05/12/2016

À mesa com Biosphere

CULTURA
QUARTA-FEIRA, 5 DEZ 2001

Crítica Música

À mesa com Biosphere

Biosphere
Auditório de Serralves, Porto
1 de Dezembro, 22h
Sala esgotada

A montanha pariu um rato. A montanha não, a biosfera. Biosphere, projeto multimédia do norueguês Geir Jenssen, esgotou no sábado passado o auditório de Serralves, no Porto, mas deixou um travo amargo na boca de todos os que esperavam luzes, imagens e paisagens a a acompanhar as sonoridades rarefeitos e a eletrónica contemplativa que podem ser escutadas em álbuns como “Substrata” (reeditado recentemente em formato remasterizado) e “Cirque”. Em vez disso, apanharam com um indivíduo tímido, sentado à mesa, em frente a um minúsculo “powerbook”.
Faltaram meios financeiros ou vontade à organização, para trazer a Portugal o projeto completo, que ainda recentemente encheu e maravilhou uma sala de grandes dimensões, em Londres, num espetáculo descrito por alguns como memorável? A verdade é que Portugal teve apenas direito à música e, mesmo esta, oferecida em deficientes condições.
Problemas técnicos afetaram a manipulação em tempo real do computador, interpondo comprometedores silêncios ou súbitos apagamentos do som, no meio de uma música que vale também como continuum para fazer funcionar em pleno a sua dimensão onírica. Geir Jenssen teve mesmo que murmurar um tímido “I’m sorry” (de resto a sua única intervenção falada...), o público reagiu com compreensão, mas a verdade é que tudo soube a pouco, como se de uma audição caseira dos discos se tratasse. Sob um foco de luz que passou do rosa ao azul, com passagem pelo escarlate, contra um insondável fundo negro, o norueguês pouco mais fez que mexer impercetivelmente os dedos sobre o teclado do “powerbook”, dando ainda por cima a ideia de que os sons seriam na totalidade pré-gravados, o que reduziu ainda mais a margem de comunicação e a espontaneidade da sua performance.
Em vez do planetário, os planetas e estrelas de Biosphere foram servidos à mesa como mero aperitivo. Ficou-se com fome.

The Residents, pesadelo em technicolor

CULTURA
TERÇA-FEIRA, 2 OUTUBRO 2001

XV ENCONTROS ACARTE

The Residents, pesadelo em technicolor

“ICKY FLIX” EM ESTREIA AO VIVO

Cumpriu-se a história. Os Residents enfim em Portugal. Mais formais do que eram antes, mas ainda assim capazes de fazer o público arregalar os olhos perante o seu circo de horrores

Uma lenda é uma lenda é uma lenda residente. Devem as lendas permanecer para sempre como tal, meras representações simbólicas estruturantes do Real, motores invisíveis do mundo? Ou, pelo contrário, descerem à terra como anjos decaídos? Os Residents, banda "underground" (agora já não tanto...) americana que há 30 anos vem escavacando, com tanto de loucura como de método, as fundações da música pop ocidental, são uma lenda. E, ao fim de todo este tempo, o tempo que demorou a este coletivo de homens sem rosto nem nome, a desenrolar a sua visão única e distorcida do universo de emoções, sons e imagens alterados em que se movem, os Residents apresentaram-se em carne e osso em Portugal. No passado fim-de-semana, sábado e domingo, em Lisboa, com lotações esgotadas, na vetusta instituição que é a Fundação Calouste Gulbenkian.
            O que aconteceu nessas duas noites, em termos de receção do público, era previsível. Gente a aplaudir de pé, gritos de "obrigado", como se esta tivesse sido (e provavelmente terá sido...) a oportunidade de uma vida. Não é todos os dias que as lendas se mostram em carne e osso ao comum dos mortais, ainda que, no caso dos Residents, a "carne" e o "osso" tenham a consistência da alucinação.
            E, no entanto, sobretudo para quem tem acompanhado ao longo dos anos a carreira e a obra dos Residents – e que não se deixou impressionar pela tal carga simbólica e pelo "faits divers", ultracolorido e fosforescente, com que o grupo pintou esta sua performance, de genérico "Icky Flix" – ficou alguma frustração. O lado "freaky", desde sempre cuidadosamente cultivado pelos Residents, institucionalizou-se (teria a Gulbenkian aberto ao grupo as portas da sua casa, se assim não fosse?...). Foram uns Residents "mainstream", digamos assim, aqueles que passaram por Lisboa.

