26/07/2017

Déanta - Ready For The Storm

Pop Rock

23 Novembro 1994

VENCER OS FANTASMAS

DÉANTA
Ready for the Storm (9)
Green Linnet, distri. MC-Mundo da Canção

Na corrida imparável para os lugares da frente na grande maratona da música tradicional da Irlanda, os Déanta aceleraram a fundo. Em competição direta com os Dervish na categoria de “principiantes” (noção algo relativa, tendo em conta a tenra idade com que na ilha se começa a pôr em prática o amor pela música), a primeira etapa foi vencida por estes últimos com “Harmony Hill”, contra a estreia dos Déanta.
“Ready for the Storm” responde à letra e ultrapassa sem apelo nem agravo “Harmony Hill”. Um passo de gigante dado por este grupo de cinco raparigas e um rapaz que alcançaram já a maturidade e um nível médio de execução instrumental que lhes permitirá, a breve prazo, entrar em competição direta (se é que não o fazem já) com as “trutas” da primeira linha (Altan, Skylark, Patrick Street, Open House, La Lugh, De Danann… Quanto aos Chieftains, insistimos em “arrumá-los” num local à parte…).
“Ready for the Storm” não sofre dos tremeliques nervosos que de algum modo tolhiam os movimentos dos músicos no álbum anterior. Melhorou a escrita e a capacidade inventiva dos arranjos, evidente desde logo no tema de abertura, “The mighty clansmen”, de uma riqueza harmónica extraordinária, bem como aquela energia mágica que parece possuir as melhores bandas irlandesas e as faz ultrapassarem-se a si próprias (os Dervish, por exemplo, que o digam, a propósito da sua atuação no último Intercéltico), liberta de forma exemplar no medley “Rocky reels”.
Deirdre Havlin está a tornar-se um caso sério na flauta. Basta escutá-lo no citado tema de abertura ou nos diálogos com o “bodhran” de Clódagh Warnock, em “Hammy Hamilton’s jigs”, e com o violino de Kate O’Brien, em “The Landsdowne lass”. Mary Dillon, por seu lado, perdeu a timidez e projeta com outra convicção e naturalidade a sua voz. Eficaz, no clássico crioulo “The lakes of Pontchartrain”, ágil e profunda como um oceano de emoções, em “Culloden’s harvest” (escrita pelo escocês Alastair McDonald sobre uma antiga canção gaélica do mar), simplesmente emocionante, em “Ready for the Storm”, um “standard” em potência.
Se “Déanta”, sem dúvida um bom álbum, não conseguia manter o mesmo nível elevado do princípio ao fim, sofrendo de uma ocasional “anemia” e de uma excessiva contenção (resultante dos tais receios – infundados – de falhar), em “Ready for the Storm” é difícil detetar pontos a seu desfavor, dada a maneira como o grupo conseguiu, como já dissemos, libertar-se dos fantasmas do passado. Os Déanta estão agora preparados para enfrentar não só qualquer tempestade, como a responsabilidade de receber e transmitir o testemunho musical de uma tradição imorredoira.

11/04/2017

Peter Hammill - The Fall Of The House Of Usher

Pop Rock
18 de Dezembro 1991

A QUEDA DA CASA DE HAMMILL

Peter Hammill
The Fall of the House of Usher
2xLP, CD, Some Bizarre, import. Contraverso

Há quase vinte anos que os incondicionais de Peter Hammill ouvem falar na célebre ópera. Esta chegou finalmente, e com ela o sabor da desilusão. O perfeccionismo, a tentativa de deixar para a posteridade um testemunho definitivo do seu génio foram fatais para o antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator. Aprisionado num estilo que no passado frutificou nas obras-primas “Pawn Hearts”, “In Camera”, “Over”, “The Future Now” ou “A Black Box”, Hammill revelou-se, a partir deste último disco, incapaz de ultrapassar as suas próprias contradições, arrastando-se em “In a Foreign Town” e “Out of Water” numa agonia que nem a experiência com computadores de “Spur of the Moment” conseguiu sarar.
A famigerada ópera parte da narrativa de Edgar Allan Poe, “A Queda da Casa de Usher”, adaptada a “libretto” por Chris Judge Smith. Escolha óbvia de enquadramento para as paranóias do músico: a incomunicablidade, a hipersensibilidade mórbida, a tendência para a autodestruição. Hammill incarna, como não podia deixar de ser, a figura do nobre alucinado Roderick Usher, que vive aprisionado nas paredes – as suas paredes, o seu pesadelo – de uma casa doente. Andy Bell é o amigo, Montresor. Lene Lovich, a irmã, Lady Madeline, enterrada viva por Usher. Herbert Grönenmeyer, o ervanário. Não falta o coro, à maneira das tragédias gregas, interpretado por uma só voz, de Sarah-Jane Morris, e as “vozes da casa”, desempenhadas por Peter Hammill.
A história da maldição, loucura e decadência, que consuzem à ruína final, não podia ser melhor escolhida para traduzir o universo estético-existencial do ex-Van Der Graaf. À música, infelizmente, falta o fulgor e o génio de que este foi pródigo em obras anteriores. A insistência sistemática nas texturas orquestrais realizadas por computador procura, ao nível da paleta tímbrica, associações com a grandiosidade desesperada da sequência “Gog/Magog” de “In Camera”, mas a repetição dos registos de cravo e a tirania das cordas, interrompidas por uma ou outra ousadia pontual, acabam por tornar monónota a audição.
Como novidade, apenas os jogos vocais e a presença de vozes femininas, inéditos na obra do compositor. Dos seis atos em que se divide a obra, da descrição da paisagem desolada que rodeia a casa maldita à derrocada final, destacam-se o tom sinistro das sobreposições vocais de Hammill em “Architecture”, síntese de uma das suas obsessões de sempre, a fobia dos espaços fechados e a simbiose edifício-homem, evidente em temas anteriores da sua discografia como “A house with no door”, “(In the) black room” e “A louse is not a home”, e o diálogo Usher/Montresor em “Leave this house”, dilaceração de Roderick Usher entre o apelo do amigo para abandonar o ventre do monstro e a consciência de um destino trágico a cumprir no seio da casa. O ancestral combate entre as forças do bem e do mal, entre os anjos e os demónios que vivem dentro de cada um de nós, que Hammill já gritara no emblemático “Killer”, de “H to He, who am the only one”.
Temas como “One thing at a time” ou “The herbalist” dir-se-iam escritos por Meat Loaf. Na maioria dos casos, a música contenta-se em servir de contraponto às palavras. Faltam sobretudo ideias, uma dinâmica diferente, de maiores contrastes, que sublinhasse com outra força o desenrolar da tragédia. Não era Hammill (e neste “era” ressoa a mágoa da oportunidade perdida) o pai de todos os excessos? (6)

