25/02/2016

DAT Politics - Plugs Plus

Y26|ABRIL|2002
roteiro|discos

DAT POLITICS
Plugs Plus
Chicks on Speed, distri. Ananana
8|10

dat politics soft, where?

Depois de se fazerem anunciar como quaisquer publicitários de meia tijela, através do slogan “Dat politics”, os primeiros sons de “Re-folk” parecem enveredar pela mesma via de rebentamento dos tímpanos com que a banda francesa já encetara o ataque sónico inicial do álbum anterior, “Sous Hit”. Pura ilusão. Ou manobra de diversão, de um álbum que não esconde ter como objeivo principal divertir. “Plugs Plus” assinala a entrada, com serpentinas e confettis usados, dos DAT Politics no universo das “funny electronics”, lugar algo superlotado pelo contingente de bandas alemãs que souberam aprender a lição dada no passado pelos Cluster, Der Plan e Pyrolator.
            Para trás ficaram, até ver, os golpes de lâmina dos Tone Rec e do primeiro manifesto DAT, “Villiger”. O que antes era agressão tornou-se divertimento, com os franceses a revelarem-se mestres na assimilação e síntese de uma estética sem precedentes na música contemporânea. Claro que a entrada para a editora das gozonas Chicks on Speed não é alheia a esta inflexão que transformou o “laptop rock” dos DAT Politics numa creche digital onde veio toda a gente brincar um bocadinho. Schlammpeitziger, Matmos, Kid606, Blectum from Blechdom e, sobretudo, Felix Kubin, participam em “Plugs Plus” como manivelas de uma máquina finalmente pop que, no entanto, continua a não dispensar a manipulação de inusitados materiais sonoros, sejam lixo informático, samples submetidos a tortura ou microscopias ao software – que de “soft” tem muito pouco… - dos “Powerbooks”. E se escrevemos “sobretudo Felix Kubin” é porque é a este génio e entertainer alemão, para quem a eletrónica é um ursinho de peluche, que os DAT Politics franquearam a entrada no seu escritório e pediram conselhos, seja na citação direta de “Senior actif” e “food” (temas que retomam com dose adicional de acidez o anedotário dos Nova Huta), seja, como em “Morgens, mittags”, na rememorização, cheia de cortes, omissões e remendos, de “Ein Bundel Faulnis in der Grube”, álbum seminal de Holger Hiller, pai espiritual de Kubin. “Tout bleu” vai ainda mais longe e roça o kitsch de… Plastic Bertrand, mas o que noutros programas e em cabeças menos destrambelhadas se arriscaria a cair em desgraça e no mau gosto, nos DAT Politics funciona como convite para uma espécie de chafurdice binária que de imediato sofre a correção (e o corretivo…) com a tareia de “scratch” e “digital noise” (muito Kid606, diga-se em abono da verdade) aplicada por “Icq”.

            “Plugs Plus” é o álbum alemão da pop francesa. Experiência genética de clonagem bem sucedida. Música de variedades da sociedade de bonecos animados do séc. XXI. Ou nada de tão sério como isso, se levarmos em conta a proclamação final enunciada, entre bits descontrolados, flashbacks dos anos 80 e fragmentos de música clássica caídos ali por acaso, pelos compères de um circo de pulgas: “If you want to pass our class, you have to show your ass”.

Fad Gadget - Fireside Favourites + Gag

Y 19|ABRIL|2002
discos|roteiro

FAD GADGET
Fireside Favourites
Gag
Mute, distri. Zona Música
7|10


A morte recente de Frank Tovey, vulgo Fad Gadget, veio chamar a atenção para a obra dos anos 80 deste pioneiro da eletropop em versão sanguinolenta e ferrugenta. Ao contrário da pose afetada e do “make-up” de gente como Visage, Classix Nouveau e Spandau Ballet, Gadget assumiu-se como uma espécie de Iggy Pop da robótica, assinando concertos onde o niilismo, a pop, a maquinaria e a auto-flagelação faziam parte de uma estratégia de provocação. “Fireside Favourites”, de 1980, explode numa pop industrial que não esconde as influências dos Cabaret Voltaire e dos Human League anteriores à fase “glam”, melodias trauteáveis envoltas em programações de metal, sublimadas no tema final pelo bio-experimentalismo de “Arch of the aorta”. “Gag” (1984), ao invés, é um disco rock, rodeado de ‘riffs’ de guitarras. Pena é que não estejam disponíveis os dois álbuns que Gadget gravou de permeio, “Incontinent” e “Under the Flag”, por sinal os seus melhores…

THE CHIEFTAINS + BERT JANSCH + JOHN RENBOURN + FAIRPORT CONVENTION

Y 19|ABRIL|2002
roteiro|discos

THE CHIEFTAINS
The Chieftains 7
The Chieftains 8
The Chieftains 9: Boil the Breakfast Early
8|10
Columbia Legacy, distri. Sony Music

BERT JANSCH
Birthday Blues
Rosemary Lane
8|10
Sanctuary, distri. Som Livre

JOHN RENBOURN
John Renbourn
7|10
Sanctuary, distri. Som Livre

FAIRPORT CONVENTION
Some of our Yesterdays
6|10
2xCD Sanctuary, distri. Som Livre