Catálogo geral
Foi, apesar de tudo, um bom concerto. Diferente q.b. Perigoso até, para quem se dispôs a investir numa leitura aprofundada do grande pesadelo em technicolor que os Residents, mesmo mais domesticados que há 20, 25 anos, trouxeram ao público português.
            "Icky Flix", o espetáculo, é uma espécie de catálogo geral de uma obra impossível de abarcar e catalogar de forma unidimensional. Sobre um ecrã suspenso sobre o palco, o mesmo "icky cube" que permite seleccionar as várias opções no formato DVD de "Icky Flix", serviu de "menu" ao alinhamento, indicando os títulos que iam sendo tocados. Ideia engraçada que acabou por irritar, ao acentuar o tal lado de mostruário que enfermou todo o espetáculo.
            Os músicos, em número de quatro (computadores, teclados e percussões eletrónicas, uma guitarra elétrica MIDI), apresentaram-se camuflados, como se esperava. Não disfarçados de "eyeballs", descontando o "compère" que deu início à função, que lá apareceu impecavelmente fardado de fraque e com a já mítica cabeça-em-feitio-de-olho, mas trazendo luzes de lanterna fixas na testa, a conferir-lhes o adequado ar de ameaça. Mr. Skull, o senhor deformidade, e uma "barbie"-fantoche fosforescente saída de uma "rave" psicadélica, foram os cantores, mimos e dançarinos de serviço e o principal foco de atração de um "show" que impressionou, sobretudo, pela qualidade e originalidade dos vídeos que foram sendo projetados.
            O mundo visual dos Residents é um "cartoon" grotesco e surrealista, feito de metamorfoses físicas e crueldades mais sugeridas do que explícitas. Tortura cósmica cujos efeitos se fazem sentir nos pequenos gestos do dia-a-dia. A mente perde-se neste jogo de monstros e universos paralelos que a cada momento se entrecruzam e contaminam. Como toupeiras, ou vermes, os Residents não fazem mais do que agitar a terra das aparências e trazer à superfície os demónios mais recônditos que habitam dentro de cada um de nós. À semelhança do que Cronenberg e Lynch (sobretudo de "Eraserhead") fazem nos seus filmes.
            Canções pop como o humanitário "We are the world", transformada em "We are the worms" ("nós somos os vermes"), foram amassadas até se tornarem dejetos auditivos. Mr. Skull e a boneca fosforescente mimaram a impossibilidade da relação amorosa numa dança de corpos incapazes de se tocar. Em "Where is she?", um dos raros momentos realmente dramáticos de "Icky Flix", Mr. Skull personificou a agonia da ausência do amor, gritando como uma criatura cega, a implorar a presença da mulher-fantasma.
            Terá sido, nesta inesperada dimensão, apesar de tudo amorosa, que o concerto – musicalmente, uma sinfonia eletrónica peso-pesada embora distante da anarquia Dada que fez dos Residents de antigamente os incontestados soberanos do bizarro – deixou recordações mais fortes. Ao nível do "encore", 20 minutos nos quais, prescindindo enfim de todo o aparato visual, os Residents provaram ser a Besta do rock'n'roll.
            No final, Mr.Skull, enredado na sua solidão, entre a maquinaria sonora por fim silenciada, exalou o último suspiro do náufrago, instantes antes de se afundar no oceano da sua paranóia, em "Freak show", cuja letra encerra todo um manifesto de intenções: “‘Apenas somos iguais no túmulo e na escuridão', disse um homem cuja cabeça foi mordida por um tubarão. Agora, se me perguntam porque é que eu continuo com tudo isto, duvido que saiba a resposta, por isso apenas faço um palpite: ‘Ter só metade da boca pode não ser grande coisa, mas ainda assim chega para metade de um beijo’”. E, da sua boca arrepanhada, o rosto erguido para o alto num esgar de súplica, tal qual o "Homem-Elefante", de David Lynch, desprendeu-se o horrível ruído. Derradeiro testemunho de uma humanidade perdida.

Anja de cristal no CCB [Anja Garbarek]

CULTURA
TERÇA-FEIRA, 20 NOV 2001

Crítica Música

Anja de cristal no CCB

Anja Garbarek + Casino
Lisboa, Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
18 de Novembro, 20h30
Sala quase cheia