Neil Young & Crazy Horse - Weld

Pop Rock
30 de Outubro 1991

COMBUSTÃO ESPONTÂNEA

NEIL YOUNG & CRAZY HORSE
Weld
2 x LP/CD, Reprise, distri. Warner Music

Documento oficial da digressão “Ragged Glory/Don’t Spook the Horse”, “Weld” constitui desde já um marco nos álbuns ao vivo.
Se “Time Fades Away” cortava de forma violenta com o passado acústico de “After the Goldrush” e “Harvest”, e “Live Rust” (1979) encenava já essa violência desmedida que, a partir da segunda vida dos Crazy Horse, parece ter-se tornado a forma preferencial do músico responder aos ataques do mundo, “Weld” é a explosão de raiva definitiva, a hemorragia final da alma, o curto-circuito incendiário das guitarras e dos sentimentos em carne viva.
Mergulhando ainda mais fundo do que em “Ragged Glory”, Neil Young prossegue a introspeção demencial e a denúncia de uma sociedade doente que sempre se encarregou de fazer de lhe fazer a vida negra. O som, desde as primeiras espiras de “Hey, hey, my, my (into the black)”, é um murro no estômago, documentário abrasivo de uma “bad trip” que na descida aos infernos encontra a derradeira redenção.
Dizer que as guitarras de Neil Young e Frank Sampedro ou o baixo de Billy Talbot são musculados e poderosos, no ponto limite em que o calor se transforma em chama, ép pouco. Do princípio ao fim do disco, assiste-se como que à agonia do rock’n’roll, coincidente com o massacre em que a si próprio se imola com o fogo da paixão. Auto-sacrifício ou operação de extermínio, pouco importa, se o resultado assombra com o esplendor dos grandes incêndios. “Love to Burn”, assim se chama um dos temas do disco, eis do que trata “Weld”, no paroxismo da vertigem, na ânsia desmedida de tudo querer conter num grito.
Ouve-se “Weld” com a sensação do cataclismo com a sensação de se assistir ao cataclismo iminente, à erupção de um vulcão, ao colapso de qualquer coisa que não ousamos interiorizar. É nesse ponto de impossível equilíbrio que Neil Young tem vindo a construir a sua obra e a sua vida. A morte de amigos, a proximidade constante do perigo, juntamente com a fé cega nas virtualidades da música como forma exclusiva de exorcismo, conferem-lhe mais do que o estatuto de sobrevivente, o de herói.
Enquanto Dylan se debate entre as contradições de uma mensagem esvaziada de sentido e o absurdo de querer manter vivo um mito que deixou de o ser, Neil Young recusa olhar para o passado, preferindo, em vez disso, investir, de guitarra em punho, contra o futuro, deixando, pelo caminho, o presente devastado.
Não por acaso, o compositor de “Rust never Sleeps” (cuja sequela ao vivo, “Live Rust”, contribui com seis temas para “Weld”, devidamente atualizados e prontos a lançar na fogueira) retoma um tema de Dylan, “Blowin’ in the wind”, de forma a anular-lhe quaisquer conotações que ainda pudesse ter com a mística de Woodstock, substituindo a sua carga pacifista pela gangrena trazida pelos ventos corrosivos que hoje sopram sobre o mundo. Neil Young destrói o passado, para, num segundo momento de refluxo, o evocar na sua vertente mais negra: a introdução instrumental de “Blowin’ in the wind” remete de imediato a memória para a desolação e a violência de Jimi Hendrix.
Como em “Star Spangled Banner”, a mesma hecatombe de “feedback”, o mesmo trucidar da guitarra à procura de sonoridades impossíveis e da pulsação primordial do rock. No limite dessa apoteose de ruído e da desagregação, faz sentido a inclusão, no formato de CD, de um tema adicional, “Arc”, 37 minutos de “’feedback’ orquestral” que a folha promocional se encarrega de definir como “chiqueiro e distorção com alguns fragmentos vocais”.
Nunca, como em “Weld”, Neil Young esteve tão perto do Apocalipse. Os minutos finais do épico “Like a hurricane” resolvem-se num caos grandioso de ruído, manifestação epidérmica dessa dor imensa que, no final, obriga o música a gritar: “No pain!” Para Neil Young, cada vez mais “Tonight’s the night”. Sabemos isso e continuamos a arrepiar-nos (10).

Paco de Lucía - Zyryab

Pop Rock
17 de Abril 1991



Paco de Lucía
Zyryab
LP/MC e CD, Philips, distri. Polygram

Ao lado de Manitas de Plata, Paco de Lucía faz papel de grande embaixador do flamenco no mundo. Ao contrário de Manitas ou do menos conhecido (mas não menos importante) Pepe Habichuela, conservadores na atitude e no estilo, Paco de Lucía investe em áreas que só indiretamente têm a ver com a música cigana, como o jazz ou a canção de tons mais ligeiros (quem nunca trauteou “solo quiero caminar”?). Com John McLaughlin (com quem partilha um estilo particular de fraseado) e Al Di Meola, gravou um álbum exclusivamente dedicado às possibilidades da guitarra. “Zyryab” revela-se eclético no modo como aborda as típicas bulerias, tarantas, rumbas ou fandangos ciganos, através de uma liberdade formal que não receia juntar o discurso ortodoxo do flamenco às divagações jazz-rock ou a incursões mais marcadamente arabizantes, como acontece no título-tema “Zyryab”, valorizado ainda mais pela participação pianística de Chick Corea. ****

O Sul a várias vozes [Janita Salomé]

cultura SÁBADO, 23 DEZEMBRO 2000

Janita Salomé recria no seu novo álbum o cante alentejano

O Sul a várias vozes

O Alentejo é pátria do Sul e o cante o centro musical do Alentejo. Um sul mítico, banhado pelas notas do Mediterrâneo, que Janita Salomé recria em "Vozes do Sul", um álbum onde o cante genuíno se olha ao espelho revendo-se em retratos urbanos.

O balanço interior de Janita Salomé adequa-se, sem chegar à coincidência, com o do cante alentejano. No autor de "Cantar ao Sol", o Alentejo é o corpo de uma miragem. O seu Sul é mais vasto, bebendo tanto numa das antigas tabernas do Redondo como num oásis do Sara. Janita é um músico urbano com raízes na planície. Dera-o a entender nesse seu disco, que passou a ser referência na moderna música popular portuguesa, emaranhando-se mais tarde nas redes de um certo excesso, em "Raiano".
            "Vozes do Sul", acabado de sair, embora já estivesse gravado há dois anos, coloca as coisas nos seus devidos lugares. De um lado, Janita homenageia o cante na sua expressão mais pura, oferecendo uma série de faixas às polifonias dos Cantadores do Redondo e dos grupos Corais e etnográficos das Camponesas de Castro Verde, da Casa do Povo de Serpa e "Os Ceifeiros de Pias", ficando o outro preenchido com recriações também elas dispostas segundo duas conceções diferentes do som. Ora num registo próximo da música de câmara, com arranjos para piano e quarteto de cordas, ora reservando-se o gozo de trazer para o Sul um instrumento típico do Norte "céltico" como a sanfona, ou de experimentar o exotismo de garrafas afinadas e de uma parafernália de percussões árabes. Além disso, Janita convidou para cantar ao seu lado, além dos irmãos Vitorino e Carlos, as cantoras Filipa Pais, ainda não totalmente seca dos raios de uma Lua Extravagante, e Bárbara Lagido, também tocada pela Lua e habituada a excursões pelo jazz.
            Para Janita Salomé, "este disco prova que há uma quantidade de maneiras de cantar no Alentejo que não simplesmente aquele coral polifónico que as pessoas conhecem, pesado e denso". Este cante "pesado" e "denso", assume-o o cantor como a "parte documental", o "ponto de partida" que permitiu jogar outros dados, como a inclusão das cordas ou do piano. Ou a experiência "aliciante" de juntar o cante, "por si só uma 'orquestra', com outra orquestra, sem nenhuma delas se destruir".
            Ouvidos mais puristas poderão surpreender-se com a "intrusão" da sanfona (tocada por Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa). Para Janita Salomé, tal não constitui qualquer espécie de heresia e só não fez soar nestas "Vozes do Sul" as palhetas duplas da gaita-de-foles, esse outro monstro das hordas do Norte, porque não se lembrou.
           
