28/05/2011

Laub - Intuition + Köhn - (Köhn)2

11 de Fevereiro 2000
POP ROCK


A ameaça do coelho invisível


Laub
Intuition (7/10)
Kitty-Yo, distri. Symbiose

Köhn
(Köhn)2 (8/10)
K-RRAA-K, distri. Matéria Prima


Originários da Alemanha os Laub fazem parte de uma segunda linha de ataque da nova música electrónica alemã, um pouco atrás dos Kreidler e muito atrás da facção mais experimentalista representada por nomes como FX Randomiz, L@N ou, mais recentemente, Sack & Blumm. O álbum de estreia da banda, “Kopflastig”, é um exercício interessante de mistura de sonoridades electro com uma voz feminina, de Antye, que remete para os parâmetros “arty” dos também germânicos Non Credo e No Secrets in the Family. Mas se “Kopflastig” é um álbum, no mínimo, interessante, o conjunto de remisturas apresentadas em “Intuition” consegue ir mais longe, propondo algumas leituras que ultrapassam, em amplitude de visão, o material original. Estão neste caso as remisturas de “Grau”, pelos Pôle, com um enredo de ruídos difícil de deslindar, dos Rechenzentrum e Elektronauten (estes entre o dub, o trip-hop e o chill-out) ambos hipnóticos, respectivamente em “Uter anderen bedingungen” e “Diffus dub”, e dos Schneider TM, com um trabalho de manipulação do tempo e da velocidade que remete para a estratégia usada pelos Neu! em “Neu!2”. Bastante krautrockers soam os Full Swing, em “Weit weg”, o mesmo tema que nas mãos dos Phoneheads se converte no formulário rítmico tradicional do drum’n’bass. Richard Thomas assina em “Skycrapes and earthquakes” a remistura mais radical e musicalmente estimulante de “Intuition”, com um puzzle minuciosamente congeminado em laboratório à maneira de Holger Hiller que deixa pouco osso á mostra da versão original. Clifford Gilberto, Gonzales e Matthias Schaffhäuser não adiantam grande coisa, usando um conjunto de fórmulas gastas e sem grande significado.
Mas se “Intuition” oscila entre a inquietação mas também algum conformismo, o mesmo não se poderá dizer de “(Köhn)2”, segundo capítulo do projecto, também alemão, Köhn. Aqui o prazer da audição tanto pode derivar de um lado lúdico assumido até ao absurdo, como descer ao patamar da dor. Dois extremos que se confundem logo no tema de abertura, “Willem = Köhnen”, que começa com um “loop” de música festiva por uma banda de coreto, progressivamente retalhado, e subitamente irrompe numa sessão de tortura dos Throbbing Gristle. No limiar da dor física está “*”, que o próprio Köhn (trata-se de um músico apenas, jamais identificado) define como um teste á capacidade de resistência dos altifalantes às frequências mais agudas do espectro sonoro. Em “(Köhn)2” joga-se sempre no limite, entre um humor violento (a falsa electropop de “Sönn”, “poppy electronics with a message of hope”, como é descrito nas notas irónicas deste digipak também ironicamente ilustrado com um coelho branco invisível onde apenas se distingue um olho vermelho e ameaçador…) e manipulações de material acústico (um violino em “De köhning”, guitarra acústica e saxofone barítono em “The wrath of köhn”) irremediavelmente massacrados e transformados em experiências que podem conduzir ao banco de urgências do hospital. Erros técnicos de leitura (como faz José Moura enquanto Discmen) ou a assumida fraca qualidade da fita master utilizada são igualmente aproveitados para a elaboração de castigos auditivos, sempre com os Throbbing Gristle no horizonte (presença tutelar em “Kukeleköhn”) num álbum que, apesar de incómodo, mantém intacto do princípio ao fim uma imprevisibilidade que acaba por constituir um dos seus principais trunfos. Mas lá que dói, dói…

Pascal Comelade - Live In Lisbon + Pascal Comelade & Richard Pinhas - Oblique Sessions II

4 de Fevereiro 2000
POP ROCK


Pascal de Lisboa para o pinhal


Pascal Comelade
Live in Lisbon (8/10)
Pascal Comelade & Richard Pinhas
Oblique Sessions II (7/10)
Les Disques de L’Acier et du Crépuscule, distri. Megamúsica

“Live in Lisbon” foi gravado ao vivo em… adivinharam! Em Lisboa! Mais precisamente a 25 de Junho do ano passado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, com a Bel Canto Orquestra. Há mais três temas gravados em Barcelona mas é como se não contassem. O álbum é muito nosso. Pascal mostrou estar em grande forma nessa ocasião, como o atesta a qualidade deste álbum no qual a faceta “música para brinquedos” não asfixia um lado mais “adulto” (que não menos onírico) como acontece no já “standard” comeladiano, “L’argot du brui”, um tango dengoso e surreal que é a súmula do universo deste músico catalão. Igualmente familiares soam as inspiradas versões de “Sunny afternoon”, dos Kinks, “Smoke on the water”, dos Deep Purple (patética, o que nele é um elogio), “All tomorrow’s parties”, dos Velvet Underground (bastante velvetiana, por sinal), “Honky tonk woman” dos Stones (em ritmo mariachi) e, a comprovar o ditado que diz que “em Roma sê romano”, uma rendição pianística de “Grândola vila morena”, de José Afonso. Uma noite de folia e nostalgia por um Comelade em estado de graça. Comelade tem sempre graça, aliás…
Ou quase sempre. Com Richard Pinhas, antigo guitarrista e manipulador de electrónica dos Heldon, o caso muda de figura. Num segundo volume de “sessões oblíquas” que torneiam a discrição Enoiana – aqui materializada numa versão andróide de “Here comes the warm jets” – onde Comelade, além dos instrumentos de plástico, toca piano de cauda e órgão electrónico e Pinhas, guitarra eléctrica. Neste caso a música é tensa, acumulando ambientes minimais e opressivos, em diálogos, nem sempre ricos de significado, entre a intuição “naif” de Comelade e as “Pinhatronics” cerebrais do francês no que pode ser considerada uma conversa entre um gafanhoto e um elefante. Pinhas arde. Comelade por pouco não se quebra em pedaços, esmagado pelo ex-Heldon. Umas vezes soa como um ensaio dos Faust. Noutras a poesia desce aos solavancos, nas asas de um anjo de papel de seda e alumínio, como em “Krafft-ebbing et les coupleurs de nattes”. Dois loucos em acção.