bert jansch o nick drake da folk

Boas notícias para os “maluquinhos da folk”, se não no capítulo das novidades, pelo menos no das remasterizações. Os Chieftains são o que são – o rosto mais nobre da folk irlandesa. Depois da recente antologia e de um anterior pacote de remasterizações dos quatro primeiros álbuns, a operação prossegue com os capítulos 7, 8 e 9. Anos “vintage”, anteriores aos das atuais “paradas de estrelas”, concentram-se no melhor que a banda sabe fazer: folk tradicional ao mais alto nível. Os dois primeiros volumes contam pela última vez com a participação de Martin Tubridy e Seán Potts, enquanto “Boil the Breakfast Early” assinala a entrada do “virtuose” da flauta e do tin whistle, Matt Molloy, ex-Planxty e ex-Bothy Band. Para os apreciadores, a melhoria de som e a apresentação retocada, são suficientes para não fazer mais perguntas. Para os curiosos, porém, que, por qualquer fenómeno sem explicação, não conhecem os The Chieftains, estes três álbuns não terão colados o rótulo de clássicos, honraria reservada para a obra-prima “The Chieftains 5” (senhores da Sony, não se vão esquecer de o remasterizar, pois não?), “The Chieftains 10”, “Celebration” e “Celtic Wedding”, mas um só “reel” dos Chieftains vale por um baile inteiro de qualquer grupo maçarico céltico.
            Com Bert Jansch e John Renbourn, a cena muda. Eram o par de guitarristas dos Pentangle, banda britânica dos anos 60 responsável por uma fusão etérea da “albion folk” com o jazz. Bert Jansch continuou a gravar até aos dias de hoje discos importantes, como “When the Circus Comes to Town”. Mas na altura em que se fechou no estúdio para fazer “Birthday Blues” (1968) e “Rosemary Lane” (1971), a sua música denotava uma fragilidade, um cariz introspetivo e delicadas inflexões vocais que faziam dele uma espécie de Nick Drake da folk. “Birthday Blues”, colorido pelo saxofone e pela flauta de Ray Warleigh, tem metade do coração cravada nos blues e a outra metade em baladas que falam de lugares escuros, unicórnios e tempos esquecidos. “Rosemary Lane” é o “Pink Moon” de Bert Jansch. Guitarra acústica e voz formando o arame sobre o qual a voz de equilibra em delicadas melopeias e a guitarra se debruça sobre si própria em busca dos acordes essenciais.
            John Renbourn, como Jansch, um notável guitarrista, levou às últimas consequências o interesse pela música medieval, em álbuns como “The Lady and the Unicorn”, o clássico “A Maid in Bedlam” e “The Enchanted Garden”. “John Renbourn”, de 1966, constitui a sua estreia a solo e nela encontram-se referências da época que vão de Bob Dylan a Donovan, a par da raiz do “blues” e do “ragtime”. Ao contrário de “Birthday Blues” e “Rosemary Lane”, é um álbum de guitarra que convoca a tradição e as técnicas do “fingerpicking” e da “bottleneck guitar”, de uma seriedade e devoção sem reservas, mas distante do esplendor, das sacabuxas e das cromornas do Renbourn apaixonado pela Idade Média.

            Desigual e atafulhado de bons momentos misturados com lixo, “Some of our Yesterdays” repesca a música posterior a 1985 dos Fairport Convention, banda já com 36 anos de existência que inaugurou o género “folk rock” com dois álbuns fulgurantes: “Liege and Lief” (1969) e “Full House” (1970). Os medleys instrumentais demonstram que Ric Sanders, pese embora todo o seu tecnicismo como violinista, nunca conseguirá fazer esquecer a “absolute folkiness” de Dave Swarbrick, da mesma maneira que, nas baladas, a voz de Cathy Surf, em “My feet are set for dancing”, não passa de uma caricatura da da malograda e inimitável Sandy Denny. Registe-se, mesmo assim, a par de uma versão de “Gold”, de Peter Blegvad, a deliciosa “catchiness” pop de “The hiring fair”, um tema de Ralph McTell, num dos poucos momentos que quase nos fazem acreditar que os Fairport Convention poderiam ser hoje mais do que o simples cavalo de corrida em que na realidade se tornaram.

20/02/2016

Faust - Freispiel

Y 12|ABRIL|2002
roteiro|discos

FAUST
Freispiel
Klangbad, distri. Ananana
7|10 

Todos os participantes nesta coleção de remisturas de temas de “Ravvivando”, álbum de 1999 da mítica banda alemã, são unânimes no reconhecimento da importância que os Faust tiveram nos anos 70 e para a sua própria formação como músicos. É verdade que o pós-industrialismo de “Ravvivando” só parcelarmente evocava o fragor metálico da obra seminal dos anos 70, pelo que se desculpará uma desfaçatez como a de Mathias Schaffhäuser, ao transformar “T-électronique” em tropeção techno. Outros participantes ilustres, como Dave Ball (ex-Soft Cell), Sofa Surfers, Funkstörung, Kreidler e Howie B puxam a brasa à sua sardinha. O mesmo fazem os Residents, porém com o inconfundível toque de originalidade que os caracteriza, propondo uma variante de “Not available” que introduz a gravação da voz do astronauta russo Vladimir Komarov, primeiro a morrer numa missão espacial, em 1967. A fechar, os Dead Voices on Air fazem a melhor releitura dos Faust, recuperando com brilho a forma como os germânicos construíam as suas colagens de rock, poesia, romantismo e música concreta.


Soul Center - Soul Center

Y 12|ABRIL|2002
roteiro|discos

SOUL CENTER
Soul Center
Novamute, distri. Zona Música
7|10


Thomas Brinkmann, aliás Soul Center, enceta a terceira etapa da sua cruzada a favor de um “back to the basics” da “dance music” que junta as pontas da tecnologia “hi-tech” à raiz da “soul” e do “rhythm ‘n’ blues”. Claro que se pode observar através do prisma da ironia esta estratégia de remontagem, do ritmo e da alma, que remete para os manifestos tribais de Sly and the Family Stone, sem que daí se possa inferir qualquer desvalorização. A “soul” de Thomas Brinkmann é techno, o prazer confunde-se com a mecânica, como o do cão-robô que, na capa, persegue um osso-robô, mas o que o músico alemão continua a conseguir fazer como ninguém é por qualquer um a dançar como uma marioneta sem vontade. Recorrendo a samples de Isaac Hayes ou dos Soul Children, formatados em programações infatigáveis ou, em “I know”, cavando um poço de baixos “dub” que parece não ter fundo, “Soul Center” soa talvez mais analítico e “pensado” que os anteriores capítulos, mas o resultado é o mesmo: gastar as solas dos sapatos.

Stars Of The Lid - The Tired Sounds Of Stars Of The Lid

Y 12|ABRIL|2002
roteiro|discos

STARS OF THE LID
The Tired Sounds of Stars of the Lid
2xCD Kranky, distri. Sabotage
8|10


O título pode ter conotações pejorativas, mas não é por aí que deve ser avaliada a música da dupla Brian McBride e Adam Wiltzie. Não é o cansaço mas a noção de tempo infinito que se desprende da audição de “The Tired Sounds of…”. Os Stars of the Lid (SOTL) aproveitam todo o tempo do mundo para estender as suas longas drones de eletrónica emitidas a partir do centro de buracos negros. Como em “The Ballasted Orchestra”, “Avec Laudenum” ou “Gravitional Pull vs. the Desire for an Aquatic Life”, a música que lentamente inunda o nosso cérebro (dela se diz que “tem menos a ver com o espaço exterior do que com o espaço interior”) parece jorrar de uma fonte ininterrupta de tonalidades “ambient” e harmonias subliminares. E se a entrada, “Requiem for dying mothers”, sugere uma abertura ao ritmo sem precedentes na obra anterior dos SOTL, compondo uma estranha sonata de “eletrónica de câmara” que soa tanto a Gavin Bryars como a Roger Eno, a verdade é que todo este teatro de sons sem margem à vista, mais do que a Brian Eno, é a La Monte Young que deve a sua sustentação.