Resistência

            Poderia ser complicado juntar fações. Como quando o cante se deixa colorir por outras tintas. No estúdio, foram captadas em primeiro lugar as vozes, sendo-lhes depois adicionadas as partes instrumentais. Não chegou, porém, a ser uma dificuldade. Janita Salomé cita a propósito uma das contribuições dos Camponeses de Pias numa das faixas de "Vozes do Sul": "Eles começam a moda num determinado tom e não fogem um coma do princípio ao fim, é impressionante, se assim não fosse, se houvesse flutuações tonais, teria sido impossível juntar os instrumentos".
            Não deixa de causar uma certa impressão o simples facto do cante tradicional alentejano, ao contrário de outras formas tradicionais que se foram perdendo ou deteriorando ao longo do tempo, manter viva a sua pujança. Mas a verdade é que se continua a cantar. Talvez já menos, como era uso, nas tabernas - "alguns donos não deixam e, por outro lado, existem em cada vez menor número" -, mas, mesmo assim, os seus ecos continuam a ser levados para longe. O cante resiste.
            "Talvez pela sua própria natureza e pela forma como os alentejanos o exprimem no seu quotidiano, nos locais de convívio, onde ainda é possível ver saltar espontaneamente meia dúzia deles e começarem a cantar. Isso mantém-se. Em geral, as danças ou qualquer outro tipo de música tradicional requerem uma encenação especial, uma ocasião para acontecer, e ali não", explica Janita.
            Ali, a ocasião tem sido desde há muito propícia à expressão, através do cante, da dor, da revolta e da solidão, mas também da solidariedade e da afirmação de uma especificidade social e cultural. Janita não tem dúvidas que "o alentejano está muito apegado ao cante, à sua terra e à sua identidade, talvez por ter sido marginalizado, se recuarmos no tempo. Foi uma região muito sacrificada, o que acabou por fazer nascer um sentido de solidariedade e uma necessidade de afirmação".
            Ele, Janita Salomé, vive afastado da sua terra natal, tornando-se, como o seu irmão Vitorino, um músico urnano - visão distanciada mas insistentemente fixa no tal "ponto de partida". Essa ligação com o berço geográfico "é alimentada por frequentes idas ao Alentejo". Mas se calhar nem era preciso: "Lisboa é uma cidade do Sul onde a maior comunidade de não-lisboetas são os alentejanos. Se me apetecer vou a Tires ou ao Barreiro e encontro um grupo de alentejanos a cantar em locais públicos".
           
Diálogo e contemplação

            "Vozes do Sul" é um compromisso. Mas se o anterior "Raiano" despoletava o conceito, muito "world music", de fusão – para o seu autor, "um momento de maior urbanidade" – o novo álbum aproxima os extremos através do diálogo, nalguns casos, e da contemplação mútua, noutros.
            Porque o Sul de Janita Salomé não termina no Alentejo mas estende-se para além dele até ao Mediterrâneo, e mais para lá ainda, até ao Sul da imaginação, com regresso ao Redondo. "É desse Sul que também falo, das suas memórias e das suas origens, da presença dos povos islâmicos aqui. Do sinal das presenças islâmicas na música alentejana".
            Algures no alinhamento de "Vozes do Sul" esconde-se um dos seus momentos mais interessantes, cabendo ao ouvinte a tarefa de o encontrar. Aí se pode ouvir, em toda a sua pureza, uma sessão de "cante do baldão". Janita destapa uma ponta do véu: "É surpreendente ouvir cantar à alentejana com acompanhamento instrumental e, nesse tema, isso acontece de uma forma muito própria, com aqueles poetas populares repentistas, todos ótimos cantores, cada um com o seu estilo. Eu, se quisesse participar, não seria nada fácil. Cantar como eles cantam, com as regras próprias do cante do baldão, em dupla quadra e com a estrofe a ter que acabar no primeiro ou no segundo verso, é complicado... E então improvisar é uma carga de trabalhos...".
            Trabalho é o que não tem faltado ao cantor. Tem pronto material para uma série de novos CDs, embora "muito papel vá ser rasgado pelo meio" e, "se tudo correr bem", "Vozes do Sul" terá uma apresentação ao vivo em Fevereiro do próximo ano no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, com a presença de todos os músicos que participaram no disco.
            No horizonte perfila-se ainda a possibilidade de um trabalho conjunto com o Opus Ensemble e outro com o guitarrista dos Madredeus, José Peixoto, outro músico apaixonado pelo Sul.

Medos para os pequenos [Sérgio Godinho]

LIVROS

Depois de “Lupa”, o álbum de canções, Sérgio Godinho escreveu e desenhou para as crianças um “Pequeno Livros do Medos”. Histórias de papões e de iniciação no mistério, até ao confronto final com o “bicho desconhecido” que se esconde no sótão.

Medos para os pequenos

Depois de "Lupa", o álbum de canções, Sérgio Godinho escreveu e desenhou para as crianças um "Pequeno Livro dos Medos". Histórias de papões e de iniciação no mistério, até ao confronto final com o "bicho desconhecido" que se esconde no sótão.

O que distingue a criança do adulto é a inocência. Deixamos de ser crianças quando perdemos a inocência. Adão e Eva comeram a maçã e foi o que se viu. Enquanto adultos podemos ser puros. Mas nunca inocentes.
            Os adultos escrevem livros para as crianças lerem da mesma maneira que as crianças escrevem para os adultos lerem, com a diferença de que, neste último caso, as obras costumam vender menos. Nenhum adulto que escreve livros para crianças é inocente ou escreve livros inocentes. Razão por que as crianças, ao lerem os livros que os adultos escrevem para elas, vão perdendo aos poucos a inocência até se tornarem, elas próprias, adultos. Infelizmente as crianças não escrevem para si próprias tanto como deveriam. Talvez os editores achem que cometem demasiados erros de ortografia.
            Sérgio Godinho escreveu e ilustrou para as crianças um livro inteligente a que chamou "O Pequeno Livro dos Medos". Não teve medo de o fazer. E saiu-se bem. Porque escreveu como se estivesse a compor música. "O Pequeno Livro dos Medos" ouve-se tanto como se lê. E as crianças gostam disso. Até porque, como está provado, têm melhor ouvido do que os adultos.
            Aliás, toda a literatura existe, em primeiro lugar, para ser ouvida. As palavras não são outra coisa senão varinhas de condão que mexem em quem as ouve. O texto, falado ou escrito, funciona como instrumento de magia. A ciência fala em processos de correspondência, de simpatia, que se desenrolam no cérebro do leitor, mas a palavra magia tem bastante mais força e as crianças entendem-na melhor. Ali-Babá soletrava "Abre-te Sésamo!" e a porta que dava para a gruta do tesouro, obedecia-lhe, escancarando as goelas do segredo e da riqueza.
            O escritor e, sobretudo, o poeta são músicos das palavras. Nietzsche, que foi provavelmente o mais musical dos filósofos-poetas, escrevia/compunha em diálogo íntimo com o mais íntimo que existe dentro de cada um de nós. Tanto assim que a leitura de uma obra como o Zaratustra causa medo.
            Sérgio Godinho empreende, com outra candura, a exploração desse lado manipulatório (só a palavra mete medo, mas é mesmo assim) da escrita. Porém não se ouvem gritos. Até porque as crianças, dando a entender o contrário, são menos medrosas que os adultos na forma como se entregam de livre vontade aos ventos da noite. E sabem tirar partido e gozo do medo (Sérgio Godinho chama-lhe um "brinquedo", logo no primeiro parágrafo). Não admira que o autor brinque, como numa das suas canções, em jogos combinatórios: "Sou o bicho dos medos desconhecidos. Sou o desconhecido do medo dos bichos. Sou o medo dos bichos desconhecidos. Vira-me do lado que quiseres, que eu sou teu conhecido."
            "O Pequeno Livro dos Medos" começa por bisbilhotar no dicionário, esse outro livro prisão que ensina a arrumar o caos da linguagem. O autor procurou nos sinónimos e encontrou para "medo": "susto, receio, horror, pavor, cagaço, cobardia, desconfiança, temor, terror, pânico, assombramento...". Isto porque, diz ele, convém logo de início "olhar para dentro do medo" e "descobrir como ele funciona", esse "sentimento desagradável que excita em nós aquilo que parece perigoso, ameaçador, sobrenatural".
            Sabendo-se do nome do monstro com quem se está a lidar, o autor atira-se de cabeça para dentro da cabeça dos miúdos. Sem os assustar. Mostrando-lhes desenhos de rostos e seres "assustadores", entre o figurativo e as manchas do teste projetivo de Rorschach. E contando histórias de medos. Do dono de um circo que ameaça soltar um terrível leão ou do dono (já são dois "donos" - é curioso - as personagens que metem medo. Crítica subtil ao capitalismo?) de uma drogaria que mantém encerrado nas traseiras um bicho terrível que "o melhor é ninguém ver".
            Começam por ser "bichos", reais ou imaginários, os desencadeadores dos terrores infantis. Com base neste bestiário, porém, Sérgio Godinho conduz com suavidade os olhos espantados e gulosos dos seus pequenos leitores até ao sótão dos medos metafísicos, onde se "ouvem sempre misteriosos passos que não podem ser de ratazanas (...) passos de alguém que é leve e pesado ao mesmo tempo", levando-os "ao encontro do bicho desconhecido".
            É no sótão, no escuro "onde se desvendam os mistérios", que a criança enfrenta, olhos nos olhos, esse "desconhecido que mete medo e ao mesmo tempo apetece conhecer", e descobre no baú uma carta escrita pelo avô ao pai, onde se oferece a solução. A família - chave de segurança que ajuda a enfrentar os sucessivos embates do eu com o exterior, na sua contínua metamorfose de auto-descoberta.
            Idealizam-se mil formas de esconder, eliminar o papão para, finalmente, a criança o reconhecer como parte integrante de si própria.
            É o momento de "silêncio e respeito", em que ambos "ficam a olhar de frente um para o outro, como se fossem dois velhos conhecidos que nunca se tinham visto". Sem que seja possível descobrir a espada capaz de cortar a cabeça ao medo, a verdade é que o João (é este o nome do pai da criança a quem tudo isto sucedeu quando também ele era miúdo) "olhou à volta e não viu medo nenhum". "Talvez tivesse voado pela janela aberta". Como um pássaro.
            Ou talvez o medo "continuasse no fundo do mar, à espera de um polvo que por ali nunca passará". Nós, adultos com medo de ter medo, ficamos pelo nosso lado à janela, esperando, como no conto de Kafka, "pela mensagem que nunca chegará".