21/05/2011

Murmúrios que não chegam cá [Cristina Branco]

28 de Janeiro 2000


Cristina Branco constrói carreira no estrangeiro

Murmúrios que não chegam cá



Santos da casa não fazem milagres. Em França, Cristina Branco, um dos novos valores do fado, recebeu no ano passado o prémio Choc pelo melhor CD de música tradicional. O álbum chama-se “Murmúrios” e não tem distribuição em Portugal. Em Fevereiro sai um novo, “Postscriptum”, na editora francesa Harmonia Mundi. A cantora encolhe os ombros, resignada: “Acontece assim com toda a gente…”

“Murmúrios” é o segundo álbum de Cristina Branco, uma jovem fadista, ou melhor, uma nova “cantora de fado”, como ela prefere ser chamada, de 27 anos de idade, que se vem juntar a Mafalda Arnauth e Sofia Varela na lista das novas vozes femininas capazes de garantirem um futuro radioso para o fado. Aquém e além fronteiras. No caso de Cristina Branco, por enquanto só “além”. “Murmúrios” foi editado no selo holandês Music & Words, chegando a Portugal unicamente através de importações esporádicas da lojas como a Fnac, a Virgin e a Valentim de Carvalho. Sem qualquer tipo de promoção, o disco já vendeu, mesmo assim, cerca de 500 exemplares.
Para Cristina Branco tudo começou há quatro anos e meio, “por brincadeira”, num jantar de amigos. Foi aí que cantou fado pela primeira vez, o “Ai Mouraria”, dos poucos que conhecia bem. Antes, havia a música que era tocada em casa pelos pais, de José Afonso e Sérgio Godinho, “música de intervenção”. E Amália, por quem Cristina nutre profunda admiração – “era quase uma impressão digital” –, desde o momento em que o seu avô lhe ofereceu um disco da diva, “Rara e Inédita”. “Devorava tudo dela, mas com esse disco descobri-lhe uma outra face, um fado mais contemporâneo, mais musical, com um tipo de interpretação das palavras muito mais forte do que a dos fados tradicionais.” Cristina comprou praticamente toda a discografia de Amália, aprendendo ao mesmo tempo a maneira de utilizar uma série de poetas de quem gostava e que, antes, “não sabia se podiam ser cantados”.
“Murmúrios” revela a voz única desta cantora autodidacta, marcada por uma sofisticação que por vezes faz lembrar Teresa Salgueiro ou, em certas inflexões, Nuno Guerreiro, da Ala dos Namorados. Anteriormente já a cantora gravara “Cristina Branco Live in Holland”, em edição de autor, registado ao vivo em dois concertos realizados no dia 25 de Abril de 1996 numa sala portuguesa “de culto” onde já cantara José Afonso, por exemplo. Foram feitos mil exemplares “que se venderam imediatamente”, logo seguidos por novas edições sucessivas, até se chegar aos 5000 discos vendidos.
Para trás ficaram os estudos de Comunicação Social, trocados por uma vontade de fazer carreira. Seja em que sítio for. A princípio Cristina sentiu-se “um bocado assustada” com as dimensões e a rapidez do seu sucesso. Decidiu avançar. Um segundo álbum, “Murmúrios”, vendeu igualmente a bom ritmo, conquistando em França um galardão de “melhor álbum do ano de música tradicional”. “Foi tudo de rompante, não sei muito bem como as coisas se processam, nem quero saber”, diz Cristina Branco, ainda mal refeita da rapidez com que a sua carreira se tem vindo a construir no estrangeiro e para quem cantar continua a ser “uma coisa muito especial e intensa, que vem de dentro”.
“Murmúrios” reúne 14 temas, desde fados tradicionais como “Abandono”, imortalizado por Amália, com texto de David Mourão-Ferreira, a canções de Sérgio Godinho (“As certezes do meu mais brilhante amor”) e José Afonso (“Pomba branca”). A maioria dos temas, contudo, leva a assinatura de Maria Duarte, autora dos textos, e Custódio Castelo, responsável pelas músicas. “Falam todos de coisas que me dizem muito e muito antes de alguma vez ter pensado em cantar”. Não diz quais. “É um processo interno, com significado para mim, não sei se para a s outras pessoas terá…”
Em Fevereiro sairá o terceiro álbum, intitulado “Postscriptum” (título de um poema de Maria Teresa Horta), distribuído pela prestigiada editora francesa de música clássica Harmonia Mundi, com a qual Cristina Branco assinou contrato por cinco anos, em colaboração com a Universal Classics, que se propõe gravar o seu próximo trabalho. João Paulo Esteves da Silva será o convidado especial num dos temas. “Postscriptum” porque “há sempre coisas que ficam por dizer”…
Cristina Branco tem uma particularidade: nunca cantou, nem tenciona cantar, numa casa de fados. “São ambientes que condicionam a imaginação, nunca quis passar por lá.” Talvez porque se habituou, muito nova, a ouvir em casa outros tipos de música, desde “música de intervenção” a Janis Joplin, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Elis Regina e Edith Piaf.
Enquanto Portugal vai ter que esperar até Maio para poder ouvir ao vivo Cristina Branco (descontando duas aparições fugazes, no ano passado, uma numa organização da Abraço, outra no programa de Herman José), no estrangeiro a sua agenda está carregada com cerca de 85 espectáculos programados até ao final do ano, em Itália, Alemanha, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, entre outros países.
“Só aprendemos a respeitar a nossa gente depois de outros, lá fora, lhe darem valor. Acontece assim com toda a gente”, diz Cristina Branco, enquanto encolhe os ombros e sorri.

Deep Purple - In Concert With The London Symphony Orchestra

28 de Janeiro 2000
DISCOS - POP ROCK

Deep Purple
In Concert with the London Symphony Orchestra (1/10)
2xCD Eagle, distri. Música Alternativa


Perguntar-me-ão vocês: porquê escrever, no ano 2000, sobre um disco dos Deep Purple, espécime sobrevivente do período jurássico? Boa pergunta. Porque é que estou a escrever sobre um disco dos Deep Purple? Ah, sim, porque o grupo foi importante há três décadas atrás, constituindo uma reserva moral para as novas gerações de heavy metal, e porque este novo álbum celebra o 30º aniversário de um outro disco com título semelhante, “Concerto for Group and Orchestra”, que, em 1970, juntou pela primeira vez uma banda de hard rock e uma orquestra sinfónica. A orquestra, a London Symphony Orchestra, era a mesma nesse e neste disco, a sala, o Royal Albert Hall, em Londres, também. Só a música é que envelheceu, apesar da formação clássica composta por Jon Lord, Ian Gillan, Roger Glover, Ian Paice e um elemento mais recente, Steve Morse, com a companhia do convidado Ronnie James Dio. Sem a chama de outros tempos (que, apesar de tudo ainda ardeu no recente e único concerto do grupo em Portugal) que fez dos Deep Purple pioneiros do hard rock, em álbuns seminais como “Deep Purple in Rock” e “Diamond Head”, este pastelão rumina baladas e arrota orquestrações balofas, recuperando no segundo CD o “Concerto for Group and Orchestra” que serviu de pretexto à feitura do disco. Servidos por um som sem impacto, cansados, sem ideias, os Deep Purple não passam hoje de um nome, outrora venerado. Nem a despedida, com “Smoke on the water”, consegue despertá-los de novo para a vida. Lamentável.