Classe. A classe de uma voz, uma música e uma pose irrepreensíveis que a cantora norueguesa Anja Garbarek trouxe na sua primeira visita a Portugal, domingo, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, deixando como que hipnotizada uma assistência que praticamente encheu o recinto. Nada foi deixado ao acaso. O som, pristino, deixava ouvir a mais leve respiração dos sopros, os mais recônditos pormenores articulados pelo sampler e pelos sintetizadores, cada suspiro do violino, o calor do afago do contrabaixo. Mais importante ainda: o silêncio. O silêncio que impregna e rodeia cada nota de uma música que se entende no recolhimento mas é sentido numa embriaguez serena dos sentidos.
Cinquenta e cinco minutos, incluindo os dois “encores”, foram sufi cientes para deixar toda a gente suspensa da música e da voz de Anja Garbarek, num alinhamento que privilegiou, como não podia deixar de ser, as canções do novo álbum “Smiling & Waving”, mas não deixou de fora as do anterior “Balloon Mood”.
Antes atuaram os portugueses Casino, que entretiveram o público com a fórmula vencedora lounge mais neo-country mais pop alternativa encharcada em violetas e melancolia. Quiçá mesmo algum desespero, como o da vocalista Francisca Cortesão, no esforço titânico para não desafinar.
Instrumentalmente impecáveis, os Casino, se não apresentaram uma grande voz (seria dos nervos? No último tema, da única vez que não cantou e tocou guitarra em simultâneo, sobre uma base de loops, Francisca até esteve bem...) têm, pelo menos, pernas para andar.
Já Anja Garbarek não se satisfez com menos do que a perfeição. A sua voz andou por onde quis, ondulando entre as vagas de trip-hop, enfrentando as difíceis equações da eletrónica, descendo a baixos de veludo, pelas grutas do jazz. Sem uma falha ou uma hesitação.
Mas onde outros se recolheriam num perfeccionismo sem alma, Anja Garbarek soube inventar lugares onde se espraiaram emoções pautadas pela subtileza do canto e acentuadas por um jogo discreto de luzes — nas mil e uma variações e matizes nascidas do combate entre o verde e o vermelho —, que trouxe uma vez mais à memória o “music hall” esotérico de “Blue Velvet”, o filme de David Lynch. Uma dimensão cinematográfica que fez corar de vergonha o cabaré sem magia que Alison Goldfrapp mostrara recentemente em Portugal. Onde Goldfrapp foi cortesã, baton borrado e lantejoulas, Anja Garbarek personificou a fineza e a sofisticação de uma dama de um casino situado fora do tempo, onde mesmo o “kitsch” (o vaporoso vestido verde que levou ao CCB podia passar perfeitamente por uma couve...) ostentou a pureza dos anjos. Stina Nordenstam, Annette Peacock, Leila, Mathilde Santing, ou grupos como Non Credo ou No Secrets in the Family, brilharam como lustres no salão de baile futurista que Anja Garbarek encheu de criaturas tão ternas como bizarras. Só que no CCB a norueguesa fez questão que esse baile fosse só seu. Anja Garbarek dançou dentro das nossas cabeças, como Cinderela, com sapatos de cristal.

EM RESUMO
Garbarek A música e o som de Anja Garbarek roçaram a perfeição, num espetáculo feito de mil e uma subtilezas

Laboratório de novas músicas [Festival Co-Lab]

CULTURA
SEXTA-FEIRA, 19 OUT 2001

PORTO 2001 CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA

Laboratório de novas músicas

FESTIVAL CO-LAB ARRANCA HOJE

O regresso ao Porto do compositor e guitarrista canadiano René Lussier será um dos pontos altos deste certame dedicado à música experimental e improvisada. Oito dias para partir à descoberta de sons surpreendentes