O Pequeno Livro dos Medos
AUTOR Sérgio Godinho (texto e ilustrações)
EDITOR Assírio & Alvim, 48 págs. 2500$00

ARTES
sábado, 16 dezembro 2000

03/04/2017

Leão pop [Festival Outono em Lisboa]

cultura QUINTA-FEIRA, 7 DEZEMBRO 2000

Festival Outono em Lisboa inicia-se hoje no CCB, em Lisboa

Leão pop

Rodrigo Leão, António Chainho e Wim Mertens atuam por esta ordem no festival Outono em Lisboa que durante três dias decorrerá no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Notas melancólicas a anunciar o inverno.

É a quarta edição do festival Outono em Lisboa e em todas elas o programa fez questão de apresentar espetáculos inéditos. Aconteceu assim com a primeira apresentação dos Resistência, com o espetáculo 100 Anos de Fado e com o lançamento a solo de Tim, dos Xutos e Pontapés. Este ano a lista é tripla, com concertos de Rodrigo Leão, António Chainho e Wim Mertens, todos eles transportando um álbum novo debaixo do braço. "Alma Mater", do teclista da Sétima Legião, "Lisboa-Rio", pelo autor de "A Guitarra e Outras Mulheres", e "Der Heisse Brei", do pianista flamengo fundador dos Soft Verdict. Em comum têm a nostalgia.
O festival abre esta noite com Rodrigo Leão que apresentará o seu novo álbum "Alma Mater", incursão por estratos musicais mais ligeiros do que os dos anteriores "Ave Mundi Luminare", "Mysterium" e "Theatrum". Para trás ficaram a música de câmara e o peso de um dramatismo tímbrico que no novo álbum são redimidos pela omnipresença de um piano-nuvem, o calor do tango e as vozes de Lula Pena e Adriana Calcanhoto.
Temas retirados de toda a discografia do músico, com ênfase no novo "Alma Mater", serão apresentados sob uma perspetiva instrumental de acordo com a formação que estará hoje à noite em palco: Luís Sampaio, bateria, Tiago Lopes, baixo, Pedro Oliveira, guitarra, Ângela Silva, voz, Denys Stetsenko, violino, Jano Lisboa, viola, Nelson Ferreira, violoncelo, e Celina da Piedade, acordeão, além, é claro, de Rodrigo Leão, nos teclados. "Será um espetáculo diferente de todos os que fiz até hoje", garante, "pelo facto de haver bateria, guitarra e baixo, o que realça a vertente pop de alguns temas, com arranjos novos para estes instrumentos de 'Ave mundi', "Carpe diem" e 'Mysterium'".
O espetáculo contará com a presença, numa das duas versões a apresentar do tema "A casa", dos convidados Sónia Tavares, voz, e Nuno Gonçalves, eletrónica, ambos dos The Gift. "A casa" é a canção de abertura de "Alma Mater", com vocalização de Adriana Calcanhoto. No Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, será apresentada uma "lounge mix" deste tema na qual Sónia Tavares substitui a voz da cantora brasileira e Nuno Gonçalves, responsável pela remistura, lançará samples vocais. "Tardes de Bolonha" constitui outra das novidades. O tema, composto por Leão para o álbum dos Madredeus, "Existir", será apresentado ao vivo pela primeira vez pelo seu autor e terá uma "vertente popular", com o acordeão de Celina da Piedade a "desempenhar o papel mais importante".
Piano e falsete

Wim Mertens, visitante assíduo do nosso país, fechará no sábado o festival. O compositor prossegue há mais de 20 anos e sem desfalecimentos uma saga sem fim – impenetrável, nalgumas das suas etapas... – na busca da síntese definitiva entre o minimalismo, o piano romântico, o conceptualismo e os alicerces clássicos dos séculos XV e XVI. Longe vão os tempos em que brincava com os circuitos eletrónicos de máquinas de flippers, em "For Amusement only", e alargava o léxico do minimalismo, inventando, a par de Michael Nyman, a contrapartida europeia do movimento, em álbuns como "Vergessen", "Struggle for Pleasure" e "Maximizing the Audience". Hoje, a sua cabeça encarcerou-se no esoterismo de obras com dez horas de duração intituladas "Alle Dinghe" ou "Gave Van Niets", que incluem solos de fagote de meia hora.
Nos intervalos da escrita para fagote Mertens desforra-se, lançando no mercado postais pindéricos de pianadas "new age" autentificados com o selo de garantia de "autor". O novo "Der Heisse Brei" sem ser tão soporífero como alguns dos seus trabalhos neste campo de maior "luminosidade", chamemos-lhe assim, não evita, no entanto, a monotonia de frases melódicas estafadas e um romantismo de pacotilha. Mas continua a ser divertido observar o artista a espremer-se na voz de falsete com que costuma abrilhantar as suas atuações.
Quem está na moda é António Chainho, que será o segundo artista a atuar, - amanhã – no Outono em Lisboa. A seguir ao golpe de mestre "A Guitarra e Outras Mulheres", o guitarrista volta a explorar o filão de ouro da fórmula "guitarra portuguesa mais vozes ilustres" no novo "Lisboa-Rio". Depois de Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Marta Dias, Sofia Varela, Elba Ramalho e Nina Miranda, presentes no disco das "outras mulheres", responderam à nova chamada Ney Matogrosso, Paulinho Moska, Virgínia Rodrigues, Celso Fonseca e Jussara Silveira. Em prole da fusão das músicas portuguesa e brasileira.

OUTONO EM LISBOA
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Rodrigo Leão, hoje, António Chainho, 6ª, Wim Mertens, sáb., sempre às 21h30
Bilhetes entre 1500$ e 4500$ para o espetáculo desta noite; entre 2000$ e 5000$, 6ª e sáb.

