11/04/2017

Peter Hammill - The Fall Of The House Of Usher

Pop Rock
18 de Dezembro 1991

A QUEDA DA CASA DE HAMMILL

Peter Hammill
The Fall of the House of Usher
2xLP, CD, Some Bizarre, import. Contraverso

Há quase vinte anos que os incondicionais de Peter Hammill ouvem falar na célebre ópera. Esta chegou finalmente, e com ela o sabor da desilusão. O perfeccionismo, a tentativa de deixar para a posteridade um testemunho definitivo do seu génio foram fatais para o antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator. Aprisionado num estilo que no passado frutificou nas obras-primas “Pawn Hearts”, “In Camera”, “Over”, “The Future Now” ou “A Black Box”, Hammill revelou-se, a partir deste último disco, incapaz de ultrapassar as suas próprias contradições, arrastando-se em “In a Foreign Town” e “Out of Water” numa agonia que nem a experiência com computadores de “Spur of the Moment” conseguiu sarar.
A famigerada ópera parte da narrativa de Edgar Allan Poe, “A Queda da Casa de Usher”, adaptada a “libretto” por Chris Judge Smith. Escolha óbvia de enquadramento para as paranóias do músico: a incomunicablidade, a hipersensibilidade mórbida, a tendência para a autodestruição. Hammill incarna, como não podia deixar de ser, a figura do nobre alucinado Roderick Usher, que vive aprisionado nas paredes – as suas paredes, o seu pesadelo – de uma casa doente. Andy Bell é o amigo, Montresor. Lene Lovich, a irmã, Lady Madeline, enterrada viva por Usher. Herbert Grönenmeyer, o ervanário. Não falta o coro, à maneira das tragédias gregas, interpretado por uma só voz, de Sarah-Jane Morris, e as “vozes da casa”, desempenhadas por Peter Hammill.
A história da maldição, loucura e decadência, que consuzem à ruína final, não podia ser melhor escolhida para traduzir o universo estético-existencial do ex-Van Der Graaf. À música, infelizmente, falta o fulgor e o génio de que este foi pródigo em obras anteriores. A insistência sistemática nas texturas orquestrais realizadas por computador procura, ao nível da paleta tímbrica, associações com a grandiosidade desesperada da sequência “Gog/Magog” de “In Camera”, mas a repetição dos registos de cravo e a tirania das cordas, interrompidas por uma ou outra ousadia pontual, acabam por tornar monónota a audição.
Como novidade, apenas os jogos vocais e a presença de vozes femininas, inéditos na obra do compositor. Dos seis atos em que se divide a obra, da descrição da paisagem desolada que rodeia a casa maldita à derrocada final, destacam-se o tom sinistro das sobreposições vocais de Hammill em “Architecture”, síntese de uma das suas obsessões de sempre, a fobia dos espaços fechados e a simbiose edifício-homem, evidente em temas anteriores da sua discografia como “A house with no door”, “(In the) black room” e “A louse is not a home”, e o diálogo Usher/Montresor em “Leave this house”, dilaceração de Roderick Usher entre o apelo do amigo para abandonar o ventre do monstro e a consciência de um destino trágico a cumprir no seio da casa. O ancestral combate entre as forças do bem e do mal, entre os anjos e os demónios que vivem dentro de cada um de nós, que Hammill já gritara no emblemático “Killer”, de “H to He, who am the only one”.
Temas como “One thing at a time” ou “The herbalist” dir-se-iam escritos por Meat Loaf. Na maioria dos casos, a música contenta-se em servir de contraponto às palavras. Faltam sobretudo ideias, uma dinâmica diferente, de maiores contrastes, que sublinhasse com outra força o desenrolar da tragédia. Não era Hammill (e neste “era” ressoa a mágoa da oportunidade perdida) o pai de todos os excessos? (6)