Shabotinski - (B)ypass (K)ill

28 de Janeiro 2000
DISCOS - POP ROCK

Shabotinski
(B)ypass (K)ill (8/10)
Charhizma, distri. Ananana


Antes de irem a correr protestar até à loja porque o disco está estragado, ouçam até ao fim o tema inicial deste segundo álbum da banda austríaca Shabotinski, a mesma que há dois anos assinou o excelente “Stenimals”. O tema em questão, que “(B)ypass (K)ill” (a decifração dos títulos, através da consulta da capa, é tarefa que exige muita paciência e uma lente de aumento) usa o típico ruído de um CD estragado (velocidade acelerada, como se não conseguisse ser lido) para construir um dos muitos “grooves” de natureza estranha que preenchem o álbum. A seguir a esta “avaria” os Shabotinski fabricam um swing irresistível de electrónica-enguia sobre o qual se agita um sample com um trompete de jazz fanhoso. Mais ruídos (agora de estática), recortes de drum’n’bass e hip hop de má cara e arma na mão, um “film noir” industrial saturado de “noise” e distorção amplificados até ao pesadelo, ocasionais aproximações à electrónica em labirinto dos Orchester 33 1/3 – o que se compreende, uma vez que um dos elementos dos Shabotinski, Christof Kurzmann, fez parte daquela formação – juntam-se a arquitecturas ambientais abstractas, a um solo de contrabaixo sobre mais ruídos e guitarra com as cordas lassas (faixa 6) ou a uma “canção” como a da faixa 8 vocalizada (“life doesn’t fright me at all”…) à maneira dos Wire enquanto por detrás alguém é torturado com barras de ferro e choques eléctricos e outro se entretém a solar distraidamente num saxofone. Tão inclassificável como “Stenimals”, “(B)ypass (K)ill” confirma os Shabotinski como uma das bandas mais criativas do panorama da música electrónica actual.

Luar de Junho sobre o Carnaval [World]

28 de Janeiro 2000
WORLD


Luar de Junho sobre o Carnaval


“A Quiet Eye” ficou de fora da lista dos melhores do ano passado (o disco chegou tardiamente às nossas mãos). Paciência. June Tabor, a voz da noite, continua a gravar álbuns com títulos que começam pela letra “A” e imagens do seu gato na capa. Sente-se, disco após disco, que um manto de névoa luminosa se adensa sobre esta voz, cada vez mais grave e depurada, de uma das maiores cantoras inglesas vivas. “A Quiet Eye” é um disco folk de uma solidão tranquila (em vez de “A Quiet Eye” poderia chamar-se “A Quiet I”) composto na maioria por temas tradicionais, incluindo a “contemporary folk” de Maggie Holland (“A place called England”), Richard Thompson (“Waltzing’s for dreamers” e “Pharaoh”), Bill Caddick (“The writing of Tipperary”) e Ewan MacColl (“The first time ever I saw your face”), diferindo neste aspecto de anteriores trabalhos, como “Some other Time” e “Angel Tiger”, que abrangem um reportório mais geral. Com o “pormenor” de June tornar cada balada, por mais próxima que esteja das raízes ancestrais, num “standard” para a eternidade. Destaque, ao nível dos arranjos, para o habitual piano de Huw Warren e para o bom gosto evidenciado na maneira como é utilizado um naipe de metais que mais do que seguir uma linha “morris épica” dos Brass Monkey opta ora pela melancolia majestosa que Shirley e Dolly Collins aprimoraram na obra-prima “Anthems in Eden”, ora por um diletantismo “jazzy” sabiamente doseado.
Se, ao falarmos das quatro grandes damas da folk britânica actual, Shirley Collins é a riqueza do timbre, Maddy Prior a arte da ornamentação e Norma Waterson – rainha incontestada – a emoção em estado puro, June Tabor é a beleza fomal, a lua que à distância contempla o mundo que se escapa para além do horizonte.
“A Quiet Eye” é uma viagem entre a música world mais exótica de “Pharaoh” e o “tour de force” “folky” “the writing of Tipperary/It’s a long way to Tipperary”, em que June recupera de forma admirável alguns dos ambientes do fabuloso “Ashes and Diamonds”. Nove minutos de história sagrada e de demanda, em múltiplas etapas, do amor – como já não ouvíamos desde que Bob Pegg, um dos inventores do folk rock, escreveu com os Mr. Fox a litania “The gipsy” – que por si sós justificam a aquisição urgente deste disco (Topic, distri. Megamúsica, 8/10).

Em tempo de merecida festa estão os Steeleye Span, outra instituição da folk britânica que, à sua conta, já levam 30 anos de existência, só sendo batidos, em matéria de longevidade, na Irlanda, pelos decanos Chieftains e Dubliners e, em Inglaterra, pelos “rivais” de sempre, Fairport Convention. Recuperados de um período de decadência que ameaçava transformar o grupo numa caricatura grotesca do passado, com o mais do que interessante “Time”, de 1996, os Steeleye Span regressam ao activo com um duplo CD, “Journey” (na foto), gravado ao vivo em Londres, em que fazem um resumo musical de toda a sua carreira e para o qual convidaram todos os músicos que, em diferentes fases, fizeram parte do grupo. “Journey” evolui desta forma por ordem cronológica, apresentando uma sucessão de formações em rotatividade por onde passaram, além de Gay Woods, segunda voz feminina dos Steeleye na sua fase inicial, Martin Carthy, Ashley Hutchings e John Kirkpatrick, qualquer deles uma instituição da folk inglesa. “Journey” vale essencialmente por esse desfile de memórias, já que nalguns casos as interpretações ao vivo deixam algo a desejar, não fazendo esquecer a excelência de toda a obra de estúdio do grupo, ao todo nove álbuns compreendidos entre “Hark” The Village Waits”, de 1970, e “Rocket Cottage”, de 1976 (Park, distri. Megamúsica, 7/10).

Com Maddy Prior estiveram, em álbuns como “A Tapestry of Carols”, “Carols and Capers” e “Hang up Sorrow and Care”, os Carnival Band, que durante esse período foram considerados uma espécie de banda de acompanhamento da cantora Steeleye Span, numa vertente quase exclusivamente vocacionada para a música antiga. Mas Maddy saiu e os Carnival Band emanciparam-se, podendo finalmente mostrar que são muito mais do que uma simples banda de apoio. Em “Hoi Polloi” dão mostras ainda por cima de uma dose de loucura e de versatilidade que não se adivinhava nos tempos em que emprestavam os seus “shawms”, flautas de bisel, “curtals” e gaitas-de-foles às pavanas, “bransles”, “estampies” e sarabandas da Idade Média e do Renascimento. Em “Hoi Polloi” a música antiga (do “Terpsichore”, de M. Praetorius, uma das bíblias do género), relida em moldes semelhantes aos de Blowzabella ou, mais recentemente, de Philip Pickett, convive com tradicionais da Macedónia, Ucrânia e Sudão, uma desbunda para bater o pé no estrado com base num tema dos Dixie Dregs, uma balada, “Marta” (dedicada à cantora húngara Márta Sebestyen?), com uma parte de violino no estilo “ceguinho à esquina a pedir esmola”, passando por um delicioso momento de “ragtime”. Uma saudável irreverência que faz jus ao nome “Banda de Carnaval”… (Park, distri. Megamúsica, 8/10.)