16/02/2016

Mais do mesmo, não! [Pedro Abrunhosa]

Y 5|ABRIL|2002
roteiro|ao vivo

pedro abrunhosa
mais do mesmo, não!

“Intimidades” foi o termo escolhido por Pedro Abrunhosa para designar o espetáculo que apresenta, esta noite e amanhã, no C.C.B., em Lisboa. Temas novos, a incluir no próximo disco, e versões refrescadas (“descaracterizadas”, segundo o autor, “como se tivessem sido escritos em 2002”) de temas antigos, dos álbuns “Viagens”, “Tempo” e “Silêncio”, constituem o alinhamento de um concerto que terá como convidados Carlos do Carmo (“preciso de pagar uma dívida, de exorcizar o Carlos do Carmo, que nunca consegui ter ao meu lado no palco…”), que já havia colaborado no tema “Manhã”, de “Tempo”, e o grupo de cordas do Leste europeu, Helicon String Quartet. A fórmula é simples: “Mais do mesmo, não!”
            Abrunhosa avança numa direção. Ao encontro da essência das canções, “à procura de novos caminhos estéticos…”. Depois do “jazzman” e do sociólogo da dança, surge o “singer songwriter”, de regresso a uma componente jazzística que, depois da Cool Jazz Orchestra, se foi diluindo à medida que a sua música foi tomando conta do imaginário das massas.
            “Sem medo da reação dos fãs”, que poderão na aceitar o novo rosto das canções que fizeram suas. O essencial é agora que estas “continuem a funcionar na sua forma mais clássica, mas despida”.
            “O mais importante é esta coisa de escrever canções, o ‘songwriting’, algo que me fascina. Porra! O que quero é escrever canções e vesti-las à luz da minha estética, que é sempre uma estética do momento. Este concerto é uma metamorfose, ainda não é a crisálida, mas já não é a lagarta”, conclui.
            Mudar “Talvez foder” é “um grande desafio”. Sem lhe retirar uma sílaba, tenciona dar-lhe uma volta, salvo seja, até o registo de “rock e hip-hop original” mudar para algo que define como “espiral de vazio”. “Continuará a ser dançável, mas de maneira diferente”. O resultado, para já, é que os novos arranjos “soam bem”. O resto compete aos deuses e ao público. “O lado comercial é um pau de dois bicos. Não me importo que os meus discos não sejam vendidos, o que não suporto é que não sejam ouvidos. Não vendo música, faço música!”.
            Como modelos deste classicismo, cita a canção renascentista, e também Dylan ou Tom Waits. E Bowie, o camaleão. “Conseguiu desde os anos 60, desde o Ziggy, estar à frente. Admiro essa coragem, de alguém que vende milhões de discos dizer ‘tudo o que fiz agora está errado e é isto que estou a fazer neste momento’. Essa capacidade é notável, de mudar de pele, tanto mais que assistimos, no panorama mediático português, a um estrelato fabricado”.
            O tempo, o silencio, viagens. Moldam a música de Abrunhosa. Com os ouvidos atentos ao seu redor. “Quando editei ‘Viagens’, os Radiohead eram uma banda imberbe. Mas depois deles não posso ficar na mesma. Não conhecia Sigur Rós, a Björk não tinha editado o ‘Vespertine’, tudo isso me afetou”. Ao contrário de outros artistas que não ouvem, Abrunhosa faz uso da sua cidadania enquanto músico: “É o mesmo que um cientista à procura de uma vacina que ignora a descoberta do átomo”. Com uma diferença: “A Ciência tem um propósito. A arte, não. É fútil”.
            E a intimidade? Kundera falou na insustentável leveza do ser. Abrunhosa não se aproxima muito, a não ser através das canções que ficam a bailar na cabeça dos outros. “Escondo-me atrás de personagens”. E dos míticos óculos escuros que se tornaram parte integrante da sua imagem. “Estão mais ligeiros, mas continuo sem os tirar em público. São um refúgio”.

PEDRO ABRUNHOSA
LISBOA | Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Hoje e amanhã. Às 21h30. Tel. 213612444.

Bilhetes entre €5 e €20.

Pés para que vos quero [13º Festival Intercéltico]

Y 22|MARÇO|2002
música|intercéltico

Voltou. O festival folk com mais mística em Portugal. Doze edições, e os mais importantes nomes da folk, atestam a sua importância. No Coliseu, De Dannan, Kornog, Os Cempés, Roldana Folk.


pés para que vos quero

Sim, o Intercéltico está de volta, depois de, no ano passado, a sua trajetória ter sido interrompida, no ano de todos os buracos que transformaram o Porto num queijo. Mas, dando razão ao ditado que diz que o que tem de ser tem muita força, a normalidade foi reposta. O Intercéltico regressou para continuar. É tempo de serem reatados laços que, verdadeiramente, nunca se desfizeram. Serão três dias – hoje, amanhã e domingo – de música com raiz, mais do que na cultura, no imaginário céltico, mas também de aprofundamento da decifração de uma cidade – o Porto – que será o cenário ideal para a fruição deste tipo de música que teve berço no Norte da Europa.
            De Dannan, Kornog, os Cempés (na foto), Ghalia Benali & Timnaa e Roldana Folk são os nomes convocados para a 13ª edição do Intercéltico, como sempre uma iniciativa com a chancela da MC - Mundo da Canção. É este o cartaz. Os amigos do festival sabem, porém, que este não se esgota nos palcos, mas se estende por um clima feito de encontros que têm a folk como pano de fundo. Encontros que este ano bem poderão ter lugar à mesa do restaurante “Ribeiro” (passe a publicidade), onde, até 24, decorre uma semana de gastronomia portuguesa. Quanto mais satisfeito ficar o corpo, melhor será a disposição para, no Coliseu, o espírito acatar e saborear as danças e baladas que constituem o programa principal.
            Mas passemos os olhos pela ementa. Hoje é dia de Portugal e da Bretanha. Os nossos fazem-se representar pelos Roldana Folk, os gauleses pelos Kornog. Roldana Folk será o mesmo que dizer Roldana Fole. Porque entre os objetivos desta banda originária do Porto formada por ex-elementos dos Vai de Roda, Jig e Frei Fado d’El Rei está “dar a conhecer a sonoridade do acordeão”, no cruzamento de ambientes célticos (não digam “celtas”, que eles já desapareceram há muitos séculos…), portugueses, latino-americanos, folk e jazz, “antigos e modernos”.