Neil Young & Crazy Horse - Weld

Pop Rock
30 de Outubro 1991

COMBUSTÃO ESPONTÂNEA

NEIL YOUNG & CRAZY HORSE
Weld
2 x LP/CD, Reprise, distri. Warner Music

Documento oficial da digressão “Ragged Glory/Don’t Spook the Horse”, “Weld” constitui desde já um marco nos álbuns ao vivo.
Se “Time Fades Away” cortava de forma violenta com o passado acústico de “After the Goldrush” e “Harvest”, e “Live Rust” (1979) encenava já essa violência desmedida que, a partir da segunda vida dos Crazy Horse, parece ter-se tornado a forma preferencial do músico responder aos ataques do mundo, “Weld” é a explosão de raiva definitiva, a hemorragia final da alma, o curto-circuito incendiário das guitarras e dos sentimentos em carne viva.
Mergulhando ainda mais fundo do que em “Ragged Glory”, Neil Young prossegue a introspeção demencial e a denúncia de uma sociedade doente que sempre se encarregou de fazer de lhe fazer a vida negra. O som, desde as primeiras espiras de “Hey, hey, my, my (into the black)”, é um murro no estômago, documentário abrasivo de uma “bad trip” que na descida aos infernos encontra a derradeira redenção.
Dizer que as guitarras de Neil Young e Frank Sampedro ou o baixo de Billy Talbot são musculados e poderosos, no ponto limite em que o calor se transforma em chama, ép pouco. Do princípio ao fim do disco, assiste-se como que à agonia do rock’n’roll, coincidente com o massacre em que a si próprio se imola com o fogo da paixão. Auto-sacrifício ou operação de extermínio, pouco importa, se o resultado assombra com o esplendor dos grandes incêndios. “Love to Burn”, assim se chama um dos temas do disco, eis do que trata “Weld”, no paroxismo da vertigem, na ânsia desmedida de tudo querer conter num grito.
Ouve-se “Weld” com a sensação do cataclismo com a sensação de se assistir ao cataclismo iminente, à erupção de um vulcão, ao colapso de qualquer coisa que não ousamos interiorizar. É nesse ponto de impossível equilíbrio que Neil Young tem vindo a construir a sua obra e a sua vida. A morte de amigos, a proximidade constante do perigo, juntamente com a fé cega nas virtualidades da música como forma exclusiva de exorcismo, conferem-lhe mais do que o estatuto de sobrevivente, o de herói.
Enquanto Dylan se debate entre as contradições de uma mensagem esvaziada de sentido e o absurdo de querer manter vivo um mito que deixou de o ser, Neil Young recusa olhar para o passado, preferindo, em vez disso, investir, de guitarra em punho, contra o futuro, deixando, pelo caminho, o presente devastado.
Não por acaso, o compositor de “Rust never Sleeps” (cuja sequela ao vivo, “Live Rust”, contribui com seis temas para “Weld”, devidamente atualizados e prontos a lançar na fogueira) retoma um tema de Dylan, “Blowin’ in the wind”, de forma a anular-lhe quaisquer conotações que ainda pudesse ter com a mística de Woodstock, substituindo a sua carga pacifista pela gangrena trazida pelos ventos corrosivos que hoje sopram sobre o mundo. Neil Young destrói o passado, para, num segundo momento de refluxo, o evocar na sua vertente mais negra: a introdução instrumental de “Blowin’ in the wind” remete de imediato a memória para a desolação e a violência de Jimi Hendrix.
Como em “Star Spangled Banner”, a mesma hecatombe de “feedback”, o mesmo trucidar da guitarra à procura de sonoridades impossíveis e da pulsação primordial do rock. No limite dessa apoteose de ruído e da desagregação, faz sentido a inclusão, no formato de CD, de um tema adicional, “Arc”, 37 minutos de “’feedback’ orquestral” que a folha promocional se encarrega de definir como “chiqueiro e distorção com alguns fragmentos vocais”.
Nunca, como em “Weld”, Neil Young esteve tão perto do Apocalipse. Os minutos finais do épico “Like a hurricane” resolvem-se num caos grandioso de ruído, manifestação epidérmica dessa dor imensa que, no final, obriga o música a gritar: “No pain!” Para Neil Young, cada vez mais “Tonight’s the night”. Sabemos isso e continuamos a arrepiar-nos (10).