Tem hoje início no Teatro Latino, no Porto, prosseguindo com concertos diários até ao próximo dia 27, o Co-Lab 2001, Festival Internacional de Música Experimental/Improvisada. Quatro salas – além da já citada, o auditório de Serralves, o pequeno auditório do Teatro Rivoli e o café-concerto ESMAE – serão palco de concertos em que irão intervir alguns intérpretes de exceção, portugueses e estrangeiros, das "novas músicas" do mundo. René Lussier, que já esteve presente na edição do ano passado do Co-Lab, apresentar-se-á a solo ao público portuense no dia 24, no Rivoli.
            Nome de referência da música do Quebeque e da editora canadiana Ambiances Magnétiques, René Lussier é um guitarrista próximo, no estilo, de Fred Frith, facto a que não será alheia uma série de colaborações entre estes dois guitarristas, nomeadamente em registo paródico, com os Les Quatre Guitaristes de L'Apocalypso Bar ou, mais recentemente e num registo oposto, com o Guitar Quartet, dirigido pelo próprio Frith, que há dois anos estiveram em Coimbra. Defensor acérrimo da manutenção da língua francesa no Quebeque, e do seu aproveitamento fonético no contexto da música contemporânea, René Lussier abordou esta problemática numa série de álbuns, em particular, de forma mais explícita e interventiva, em "Le Trésor de la Langue".
            No final dos anos 70, Lussier cultivou a estética progressiva e o rock de câmara característicos da editora Recommended, inserido no coletivo Conventum, mas, nas duas décadas seguintes, a sua música evoluiu transversalmente para o "free rock", o jazz em formato Big Band ("Le Tour du Bloc", com a N.O.W. Orchestra), desestruturalismos vários ao lado do manipulador de gira-discos Martin Tétreault e dos Bruire, ou a improvisação pura e simples. Na Ambiances Magnétiques, para onde também gravou o clássico "Fin du Travail", destacam-se os seus trabalhos com outros dois guitarristas, os seus compatriotas Robert-Marcel LePage e Jean Derome. Além do concerto, Lussier dirigirá um "workshop" de música improvisada na ESMAE, de 25 a 27.
            Mas o Co-Lab será também fértil em encontros e surpresas musicais. O percussionista francês Lê Quan Ninh abre hoje à noite o festival, em trio com Fabrice Charles (trombone) e o dançarino japonês Yukiko Nakamura. Ninh é um dos maiores improvisadores da atualidade, tendo tocado, entre outros, com Michel Doneda, Danik Lazro, Gunter Muller e Butch Morris. Outro percussionista, Eddie Prévost, lendário fundador dos seminais AMM, apresenta-se também em trio, com Tom Chant, no saxofone, e John Edwards, no contrabaixo (Serralves, dia 21). Na véspera, Prévost tocará com os Telectu, de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, em concerto comemorativo dos 20 anos de carreira deste prolífico e, por vezes, polémico grupo português. Ainda a 20, durante a tarde, no Teatro Latino, o jornalista e crítico Rui Eduardo Paes orientará um seminário subordinado ao tema "Do que falamos quando falamos de improvisação".
            O Trio Ethos (Frédéric Blondy, piano; Xavier Charles, clarinete; e David Chiesa, contrabaixo), e os portugueses Albrecht Loops, guitarra, e Gustavo Costa, percussão, actuam a 22, no Rivoli, estando esta sala reservada no dia seguinte para o quarteto formado por Nuno Rebelo, Marco Franco, Vincent Peter e Philippe Aubry. Ainda no Rivoli, no dia 25, improvisam John Butcher, no saxofone, e Phil Durrant, eletrónica. De Butcher há quem diga que pode ser o sucessor do genial anarquista Evan Parker. Durrant é o típico manipulador (em sintetizadores analógicos, filtros, efeitos de "delay") de sons e linguagens, estando conotado com a nova escola austríaca representada por Peter Rehberg e Christian Fennesz.
            Carlos Zíngaro, o mais internacional dos músicos portugueses, e os suíços Voice Crack, fecham em conjunto o Co-Lab 2001. Zíngaro com a sua fusão de violino e sintetizadores, os suíços (Andy Guhl e Norbert Möslang) inteiramente concentrados na produção de inusitados jogos eletrónicos. Os Voice Crack levam para o palco "chips" de brinquedos e jogos de computador, células fotovoltaicas acionadas pela luz de uma lanterna, transístores e comandos de televisão modificados. Sintetizadores e computadores é que não. Adeptos das "cracked-everyday electronics", consideram que os instrumentos eletrónicos convencionais "não soam como devem", "têm um aspeto aborrecido" e "são muito pesados de transportar". Dos livros que tanto Zíngaro como os Voice Crack leem (John Cage, Ornette Coleman, Jimi Hendrix, Pierre Schaffer, Pierre Henry...) poderá surgir uma história inteiramente nova.

O herético da sanfona eletroacústica

CULTURA
DOMINGO, 30 SET 2001

O herético da sanfona eletroacústica

Valentin Clastrier assume-se como herdeiro espiritual dos trovadores cátaros da Idade Média. O músico francês inicia amanhã uma minidigressão pelo país