            ocidente bretão. Das brumas da Bretanha chegam, a pingar lendas, os Kornog (“Ocidente”, em bretão). Vêm de longe, do tempo em que gravaram um álbum magnífico: “On Seven Winds”. Depois, já no final dos anos 80, pararam. A ressurreição ocorreu há meses, através de um novo álbum, simplesmente “Kornog”, como se de um novo começo se tratasse. É-o. Aos sons tradicionais da Bretanha transportados pela bombarda, juntam uma atitude contemporânea que os coloca numa primeira liga formada, entre outros, pelos Skolvan, Storvan, Strobinell ou Skeduz.
            Amanhã, sábado, está marcado o regresso dos galegos Os Cempés ao Intercéltico. Cem pés é muito pé ou nem por isso. Quem dançou como um tarado ao ouvi-los, em 1998, no café-concerto do Teatro Rivoli, já sabe que irá gastar as solas dos sapatos. Mas o que talvez não saiba é que, de então para cá, Os Cempés evoluíram de um irresistível grupo de baile para a banda mais sofisticada que em 1998 gravou “Capitán Re”. Agora, promovidos ao palco principal, trazem um Chapitô folk intitulado “Circo Montecuruto”, encenação circense de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. A inspiração e os motivos são, no entanto, mais sérios. Trata-se de um documento musical que reproduz o que aconteceu numa povoação piscatória galega em Junho de 1999, quando, nas palavras do acordeonista e sanfoneiro do grupo, Oscar Sanjurjo, “as forças de segurança do estado espanhol ocuparam a vila marinheira de Cedeira, cortaram os acessos e desalojaram pela força a lota, ameaçando a vida de homens e mulheres, crianças e velhos, quando estes reivindicavam pacificamente o direito a viver do seu trabalho no mar”. Diversão, sim, mas sem esquecer assuntos mais sérios. Os Cempés poderão, de resto, ser um caso sério deste festival.
            Depois de tantos pés, uma pausa no celtismo. Protagonizada pela tunisina Ghalia Benali, que virá acompanhada pelos músicos belgas que formam os Timnaa. “World music”, sinónimo de música apátrida. Norte de África, América Latina, Balcãs, França, Península Ibérica ou Brasil, desde que sirva, segundo a cantora, de “passaporte para muitas culturas, um microcosmos em que os séculos se reúnem para criar qualquer coisa nova”.
            E a fechar – soem as trombetas! –, mais um regresso. Este de peso. Dos De Dannan, instituição da música da Irlanda. Antigamente davam pelo nome, completamente diferente, de Dé Dannan, fazem da música tradicional do seu país o seu modo de vida desde a década de 70, quando tinham como cantora a ainda jovem Dolores Keane. Desde então fizeram questão de acolher algumas das melhores vozes femininas da folk irlandesa, como Mary Black e Maura O’Connell, além, claro, da ex-diva (os anos e o álcool ter-lhe-ão dado cabo da voz…) Dolores Keane. E Eleanor Shanley – a senhora que trazem a Portugal.
            Quanto a reportório, não são esquisitos. Tanto podem ferrar o dente numa canção dos Beatles, como passear-se pela “country” ou os sanguíneos Balcãs. Mas sempre com o coração deposto no altar da Ilha onde, diz-se, Lúcifer, aureolado pela luz da esmeralda, reinou antes de se ter tornado um anjo mau. Mas Deus estava atento. Conta-se, aliás, a seguinte anedota: um violinista morreu e foi para o céu; a certa altura, ouve um violino, a tocar uma música inconfundível; o violinista reconhece-o e diz para S. Pedro: “Não sabia que o Frankie Gavin tinha morrido…”. “Não, não morreu. Não é o Frankie Gavin que está a tocar.” “Impossível!”, insiste o violinista, “este som só pode ser do Frankie Gavin!”. S. Pedro suspira a atira, a rematar: “Não é. Esse que estás a ouvir é Deus, só que pensa que é o Frankie Gavin!”.


Porto de 12 anos

Poucos festivais em Portugal se poderão orgulhar de um currículo como o do Intercéltico. Aqui recordamos os elencos das anteriores 12 edições.

1986 | Alan Stivell (Bretanha), Vai de Roda (Portugal), Andy Irvine (Irlanda), Júlio Pereira (Portugal), Milladoiro (Galiza), Emilio Cao (Galiza).
Destaquem-se as presenças de Andy Irvine, dos Planxty, do histórico Stivell e do grupo nº1 da Galiza, Milladoiro.

1991 | Alan Stivell (Bretanha), Bagad Kemper (Bretanha), Na Lua (Galiza), Vai de Roda (Portugal), Gwendal (Bretanha).
A Bretanha no centro das atenções. Inesquecível a trovoada desencadeada pela Bagad Kemper, então ainda distante das revoluções que viria a encetar nos anos seguintes.

1992 | Matto Congrio (Galiza), Maddy Prior Band (Inglaterra), Bailia das Frores (Portugal), Llan de Cubel (Astúrias), Bleizi Ruz (Bretanha), De Dannan (Irlanda).
Maddy Prior fascinou, mas os De Dannan não deram hipótese à concorrência…

1993 | Barzaz (Bretanha), Battlefield Band (Escócia), Uxia (Galiza), Sétima Legião (Portugal), Barabán (Itália), The Chieftains (Irlanda).
A energia dos Battlefield Band e o baile sofisticado dos Barabán não foram suficientes para fazer sombra ao brilhantismo dos Chieftains, num concerto que permanece até hoje como um marco.