Paco de Lucía - Zyryab

Pop Rock
17 de Abril 1991



Paco de Lucía
Zyryab
LP/MC e CD, Philips, distri. Polygram

Ao lado de Manitas de Plata, Paco de Lucía faz papel de grande embaixador do flamenco no mundo. Ao contrário de Manitas ou do menos conhecido (mas não menos importante) Pepe Habichuela, conservadores na atitude e no estilo, Paco de Lucía investe em áreas que só indiretamente têm a ver com a música cigana, como o jazz ou a canção de tons mais ligeiros (quem nunca trauteou “solo quiero caminar”?). Com John McLaughlin (com quem partilha um estilo particular de fraseado) e Al Di Meola, gravou um álbum exclusivamente dedicado às possibilidades da guitarra. “Zyryab” revela-se eclético no modo como aborda as típicas bulerias, tarantas, rumbas ou fandangos ciganos, através de uma liberdade formal que não receia juntar o discurso ortodoxo do flamenco às divagações jazz-rock ou a incursões mais marcadamente arabizantes, como acontece no título-tema “Zyryab”, valorizado ainda mais pela participação pianística de Chick Corea. ****

O Sul a várias vozes [Janita Salomé]

cultura SÁBADO, 23 DEZEMBRO 2000

Janita Salomé recria no seu novo álbum o cante alentejano

O Sul a várias vozes

O Alentejo é pátria do Sul e o cante o centro musical do Alentejo. Um sul mítico, banhado pelas notas do Mediterrâneo, que Janita Salomé recria em "Vozes do Sul", um álbum onde o cante genuíno se olha ao espelho revendo-se em retratos urbanos.

O balanço interior de Janita Salomé adequa-se, sem chegar à coincidência, com o do cante alentejano. No autor de "Cantar ao Sol", o Alentejo é o corpo de uma miragem. O seu Sul é mais vasto, bebendo tanto numa das antigas tabernas do Redondo como num oásis do Sara. Janita é um músico urbano com raízes na planície. Dera-o a entender nesse seu disco, que passou a ser referência na moderna música popular portuguesa, emaranhando-se mais tarde nas redes de um certo excesso, em "Raiano".
            "Vozes do Sul", acabado de sair, embora já estivesse gravado há dois anos, coloca as coisas nos seus devidos lugares. De um lado, Janita homenageia o cante na sua expressão mais pura, oferecendo uma série de faixas às polifonias dos Cantadores do Redondo e dos grupos Corais e etnográficos das Camponesas de Castro Verde, da Casa do Povo de Serpa e "Os Ceifeiros de Pias", ficando o outro preenchido com recriações também elas dispostas segundo duas conceções diferentes do som. Ora num registo próximo da música de câmara, com arranjos para piano e quarteto de cordas, ora reservando-se o gozo de trazer para o Sul um instrumento típico do Norte "céltico" como a sanfona, ou de experimentar o exotismo de garrafas afinadas e de uma parafernália de percussões árabes. Além disso, Janita convidou para cantar ao seu lado, além dos irmãos Vitorino e Carlos, as cantoras Filipa Pais, ainda não totalmente seca dos raios de uma Lua Extravagante, e Bárbara Lagido, também tocada pela Lua e habituada a excursões pelo jazz.
            Para Janita Salomé, "este disco prova que há uma quantidade de maneiras de cantar no Alentejo que não simplesmente aquele coral polifónico que as pessoas conhecem, pesado e denso". Este cante "pesado" e "denso", assume-o o cantor como a "parte documental", o "ponto de partida" que permitiu jogar outros dados, como a inclusão das cordas ou do piano. Ou a experiência "aliciante" de juntar o cante, "por si só uma 'orquestra', com outra orquestra, sem nenhuma delas se destruir".
            Ouvidos mais puristas poderão surpreender-se com a "intrusão" da sanfona (tocada por Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa). Para Janita Salomé, tal não constitui qualquer espécie de heresia e só não fez soar nestas "Vozes do Sul" as palhetas duplas da gaita-de-foles, esse outro monstro das hordas do Norte, porque não se lembrou.
           