Experiência arrebatadora, presenciar um concerto deste músico-trovador dos tempos modernos, herético da folk, do jazz e da música contemporânea. A sua sanfona eletroacústica permite-lhe dialogar com Deus sem necessidade de intermediários. Diálogo frontal, no limite do dilaceramento e do êxtase.
            Não é a primeira vez que Valentin Clastrier atua em Portugal. Esteve numa das edições dos Encontros Musicais da Tradição Europeia. Os poucos que estiveram presentes nessa ocasião jamais esquecerão aquilo a que assistiram.
            Valentin Clastrier, considerado o melhor executante e maior inovador de todos os tempos, da sanfona, nome de culto com igual prestígio entre os adeptos da música folk e da música contemporânea, entregou-se nessa noite a uma força transcendente, a mesma força que na Idade Média permitia aos místicos gnósticos dispensarem a mediatização da Igreja para chegarem a Deus. Cavaleiros do amor, por oposição a cavaleiros de Roma, os cátaros entregavam-se à ascese enquanto revolução espiritual. Sediados sobretudo na antiga Occitânia (sul de França), eram os cavaleiros do Amor e como tal foram perseguidos e condenados como heréticos pela Igreja Católica. Mas sobreviveram até aos dias de hoje, sob o disfarce da modernidade.
            Quando Valentin Clastrier faz soar a sua sanfona divina, eletrificada e modificada, em improvisações orgásticas (já lhe chamaram o Paganini e o Hendrix da vielle-a-roue...) ou desenrolando longas “drones” encomendadas aos anjos, desencadeia em si próprio e no ouvinte um magma de emoções que não se compadecem com a normal relação músico-ouvinte. Somos arrastados em conjunto. Fomos arrastados nessa noite em Algés, quando Valentin fez gritar e chorar a sua sanfona, da qual arrancou sons inacreditáveis, sons de outro mundo e de outros tempos, sons do fim do mundo. O céu e o inferno. Rugidos e explosões. Preces e murmúrios. O compasso marcado pelos pés em hecatombe contra o palco num arrebatamento sem limites.
            Já depois do concerto terminado, nos bastidores, denotando uma serenidade a contrastar com a possessão a que se entregara minutos antes, Valentin Clastrier falou suavemente de lendas, de santos e demónios, do estudo e da vivência da espiritualidade trovadoresca aos quais há anos se dedica, da gnose espiritual e musical, do tempo e da eternidade, da sua posição de “outsider” no seio da indústria. Loucura santa. Nessa altura jurámos que haveríamos de o ver “atuar” de novo em Portugal. Era obrigatório que muitos mais do que aqueles poucos que saíram com a cabeça nas estrelas nessa noite em Algés, recebessem esta música detentora do poder da transfiguração. Essa oportunidade chegou. E com ela a claridade.
            Valentin Clastrier toca sanfona eletro-acústica desde 1983. Ele próprio idealizou e construiu um modelo original deste instrumento muito popular na Idade Média, e adoptado pela cultura trovadoresca. O modelo que inventou possui mais cordas que o modelo tradicional e a sua ligação a vários pedais eletrónicos permite-lhe a reprodução de sonoridades de violino, violoncelo, baixo ou guitarra elétrica. Com base na música tradicional francesa e italiana, o jazz europeu e a música contemporânea, a par das potencialidades técnicas e expressivas desta sanfona protótipo, Clastrier desenvolveu um estilo único que o torna num dos músicos mais originais e radicais da atualidade. Actuou ao lado de Henri Texier, Michael Riessler, Gérard Siracusa, Michel
Godard, Carlo Rizzo, Joëlle Leandre e fez parte do grupo contemporâneo de sanfonas, Viellistic Orchestra. Gravou os álbuns “Chants de la Mémoire”, “Hérésie”, “Le Bûcher des Silences”, “Palud” e a caixa de dois CD, “Hurdy-gurdy from the Land of the Cathars”.
            De todos eles, “Heresie” é o mais conhecido e o único que teve distribuição em Portugal. São vários os títulos deste álbum que Clastrier tocará para o público português nesta sua mini-digressão por Abrantes, Santiago do Cacém, Silves, Ponte de Sor e Estremoz, no âmbito do festival Sete Sóis Sete Luas.
            “Fin’amors de flamenca” fala do amor idealizado, a partir de um romance occitano do séc.XII. “Comme dans un train pour une étoile” — “Se apanharmos um comboio para nos encontrarmos em Tarascon ou em Roma, é como apanhar a morte para viajar no interior de uma estrela” (excerto de uma carta de Van Gogh ao seu irmão) — foi escrito para uma peça de teatro em homenagem ao poeta e dramaturgo Antonin Artaud. “Endura” designa o jejum até à morte dos prisioneiros cátaros, prática à qual se submetiam como forma extrema de escapar à tortura da Inquisição. Valentin Clastrier apresentará ainda os inéditos “Au fond des temps” e “Gala”, dedicado à mulher de Paul Éluard e, posteriormente, Salvador Dali. E “Et la roue de la vie”, do álbum “Le Bûcher des Silences”, jogo de palavras continuamente repetidas até “roue de la vie” se transformar em “vielle-a-roue”, “sanfona”.
            Transformação da vida em música. Alquimia suprema a de Valentin Clastrier, mestre na verdadeira aceção da palavra.

DIGRESSÃO

ABRANTES, dia 1, Cineteatro São Pedro
SANTIAGO DO CACÉM, dia 3, Biblioteca Municipal
SILVES, dia 4, Igreja da Misericórdia
PONTE DE SÔR, dia 5, Teatro Municipal
ESTREMOZ, dia 6, Teatro Bernardo Ribeiro

Todos os concertos às 21h30.
Entrada livre.