DJing in the rain [Número Festival]

SÁBADO, 2 DEZEMBRO 2000 cultura

Inundações na noite de abertura do Número Festival, no Parque Eduardo VII, em Lisboa

DJing in the rain

Houve inundações na abertura do Número Festival. A água da chuva entrou pela tenda dentro, encharcando os pés das muitas pessoas que acorreram ao Parque Eduardo VII para ouvir música eletrónica. Na enxurrada de DJing, a música dos Pan Sonic e das Chicks on Speed mal conseguiu boiar.

Várias coisas não funcionaram na primeira das três noites (quinta-feira) do festival Número que tem estado a decorrer no Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa tenda de circo instalada para o efeito. Em noite de tempestade, a água da chuva correu com fartura pelo chão, transformando-o em leito de rio. Além disso, embora o horário fosse cumprido quase escrupulosamente, houve DJing a mais para concertos a menos, o que encurtou sobremaneira as atuações dos dois grupos de palco, Pan Sonic e Chicks on Speed. Por questões de estética assumida ou erro de cálculo, rodaram em demasia os leitores de CD e gira-discos. Números para serem revistos no futuro.
Passaram, em primeiro lugar, num ecrã triplo, as imagens de uma curta-metragem realizada pelo Pogo Teatro. A banda-sonora com música de Shabotinski, Klaus Nomi e Gustavo Lamas ajudou a suportar a visão ultra-realista de uma Lisboa reduzida a ícone do vazio metamorfoseada pela mente em cenário de ações virtuais.
F. Fadigas não perdeu tempo, sentando-se de imediato aos comandos da mesa de som. O primeiro DJ da noite compôs uma massa de sons abstratos sem ponta de "groove" a que as pessoas se pudessem agarrar. Faltou-lhe o que manifestamente existe na dupla Major Eléctrico, que atuou a seguir: uma estratégia. Pedro Santos e José Moura improvisaram como uma entidade única lançando para a pista jatos de "noise", batidas subliminares e "cut-ups" que terminaram com a truncagem da voz de um anunciante de telemóveis.
Temia-se uma sova sonora a sério dada pelos finlandeses Pan Sonic. Nada que não pudesse ser resolvido com um par de tampões para os ouvidos mas, para estupefação de alguns e sobretudo para os que estiveram presentes na atuação do duo o ano passado no Festival Reset! - onde o massacre foi avassalador -, a música orientou-se por outras coordenadas. Embora a energia física que se desprende da eletrónica dos Pan Sonic se fizesse sentir e os estômagos agradecessem a massagem das baixas-frequências, a música esteve sempre focada, alternando passagens de ruído rosa com as típicas batidas "pata de elefante" ou martelo-pilão que fazem dos Pan Sonic os Kraftwerk dos esgotos, com o computador de ritmos a simular a sequência "boing, boom, tchak" de um dos álbuns dos magos de Dusseldörf. Poder e concentração num concerto que pecou por ser curto.
De outro DJ em agenda, Russell Haswell, esperava-se nova dose de agressão ou, no mínimo, de provocação. Mas se o início do seu "set" chegou a prometer sobressaltos, cedo os pratos se acomodaram às batidas de uma tecno parasitada que não estimulou ninguém – antes recordou que o bar estava ali mesmo ao lado a pedir mais uma cerveja...
O que ninguém esperava era que em vez de cerveja fosse a água o líquido da noite. Estava toda a gente a acomodar-se frente ao palco para receber as meninas Chicks on Speed quando a barragem rebentou e o dilúvio irrompeu pela calçada. Homens e mulheres transformaram-se em coelhos aos saltos em busca de uma margem. Chegar ao bar era nesta altura tarefa impossível, formando-se na zona um pequeno lago onde só faltava ouvir o coaxar das rãs.
Tempestade, alguma confusão, mas, por fim, as Chicks on Speed lá tomaram de assalto o palco, vestidas como as ninfetas punk-futuristas do início da década de 80, como Siouxsie Sioux. Começaram com a eletrónica num caos e os circuitos mal ligados mas a coisa era fácil de compor. A música das Chicks é de uma simplicidade desarmante. O que elas fazem com uma boa-disposição e empenhamento notáveis é mascar os lugares-comuns da "new wave" sintética de há 20 anos, piscar o olho ao "disco", pôr as caixas-de-ritmo em piloto-automático e armar uma pose "kitsch" para tirar o retrato aos anos e aos sons de bandas como Kas Product, Automatic Kids e Fad Gadget. Mas foi giro ouvir as pequenas cantarem "Warm leatherette" de The Normal, um hino da pop eletro-industrial da época, ou colorirem-se com os "confettis" dos B-52's numa atuação que deixou toda a gente feliz e a pedir mais. Pedido aceite e correspondido com "Euro trash girls", título que não poderia vir mais a propósito.
Já com a enxurrada estancada, o Número regressou de novo às mãos dos DJs, desta feita com a equipa da Fat Cat. Mas o que apetecia mesmo era uma toalha...
O Número Festival termina hoje com atuações do pai dos "grooves" do inferno, Aphex Twin, a "click-house" e tecno ambiental de Kid606 e People Like Us, uma rapariga de quem se diz ter ficado enfeitiçada pelos malfeitores sónicos Negativland. Queira Deus que não chova!...

Ala que se faz luz [Ala dos Namorados]

SÁBADO 21 OUTUBRO 2000 cultura

“Cristal” apresentado no CCB, em Lisboa

Ala que se faz luz

Foi quase brilhante a apresentação da Ala dos Namorados na segunda de duas noites no CCB para mostrar as canções do novo álbum "Cristal". Depois de uma primeira parte de fado e intimismo foi hora de "showtime", com grandes canções, convidados e Nuno Guerreiro no seu melhor, a dançar e a cantar.