Resistência

            Poderia ser complicado juntar fações. Como quando o cante se deixa colorir por outras tintas. No estúdio, foram captadas em primeiro lugar as vozes, sendo-lhes depois adicionadas as partes instrumentais. Não chegou, porém, a ser uma dificuldade. Janita Salomé cita a propósito uma das contribuições dos Camponeses de Pias numa das faixas de "Vozes do Sul": "Eles começam a moda num determinado tom e não fogem um coma do princípio ao fim, é impressionante, se assim não fosse, se houvesse flutuações tonais, teria sido impossível juntar os instrumentos".
            Não deixa de causar uma certa impressão o simples facto do cante tradicional alentejano, ao contrário de outras formas tradicionais que se foram perdendo ou deteriorando ao longo do tempo, manter viva a sua pujança. Mas a verdade é que se continua a cantar. Talvez já menos, como era uso, nas tabernas - "alguns donos não deixam e, por outro lado, existem em cada vez menor número" -, mas, mesmo assim, os seus ecos continuam a ser levados para longe. O cante resiste.
            "Talvez pela sua própria natureza e pela forma como os alentejanos o exprimem no seu quotidiano, nos locais de convívio, onde ainda é possível ver saltar espontaneamente meia dúzia deles e começarem a cantar. Isso mantém-se. Em geral, as danças ou qualquer outro tipo de música tradicional requerem uma encenação especial, uma ocasião para acontecer, e ali não", explica Janita.
            Ali, a ocasião tem sido desde há muito propícia à expressão, através do cante, da dor, da revolta e da solidão, mas também da solidariedade e da afirmação de uma especificidade social e cultural. Janita não tem dúvidas que "o alentejano está muito apegado ao cante, à sua terra e à sua identidade, talvez por ter sido marginalizado, se recuarmos no tempo. Foi uma região muito sacrificada, o que acabou por fazer nascer um sentido de solidariedade e uma necessidade de afirmação".
            Ele, Janita Salomé, vive afastado da sua terra natal, tornando-se, como o seu irmão Vitorino, um músico urnano - visão distanciada mas insistentemente fixa no tal "ponto de partida". Essa ligação com o berço geográfico "é alimentada por frequentes idas ao Alentejo". Mas se calhar nem era preciso: "Lisboa é uma cidade do Sul onde a maior comunidade de não-lisboetas são os alentejanos. Se me apetecer vou a Tires ou ao Barreiro e encontro um grupo de alentejanos a cantar em locais públicos".
           
Diálogo e contemplação

            "Vozes do Sul" é um compromisso. Mas se o anterior "Raiano" despoletava o conceito, muito "world music", de fusão – para o seu autor, "um momento de maior urbanidade" – o novo álbum aproxima os extremos através do diálogo, nalguns casos, e da contemplação mútua, noutros.
            Porque o Sul de Janita Salomé não termina no Alentejo mas estende-se para além dele até ao Mediterrâneo, e mais para lá ainda, até ao Sul da imaginação, com regresso ao Redondo. "É desse Sul que também falo, das suas memórias e das suas origens, da presença dos povos islâmicos aqui. Do sinal das presenças islâmicas na música alentejana".
            Algures no alinhamento de "Vozes do Sul" esconde-se um dos seus momentos mais interessantes, cabendo ao ouvinte a tarefa de o encontrar. Aí se pode ouvir, em toda a sua pureza, uma sessão de "cante do baldão". Janita destapa uma ponta do véu: "É surpreendente ouvir cantar à alentejana com acompanhamento instrumental e, nesse tema, isso acontece de uma forma muito própria, com aqueles poetas populares repentistas, todos ótimos cantores, cada um com o seu estilo. Eu, se quisesse participar, não seria nada fácil. Cantar como eles cantam, com as regras próprias do cante do baldão, em dupla quadra e com a estrofe a ter que acabar no primeiro ou no segundo verso, é complicado... E então improvisar é uma carga de trabalhos...".
            Trabalho é o que não tem faltado ao cantor. Tem pronto material para uma série de novos CDs, embora "muito papel vá ser rasgado pelo meio" e, "se tudo correr bem", "Vozes do Sul" terá uma apresentação ao vivo em Fevereiro do próximo ano no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, com a presença de todos os músicos que participaram no disco.
            No horizonte perfila-se ainda a possibilidade de um trabalho conjunto com o Opus Ensemble e outro com o guitarrista dos Madredeus, José Peixoto, outro músico apaixonado pelo Sul.

Medos para os pequenos [Sérgio Godinho]

LIVROS

Depois de “Lupa”, o álbum de canções, Sérgio Godinho escreveu e desenhou para as crianças um “Pequeno Livros do Medos”. Histórias de papões e de iniciação no mistério, até ao confronto final com o “bicho desconhecido” que se esconde no sótão.