15/05/2011

Muita TRANSpiração e pouca TRANSgressão

cultura 21 de Janeiro 2000


Trans AM esgotam lotação na Galeria Zé dos Bois

Muita TRANSpiração e pouca TRANSgressão


Riff de guitarra eléctrica, feedback e solos de bateria fazem parte do vocabulário dos Trans AM. Afinal de contas, o velho rock ‘n’ roll enfeitado com futurismo kitsch. Os 150 que conseguiram entrar na ZDB aderiram à sessão de new wave, enquanto outros tantos ficaram à porta sem bilhete. Não houve crise. O povo é sereno.


Não houve motins nem ataques bombistas, como seria de esperar quando se organizam concertos com grupos tão populares como os Trans AM num espaço tão pequeno como a ZDB. Neste aspecto, a actuação do grupo norte-americano, na quarta-feira, no minúsculo cubículo do Bairro Alto, em Lisboa, decorreu com a serenidade de um encontro “new age”. Não houve feridos nem partos prematuros, nem sequer um baixo-assinado a protestar. Tudo na santa paz do Senhor.
Depois que os que ficaram de fora a chuchar no dedo se dirigirem pacatamente para os seus lares, as cerca de 150 pessoas que entraram, com bilhete ou recurso a expedientes vários, concentraram-se na actuação dos três rapazes de Washington D.C., preparados para uma lição de pós-rock. Bem entendido, só as 20 da frente conseguiram ver as caras dos professores, daí para trás dava para vislumbrar as pontas dos cabelos e as aranhas do tecto.
Foi mais uma sabatina do que uma lição. Nathan Means, Philip Manley e Sebastian Thompson, os três Trans AM, não conseguiram, como alguém dizia à saída, esconder que por detrás do rótulo de “banda electrónica”, o seu coração tende é para os Van Halen, AC/DC e outras bandas de heavy-metal. Aliás, parte do público presente, era composto por “headbangers” dispostos a abanar o capacete e a esguichar adrenalina. Esses adoraram. Os outros, mais conhecedores do pós-rock, aceitaram com relativa facilidade e alguma felicidade esta sessão de hard rock, acentuando o lado visceral e energético da coisa. Os Trans AM são retro-futuristas. Tão retro que remetem 20 anos para o passado, até uma noite numa cave mal iluminada de Manchester para ouvir música new wave. A sua música não esconde nem um bocadinho os sons onde foram beber a inspiração, sacados a discos antigos metodicamente estudados e reciclados de maneira a soarem a pós-rock, quer dizer, música suficientemente datada para poder ser utilizada com alguma distância e “atitude”.
Nas duas primeiras canções, do novo álbum “Future World”, as vozes filtradas por Vocoder e as melodias naif saíram em linha directa dos Kraftwerk do álbum “Radio Activity”. Kraftwerk mais carnudos, com bateria em vez de programações. Divertido como um filme de desenhos animados dos Jetsons.
Porém, à medida que o espectáculo foi avançando, impôs-se o lado mais rockeiro do grupo, com citações sucessivas aos Tubeway Army, New Order, devo, num contexto hard rock e, já perto do fim, a indispensável referência-reverência ao krautrock, através do mesmo compasso “martelo no prego” de “It’s a rainy day, sunshine girl”, dos Faust.
Quanto ao lado futurista, tão bem conseguido nos discos, resulta ao vivo na banda sonora de um filme de ficção científica de série B, com marcianos verdes com antenas, discos voadores em feitio de chávenas e pistolas de raio laser. Quem se lembra, em plenos anos 80, da “Music for Parties” dos Silicone Teens? Não eram pós-rockers mas já andavam vestidos com roupas metalizadas a voar em carros anti-gravitacionais por cima de casas transparentes a derramar “beep beeps” e serpentinas. Os Trans AM não brincam, levam-se a sério. O seu “Future World” tem polícias e câmaras vigilantes. Nada como o rock ‘n’ roll para agitar a bandeira do revisionismo. Dos Trans AM esperava-se mais visionarismo. Na ZDB os outrora rivais dos Tortoise (para quando um concerto em Portugal na casa-de-banho dos Armazéns do Conde Barão?) fizeram solos de guitarra e bateria, entornaram riffs a torto e a direito e, para disfarçar, rodaram timidamente os botões dos sintetizadores.
Não foi diferente do que seria de esperar? Provavelmente não. Mas bem feitas as contas talvez todos ficassem a ganhar se tivesse havido mais disciplina e menos desbunda. Menos transpiração e mais transgressão. É pois com alguma expectativa que esperamos por um próximo concerto dos Pink Floyd no Hot Clube de Portugal.

Bluthsiphon - Tammus + Sack & Blumm - Sack & Blumm

21 de Janeiro 2000
POP ROCK

BluthsiphonTammus (8/10)
Gefriem, distri. Matéria Prima


Sack & Blumm
Sack & Blumm (8/10)
Tom recordings, distri. Matéria Prima

A nova vaga de electrónica “nonsense” alemã continua a dar cartas. Aos Nova Huta, Oleg Kostrow e Felix Kubin juntam-se agora os Bluthsiphon e os Sack & Blumm. Sem qualquer informação relativa aos primeiros fiquemo-nos pelo imenso gozo que a música do grupo proporciona. O circo chegou à cidade. Colagens e montagens sonoras de vária ordem constituem o material de base para os Bluthsiphon contarem as suas histórias. “Loops” e samplagens de vozes histéricas, furiosas ou simplesmente divertidas transformam-se em caixas de surpresas, acompanhadas de súbitas acelerações e travagens dos sintetizadores que uma vez mais, mostram ter “Zuckerzeit”, dos Cluster, na memória, mas também as colagens cómico-sinistras que os australianos Severed Heads prensaram no fabuloso “Clifford Darling Please don’t Live in the Past”. Os Sack & Blumm, depois de um arranque em tons Reichianos (de “Six Marimbas”) que sugere estarmos em presença de uma formação de música minimal, partem para mais uma viagem sem programa definido. Nota-se que o grupo tem referenciais eruditos mas o modo como manipulam a parafernália electrónica encontra poucos pontos de comparação. Águas radioactivas, velocidades trocadas, parafusos digitais em rotação empastados de caramelo, bailes de brinquedos velhos “a la” Renaldo and the Loaf, uma orquestra de gamelão do planeta Saturno a tocar a banda sonora de um filme de James Bond, jazz funerário, uma boneca partida a correr por uma rua do Cairo, o realejo de Pascal Comelade, são algumas das imagens sugeridas por esta banda que parece fazer música com a única finalidade de nos surpreender. Melhor do que uma ida ao Fantasporto.