Apenas uma das treze canções do novo álbum da Ala dos Namorados, "Canção de Edite", ficou de fora do alinhamento de quinta-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, na apresentação do novo álbum "Cristal". Ontem foi a vez do Coliseu do Porto receber o grupo.
Doze em vez de treze, talvez para não dar azar. Sorte teve quem lá esteve para ouvir aquela que será hoje a única banda portuguesa a poder acalentar esperanças de percorrer a mesma estrada que leva às estrelas dos Madredeus.
Primeiro foi uma concha de segredos. Com os seis músicos concentrados no centro do palco, "unplugged", expostos ao que desse e viesse.
Veio primeiro a introdução instrumental, ao jeito dos "dias da rádio", do "Fado da rádio", seguindo-se "Medo do escuro", "Mistérios do fado" e "Fado de amor e pecado. Nuno Guerreiro foi fadista e Manuel Paulo acordeonista de "vaudeville", apenas se lamentando que, nesta ala mais calma da Ala, João Gil insistisse nas introduções à guitarra nota a nota em estilo cochicho. O instrumental "Ruas e praças" antecedeu "A rua do gato preto" e "Lisboa ausente", fechando a primeira parte com as sonoridades medievais de "Não tragais Bourzeguis pretos" e "Lua de todos", este último com João Gil a improvisar em duo com o guitarrista convidado Mário Delgado, mal amplificado, de tal forma que o ex-Trovante foi mesmo obrigado a aproximar o ouvido para conseguir ouvir o que se passava na guitarra do seu companheiro. Quando o técnico de som se lembrou finalmente de subir o volume de som, já a improvisação dera o que tinha a dar.
Intervalo. Entre a música escolhida para entreter passou um tema pop progressivo, "Isn't it quiet and cold?", do primeiro álbum dos Gentle Giant. Fosse quem fosse o programador, os nossos parabéns!
Extensivos – os parabéns – à Ala dos Namorados que, ao longo de toda a segunda parte, deu espetáculo. Já com os músicos espalhados pelo palco, os seis que habitualmente integram a Ala mais os convidados Daniela Brito, no violoncelo, e o brasileiro André Rocha, nas percussões, a música explodiu em luzes e cambiantes sonoros.
Um "Café paraíso" em pleno território do Progressivo e "Como seria" desembocaram no épico "Razão de ser". Nuno Guerreiro foi para a boca de palco dançar e tirar moedas dos bolsos numa performance coreográfica que a música completou de forma magnífica, com "glam", funky no clarinete baixo de José António Santos, luzes de cabaré e farrapos esvoaçantes de "Eleanor Rigby", dos Beatles, a clicarem segredos na memória. "Showtime"!
O music-hall de "Olha por ti" (com as cornetas de "Winchester cathedral" a soar) e o Brasil de "História de pedra", recriado por André Rocha no berimbau e com Manuel Paulo imaginativo nas programações eletrónicas, foram outros momentos altos de uma noite de cristal ao rubro. Tão ao rubro que o tema seguinte, "Rosa negra", foi dedicada aos bombeiros. Mas ao contrário dos soldados da paz a Ala dos Namorados ainda ateou mais o fogo, com o lança-chamas das percussões a espalhar as labaredas e tempo de antena alargado para Manuel Paulo no piano fazer o vento mudar várias vezes de direção.
"Alice", jazzy, concluiu com Nuno Guerreiro a castigar o ar com o já famoso "pontapé Marco", enquanto a "Rapariguinha do shopping", de Rui Veloso, alardeou alegria na secção de sopros, aumentada pelo trompete de Laurent Filipe e o trombone de Ruben Santos. Manuel Paulo, num registo de órgão Hammond, conferiu ao tema um toque "lounge".
"Zé passarinho", "Fim do Mundo" e "Loucos de Lisboa" teriam fechado com chave de ouro se o público, como era previsível, não tivesse pedido mais. Entusiasmados com a reação da sala e consigo próprios (Nuno Guerreiro balbuciava "emoções" e "sentimentos" em atropelo) a Ala voltou para "Luar um dia", "Solta-se o beijo" e um "Siga a marinha" que André Rocha transformou numa sessão de timbalada ao usar um carrinho-de-mão como instrumento de percussão.
"Cristal" brilhou com intensidade no CCB. Nuno Guerreiro está a cantar como nunca, exibindo-se como um verdadeiro "entertainer". Os cinco instrumentistas funcionam como uma máquina. A Ala dos Namoradas venceu mais uma vez a batalha.

Uma voz nas voz dos outros ["Uma vela por Amália"]

cultura DOMINGO 8 OUTUBRO 2000

Espetáculo “Uma vela por Amália” relembra a fadista

Uma voz na voz dos outros

Apagou-se a vela do 1º aniversário da morte de Amália. Cantou-se o fado. Cantou-se a memória e a saudade. E revelou-se a presença arrepiante de uma nova fadista, Katia Guerreiro, sósia da diva.

Cumprido um ano sobre a sua morte, Amália permanece viva apenas nos discos, nos filmes e no coração de cada um. Tudo o mais é saudade. E o que sobra é vaidade.
            Espectáculos como o do aniversário do 1º ano da morte da fadista, realizado na noite de sexta-feira no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, sob o genérico "Uma vela por Amália" e transmitido em directo pela TVI, funcionam como um lenitivo. As pessoas vão para ouvir um eco, para ouvir uma voz que já se foi, impressa nas vozes dos que por cá ficaram. Vão porque necessitam da ilusão que faz esquecer a ausência. Vão para ouvir cantar o fado.
            Muitos sopraram uma vela por Amália no Coliseu. O espetáculo foi longo, ainda mais longo pelo atraso com que se iniciou – mais de uma hora – provocado pelas exigências do directo. O povo, depois de minutos antes se ter comprimido e protestado de viva voz contra a abertura tardia das portas, esteve pacato lá dentro, sossegado pelas imagens da novela que a TVI passava em directo nos monitores do Coliseu.
            Por fim lá chegou o bolo com a vela. Melhor dizendo, 18 velas, tantos foram os artistas que cantaram. Depois das palavras de apresentação de João Braga, com a sobriedade que se impunha, veio o fado. Com a arquitetura da velha de Lisboa como pano de fundo.

Uma nova geração de fadista

            Amália já não se encontra entre nós. Mas para além da saudade que deixou, deitou sementes ao fado. Graças a ela, à sua vida e à sua voz, o fado está hoje bem servido por uma nova geração de cantores capazes de manter aceso o fado nas décadas vindouras. Joana Amendoeira, Teresa Tapadas, Ana Sofia Varela e Maria Ana Bobone, pela ordem que foram entrando em cena, são todas senhoras de belas vozes, têm alma e uma presença física invejável. São bonitas e cantam bem. Ana Sofia Varela será das quatro a que melhor junta à graça a garra.
            Deixámos propositadamente de fora o nome de Katia Guerreiro, recém-formada em medicina ("consultório à disposição" como brincou João Braga) e estreante em espectáculos ao vivo com esta dimensão. O fadista-apresentador bem avisou que qualquer elogio ficaria além da realidade. Tinha razão. O impacte provocado pela sua presença é arrepiante. Katia Guerreiro é fisicamente uma sósia de Amália. Quem gravou o espectáculo do Coliseu experimente parar a imagem. Assustador. O rosto, o franzir das sobrancelhas, a boca, a expressão, os olhos fechados, a inclinação da cabeça. É Amália nos tempos da juventude. Será encenação minuciosamente preparada por Katia Guerreiro? A maquilhagem? Ou será ela mesmo assim? Depois a voz, até a voz toca no mesmo registo mais grave de Amália. Katia cantou "Barco negro" e"Amor de mel, amor de fel". Um fantasma pairou no Coliseu.
            João Maria Tudela, Rodrigo Costa Félix, Raúl Indipwo, Paulo de Carvalho, Paulo Bragança, António Pinto Basto, Carlos Zel, Maria Armanda, Margarida Bessa, Maria do Céu, Waldemar Bastos, Tito Paris e João Braga foram as outras vozes que levaram a memória e a música de Amália pela noite de fora, acompanhados pelas guitarras e violas de Raúl Nery, Carlos Gonçalves, José Luís Nobre Costa, Jaime Santos Jr. e Joel Pina. Com a presença na sala do presidente da edilidade lisboeta, João Soares, ouviram-se ainda depoimentos televisivos de Daniel Proença de Carvalho, Artur Agostinho, Ruy de Carvalho e Alexandra.
            Na assistência bebeu-se cada verso, os lábios e a alma conheciam de cor cada fado de Amália. Passou só um ano mas a saudade é já imensa.

Drácula em concerto [Kronos Quartet]

cultura DOMINGO, 24 SETEMBRO 2000

Kronos Quartet interpretam obra de Philip Glass no Coliseu de Lisboa

Drácula em concerto

"Drácula" esconde-se onde menos se espera. Tenham medo, tenham muito medo dos caninos afiados do Kronos Quartet. O grupo de cordas dá hoje a segunda dentada em Portugal na música de Philip Glass a acompanhar o clássico filme de terror dos anos 30 de Tod Browning. O PÚBLICO entrevistou o primeiro-violino e líder, David Harrington. Garante que a música do minimalista americano não está exangue.