Medos para os pequenos

Depois de "Lupa", o álbum de canções, Sérgio Godinho escreveu e desenhou para as crianças um "Pequeno Livro dos Medos". Histórias de papões e de iniciação no mistério, até ao confronto final com o "bicho desconhecido" que se esconde no sótão.

O que distingue a criança do adulto é a inocência. Deixamos de ser crianças quando perdemos a inocência. Adão e Eva comeram a maçã e foi o que se viu. Enquanto adultos podemos ser puros. Mas nunca inocentes.
            Os adultos escrevem livros para as crianças lerem da mesma maneira que as crianças escrevem para os adultos lerem, com a diferença de que, neste último caso, as obras costumam vender menos. Nenhum adulto que escreve livros para crianças é inocente ou escreve livros inocentes. Razão por que as crianças, ao lerem os livros que os adultos escrevem para elas, vão perdendo aos poucos a inocência até se tornarem, elas próprias, adultos. Infelizmente as crianças não escrevem para si próprias tanto como deveriam. Talvez os editores achem que cometem demasiados erros de ortografia.
            Sérgio Godinho escreveu e ilustrou para as crianças um livro inteligente a que chamou "O Pequeno Livro dos Medos". Não teve medo de o fazer. E saiu-se bem. Porque escreveu como se estivesse a compor música. "O Pequeno Livro dos Medos" ouve-se tanto como se lê. E as crianças gostam disso. Até porque, como está provado, têm melhor ouvido do que os adultos.
            Aliás, toda a literatura existe, em primeiro lugar, para ser ouvida. As palavras não são outra coisa senão varinhas de condão que mexem em quem as ouve. O texto, falado ou escrito, funciona como instrumento de magia. A ciência fala em processos de correspondência, de simpatia, que se desenrolam no cérebro do leitor, mas a palavra magia tem bastante mais força e as crianças entendem-na melhor. Ali-Babá soletrava "Abre-te Sésamo!" e a porta que dava para a gruta do tesouro, obedecia-lhe, escancarando as goelas do segredo e da riqueza.
            O escritor e, sobretudo, o poeta são músicos das palavras. Nietzsche, que foi provavelmente o mais musical dos filósofos-poetas, escrevia/compunha em diálogo íntimo com o mais íntimo que existe dentro de cada um de nós. Tanto assim que a leitura de uma obra como o Zaratustra causa medo.
            Sérgio Godinho empreende, com outra candura, a exploração desse lado manipulatório (só a palavra mete medo, mas é mesmo assim) da escrita. Porém não se ouvem gritos. Até porque as crianças, dando a entender o contrário, são menos medrosas que os adultos na forma como se entregam de livre vontade aos ventos da noite. E sabem tirar partido e gozo do medo (Sérgio Godinho chama-lhe um "brinquedo", logo no primeiro parágrafo). Não admira que o autor brinque, como numa das suas canções, em jogos combinatórios: "Sou o bicho dos medos desconhecidos. Sou o desconhecido do medo dos bichos. Sou o medo dos bichos desconhecidos. Vira-me do lado que quiseres, que eu sou teu conhecido."
            "O Pequeno Livro dos Medos" começa por bisbilhotar no dicionário, esse outro livro prisão que ensina a arrumar o caos da linguagem. O autor procurou nos sinónimos e encontrou para "medo": "susto, receio, horror, pavor, cagaço, cobardia, desconfiança, temor, terror, pânico, assombramento...". Isto porque, diz ele, convém logo de início "olhar para dentro do medo" e "descobrir como ele funciona", esse "sentimento desagradável que excita em nós aquilo que parece perigoso, ameaçador, sobrenatural".
            Sabendo-se do nome do monstro com quem se está a lidar, o autor atira-se de cabeça para dentro da cabeça dos miúdos. Sem os assustar. Mostrando-lhes desenhos de rostos e seres "assustadores", entre o figurativo e as manchas do teste projetivo de Rorschach. E contando histórias de medos. Do dono de um circo que ameaça soltar um terrível leão ou do dono (já são dois "donos" - é curioso - as personagens que metem medo. Crítica subtil ao capitalismo?) de uma drogaria que mantém encerrado nas traseiras um bicho terrível que "o melhor é ninguém ver".
            Começam por ser "bichos", reais ou imaginários, os desencadeadores dos terrores infantis. Com base neste bestiário, porém, Sérgio Godinho conduz com suavidade os olhos espantados e gulosos dos seus pequenos leitores até ao sótão dos medos metafísicos, onde se "ouvem sempre misteriosos passos que não podem ser de ratazanas (...) passos de alguém que é leve e pesado ao mesmo tempo", levando-os "ao encontro do bicho desconhecido".
            É no sótão, no escuro "onde se desvendam os mistérios", que a criança enfrenta, olhos nos olhos, esse "desconhecido que mete medo e ao mesmo tempo apetece conhecer", e descobre no baú uma carta escrita pelo avô ao pai, onde se oferece a solução. A família - chave de segurança que ajuda a enfrentar os sucessivos embates do eu com o exterior, na sua contínua metamorfose de auto-descoberta.
            Idealizam-se mil formas de esconder, eliminar o papão para, finalmente, a criança o reconhecer como parte integrante de si própria.
            É o momento de "silêncio e respeito", em que ambos "ficam a olhar de frente um para o outro, como se fossem dois velhos conhecidos que nunca se tinham visto". Sem que seja possível descobrir a espada capaz de cortar a cabeça ao medo, a verdade é que o João (é este o nome do pai da criança a quem tudo isto sucedeu quando também ele era miúdo) "olhou à volta e não viu medo nenhum". "Talvez tivesse voado pela janela aberta". Como um pássaro.
            Ou talvez o medo "continuasse no fundo do mar, à espera de um polvo que por ali nunca passará". Nós, adultos com medo de ter medo, ficamos pelo nosso lado à janela, esperando, como no conto de Kafka, "pela mensagem que nunca chegará".