Um festival de folk no sítio certo [Festival de Música Tradicional de Macedo de Cavaleiros]

CULTURA
SEXTA-FEIRA, 14 SETEMBRO 2001

Um festival de folk no sítio certo

MACEDO DE CAVALEIROS

Riccardo Tesi com Patrick Vaillant, Gaiteiros de Lisboa, Xarabanda e muita animação de rua em destaque na programação. Esperadas 5000 pessoas no local

Num ápice, Trás-os-Montes tornou-se palco privilegiado de festivais de “world music”, com incidência na sua vertente folk, europeia e céltica. Depois de em Agosto se ter cumprido a segunda edição do Festival Intercéltico de Sendim, espécie de resposta, mais a norte, do seu congénere do Porto, é a vez de Macedo de Cavaleiros realizar, pelo segundo ano consecutivo, o seu próprio festival, numa iniciativa que, pelos seus moldes, dá mostras de ter vindo para ficar. “No ano passado tivemos 3000 pessoas, este ano prevemos 5000”, garante Mário Correia, da Sons da Terra, entidade responsável pela programação do II Festival Internacional de Música Tradicional de Macedo de Cavaleiros, cuja organização está a cargo da câmara municipal. Festival com características próprias, sobretudo “ao nível do envolvimento da população e da festa nas ruas e praça das Eiras”.
            Mário Correia traça o panorama do que poderá ser ouvido e vivido, hoje e amanhã, nesta vila situada não muito longe da Terra de Miranda, da animação de rua aos concertos, dos quais se destacam os dos Xarabanda, hoje, e de Riccardo Tesi com Patrick Vaillant e dos Gaiteiros de Lisboa, ambos amanhã.
            “Envolvimento” e “festa” são as palavras-chave. “O festival é feito num auditório natural, num jardim”, explica o programador e autor de uma série de recolhas de música tradicional transmontana que têm vindo a ser compiladas pelo Centro de Música Tradicional Sons da Terra. “Os músicos entram por todos os lados, com o local a ser invadido por Caretos de Podence (na foto) e por gaiteiros. Nos concertos, os grupos atuam no centro, rodeados pelas pessoas, que vão sentar-se em volta, a três ou quatro metros”.
            Para Mário Correia esta aproximação entre o público e os artistas integra-se numa nova conceção de festivais folk na qual a própria localização geográfica e a fuga às salas fechadas desempenham um papel fundamental. Assim se compreende que Trás-os-Montes apareça como região ideal para a realização deste tipo de eventos. Trás-os-Montes das fragas e dos vales profundos, do verde e do granito, trazendo à memória reminiscências de um passado mítico que a imaginação atualiza, dando-lhe
forma no presente.

Música que atrai a paisagem
Trata-se, tão-só, para Mário Correia, “de uma questão de harmonia”. “É em Trás-os-Montes que estas músicas são mais conservadas, onde têm uma maior ligação — ainda — às funções e aos contextos tradicionais”, diz. “As pessoas estão a começar a ir, e isto é que me parece importante, aos festivais, no sítio certo, no momento certo”. Para Mário Correia, esta música atrai a paisagem, chama por ela: “A folk está a deixar de fazer sentido nas salas, como já acontece na Cantábria ou nas Astúrias. Há uma deserção, os festivais saíram das salas e deslocam-se para o meio das árvores, para os bosques, para as praças.”
            Em Macedo de Cavaleiros pode-se ir para os bosques, em busca dos druidas e das suas poções mágicas, das pedras sagradas ou da porta de entrada do paraíso celta a que se acede fazendo girar no sentido correto as espirais do “triskell”, símbolo ancestral cuja origem se perde no fundo dos tempos. Para ouvir melhor a música que o II Festival Internacional de Música Tradicional de Macedo de Cavaleiros tem para oferecer, convirá, no entanto, permanecer no tal sítio certo, onde decorrerão os concertos, a praça da Eira.
            É lá que desfilarão, já hoje, ao fim da tarde, os Pauliteiros de Salselas, a Banda de Gaitas Devalar-A Torre, da Galiza, os Caretos de Podence e o Grupo Cultural da Casa do Povo de Macedo de Cavaleiros. Mais tarde, a partir das 21h30, chegarão os concertos (ver cartaz), que terminarão com os Xarabanda, da Madeira, grupo paradigmático que aqui dará o seu primeiro grande concerto num festival com estas características.
            Amanhã, após mais uma sessão de rua, seguem-se os concertos (ver cartaz). Destaque para a loucura infernal dos últimos, o grupo mais bárbaro da folk nacional, e para a dupla formada pelo acordeonista toscano Riccardo Tesi (ex-Ritmia, atual líder dos Banditaliana e visitante regular do nosso país) e o guitarrista e bandolinista francês Patrick Vaillant, praticantes de uma fusão palaciana de folk e jazz que pode ser escutada em disco nos álbuns “Véranda” e “Colline”.
            Mas a segunda e última noite do II Festival Internacional de Música Tradicional de Macedo de Cavaleiros só terminará quando as gaitas-de-foles dos Devalar - A Torre esvaziarem, exaustas, todo o seu ar e o ritual-do-que-está-para-além-do-tempo ceder contrariado à luz da manhã, a despertar-nos para a imensa sombra de tristeza que se abateu sobre o mundo neste final de Verão.