1994 | Amélia Muge (Portugal), Mac-Talla (Escócia), Leilia (Galiza), Márta Sebestyen & Muzsikás (Hungria), Kristen Nogues/Trio Mollard-Pellen (Bretanha), Déanta (Irlanda), Toque de Caixa (Portugal), Dervish (Irlanda).
De antologia o concerto dos Muzsikás. No “combate” particular travado entre as duas bandas irlandesas, triunfo esmagador para os Dervish. Cathy Jordan desencadeou paixões.

1995 | Realejo (Portugal), Boys of the Lough (Irlanda/Escócia), Skolvan (Bretanha), Fairport Convention (Inglaterra), Luar na Lubre (Galiza), Four Men & A Dog.
Outro combate, este inglês: os Four Men & A Dog, do gordo Gino Lupari, não deram chances aos decanos Fairport Convention. Nunca se terá dançado tanto no Intercéltico!

1996 | Gaiteiros de Lisboa (Portugal), Carlos Nuñez (Galiza), Strobinell (Bretanha), Värttinä (Finlândia), Brigada Victor Jara (Portugal), Arcady (Irlanda).
No ano de abertura à Escandinávia, bons nomes mas nenhuma vitória esmagadora. Os Arcady terão sido quem mais alto ergueu a fasquia.

1997 | Ronda dos Quatro Caminhos (Portugal), Sonerien Du (Bretanha), Jac-Y-Do (País de Gales), Berroguetto (Galiza), Pauliteiros de Malhadas (Portugal), Patrick Street (Irlanda).
Apesar dos pesos-pesados Patrick Street, houve quem jurasse que o troféu deveria ser entregue aos Berroguetto.

1998 | Deaf Shepherd (Escócia), Garmarna (Suécia), Caretos de Podence (Portugal), La Musgaña (Espanha), Solas (Irlanda).
Nível alto, mas nada de incendiário. Optamos pelos La Musgaña, em concerto especial com convidados do quilate de Manuel Luna.

1999 | Adufe (Portugal), Celtas Cortos (Espanha), Xosé Manuel Budino (Galiza), Dervish (Irlanda), Tri Yann (Bretanha).
Em ano de equívocos de programação, não foi difícil aos Dervish rubricarem mais um triunfo.

2000 | Ceolbeg (Escócia), Kepa Junkera (País Basco), Muxicas (Galiza), Lúnasa (Irlanda), Fausto (Portugal).

A estrela era portuguesa, mas a Irlanda fez, uma vez mais, a diferença. O basco mostrou ser um executante de outra galáxia.

14/02/2016

John Mayall - The Turning Point

Y 15|MARÇO|2002
roteiro|discos

JOHN MAYALL
The Turning Point
Polydor, distri. Universal
8|10


Se “John Mayall & The Bluesbreakers” é considerado o modelo seminal que permitiu a implantação do “blues” britânico, é nos posteriores “Bare Wires” e “Blues from Laurel Canyon” que o guitarrista, “harmonica player” e cantor John Mayall opera a fusão perfeita do blues com o rock, ao criar o chamado “progressive blues”. Aureolado de “revolucionário”, encetou nova mudança em “The Turning Point”, gravado ao vivo em Julho de 1969, no Fillmore East, em Nova Iorque, e que agora ressurge em edição remasterizada, num registo que prosseguiria nos posteriores “USA Union” e “Memories”. A eletricidade e a bateria foram dispensadas para dar lugar a um “blues” acústico feito de nuances e uma delicadeza extremas, de diálogos intimistas, de um swing e uma sensualidade, enfim, aos quais não são alheios os desempenhos de Johnny Almond, no saxofone e flauta, e Jon Mark, na guitarra acústica, a dupla Mark-Almond, ela própria responsável, nos álbuns “Mark-Almond” e “Rising”, por algumas das incursões bluesy mais doces da música inglesa dos anos 70. Mas é Mayall que marca aqui, definitivamente, o ponto de viragem.

Rosie Thomas - When We Were Small

Y 15|MARÇO|2002
roteiro|discos

ROSIE THOMAS
When we were Small
Sub Pop, distri. Música Alternativa
7|10


Exala uma aura de diáfana melancolia, o diário de recordações de Rosie Thomas, que antes participara no disco de homenagem “Badlands: A Tribute to Bruce Springsteen’s Nebraska”. Sentimo-nos intrusos ao afastar a cortina para penetrar no quarto onde Rosie fala dos amigos que se perderam, das estradas que separam, dos ventos que resfriam, das canções que se colam, ternas ou cruéis, à vida, mas também das roupas que nunca encolhem quando têm a medida certa do amor dos pais, a quem “When we were small” é dedicado. Respira aqui o espírito “indie” que anima parte das produções com o carimbo Sub Pop, mas não é cru, pelo contrário, o batimento que ressalta das teclas de um piano amado por Howe Gelb, de um Moog bolorento, de guitarras com ecos “country”, de uma voz onde a agilidade, a frescura, a ingenuidade e as feridas se combinam em doses desiguais de Aimee Mann, as irmãs McGarrigle, Emmylou Harris e Joni Mitchell. Apesar da insistência em certo tipo de habilidades vocais que acabam por irritar um pouco, Rosie consegue fazer passar a mensagem: A vida parte-nos em dois. O corpo cresce mas ficamos agarrados a um brinquedo. Quase sempre quebrado.