O Pequeno Livro dos Medos
AUTOR Sérgio Godinho (texto e ilustrações)
EDITOR Assírio & Alvim, 48 págs. 2500$00

ARTES
sábado, 16 dezembro 2000

03/04/2017

Leão pop [Festival Outono em Lisboa]

cultura QUINTA-FEIRA, 7 DEZEMBRO 2000

Festival Outono em Lisboa inicia-se hoje no CCB, em Lisboa

Leão pop

Rodrigo Leão, António Chainho e Wim Mertens atuam por esta ordem no festival Outono em Lisboa que durante três dias decorrerá no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Notas melancólicas a anunciar o inverno.

É a quarta edição do festival Outono em Lisboa e em todas elas o programa fez questão de apresentar espetáculos inéditos. Aconteceu assim com a primeira apresentação dos Resistência, com o espetáculo 100 Anos de Fado e com o lançamento a solo de Tim, dos Xutos e Pontapés. Este ano a lista é tripla, com concertos de Rodrigo Leão, António Chainho e Wim Mertens, todos eles transportando um álbum novo debaixo do braço. "Alma Mater", do teclista da Sétima Legião, "Lisboa-Rio", pelo autor de "A Guitarra e Outras Mulheres", e "Der Heisse Brei", do pianista flamengo fundador dos Soft Verdict. Em comum têm a nostalgia.
O festival abre esta noite com Rodrigo Leão que apresentará o seu novo álbum "Alma Mater", incursão por estratos musicais mais ligeiros do que os dos anteriores "Ave Mundi Luminare", "Mysterium" e "Theatrum". Para trás ficaram a música de câmara e o peso de um dramatismo tímbrico que no novo álbum são redimidos pela omnipresença de um piano-nuvem, o calor do tango e as vozes de Lula Pena e Adriana Calcanhoto.
Temas retirados de toda a discografia do músico, com ênfase no novo "Alma Mater", serão apresentados sob uma perspetiva instrumental de acordo com a formação que estará hoje à noite em palco: Luís Sampaio, bateria, Tiago Lopes, baixo, Pedro Oliveira, guitarra, Ângela Silva, voz, Denys Stetsenko, violino, Jano Lisboa, viola, Nelson Ferreira, violoncelo, e Celina da Piedade, acordeão, além, é claro, de Rodrigo Leão, nos teclados. "Será um espetáculo diferente de todos os que fiz até hoje", garante, "pelo facto de haver bateria, guitarra e baixo, o que realça a vertente pop de alguns temas, com arranjos novos para estes instrumentos de 'Ave mundi', "Carpe diem" e 'Mysterium'".
O espetáculo contará com a presença, numa das duas versões a apresentar do tema "A casa", dos convidados Sónia Tavares, voz, e Nuno Gonçalves, eletrónica, ambos dos The Gift. "A casa" é a canção de abertura de "Alma Mater", com vocalização de Adriana Calcanhoto. No Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, será apresentada uma "lounge mix" deste tema na qual Sónia Tavares substitui a voz da cantora brasileira e Nuno Gonçalves, responsável pela remistura, lançará samples vocais. "Tardes de Bolonha" constitui outra das novidades. O tema, composto por Leão para o álbum dos Madredeus, "Existir", será apresentado ao vivo pela primeira vez pelo seu autor e terá uma "vertente popular", com o acordeão de Celina da Piedade a "desempenhar o papel mais importante".
Piano e falsete