CONCERTOS

Hoje, 21h30
— Paranza di Somma Vesuviana (Itália)
— Quempallou (Galiza)
— Portal Votis (Portugal)
— Los Gatos del Fornu (Astúrias)
— Xarabanda (Madeira)

Amanhã, 21h30
— Riccardo Tesi e Patrick Vaillant
(Itália/França)
— Rao Trio (Castela)
— Saltabardales (Cantábria)
— Gaiteiros de Lisboa (Portugal)

MACEDO DE CAVALEIROS
Praça da Eira. Entrada livre

Falar de gaitas em Vimioso

Ainda em Trás-os-Montes, em Vimioso, Terra de Miranda, vai decorrer no próximo fim-de-semana, nos dias 21, 22 e 23, no Auditório da Casa da Cultura, o I Congresso da Gaita-de-foles em Portugal, série de dez conferências sobre a gaita-de-foles, ou cornamusa, instrumento musical tradicional característico não só da região do Nordeste transmontano como de toda a Europa onde a civilização celta deixou vestígios. Organizado pela Área da Cultura da Câmara Municipal de Vimioso e pelo Centro de Música Tradicional Sons da Terra, o congresso pretende, segundo Mário Correia, “refletir, ou fazer comunicações, com um fundo pedagógico, mas proferidas por músicos gaiteiros”. Entre os músicos participantes contam-se Pablo Carpinteiro, Roberto Diego, do grupo da Cantábria, Luétiga, Abílio Topa, Alberto Jambrina Leal, Manuel Tentúgal, mentor do projeto Vai de Roda, e Paulo Marinho, dos Sétima Legião e Gaiteiros de Lisboa. Serão proferidas comunicações sobre a gaita-de-foles na Galiza, Astúrias, Cantábria, mirandesa, zamorana e sanabresa, Trás-os-Montes, região de Coimbra e Extremadura.

Muitos Sóis e muitas Luas

CULTURA
DOMINGO, 10 JUN 2001

Muitos Sóis e muitas Luas

Festival abre terça-feira e dura até ao Outono, em Portugal, Itália, Espanha e Cabo Verde