David Harrington é primeiro-violino e o diretor artístico do grupo de cordas Kronos Quartet, 27 anos de existência ao longo dos quais foi alargando o seu reportório a campos insuspeitos da música contemporânea. Da música étnica ao minimalismo, passando pela "Canção dos verdes anos" de Carlos Paredes, o objectivo é sempre "captar os melhores pensamentos dos melhores compositores". Mas hoje, segunda e última de duas apresentações do grupo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com a presença ao vivo de Philip Glass e as imagens do clássico "Drácula" encarnado por Bela Lugosi em pano de fundo, a noite vai ser de sustos.
         PÚBLICO – Há o “Drácula” que gravaram ao vivo sem a participação de Glass e o “Drácula” em concerto no qual o compositor se apresenta ao lado do grupo a tocar teclados. São muitas as diferenças de partitura e de execução?
            DAVID HARRINGTON – A versão original do "Drácula" escrita por Philip Glass destinava-se ao Kronos Quartet a solo. Mas a realidade mostrou ser praticamente impossível tocar ao vivo o que gravámos no disco. É incrivelmente difícil de tocar, a dificuldade da escrita torna fisicamente impossível a sua transposição integral para concerto. O disco levou seis dias a gravar mas acabámos por verificar que na juxtaposição com as imagens, havia sequências ininterruptas de 20 minutos impossíveis de reproduzir ao vivo.
            Pus pela primeira vez a Glass a hipótese de tocarmos juntos há muitos anos, numa ocasião em que executava um dos seus concertos para piano solo. Disse-lhe que era a única pessoa do mundo que tocava a sua música da mesma maneira que nós! A flexibilidade rítmica que ele lhe imprime – embora isso não aconteça numa peça como "Einstein on the Beach" – também é percetível na nossa música.
         P. – É curioso referir essa dificuldade da música de Glass. É que não faltam vozes que o acusam precisamente do contrário, de nos últimos anos se limitar a reproduzir em piloto-automático um estilo que fez história...
            R. – Tente fazê-lo você! [risos]. Primeiro que tudo, a tonalidade desta música necessita de ser executada com uma afinação perfeita. E o ritmo... Por vezes as noas correm realmente depressa. Tocar a música de Glass, pelo menos com o nível de exigência que pretendo, é verdadeiramente difícil. O que não falta por aí são músicas consideradas “difíceis” nas quais o auditor não consegue garantir o que está certo ou errado...
         P. – Kronos Quartet tem sido sinónimo de alguma transgressão e de uma escolha heterodoxa de reportório, como acontece em “Kronos Caravan”. Este “Drácula” não é um passo em direção a um certo academismo? Glass não será hoje um compositor académico?
            R. – “Drácula” representa a continuação de uma relação com Philip Glass iniciada em 1983. Não concordo que Glass tenha tornado um académico. Não corresponde, pelo menos à minha definição de “academismo”, de alguém que dá aulas num Conservatório e escreve para outros compositores ouvirem, alguém mais preocupado com o que eles possam dizer sobre a sua música do que com as opiniões do público ou dos intérpretes. Quando Glass escreveu para nós, em 1998, o seu “Drácula”, fê-lo de propósito para nós, sabendo exatamente o que nós poderíamos fazer com ele. Foi-nos exigido o máximo. Não compreendo que um compositor possa ser criticado só por ter um estilo característico. Na América a imprensa faz muito essa acusação, com base nessa identificação imediata. Como se ter um estilo fosse uma falha, algo inaceitável. No passado, compositores como Haendel, Bach ou Mozart tinham um estilo pessoal muito marcado, imediatamente identificável...
         P. – Terry Riley é outro dos minimalistas norte-americanos com quem costumam trabalhar. O seu estilo já é menos identificável...
            R. – Somos grandes amigos. Já escreveu 12 peças para o quarteto, tocamos um peça dele em “Kronos Caravan” e está neste momento a compor mais duas novas peças de fôlego para nós. Aos 65 anos, está a passar por um período de grande atividade.
         P. – O que pensa de um trabalho como o do Balanescu Quartet, de adaptação da música eletrónica dos Kraftwerk ao formato de quarteto de cordas? O Kronos atrever-se-ia a fazer algo de tão radical?
            R. – Nunca ouvi esse álbum. Tocamos toda a música que sentimos como se fosse quase obrigatório fazê-lo.
         P. – Que critérios seguem na escolha do reportório? Há dezenas de compositores a escreverem para o grupo...
            R. – Há música que ressoa dentro de nós. É a que gostamos de tocar. Há jovens compositores a explodir de energia e ideias que eu gostaria que escrevessem para nós. Pretendemos, acima de tudo, captar os melhores pensamentos dos melhores compositores.
         P. – Há alguma música de que gostem mas que seja impossível o Kronos Quartet interpretar?
            R. – Deve haver, mas até hoje não encontrámos nenhuma! [risos]. Mas tocámos uma vez uma coisa com uma orquestra-gamelão da Indonésia que... bem... fizemo-lo, mas confesso que nunca percebi o compasso, como é que eles conseguiam tocar em conjunto. O único instrumento que conseguíamos seguir era o gongo. Só quando soava o gongo é que percebíamos em que ponto da música nos encontrávamos. Totalmente misterioso. E a escala, esquisitíssima! Mas adorei a experiência, tão diferente de tudo que o que tínhamos feito antes.
         P. – Em “Kronos Caravan” tocaram com o grupo romeno de ciganos Taraf de Haidouks. Foi fácil juntar uma abordagem intuitiva dos intrumentos, inclusive de cordas, como a deles, com o rigor formal do Kronos?
            R. – Curiosamente, os Taraf de Haidouks não são uma banda de improvisadores. Conseguem executar toda a espécie de ornamentações. Embora o façam de ouvido têm tudo claro na cabeça. As partituras são as suas memórias.
         P. – Como e quando descobriram a música de Carlos Paredes, que também interpretam em “Kronos Caravan”?
            R. – É um dos maiores músicos do mundo! Ficámos a conhecê-lo através de um disco editado na nossa companhia, a Elektra Nonesuch, no princípio dos anos 90. Demorou algum tempo até arranjarmos alguém para fazer os arranjos, no caso, Osvaldo Golijov, a única pessoa que conheço capaz de transpor a música de Paredes para quarteto de cordas e fazê-la parecer-se, de facto, com música de quarteto de cordas.
         P. – Porque não assinam mais vezes os vossos próprios arranjos?
            R. – Estamos constantemente a fazer arranjos para os arranjos que os outros fazem para nós! Reconheço, no entanto, não me sentir à vontade. Prefiro convidar especialistas.
         P. – Ao contrário de outros álbuns, em “Kronos Caravan” utilizaram mais instrumentos além das cordas. Algum motivo especial?
            R. – “Kronos Caravan” representa uma faceta específica do nosso trabalho, uma série de explorações do som e de sentimentos diferentes. Trabalhamos em várias áreas ao mesmo tempo. Por exemplo, Steve Reich está neste momento a escrever para nós, bem como Henryk Górecki e Tom Verlaine, dos Television. Estão sempre a acontecer coisas novas. Sentimo-nos como um pintor ao descobrir uma cor nova ou uma técnica nova. Pode acontecer que quando executarmos a nova peça de Terry Riley ela soe como os Taraf de Haidouks ou o Carlos Paredes!

DRÁCULA
DE TOD BROWNING
MÚSICA AO VIVO PELOS KRONOS QUARTET E PHILIP GLASS
LISBOA Coliseu dos Recreios, às 22h, bilhetes entre 3000$00 e 1000$00

A voz pendurada no estendal [Fátima Miranda]

cultura TERÇA-FEIRA 12 SETEMBRO 2000

Fátima Miranda amanhã no Rivoli do Porto

A voz pendurada no estendal

Fátima Miranda transformou o palco do CCB num estendal de roupa branca sobre o qual passearam fantasmas, fantasias e sombras de um mundo alucinado. Já não há facas atravessadas na cabeça mas a cabeça da cantora espanhola continua trespassada pela loucura. Agora encenada em "ArteSonado", o seu mais recente golpe de génio.