Wim Mertens, visitante assíduo do nosso país, fechará no sábado o festival. O compositor prossegue há mais de 20 anos e sem desfalecimentos uma saga sem fim – impenetrável, nalgumas das suas etapas... – na busca da síntese definitiva entre o minimalismo, o piano romântico, o conceptualismo e os alicerces clássicos dos séculos XV e XVI. Longe vão os tempos em que brincava com os circuitos eletrónicos de máquinas de flippers, em "For Amusement only", e alargava o léxico do minimalismo, inventando, a par de Michael Nyman, a contrapartida europeia do movimento, em álbuns como "Vergessen", "Struggle for Pleasure" e "Maximizing the Audience". Hoje, a sua cabeça encarcerou-se no esoterismo de obras com dez horas de duração intituladas "Alle Dinghe" ou "Gave Van Niets", que incluem solos de fagote de meia hora.
Nos intervalos da escrita para fagote Mertens desforra-se, lançando no mercado postais pindéricos de pianadas "new age" autentificados com o selo de garantia de "autor". O novo "Der Heisse Brei" sem ser tão soporífero como alguns dos seus trabalhos neste campo de maior "luminosidade", chamemos-lhe assim, não evita, no entanto, a monotonia de frases melódicas estafadas e um romantismo de pacotilha. Mas continua a ser divertido observar o artista a espremer-se na voz de falsete com que costuma abrilhantar as suas atuações.
Quem está na moda é António Chainho, que será o segundo artista a atuar, - amanhã – no Outono em Lisboa. A seguir ao golpe de mestre "A Guitarra e Outras Mulheres", o guitarrista volta a explorar o filão de ouro da fórmula "guitarra portuguesa mais vozes ilustres" no novo "Lisboa-Rio". Depois de Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Marta Dias, Sofia Varela, Elba Ramalho e Nina Miranda, presentes no disco das "outras mulheres", responderam à nova chamada Ney Matogrosso, Paulinho Moska, Virgínia Rodrigues, Celso Fonseca e Jussara Silveira. Em prole da fusão das músicas portuguesa e brasileira.

OUTONO EM LISBOA
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Rodrigo Leão, hoje, António Chainho, 6ª, Wim Mertens, sáb., sempre às 21h30
Bilhetes entre 1500$ e 4500$ para o espetáculo desta noite; entre 2000$ e 5000$, 6ª e sáb.

DJing in the rain [Número Festival]

SÁBADO, 2 DEZEMBRO 2000 cultura

Inundações na noite de abertura do Número Festival, no Parque Eduardo VII, em Lisboa

DJing in the rain

Houve inundações na abertura do Número Festival. A água da chuva entrou pela tenda dentro, encharcando os pés das muitas pessoas que acorreram ao Parque Eduardo VII para ouvir música eletrónica. Na enxurrada de DJing, a música dos Pan Sonic e das Chicks on Speed mal conseguiu boiar.