Fiona Apple - When The Pawn

21 de Janeiro 2000
POP ROCK

Fiona Apple
When the Pawn (6/10)
Clean Slate, distri. Sony Music


Fiona Apple tem uma daquelas vozes que se identificam imediatamente e impressionam numa primeira audição. É uma virtude de que poucas se podem gabar mas que, pelo menos a julgar pelos discos que a senhora gravou até agora, como o anterior “Tidal”, acaba por funcionar contra ela. A utilização sistemática de requebros e inflexões de malabarista, através dos quais ficamos a pensar que Fiona poderia bem ser uma cantora de jazz, não funcionarão como mero exibicionismo vocal – Fiona parece ser bastante sincera, a voz sai-lhe assim e pronto… – mas a verdade é que tanta inquietação e nervoso miudinho aborrecem ao fim de algum tempo. Como também acontece em inúmeros casos de outras cantoras que cada vez mais parecem brotar não se sabe bem de onde – bem, Fiona já conquistou um prémio da MTV em 1997, com o vídeo de “Sleep to dream” e, no ano seguinte, um grammy, pela interpretação em “Criminal” –, inundando a pop de boas vozes e falta de boas ideias, a salvação vem pelo lado da produção, aspecto em que “When the Pawn” se mostra exemplar. Quer isto dizer que as canções são agradáveis (muitas delas não fariam má figura nos tops, como “Limp”, “Paper bag” ou “Fast as you can” que foi escolhida para primeiro single e clip do álbum, este dirigido por Paul Thomas Anderson, de “Boogie Nights”) mas não lhes peçam muito mais. É então que o produtor, neste caso Jon Brion, aparece a correr com o estúdio às costas para meter mais um efeito na voz, um apontamento electrónico, uma batida de dança mais modernaça, uma orquestração de casino ou um solo de piano-fraque. “When the pawn”, como o título indica, é uma boa jogada de peão num jogo de xadrez sem mestres.

09/05/2011

Ryuichi Sakamoto - Cinemage + BTTB

14 de Janeiro 2000
POP ROCK

Ryuichi Sakamoto
Cinemage (5/10)
BTTB (6/10)
Sony Classical, distri. Sony Music


Ryuichi Sakamoto é um dos mais destacados representantes, digamos mesmo o seu imperador oriental, da chamada “estética B.A” (predominância do estilo e do “look”, inclui artistas como The Divine Comedy, Jay Jay Johanssen, Michael Nyman, Belle Chase Hotel, etc). Cidadão do mundo, sabidão dos sons, o japonês ex-Yellow Magic Orchestra e oficial do exército japonês no filme de Oshima, sabe servir-se como ninguém do seu inegável bom gosto e da sua atitude pós-moderna para se passear com diletantismo por todas as músicas que o Ocidente e o Oriente afogaram na panela da globalização. “Cinemage” parte de uma ideia original: um álbum de versões. De coisas cinematográficas como “The last emperor” e “Little Buddha” a “Wuthering heights”, com participações de DJ Spooky, David Torn e David Sylvian (outro dos reis da estética B.A., aliás…). “Cinemage” é um álbum clássico, orquestral e elegante como o seu autor, derramando estilo por todos os lados. Tem a beleza morta de uma estátua funerária. É chato, pronto. “BTTB” ouve-se melhor, até porque permite baixar o volume sem causar danos de maior na arte do japonês. É um álbum de piano solo no qual Sakamoto demonstra o seu conhecimento e as suas inclinações, há muito assumidas, para a escola pianística impressionista francesa da transição do século XIX para o XX, de Satie, Debussy e Fauré, entre outros. Bonita música, música agradável que logo no tema de abertura evoca o intimismo de um Shegundo Galarza sozinho no “hall” do hotel. Ideal para usufruir numa noite romântica em boa companhia. Com “spot” publicitário e tudo.

Ani di Franco - To The Teeth

14 de Janeiro 2000
POP ROCK

Ani di Franco
To the Teeth (8/10)
Cooking Vinyl, distri. Megamúsica


Não é uma interlocutora da alma humana como Suzanne Vega, nem uma esteta como Joni Mitchell, mas uma mulher de trabalho e uma compositora prolífera de cuja pena resultam invariavelmente álbuns sólidos e marcados por uma personalidade forte. Falamos de Ani di Franco que em “To the Teeth” assina mais um disco onde as palavras, sempre acutilantes, valem tanto como a sua conhecida veia experimentalista, o que a leva a juntar um “background” folk/country (formado em volta das mesmas fogueiras onde se aqueceram Suzanne Vega e Michelle Shocked) a linguagens mais actuais, com a electrónica a mandar sem vergonha e, numa faixa como “Carry you around”, o hip hop a dirigir os passos de dança. Depois, o swing vocal de Di Franco é por vezes incómodo, quase desequilibrado, devedor de Joni Mitchell, em “Wish I may”, mas mais frenético. É uma desassossegada por excelência, atenta ao balanço do jazz, que agarra de forma irresistível em “Going once”, “Back back back” e “Swing” (sempre com a ajuda inestimável do saxofonista Maceo Parker), tribal em “Freakshow”, irmã de Matilde Santing em “Hello Birmingham”, electrónica e “country” em “The arrivals gate”, intimista em “Providence”, para finalmente afogar as mágoas num copo sem fundo em “I know this bar”, cuja ternura dorida, presente nas entoações vocais, evoca do outro lado do espelho a pose mais “arty” de Suzanne Vega. Ani é um gosto acre, um olhar de frente, uma dentada no coração.

Electro-reparadora Lusitana! [Electrónica]

Sons

14 de Janeiro 2000


Electro-reparadora Lusitana!


Carlos Zíngaro, Tó Zé Ferreira e Miguel Sá (dos ZZZZZZZZZZZZZZZZZP!) responderam a um questionário sobre o estado actual da música electrónica portuguesa e sobre a música electrónica em geral. A reparação é possível.

PÚBLICO – É possível a criação de um circuito regular de música electrónica (edição de discos, espectáculos, seminários, etc.), em Portugal? Em que moldes? Quais os principais obstáculos?
CARLOS ZÍNGARO – Apesar de algumas fronteiras se diluírem, continua a existir uma diferença determinante entre o que é comercial e de consumo e o resto (as margens?). Como tal, deixando de lado a discoteca ou a “rave”, pergunto: onde estão os locais para a apresentação das “live electronics” contemporâneas, experimentais, interactivas, etc., com um mínimo de regularidade e condições económicas e técnicas? Onde estão os editores minimamente interessados na publicação/divulgação destas músicas? Ainda, quais as instituições vocacionadas para a organização de seminários temáticos? (Em abono da verdade, o CCB organizou um em 1998, comigo e com o Richard Teitelbaum – desconheço outras iniciativas do género.)
A música electrónica sofrerá exactamente dos mesmos problemas daquelas áreas no nosso país. Por um lado, um eruditismo formal(izador), fechado, institucional e museológico da chamada “obra” – nos casos das músicas contemporânea e electroacústica –, por outro, a quase total marginalização e mesmo boicote para com todas as outras…
Principais obstáculos? Sendo [certo] que o público existe (já o comprovei repetidas vezes), só poderá ser a ignorância, incultura, reaccionarismo e analfabetismo generalizados de quem decide, divulga e organiza… - apenas para ser elegante na linguagem.
TÓ ZÉ FERREIRA – Se pensarmos em termos da existência de produção ou de obras que deveriam ser difundidas ou divulgadas, é claro que existe um pequeno mundo em Portugal à espera de ser ouvido. Posso citar a actividade do músico-compositor Miguel Azguime com o seu festival (anual) Música Viva. Estou ciente das dificuldades de logística em termos de organização. Para além da questão financeira, há a questão de pessoal técnico motivado. Um primeiro passo seria a produção de um calendário dos eventos que se realizam pelo país e sem restrições de géneros ou estéticas, talvez nos moldes da Electronic Music Foundation.
Um dos maiores problemas é que, paradoxalmente, para um país tão pequeno – não em termos físicos, mas no número de praticantes – se saiba tão pouco das actividades dos músicos, compositores, intérpretes, DJ, etc. Creio que um melhor contacto entre “almas gémeas” seria um bom catalizador de eventos. A mencionada Electronic Music Foundation organizada por Joel Chadabe dispõe na internet de calendários, glossários, informações diversas e CD. O próprio festival Música Viva na edição deste ano promove um concurso de obras electroacústicas a nível nacional.
MIGUEL SÁ – Visto Portugal ser um país periférico, apenas com um súbito e não muito provável florescimento de novos projectos, o surgimento de uma publicação especializada de qualidade e um significativo incremento nos concertos/ciclos de música electrónica, que promova o encontro com e entre músicos internacionais, se pode alimentar uma cena electrónica consistente, que abra caminho a uma edição discográfica estimulante e regular.