Matt Howden, sinfonias do sol negro

Y 15|MARÇO|2002
roteiro|ao vivo

matt howden
sinfonias do sol negro

Matt Howden e Aranos. Dois violinistas loucos. Demónios. Pagãos. Artífices de uma música que brota das profundezas, com o rosto corado pelas maldiçoes lançadas pelos antigos gigantes. Matt Howden é um dos astros negros dos Sieben e, com Tony Wakeford, dos Sol Invictus (além de fazer parte dos Raindogs, banda com base em Portugal). Aranos, enigmática personagem de ascendência cigana, natural da Boémia, é uma das entidades em ação nos Nurse With Wound, de Steven Stapleton, e nos Current 93, de David Tibet. Os dois tocam juntos, hoje e amanhã, em Lisboa, no Teatro Ibérico de Xabregas, duas noites que se prevêm fora do comum.
            Em cada uma destas apresentações os músicos reservaram os dez, quinze minutos finais para interpretarem temas compostos para os concertos de Lisboa. Na 6ª feira, após o concerto, terá lugar uma aula de tango pelo grupo Milonga das Estrelas, para o qual Aranos escreveu propositadamente um tango (convém esclarecer que o tango é uma das suas paixões, bem como a guitarra de Carlos Paredes). A Matt Howden a Aranos juntar-se-ão em palco Paulo Romão, dos Raindogs, e, em três ou quatro temas, B’Eirgh, vocalista da banda britânica In Gowan Ring, pertencente à editora World Serpent.
            É extensa a obra de Howden, a solo ou nos projetos Sol Invictus, Sieben e Stiki. De comum, a proximidade do Mal, as cores soturnas, as luzes fátuas, os rituais ocultos de louvor a deuses cruéis e antigos. “Intimate & Obstinate”, “Hellfires” e “Redroom” são os três trabalhos com a assinatura Matt Howden. Na forja está uma longa peça conceptual intitulada “Voyager”, inspirada na expedição espacial que leva a sonda para fora do Sistema Solar, ao encontro do desconhecido.
            Em “Hellfires”, os “fogos do Inferno”, Howden fez incidir a sua atenção nas concepções filosóficas e religiosas do Inferno em algumas das civilizações do passado, como o Hades etrusco ou o Amenti egípcio. Temas como a transmigração das almas ou a condenação eterna são abordados segundo uma perspetiva que o levou, por exemplo, a questionar-se sobre as “regras” e os “motivos” que poderiam levar Shu, deus da luz, a determinar a “aniquilação completa” de uma alma pecadora. Charun, “meio humano, meio besta, com o seu olhar flamejante e o seu aspeto selvagem”, considerado uma “concorrente do próprio Satanás”, é outra das simpáticas personagens que Howden convocou para “Hellfires”.
            “Redroom” é a obra em vermelho, a cor que cobre as paredes do seu estúdio. A cor do Inferno, do sangue e do sexo. “Voyager” não deverá ter esta cor, mas é de prever que seja escuro. A escuridão do espaço sideral. Matt Howden faz questão de explicar que este seu trabalho não significa qualquer conversão ao espírito “new age”, deixando, aliás, o aviso para esperarmos dele “todas a espécie de coisas estranhas e assustadoras”.
            Mas nem só de trevas vive a música de Matt Howden. As formas com que reveste as suas visões de pesadelo têm amiúde a solenidade da música clássica, reportando-as ao mesmo tipo de sinfonias infernais de projetos como SPK (de “Zamia Lehmani”), Lustmord ou Zone. No folclore pop colou-se-lhes o rótulo de “gótico”.
            Feiticeiras, a decadência da Europa, a intrusão do mundo astral no mundo físico, o cosmos em ruínas, a oposição luz/trevas e um lote bem fornecido de criaturas mitológicas e títulos em latim integram o léxico fundamental da sua obra, que pode ser apreciada num sem número de realizações das quais as mais recentes são “The Line and the Hook”, dos Sieben, e “Thrones”, dos Sol Invictus, este editado já em Fevereiro.
            Fica assim entendido que tem apetência pelo lado escuro da mente e pelos rituais que a fazem sintonizar-se com o buraco negro do Inconsciente. A normalidade repugna-lhe. A tempestade vai bem com a sua personalidade. Recorda com nostalgia um concerto dos Sieben no “Wave Gothic Festival” em Leipzig, quando, durante o “encore”, a noite explodiu em trovões e relâmpagos: “Great stuff!”
            Será assim em Lisboa? A meteorologia não prevê uma melhoria de tempo, estando reunidas as condições para que o cerimonial decorra da melhor forma. Com fantasmas à solta. Quem tem medo do escuro?

MATT HOWDEN & ARANOS
LISBOA | Teatro Ibérico de Xabregas

6ª e sáb., às 21h30. Bilhetes a 12,50 euros

11/02/2016

Chieftains on the road [The Chieftains]

Y 8|MARÇO|2002
folk|música

chieftains on the road

Estão a comemorar 40 anos de carreira, feita de discos e concertos lendários. É grande a música. São muitos anos. É muita estrada. “The Wide World Over” é a antologia acabada de editar.

“The Wide World Over”, 39º álbum dos The Chieftains, é uma panorâmica, incompleta mas fascinante, do longo percurso do grupo pela folk, pela country e pela pop (e também pelo “reggae”…), onde estão presentes convidados do calibre de Sinéad O’Connor, Ry Cooder, Joni Mitchell, Van Morrison, Art Garfunkel, Diana Krall, Sting, Linda Ronstadt, Elvis Costello e os Rolling Stones. Três novos temas foram incluídos na retrospetiva: “Redemption song”, um original de Bob Marley, com a presença do filho, Ziggy, que é também a primeira incursão dos Chieftains no “reggae”, “Morning has broken”, um velho “hit” de Cat Stevens, com as vozes de Diana Krall e Art Garfunkel, gravado no dia de Ano Novo durante o cruzeiro pela Antártida, e o tradicional “Chasing the fox”, interpretado pela Cincinnati Pops Orchestra.
            Lendas vivas da música tradicional irlandesa, os Chieftains tornaram mais céltica a “world music”, colorindo de verde esmeralda uma vasta parcela do planeta, a partir do momento em que, nos anos 50, Paddy Moloney, Sean Potts e Martin Fay abandonaram a orquestra Ceolteoiri Chaulann, com direção do “papa” Sean O’Riada, para fundar o grupo e alargar os seus horizontes musicais.
            Jigs e reels de origem tornaram-se, desde 1964, ano do álbum de estreia dos Chieftains, o pão nosso de cada dia desta banda cujas “uillean pipes”, violino, flauta, tin whistle, concertina, harpa e bodhran soam tao naturais num pub alvoraçado como num auditório de concerto. Os Chieftains necessitavam de viajar, para partilhar, e foi a isso que se dedicaram ao longo das últimas duas décadas.
            Foram à China, dando a perceber o misterioso parentesco entre as músicas irlandesa e chinesa. Passaram pela Galiza, onde fizeram “Celebration”, com os Milladoiro. Estiveram na Bretanha para ajudar a selar um “Celtic Wedding” que é um dos clássicos da folk europeia. Nos EUA deram a conhecer “Another Country” e puseram os gigantes da mitologia céltica, os Tanatha De Dannan, a tocar banjo. Vieram a Lisboa e ao Porto, onde, numa das edições do Intercéltico, rubricaram um concerto que ficou para a história. No cinema, contribuíram para que “Barry Lyndon”, de Kubrick, acrescentasse mais uma folha ao trevo que serve de ícone da Irlanda. Tocaram com Rickie Lee Jones, Nanci Griffith, Marianne Faithfull, Jackson Browne, Tom Jones, Mark Knopfler e Júlio Pereira. Sem eles, o gaiteiro galego e atual superstar da “world music”, Carlos Nuñez, que apadrinharam durante anos, não teria a projeção que tem hoje.
            Tocaram com orquestras, homenagearam Dublin (“The Bells of Dublin”) e as mulheres (“Tears of Stone”), aproximaram as várias músicas e culturas do globo umas das outras. Pelo caminho, arrecadaram Grammys, em 1992 (com “An Irish Evening at the Grand Opera House, Belfast”), 1993 (com “Another Country”), 1996 (com “Santiago”) e 1998 (com “Long Journey Home”).