165 espetáculos a ter lugar entre Junho e Novembro, 51 localidades, 13 câmaras diretamente envolvidas no projeto. São estes os números do 9º festival Sete Sóis Sete Luas, uma produção da Associazione Culturale Immagini que promove o intercâmbio cultural entre o quadrilátero Portugal, Toscânia, Comunidade Valenciana e Cabo Verde.
            Como tem vindo a acontecer nos últimos anos, o programa é diversificado, apresentando propostas aliciantes nas áreas da música popular e tradicional, teatro de rua e cinema e, este ano, pela primeira vez, a gastromia, equacionada na sua dimensão cultural (ver caixa).
            Hevia, Xosé Manuel Budiño, Enzo Gragnaniello, Riccardo Tesi & Patrick Vaillant, Jovanotti, Khaled, Mercedes Péon, Sally Nyolo e Valentin Clastrier são os principais artistas estrangeiros que irão atuar em Portugal nos próximos meses. No âmbito da Festa Europeia da Música, entre 12 e 24 deste mês, em Santa Maria da Feira, e do ciclo "Mare Nostrum", em Julho, Agosto e Setembro, no Algarve, mas também em concertos singulares programados de Norte ao Sul do país.
            O contingente português que se fará representar este ano, em Julho, em Pontedera, na Toscana italiana, é constituído por Camané, Lula Pena, Rodrigo Leão e Dona Rosa, aos quais se juntarão o cabo-verdiano Bana, o Coro Odemira, a Orquestra de Ponte de Sor, um grupo étnico de violas campaniças e os italianos Riccardo Tesi (para apresentar um novo projeto centrado na "Toscana Minore"), Vox Populi, La Macina e Fratelli Mancuso. Depois das presenças, no ano passado, de Mafalda Arnauth e Cristina Branco, o fado continuará deste modo a marcar presença em Pontedera, desta feita partilhado entre o tradicionalismo assumido até à medula por Camané, autor de "Esta Coisa da Alma", e a panvisão de Lula Pena, que revolucionou o canto fadista há dois anos com o álbum "Phados". Rodrigo Leão levará ao cenário idílico de Villa Malaspina, em Montecastello, o classicismo etéreo do seu novo "Alma Mater". Ainda em Pontedera estará presente o poeta António Osório, que dará dois recitais da sua poesia, e o cineasta Pedro Costa, para acompanhar a projeção do filme "No Quarto de Vanda" e apresentar, em estreia, o documentário "Danièle Huillet, Jean-Marie Straub".
            Hevia (concerto único já no próximo dia 15 em Sta. Maria da Feira) e Xosé Manuel Budiño (julho, em Portimão) são dois dos mais tecnicistas e mediáticos gaiteiros da Espanha céltica, qualquer deles apto a demonstrar como se combina o rock e a música tradicional, respetivamente das Astúrias e da Galiza. Hevia vende milhões, irrita os puristas e usa uma gaita-MIDI mas a verdade é que se torna difícil resistir ao balanço do seu novo álbum, "Al Otro Lado". Budiño, na peugada de Carlos Nuñez, também cedeu ao mainstream, mas o seu discurso na gaita galega continua a ser tão inovador no novo "Arredor" como era no álbum de estreia, "Paralaia".
            Jovanotti (Julho, em Faro) e Enzo Gragnaniello (Junho, na Feira) representam facetas distintas do canto de autor italiano. O primeiro faz vibrar as multidões com a sua pop mascarada pela irreverência do rap. O segundo, autor de uma canção, "O mar e tu", cantada por Andrea Bocelli de parceria com Dulce Pontes, exige uma escuta mais atenta.
            E se a cantora dos Camarões, Sally Noyo (Julho, em Oeiras) e o argelino Khaled, embaixador do "raï" mais comercial, são ambos presenças VIP da world music, o acontecimento musical destes Sete Sóis Sete Luas será uma série de concertos protagonizados por Valentin Clastrier, o Hendrix da sanfona electro-acústica, herdeiro da espiritualidade gnóstica dos cátaros, intérprete iluminado de uma música que funde o séc. XXI na espiritualidade e ascese trovadorescas da Idade Média. Os dias 1, 3, 4, 5 e 6 de Outubro serão todos dias de S. Valentin em Portugal.
            A área da folk traz ainda a Portugal duas bandas a descobrir: os Ximbomba Atómica, das Ilhas Baleares (álbum, notável, "Cabres de Plàstic") e os Muziga, da República Checa (a ouvir, o sussurrante "Hej Lesem"). Interessantes são os Acetre, da Estremadura espanhola, e menos interessantes os Whisky Trail. Para escutar os Barabàn e as suas sonoridades célticas do Norte de Itália, será preciso viajar no dia 2 de Novembro até à Ribeira Grande, em Cabo Verde.
            Mas o Sete Sóis Sete Luas não se esgota nestes concertos, sendo possível assistir ainda a espetáculos de Rão Kyao, Simby (da Guiné Bissau, com Guto Pires, o guitarrista de jazz português, "Dudas", dos Ficções, e Wye Sissoco, ligado aos Super Mama Djombo), Canto Discanto (folk italiana), Mafalda Arnauth, Miguel Poveda (nova estrela do flamenco) e Paranza di Somma Vesuviana (folk da região do Vesúvio).
            A nova biblioteca de Santa Maria da Feira receberá em Setembro o convénio "A Europa das Culturas", com a presença do filósofo Gianni Vattimo, do escritor Francesco Alberoni e do ensaísta Raimon Panikkar. Ainda na Feira, também em Setembro, decorrerá um festival de teatro de rua com os grupos Sarruga, Aerial, Xarxa Teatre, Teatro ao Largo, Transe Express, Generik Vapeur, Les Plasticiens Volants e Vesuvio Teatro. Muitos sóis e muitas luas.

Bifes de Dante
O Sete Sóis Sete Luas abre oficialmente, de garfo e faca, na próxima terça-feira, no castelo de Santa Maria da Feira, com a encenação (e degustação...) de uma refeição sagrada, com a Compagnia del Teatro Lux di Pisa, o encenador Paolo Pierazzini e o cortador de carne Dario Cecchini. O espetáculo, literalmente para meter o dente, chama-se “Antica Macelleria Cecchini” e é uma iniciação aos prazeres da carne, que implicará a transformação – não só estomacal... – dos assistentes. Cecchini, o sublime talhante, trabalhará a carne o e espírito. Alquimista do bife, na variante “chianina”, carne exclusiva da região de Chianti, limpa de priões inoculadores de loucura bovina, Cecchini apresentará aos paladares o mítico “Tonno chiantino”. A acompanhar, lerá excertos, os mais sanguinolentos, do “Inferno”, de Dante Alighieri. A seu lado terá o “chefe” português Luís Soto Mayor, da “Adega do Monhé”, em Santa Maria da Feira, que, a par da confeção culinária, lerá por sua vez poemas de Álvaro Campos. Sangue e músculos do boi e da vaca, poesia, música e teatro combinar-se-ão num cerimonial dionisíaco de enchear a alma e a pança. “Experiência química, denâmica e de interação”, diz o programa, será como “uma poção mágica cujos ingredientes são o olfato, a visão, o ouvido e o paladar”, não uma ocasião de “consumo” mas de “transformação interior” e de “convívio”. Convém ir de espírito aberto e estômago vazio.