O paradigma Aphex Twin

P. – Nesta transição de milénio, o termo “electrónica” impôs-se como “medium” universal. Qual o ponto da situação na relação entre uma música mais conceptual (com “background” na música contemporânea, música industrial, minimalista, ambient, kozmischrock, etc.) e a música de dança?
M.S. – A música de Richard D. James (Aphex Twin, Poligon Window, entre outros disfarces) é o paradigma da difícil definição de fronteiras na actual música electrónica e vital para a compreensão dos géneros musicais que circundam a música de dança urbana. Quem acompanha a sua obra tem assistido à quebra regular de regras formais. Trabalhando com gira-discos, mesas de mistura, computadores e “instrumentos” por ele criados através da modificação dos circuitos electrónicos das suas máquinas, e usando como matéria-prima fontes sonoras processadas de LP, CD, ficheiros de computador, fontes acústicas e eléctricas.
C.Z. – Não poucos praticantes da música de dança foram buscar, manipular, referir, elementos experimentados e divulgados nas áreas mais conceptuais, assim como também se assiste ao inverso: a entrada do DJ, do beat e de outras preponderâncias do dance nos conceptualismos mais alargados. Convém, no entanto, assinalar que este tipo de mestiçagens se verifica em realidades mais abertas e universalistas. Em Portugal, o que é pop continua orgulhosamente a sê-lo e o sério permanece de costas voltadas para os outros sons, cada um no seu minúsculo cubículo…
T.Z.F. – No limite, qualquer gravação, da captação à difusão, digam o que disserem os puristas da música acústica, está dependente de meios electrónicos. Existem, simplificando, duas atitudes: uma de engenharia, em que o sistema deve ser o m ais neutro possível e outra em que a cor do sistema é causadora de estímulo para a criação; no extremo, o sistema gera o próprio som.
Distinções entre géneros de músicas são cada vez mais difíceis de concretizar. Impulsionados pela sua própria actividade, os criadores de música de dança acabam por se ligar a uma corrente pluralista electroacústica. Certas peças de dança lembram-me formalmente algumas experiências da música concreta dos anos 60.

“À espera que o ‘load’ funcione”

P. – O computador e o “software” composicional são factores de normalização. Um músico como Paul Schütze recusa liminarmente a utilização de “software”, alegando que o resultado sonoro denuncia o programa utilizado.
C.Z. – Essa afirmação de Schütze é muito relativa. Talvez fazendo um “blindfold test” às diversas composições alegadamente assistidas por computador, chegássemos a conclusões interessantes… Quando o “software” é denunciado na composição, estaremos talvez a referir a sua utilização mais primária e “democrática”… São infelizmente raros aqueles que sabem ou se interessam por perverter/subverter as máquinas ou os programas! Em contrapartida, a tecnologia permitiu que o compositor se tornasse mais no “performer”/intérprete. Com alguns riscos… Se nos antigos concertos de electroacústica passávamos umas horas a olhar para uma série de colunas de som n um palco, agora encontramos alguns senhores sentados atrás de um computador, com um ar geral de erudito enfado, carregando em teclas que não vemos e à espera que o “load” funcione…
T.Z.F. – Como alguém com experiência em programação, compreendo o ponto de vista acima apresentado. É verdade que a implementação de uma ideia sobre a forma de programa reflecte escolhas e a habilidade de quem o faz. Um determinado programa ou processo tem sempre um “som” próprio. É de facto no campo de organização dos sons que a utilização de programas se pode tornar problemática. Mas tal só acontece se os aceitarmos como aquilo que não são – “soluções” universais para problemas de composição. Solução óbvia seria implementar-se programas escritos pelo próprio compositor.
P. – O “sampler” – muleta, fábrica de sons, arquivo… Veio democratizar a criação electrónica, vulgarizando-a ou, pelo contrário, desfiar a criatividade dos músicos?
C.Z. – Esta apregoada democratização veio colocar diferentes questões aos que querem fazer música. Todos sabemos que basta carregar num botão para fazer música… E vivam as benesses das facilidades consumistas! Continuo a tocar um instrumento tão antiquado como o violino e, apesar de fazer electrónica há mais de 20 anos, continuarei a ser cuidadoso (cínico?) em relação às “novas descobertas”, que são fáceis, baratas e dão milhões…
M.S. – O “sampler” permitiu um novo olhar sobre o passado, colocando todos os sons do mundo ao alcance de quem os manipula, deixando deste modo de ser determinante o modo de reproduzir o som. Hoje em dia, a música pode ser feita em casa, mas sem prescindir do conhecimento e da intuição.

A riqueza da “imprecisão”