O que mais impressiona e surpreende em Fátima Miranda é a forma como se expõe sem limites aos olhares do público. E como de cada vez parte para uma viagem recheada de perigos sem a garantia de regresso. O que aconteceu na noite de domingo no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, para uma sala quase cheia, e voltará a acontecer amanhã no Teatro Rivoli, do Porto, foi o espetáculo/ritual condensado do nascimento, vida e morte de uma mulher que por companhia tem apenas a sua própria arte.
Primeiro o escuro uterino. A noite. Fátima surge em cena banhada em luz negra para cantar através de um tubo de plástico fluorescente que faz girar sobre a cabeça. É "Llamada!", chamada em chama, o tema que abre o seu mais recente álbum, "ArteSonado", a "arte que soa", entre outros significados mais esotéricos, e é impossível não pensar nos mesmos movimentos circulares feitos por alguns feiticeiros no chamamento dos deuses.
A partir deste momento, a voz segue em direção ao infinito. Violentada, repuxada do avesso, em beijos, gritos, números de contorcionista, de bruxa, de criança, de outros entes que nascem de dentro do inconsciente aberto como uma caixa de Pandora.
O concerto-performance de Fátima Miranda que integra elementos musicais, visuais (Andreas Grainer assina o desenho de luz) e cénico-dramáticos, com base no alinhamento de "ArteSonado", é uma experiência da voz mas também uma experiência de revelação dos mecanismos da mente. Tema após tema, Fátima Miranda vai estendendo roupa branca - ela própria enverga um vestido branco - num estendal montado no palco. Já não há facas na cabeça, como havia na anterior apresentação da cantora há dois anos neste mesmo local, mas lençóis.
Lençóis brancos que se animam com as cores de slides projetados ou que funcionam como testes projetivos para a imaginação. Em "Nila blue", os lençóis suportam o azul do mar, lençóis de água que logo se transformam em fantasmas e em janelas que dão para o outro lado. No meio da aldeia da roupa branca a voz da cantora vai operando prodígios, em contraponto consigo própria numa série de desdobramentos e diálogos com sequências pré-gravadas até à solidão final "a capella".
Fátima Miranda ascende ao sagrado para finalmente o corromper e fazer chafurdar na lama. Se toda a primeira parte de "ArteSonado" aponta para a elevação, graças ao recurso a técnicas vocais das mais diversas proveniências, já os temas finais, "RePercusiones 1: Esto es de lo que no tiene nombre" e "Asaetada" (o único que não faz parte do CD) exploram até à exaustão o lado mais lúdico, carnavalesco e sarcástico da cantora. Despedaçam-se os estereótipos femininos associados à futilidade através de uma sucessão de metamorfoses do rosto, da desmontagem dos gestos e conversações do quotidiano da mulher que lê revistas de sociedade e comunica por telemóvel. Uma delirante solução luminotécnica reduz a condição feminina à dimensão do circo.
Mas Fátima Miranda vai ainda mais longe ao entrar sem vergonha no domínio da escatologia, ligando os sons da voz aos do corpo com uma série de meneios corporais e fonéticos que culminam na explosão final (e literal...) de uma performance de aerofagia que pôs meio CCB de cara à banda.
Por fim, pousada no chão como uma ave exausta, Fátima dirige-se pela primeira vez diretamente ao público, nomeia a sua equipa e volta a abrir as asas com uma vocalização feita de espiritualidade. E assim, quando tudo parecia ter entrado nos eixos de uma "coisa civilizada", eis que a cantora se diverte a confundir o funcionário do CCB que lhe traz o tradicional ramo de flores e agradece com um "muito obrigadinho". Muito obrigadinho? No CCB? Risos curtos, não se faz, é um pequeno escândalo. Mas o público aplaude de pé. Fátima sorri.

FÁTIMA MIRANDA
PORTO Grande Auditório do Teatro Rivoli, amanhã, às 21h30.
Bilhetes entre 2000$00 e 2500$00

22/03/2017

O bolerista e os soneros [Vitorino e Septeto Habanero]

cultura TERÇA-FEIRA, 4 JULHO 2000

Vitorino e Septeto Habanero atuam juntos em mini-digressão

O bolerista e os soneros

Vitorino, o bolerista, e os soneros Septeto Habanero voltam a apresentar-se juntos e ao vivo em Portugal, retomando uma colaboração encetada em disco com o álbum "La Habana 99". Boleros para fazer dançar Portugal até ao final de Agosto.

O bolero, uma das danças típicas e mais românticas da música tradicional cubana, há muito que anda a bailar na cabeça do cantor alentejano Vitorino. Um amor antigo, moldado em recordações de infância, filtradas "através do travesseiro duma cama de ferro", em casa do avô Salomé, onde, no rés-do-chão transformado em sala de ensaios, mesmo por baixo do seu quarto, uma pequena orquestra da família "executava com enorme prazer e divertimento as grandes canções clássicas dos anos 40/50 americanas, assim como os velhos boleros, mambos e tchás". "A minha avó mandava-me cedo para a cama e eu adormecia num delicioso sono de acordes longínquos e que a distância e a espessura das paredes adoçava e transformava em música de anjos brincalhões e heróis, que me enchiam a imaginação e os sentidos", recorda o autor de "Flor de la Mar" na folha de apresentação do álbum "La Habana 99", gravado no ano passado em Havana, com o Septeto Habanero, formações mítica da música cubana. Com a gravação deste disco ficava concretizada metade desse sonho.
            A segunda cumprir-se-á finalmente através de uma série de espetáculos que hoje, amanhã e na quarta-feira têm lugar no Teatro Tivoli, em Lisboa, prosseguindo ainda este mês em Vila Nova de Famalicão (dia 7), Braga (dia 8) e, já em Agosto, Portimão (14), Açores (18), Porto (19) e Viseu (26). Para trás ficam as más recordações da estreia ao vivo do cantor alentejano com o grupo cubano, no ano passado, no Parque das Nações, ao ar livre de uma noite gelada de Fevereiro, onde faltou clima e público a uma música toda ela apaixonada pelos perfumes e danças dos trópicos. "Entrava-nos a nortada pela boca adentro", recorda Vitorino ao PÚBLICO. Entre esse Inverno e este Verão, gravaram no ano passado em Havana o álbum "La Habana 99" que com as suas 30.000 unidades já vendidas em Portugal se prepara para ser disco de platina.
            Desta feita, "com condições ideais" e numa "sala lindíssima", tudo se conjuga para uma noite que permitirá reviver os sons e as imagens da época dourada, os anos 40 e 50, das danças de salão. Vitorino é o cantor convidado do Septeto, após se ter oferecido como "voluntário". "Eles procuravam um cantor para cantar com eles em Portugal e eu disse logo: Sou eu!". Vitorino enviou-lhes alguns discos seus, os cubanos ouviram, gostaram, e escolheram as canções. "Sou como um vocalista à boa maneira dos anos 20" explica, com orgulho e visível satisfação, o cantor alentejano que em breve lançará com o seu irmão Janita Salomé um álbum ao vivo de canções menos conhecidas de José Afonso.
            Quando subir esta noite ao palco do Tivoli, Vitorino representará com gosto a mesma personagem dessa época que teima em persistir em Cuba que encarna na capa de "La Habana 99", a do cantor romântico, estrela de Santiago de Cuba e de Hollywood. Do cantor de boleros, "porque o bolero é branco, o que tem a pele mais clara, enquanto o 'son' já é mulato", diz, assumindo-se como europeu. "Eles [o Septeto Habanero] avaliaram com muita acuidade as minhas características e acharam que eu era bolerista. Sonero creio que não sou", confessa. "Soneros são eles, eu sou bolerista". E pormenoriza, dando mostras do conhecimento profundo que tem desta música presente no seu imaginário desde criança: "O que eles fazem é o bolero-son, não é o bolero-filin, um bolero muito declamado, próximo do fado".
            Fazem parte desta lenda viva da música de Cuba, que Vitorino honrará com todo o seu saber e experiência de grande cantor do Sul, o veterano Pedro Ibañez (voz, guitarra e líder do grupo), Emílio (voz e guijo), Digno (voz e clave), Joselito (voz e maracas), Chino (trompete), Faustino (baixo9, Ferro (bongo) e Felipe (guitarra).

VITORINO COM SEPTETO HABANERO
LISBOA Teatro Tivoli, hoje, amanhã e 5ª feira, às 22h. Bilhetes entre 3000$ e 4500$.