            eucaristia. Assistir a um concerto dos Chieftains é participar numa eucaristia composta por música com raízes mergulhadas na eternidade do céu e alimentada pelos sucos da terra. Cada performance deste coletivo formado por respeitáveis veteranos de cabelos brancos é ainda uma lição de humor e jovialidade em que a comunicação com o público desempenha papel fulcral. E a fidelidade a um compromisso: o grande concerto de comemoração que tinham agendado para este ano, em Dublin, foi cancelado em respeito às vítimas do 11 de Setembro; no Verão, convidados para tocar no Jubileu de Isabel II de Inglaterra, recusaram: “Não quero entrar nessas águas”, declarou Paddy Moloney, 63 anos e líder dos Chieftains: “Recusei por duas vezes a condecoração da Ordem Real e, ainda que a situação pareça estar a mudar, as coisas relacionadas com o Império Britânico não combinam comigo…”.
Por todas estas razões, os U2 podem contentar-se com um honroso segundo lugar. Porque os vencedores são os Chieftains. Os U2 são uma banda pop que nasceu na Irlanda. Os The Chieftains são a música da Irlanda. Frank Zappa foi rápido a percebê-lo. Em 1993, o malogrado compositor e guitarrista foi perentório: “Os U2 podem ser a exportação mais popular e comercialmente bem sucedida da Irlanda da atualidade, mas não há comparação entre a qualidade da música que fazem e a dos Chieftains. (…) Tocamos juntos sempre que viajam até cá e adoro a música que estes tipos fazem, as melodias e as mudanças de acordes e, especialmente, a forma como a executam (…). Algo apenas possível de

Frank Zappa tinha razão ao afirmar que são os Chieftains, e não os U2, a maior banda irlandesa de todos os tempos

conseguir por quem está junto há 30 anos. As pessoas descrevem os U2 como ‘rockers pós-modernos’, mas o que é que isso quer dizer? O que é preferível: uma inventividade medíocre [NR: não nos esqueçamos de que era o próprio espírito dos Mothers of Invention a falar…] ou uma ligação direta com a música céltica? Os Chieftains são a sua própria cultura e ouço neles traços não só da história céltica como da história universal, ecoando desde o princípio do tempo”.
            “The Wide World Over”. O mundo inteiro é a casa dos Chieftains.

            tesouros. Mas não nos enganemos. Embora o grupo decano seja hoje um cidadão do mundo, a estrada principal continua a ser aquela que a belíssima capa de “The Wide World Over” nos mostra: um caminho pedregoso, algures no coração da ilha, ladeado de verde e de sonho, apontado para onde o horizonte se confunde com as montanhas e estas com o céu. Apesar dos convidados, apesar do convívio com outras músicas, “The Wide World Over” tem as cores e o mistério da Irlanda (ainda a capa: as fotos do interior impelem a comprar imediatamente um bilhete de viagem…).
            Sinéad O’Connor torna-se rainha da folk, em “The foggy dew”. Os The Corrs tentam estar à altura da tradição, em “I know my love”. Ricky Scaggs recorda o country reel “Cotton-eyed Joe”, do álbum “Another Country”. Nesta procissão de estrelas, na qual se incluem Joni Mitchell, Van Morrison, Diana Krall, Sting, Linda Ronstadt e os Stones, que traz de novo à baila sobretudo álbuns mais recentes como “The Long Black Veil”, “Tears of Stone”, “Another Country”, “Water from the Well”, “Long Journey Home” e “Santiago”, o brilho é intenso.
            Mas cerrando os olhos, veremos uma luz mais pura e que os maiores tesouros se escondem em lugares predestinados: na festa coletiva celebrada ao vivo no mítico pub de Matt Molloy, nos jigs, reels e airs e no erguer dos copos do “set” “The munster cloak/an poc ar buile/Ferney Hill-Little Molly”, em “Morning dew/Women of Ireland” ou em “Here’s a health to the company”. “Carolan’s concerto” (de “The Celtic Harp”) devolve-nos a música da água e a memória do harpista cego Turlough O’Carolan. Deliciosas, são o mínimo que se pode dizer da combinação txalaparta basca mais Linda Ronstadt a cantar com Los Lobos uma salerosa “Guadalupe” e da incursão chinesa em “Full of joy”.
            Quanto aos três originais, descontando a naturalidade da inclusão de “Chasing the fox”, um tema mais antigo do grupo, aqui pela primeira vez em versão de estúdio, os outros dois são meras curiosidades. A apropriação de “Morning has broken”, de Cat Stevens, por Diana Krall e Art Garfunkel limita-se a dar um polimento “trendy” a este “slow” que não constituiu qualquer mais valia para os anos 70, enquanto a incursão na música jamaicana, “Redemption song”, de Bob Marley, co-produzida por Don Was e cantada por Ziggy Marley, não torna convincente o diálogo das “uillean pipes” com o espírito “rasta”. Mas desculpa-se, porque os Chieftains continuam insaciáveis.
            The Chieftains, anfitriões, ou The Chieftains, bastiões da tradição. Cada um ouvirá e apreciará “The Wide World Over” consoante a sua própria forma de encarar a folk. Ambas fazem justiça a uma banda que há 40 anos se preocupa em aprofundar, alargar as fronteiras e divulgar a cultura que lhe serviu de berço. Long live the Chieftains!