Várias coisas não funcionaram na primeira das três noites (quinta-feira) do festival Número que tem estado a decorrer no Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa tenda de circo instalada para o efeito. Em noite de tempestade, a água da chuva correu com fartura pelo chão, transformando-o em leito de rio. Além disso, embora o horário fosse cumprido quase escrupulosamente, houve DJing a mais para concertos a menos, o que encurtou sobremaneira as atuações dos dois grupos de palco, Pan Sonic e Chicks on Speed. Por questões de estética assumida ou erro de cálculo, rodaram em demasia os leitores de CD e gira-discos. Números para serem revistos no futuro.
Passaram, em primeiro lugar, num ecrã triplo, as imagens de uma curta-metragem realizada pelo Pogo Teatro. A banda-sonora com música de Shabotinski, Klaus Nomi e Gustavo Lamas ajudou a suportar a visão ultra-realista de uma Lisboa reduzida a ícone do vazio metamorfoseada pela mente em cenário de ações virtuais.
F. Fadigas não perdeu tempo, sentando-se de imediato aos comandos da mesa de som. O primeiro DJ da noite compôs uma massa de sons abstratos sem ponta de "groove" a que as pessoas se pudessem agarrar. Faltou-lhe o que manifestamente existe na dupla Major Eléctrico, que atuou a seguir: uma estratégia. Pedro Santos e José Moura improvisaram como uma entidade única lançando para a pista jatos de "noise", batidas subliminares e "cut-ups" que terminaram com a truncagem da voz de um anunciante de telemóveis.
Temia-se uma sova sonora a sério dada pelos finlandeses Pan Sonic. Nada que não pudesse ser resolvido com um par de tampões para os ouvidos mas, para estupefação de alguns e sobretudo para os que estiveram presentes na atuação do duo o ano passado no Festival Reset! - onde o massacre foi avassalador -, a música orientou-se por outras coordenadas. Embora a energia física que se desprende da eletrónica dos Pan Sonic se fizesse sentir e os estômagos agradecessem a massagem das baixas-frequências, a música esteve sempre focada, alternando passagens de ruído rosa com as típicas batidas "pata de elefante" ou martelo-pilão que fazem dos Pan Sonic os Kraftwerk dos esgotos, com o computador de ritmos a simular a sequência "boing, boom, tchak" de um dos álbuns dos magos de Dusseldörf. Poder e concentração num concerto que pecou por ser curto.
De outro DJ em agenda, Russell Haswell, esperava-se nova dose de agressão ou, no mínimo, de provocação. Mas se o início do seu "set" chegou a prometer sobressaltos, cedo os pratos se acomodaram às batidas de uma tecno parasitada que não estimulou ninguém – antes recordou que o bar estava ali mesmo ao lado a pedir mais uma cerveja...
O que ninguém esperava era que em vez de cerveja fosse a água o líquido da noite. Estava toda a gente a acomodar-se frente ao palco para receber as meninas Chicks on Speed quando a barragem rebentou e o dilúvio irrompeu pela calçada. Homens e mulheres transformaram-se em coelhos aos saltos em busca de uma margem. Chegar ao bar era nesta altura tarefa impossível, formando-se na zona um pequeno lago onde só faltava ouvir o coaxar das rãs.
Tempestade, alguma confusão, mas, por fim, as Chicks on Speed lá tomaram de assalto o palco, vestidas como as ninfetas punk-futuristas do início da década de 80, como Siouxsie Sioux. Começaram com a eletrónica num caos e os circuitos mal ligados mas a coisa era fácil de compor. A música das Chicks é de uma simplicidade desarmante. O que elas fazem com uma boa-disposição e empenhamento notáveis é mascar os lugares-comuns da "new wave" sintética de há 20 anos, piscar o olho ao "disco", pôr as caixas-de-ritmo em piloto-automático e armar uma pose "kitsch" para tirar o retrato aos anos e aos sons de bandas como Kas Product, Automatic Kids e Fad Gadget. Mas foi giro ouvir as pequenas cantarem "Warm leatherette" de The Normal, um hino da pop eletro-industrial da época, ou colorirem-se com os "confettis" dos B-52's numa atuação que deixou toda a gente feliz e a pedir mais. Pedido aceite e correspondido com "Euro trash girls", título que não poderia vir mais a propósito.
Já com a enxurrada estancada, o Número regressou de novo às mãos dos DJs, desta feita com a equipa da Fat Cat. Mas o que apetecia mesmo era uma toalha...
O Número Festival termina hoje com atuações do pai dos "grooves" do inferno, Aphex Twin, a "click-house" e tecno ambiental de Kid606 e People Like Us, uma rapariga de quem se diz ter ficado enfeitiçada pelos malfeitores sónicos Negativland. Queira Deus que não chova!...