbvia a construção em diversos andamentos de "Magnólia" e a ênfase posta na harmonia que, em música, se define como a "arte e doutrina da formação e encadeamento dos acordes", na articulação total das melodias, sobrepostas ou paralelas, e no contraponto, "a arte de escrever música em duas ou mais partes". E se o contraponto trata da "simultaneidade horizontal das melodias" já a harmonia dispõe "a sucessão vertical dos acordes", sendo ambos indestrinçáveis na arquitetura global da obra musical.
            Harmonia e contraponto são dois dos elementos musicais que na economia do filme funcionam através da combinação em puzzle entre as várias histórias, "as melodias horizontais", que se vão desenrolando em simultâneo e nos vários movimentos psicológicos/emocionais, "verticais", das diversas personagens, cada uma delas funcionando no seu acorde particular e de acordo com a sua própria melodia.

Modulações sobre o destino

            Se quiséssemos dar nome a esta soberba peça sinfónica com cerca de três horas de duração chamar-lhe-íamos "O Dia do Juízo Final", "O Dilúvio" ou, num registo mais contrapontístico, "Modulações sobre o Destino".
            Logo no prelúdio, na apresentação de três pequenas histórias – verídicas? – que descrevem com minúcia dolorosa uma sucessão de "coincidências" impossíveis ("Tem que haver uma explicação, uma resposta, para isto, para estas coisas acontecerem", questiona a voz em "off" do narrador que depois se descobre ser a do polícia Jim Kurring), o realizador lança a chave que permite acompanhar a corrente subterrânea subjacente na lógica na mecânica de funcionamento de "Magnólia": cada ação humana é dirigida e condicionada por um conjunto de circunstâncias que, contra todas as aparências, nunca são arbitrárias.
            A cada mulher e a cada homem, a cada personagem de "Magnólia", é impossível escapar a este determinismo. Senão vejamos, cada instante da nossa viva, para além das circunstâncias exteriores, é a súmula total da nossa vida passada, das leis impressas nos genes e do filme interior e pessoal do momento que condicionam a ação. Impossível o mínimo gesto arbitrário. É assim porque tem que ser assim.
            Só no final da vida, no último flashback – e em "Magnólia", de uma maneira ou de outra, todos se encontram perto do final ou em rituais de passagem das suas vidas, física, psicológica e emocionalmente à beira do abismo, dos que estão prestes a sucumbir à doença, como Earl (Jason Robards) e Gator (Jimmy Baker Hall), a Stanley (Jeremy Blackman), o menino-sábio para quem o universo se desmorona só porque não o deixaram sair para urinar – é possível compreender o sentido geral de tantas "coincidências" acumuladas, as faltas e as perdas, as culpas e os fracassos. O sentido da vida que, quer se queira quer não, como um túnel, todos temos que percorrer.
            Mas existe um lugar onde a liberdade e o poder de decisão existem e esse é o domínio da interioridade e da imaginação. "Magnólia" fala afinal da tragédia inerente à condição humana que é esta contradição entre a vida que imaginamos por dentro e a vida que somos forçados a viver por fora, dominados pelas pulsões do corpo, as ilusões da personalidade e os condicionamentos impostos pelo sistema social. Se é possível escapar às malhas do destino? Se é possível a redenção? O encontro final de Rose e Jim, cada um a seu modo, dois sonhadores, dá a resposta.

ARTES

sexta-feira, 21 abril 2000