P. – Digital ou analógico, eis a questão. O pós-rock recuperou os sintetizadores analógicos (Moog, ARP, Korg). E que dizer quando um antepassado dos próprios sintetizadores, como o theremin, ganha de novo protagonismo na produção electrónica mais recente?
M.S. – desde 1906, altura em que foi criado o primeiro instrumento electrónico, o Telharmonium, e feita a primeira emissão via rádio, foram surgindo os meios para a criação electrónica: Ondes Martenot (1928), gravação estéreo (1930), sintetizador RCA (1955), “sampler” analógico mellotron (1965), sintetizador Moog (1965), gravador de pistas (1966), sequenciador digital Roland MC-8 (1977), “sampling keyboard” Fairlight CMI (1979), “compact disc” (1980), MIDI (1983). O “software” composicional, assim como os exemplos anteriores, veio expandir a capacidade de criação de novos recursos tímbricos. O seu surgimento em nada impede uma saudável coabitação com a invenção de 1920 de Leon Theremin.
C.Z. – É perfeitamente possível obter as mais diversas sonoridades analógicas com a recente tecnologia digital. O que se passa é que – como de costume com a música de consumo – mais uma moda atravessa inúmeras discussões técnicas e temáticas. A tecno descobriu os velhos monstros analógicos assim como “descobriu” formas de fazer música já praticadas há vinte a tal anos. Nada mais lógico que utilizar os mesmos meios, as mesmas máquinas, até porque sempre dão uma certa “patine” e “look”… Interessante ver superestúdios “hi-tech”, com a mais sofisticada tecnologia digital, gastarem fortunas em periféricos digitais que irão dar uma “cor analógica” (inclusive ruído) à mistura final… O cúmulo dos “modismos” e outros “ismos”…
Pessoalmente continuo a manipular o meu velho ARP 2601, adquirido em 1978, e que tem agora um valor museológico acrescido. É uma dor de cabeça se comparado com a facilidade de tecnologias mais recentes, mas continua a ser um ruidoso monstro sagrado!
T.Z.F. – Creio que é mais nostalgia do que qualquer impossibilidade dos sistemas digitais actuais. No entanto, existem talvez outras razoes para o retorno da popularidade destes sistemas. Uma forma de onde triangular produzida por um gerador analógico é mais ou menos impura – com bastantes harmónicos adicionais – o que, combinado com os filtros, gerava os tão procurados sons. Conseguem-se representações mais controladas sob a forma digital, mas perde-se um pouco a riqueza da imprecisão. Mas claro que, com programação e sistemas digitais flexíveis, se conseguem também sons extremamente ricos e creio que quase todos os sintetizadores actuais são digitais de uma maneira ou outra. Quanto ao theremin, a sua expressividade como instrumento advém muito do seu interface, sendo necessário ter alguma prática, como, por exemplo, num violino, para poder retirar a sons e/ou gestos expressivos satisfatórios.
P. – Quais os discos de música electrónica que considera mais importantes ou que mais o influenciaram?
C.Z. – MEV (Musica Electronica Viva, com Richard Teitelbaum, Alvin Curran, Frederic Rzewsky), John Cage, John Chowning, Charles Dodge, Pierre Henry, Max Matthews, Ilhan Mimaroglu, David Tudor.
T.Z.F. – As primeiras composições de Karl Heinz Stockhausen, como “Gesang der Junglinge” e, de Bernard Parmegiani, “De Natura Sonorum”. Como influência recente, as composições da jovem Natasha Barrett.
M.S. – Kraftwerk, “Autobahn” (1974); Negativland, “Escape from Noise” (1988); Oval, “Diskont 94” (1995). Nos Cluster, Coil e Aphex Twin, o brilhantismo reside no conjunto da sua obra.


10 DISCOS FUNDAMENTAIS

NUNO CANAVARRO: Plux Quba-Música para 70 Serpentes (Ama Romanta/Moikai, 1988)
TÓ ZÉ FERREIRA: Música de Baixa Fidelidade (Ama Romanta, ed. em vinilo, 1988)
CARLOS MARIA TRINDADE & NUNO CANAVARRO: Mr. Wollogallu (União Lisboa, 1991)
TELECTU: Evil Metal (Área Total, 1992)
JOÃO PEDRO OLIVEIRA: Electronic and Computer Music (Numérica, 1993)
CARLOS ZÍNGARO: Musiques de Scène (Ananana, 1993)
NO NOISE REDUCTION: The Complete No Noise Reduction (Moneyland, 1995)
NUNO REBELO: M2 (Ananana, 1996)
VÍTOR JOAQUIM: Tales from Chãos (Ananana, 1997)
ZZZZZZZZZZZZZZZZZP!: Ficta 003 (Ananana, 1998)

O ovo da serpente [Electrónica portuguesa]

Sons

14 de Janeiro 2000


Música electrónica portuguesa em análise

O ovo da serpente

Christoph Heeman adorou o disco de Nuno Canavarro, prontificando-se a gravar mais material deste músico português. Por cá é mais difícil. Fizemos o retrato do estado actual da música electrónica no nosso país, convidando os músicos a pronunciarem-se.

Editado pela Ama Romanta, em 1988, em paralelo com “Música de Baixa Fidelidade”, de Tó Zé Ferreira, “Plux Quba” acabou por ser reeditado em CD no ano passado, mas pela editora norte-americana Moikai, de Jim O’Rourke, um dos gurus do pós-rock. Acrescente-se ainda o facto de Christoph Heeman e Jan Saint-Werner (Mouse on Mars, Microstoria) admitirem a influência de “Plux Quba”.
Mas, como santos da casa não fazem milagres, muito menos se fizerem música electrónica e ainda menos se viverem em Portugal, por cá, este e outros trabalhos são sistematicamente ignorados e mal apoiados pelos “media” e recusados pelas grandes editoras. Aos poucos, contudo, criou-se em Portugal um circuito paralelo, no qual tanto a música electrónica como outras rotuladas de “alternativas” conquistaram um pequeno mas merecido espaço. Editoras/distribuidoras como a Ananana, a Áudeo e a Symbiose arriscaram produzir e editar álbuns nacionais que escapam aos esquemas do “mainstream”.
É verdade que a música electrónica não tem grandes tradições em Portugal, se exceptuarmos obras de compositores eruditos como Jorge Peixinho, Constança Capdeville ou Emmanuel Nunes. Na música popular, no auge do rock progressivo, foi preciso esperar que o actual maestro Miguel Graça Moura trouxesse de Londres o primeiro sintetizador Moog ouvido em Portugal. O então teclista dos Pop Five Music Incorporated formou, especialmente para o efeito, em honra do aparelho, os Smoog, cuja estreia ao vivo teve lugar no Coliseu dos Recreios em Lisboa, na primeira parte de um concerto de B. B. King. Depois disso os músicos portugueses não se interessaram muito pela tecnologia electrónica então emergente. Os Moogs, A.R.P. e Korgs eram caros, era preciso mandar vir de fora, e saía mais em conta adquirir um bom órgão Hammond ou Farfisa ou um piano eléctrico Fender rhodes ou RMI…
Os Anar Band, de Jorge Lima Barreto e Rui Reininho, foram outros dos pioneiros na utilização do sintetizador em Portugal, com uma música artesanal que misturava a electrónica e o free-jazz. Na pop era mais raro escutar-se o Moog com uma excepção honrosa: o álbum “10.000 Anos depois entre Vénus e Marte” de José Cid, um dos marcos da pop progressiva nacional. Alguns anos mais tarde também os Tantra, considerados os Genesis nacionais, usaram e abusaram dos sintetizadores.
Chegados aos anos 80, assistiu-se à explosão da electropop, representada em Portugal pelos Street Kids, de Nuno Rebelo e Nuno Canavarro, pelos Corpo Diplomático, de Pedro Ayres e Paulo Gonçalves, antes de formarem os Heróis do Mar, e pelos Ocaso Épico, de Farinha.
Era a época de ouro dos sequenciadores e das caixas-de-ritmo. Mas a pedrada no charco foi atirada, nessa mesma década, pela editora Ama Romanta, de João Peste, com o lançamento simultâneo de dois álbuns fundamentais: o já citado “Plux Quba”, de Nuno Canavarro, e “Música de Baixa Fidelidade”, de Tó Zé Ferreira, dois músicos de formação na área da electrónica erudita, mas com uma sensibilidade pop. “Sagração do Mês de Maio”, composto por Nuno Rebelo para um desfile de moda, é outro objecto incontornável da electrónica portuguesa. Jorge Lima Barreto, agora na companhia de Vítor Rua, ex-GNR, formara entretanto os Telectu, continuando a experimentar novos sintetizadores e fórmulas musicais como o minimalismo.
Nos anos 90, com a democratização e progressivo compactamento e acessibilidade da tecnologia electrónica digital (“Power stations”, “sampler”, computador, etc.), tornou-se mais fácil e menos dispendioso criar música electrónica em Portugal. Proliferaram os grupos, num leque de estilos que vai da música industrial dos Bizarra Locomotiva à música cinemática do veterano Luís Cília (em “Bailados”), da new age inteligente de Carlos Maria Trindade (a solo, em “Deep Travels” e, com Nuno Canavarro, no clássico “Mr. Wollogallu”) à electrónica “noise” dos No Noise Reduction, da colagem estruturalista de José Pedro “Discmen” Moura à visão mais lata e universalista de Nuno Rebelo, Vítor “Freefield” Joaquim e António Emiliano. Para os lados da electrónica erudita João Pedro Oliveira, Carlos Zíngaro e os Miso Ensemble experimentam, por seu lado, as possibilidades e novos horizontes de uma música que marcará, decisivamente, as sonoridades e a sensibilidade artística do novo milénio.