THE CHIEFTAINS
The Wide World Over
RCA, distri. BMG

7|10

Pilar de saber [Pilar Homem de Melo]

Y 8|MARÇO|2002
ao vivo|roteiro

pilar de saber

“Não Quero Saber” é o título do terceiro álbum da cantora Pilar Homem de Melo. Ela diz que não quer, mas convém saber. Pilar tem sido aquilo a que se chama um segredo bem guardado. O seu nome poucas vezes aparece mencionado nos principais circuitos da música portuguesa e só recentemente as pessoas voltaram a ouvir falar dele, através da sua participação no espetáculo “SM58”, ao lado de duas outras cantoras não muito queridas do “mainstream” nacional: Né Ladeiras e Anamar. O espetáculo teve direção de Tiago Torres da Silva e é ele que volta a assegurar a estrutura de “Não Quero Saber”. E afinal, o que é que Pilar não quer saber? É a própria a explicar: “Rima com ‘Tenho alma só para ser’. Não é um ‘deixem-me em paz, estou-me nas tintas’. Quero ser feliz, por isso deixem-se de tretas… Mas toda a gente me pergunta isso, já com ‘Pecado Original’ era a mesma coisa…”. Pilar é explícita: “Estou do lado do bem”.
            Pilar tem assim a oportunidade de se chegar um pouco mais à ribalta. Ainda que a sua música esteja longe de ser presa fácil para os ouvidos preguiçosos. É bom lembrar que o álbum de estreia da cantora, editado nos anos 80 e intitulado “Pilar”, contou com a produção de Wayne Shorter, um dos mais conceituados jazzmen da atualidade, admirável saxofonista que tocou com John Coltrane e era uma das principais vozes solistas da maior máquina de música de fusão de todos os tempos, os Weather Report. O segundo álbum tinha por título “Pecado Original”. Parecia ser a rampa de lançamento para uma carreira que, inclusive, levou Pilar a fazer a primeira parte de concertos de Suzanne Vega. Estranhamente, porém, a partir daí o nome de Pilar Homem de Melo foi mergulhando aos poucos no esquecimento. “Desapareci mesmo, fui-me embora para o Brasil, parei com a música, por isso é que as pessoas se esqueceram de mim…”.
            SM58 ajudou a reavivar a memória. Agora, com “Quero Lá Saber” (quererá mesmo?...), o seu relacionamento com o público poderá enfim estreitar-se. Pilar está interessada em que isso aconteça: “Aposto totalmente nisso! Já estou a preparar um novo álbum, para sair no ano que vem e, depois deste, espero ter muitos mais concertos. As pessoas não estão habituadas a ouvir-me ao vivo. Vamos lá ver se me voltam a conhecer. Sobretudo a juventude nunca ouviu falar de mim. Há dez anos ainda eram crianças…”.
            Pelo concerto da Aula Magna, irão passar temas do novo disco, como “Lafaek” e “O cair da noite”, e outros mais antigos, como “Um amor assim” e “O primeiro dia”, de Sérgio Godinho. Interessante será ouvi-la em versões de “Femme fatale”, de Lou Reed, cantado por Nico no primeiro álbum dos Velvet Underground, e “J ene regrette rien”, de Edith Piaf, “uma brincadeira sugerida pelo Tiago, que até liga bem com ‘não quero saber’…”. Pilar terá a seu lado, como convidada, em dois temas, Né Ladeiras, que também cantará sozinha uma canção do seu novo álbum, “Da Minha Voz”. Vasco Ribeiro Casais (guitarra acústica, nos temas interpretados pelas duas juntas), Nuno Rodrigues (piano), Hugo Antunes (baixo), Bruno Raimundo (guitarra), João Aleixo (bateria), Samuel (violoncelo) e Cláudia Bandeira (coros) são os músicos que acompanham Pilar Homem de Melo nesta apresentação ao vivo de “Não Quero Saber”. Eles já sabem. Nós vamos querer saber.

PILAR HOMEM DE MELO
Lisboa | Aula Magna

Às 21h30. Tel. 217967624. Bilhetes a 15 euros.

Hermeto Pascoal - The Legendary Improviser

Y 8|MARÇO|2002
roteiro|discos

HERMETO PASCOAL
The Legendary Improviser
West Wind, distri. Megamúsica
8|10


Albino, o rosto emoldurado por uma farta cabeleira branca, Hermeto é, de facto um “legendary improviser”, mas um improvisador de características especiais. É verdade que na sua música se combinam quer o jazz quer a música brasileira popular (nomeadamente a nordestina), mas o que o distingue de qualquer jazzman com queda para a “world music” é a sua criatividade quase demencial. Hermeto é o que se chama um músico total, um homem “afogado” em música e ideias. Já o vimos e ouvimos a fazer música com fruta, com galinhas, com cores, com lugares, além dos mais prosaicos saxofone, piano e flauta. Nele tudo é música. Um frevo é uma galáxia, uma melopeia torna-se um cântico tribal, uma dança arrasta mil civilizações. Por vezes Hermeto pode parecer perdido nesta metamorfose constante de sons e estados de espírito, onde nada é definitivo e cada nota é um caminho para outro lado. Sendo um dos seus álbuns mais “convencionais”, embora se adivinhe ter sido objeto de severo “editing”, “The Legendary Improviser” é mais um manifesto, desconcertante e genial, da “música livre” de Hermeto Pascoal.

Davy Spillane - The Sea Of Dreams

Y 8|MARÇO|2002
roteiro|discos

DAVY SPILLANE
The Sea of Dreams
Covert, distri. Sony Music
5|10


Transformou-se num ódio de estimação, nada a fazer quanto a isso. Nós bem tentamos, mas tem sido o próprio Spillane, ano após ano, álbum após álbum, a deitar por terra todas as expetativas de ver nele, mais do que um excelente executante de “uillean pipes” e “tin whistle”, um músico avesso a concessões. “The Sea of Dreams” até começa promissor, com um “River of gems” soando a “lamente” tradicional. Mas é sol de pouca dura. Os tapetes de sintetizadores, o “fator ‘Riverdance’” e a tendência – parece que inevitável – para tombar em todos os clichés que a “new age” tem para oferecer, criam o tal som delicodoce e enjoativo que, infelizmente, parecem ter-se tornado inseparáveis do gaiteiro irlandês. Assim, “The Sea of Dreams”, apesar do bónus de duas sentidas vocalizações de Sinead O’Connor, em “The dreaming of the bones” e “Danny boy”, não é, nem pretenderá ser, mais do que um dos intocáveis produtos destinados a atafulhar as estantes da “new age/celtic” onde muitos satisfazem os seus apetites de misticismo. Um mar de sonhos desfeitos. Agradáveis, inócuos em última análise, vazios.