02/05/2011

"PORTUGUESE is better!"

Sons

7 de Janeiro 2000

Debate sobre a utilização do português ou do inglês na música portuguesa

“PORTUGUESE is better!”

Cantar em inglês ou português é, ou não, uma questão retórica, quando se trata de produzir, promover e vender música feita em Portugal neste início do ano 2000? A verdade é que a máxima “A minha pátria é a língua portuguesa” de Fernando Pessoa já não faz muito sentido. Tirar dividendos da globalização, ou, pelo contrário, resistir-lhe o mais possível são as duas vias divergentes defendidas pelos convidados deste debate: Amélia Muge, Vitorino, Rui Reininho, Jorge Dias e Miguel Cardona.


Longe vão os tempos em que o português era considerado uma língua difícil de se cantar. E se os intérpretes da chamada “canção de autor”, como Vitorino ou Amélia Muge, desde sempre cultivaram o gosto pela língua portuguesa e a necessidade de fazer passar uma mensagem – fruto de uma atitude fortemente ideológica –, já as gerações mais novas adoptaram, paradoxalmente, o inglês, como forma de resistência. Afinal de contas o próprio Vitorino, apologista do fortalecimento de um circuito das músicas do Sul, já cantou em inglês, o mesmo acontecendo com Rui Reininho, nos GNR. Quanto aos mais novos, Miguel Cardona, dos Coldfinger, e Jorge Dias, baixista dos More República Masónica que recentemente organizou o festival Interferências, encaram de forma natural o facto de cantarem em inglês, não sendo menos portuguesa a sua música. Amélia Muge, que recentemente cantou em galego nos Camerata Meiga contrapõe a necessidade de confrontar modelos e fórmulas de produção. Todos estão de acordo numa coisa: a música portuguesa não é defendida como deveria e a culpa é das multinacionais, que apenas se preocupam em promover os artistas internacionais, e dos “media”, que não divulgam em quantidade suficiente o produto nacional. “Oh, yes!”

O passado. Era de facto difícil cantar em português até “Chico Fininho” vir, na década de 80, provar o contrário? Mais atrás ainda, era proibido cantar em inglês, caso se quisesse “intervir” artisticamente contra o regime do Estado Novo?

VITORINO – “Encontram-se ‘cantautores’ nos Sheiks, que, em determinada altura, afirmaram em entrevistas que o português não era ‘cantabile’. Foi quando os Beatles chegaram à ribalta para transformar a relação da canção entre os povos. Em Portugal, era sobretudo a música de expressão latina que se ouvia. O inglês acabou por se impor de uma maneira brutal, com uma gigantesca máquina de promoção por detrás. Aqui, os resistentes eram o Zeca e o Adriano. Hoje, já existe um rock lusitano cantado em português.”
“Tive um grupo, na Escola de Belas-Artes, com o Manuel João, dos Ena Pá 2000, onde cantava uma canção dos Beatles, “Here comes the sun”. Como estava todo vestido de preto, levei logo com uma trincha de branco.”
MIGUEL CARDONA – “O Vitorino fala de um ponto de vista político. Eu falo de um ponto de vista cultural. Quando quero expressar-me, reporto-me a fenómenos que me marcaram. E isso foi-me tudo dado em inglês, em francês… Ao extrapolar a imaginação é fácil recorrer a vivências, imagens cinematográficas, estereótipos, aos quais tenho acesso através do inglês.”
RUI REININHO – “Cantar em português foi para mim uma espécie de repto, de reacção a uma geração que só cantava em inglês, o que eu achava completamente bacoco. Por que raio é que um fulano havia de se esconder a cantar numa língua que não era a dele? E os textos em inglês, normalmente, são do secundário para baixo.”

O presente, parte 1. O mundo é um lugar pequeno. A “minha pátria é a língua portuguesa” ou pode ser também a inglesa?

VITORINO – Se pudesse, gostava de cantar em sérvio, ou em gaélico. Em inglês é que não… Por isso é que comecei a cantar em castelhano [num álbum recente, “La Habanera 99”, com reportório cubano e a presença do Septeto Habanero]…”
“Os textos em inglês que muitas bandas cantam estão sintacticamente errados.”
AMÉLIA MUGE – “Nada do que o Fernando Pessoa escreveu em inglês o impediu de escrever o que escreveu em português. E o Eça teve um cargo importante no consulado em Paris. Eu canto em português, porque é a maneira de resolver, em mim própria, influências que recebo de muitos sítios. Fazer uma canção com a mesma matéria, a mesma língua, com que penso. Um poema é, antes de mais, uma base de trabalho sonora.”
MIGUEL CARDONA – “Escrevo em português e em inglês. Quando é um ‘rapport’ autobiográfico, escrevo em português. É a única via para ser sincero comigo mesmo. As coisas não me acontecem em inglês. Mas quando saio da minha vida, já posso recorrer ao inglês.”
JORGE DIAS – “Está associada a quem canta em inglês uma ideia de antipatriotismo. É uma estupidez completa. Não há coisa que mais me entristeça do que poder absorver uma islandesa como a Björk, uns judeus belgas ou uns tipos franceses, todos a cantar em inglês, e não conseguir ver ninguém do meu país a conseguir vingar lá fora, a conseguir mostrar que em Portugal se fazem coisas tão actuais e tão interessantes como no resto da Europa, sem ser remetido para a categoria do exotismo.”
RUI REININHO – “Os brasileiros apropriaram-se da linguagem de computador e já falam em ‘downlodar’ ou ‘browsar’.”
“Noutro dia reparei num cartaz de uma ‘rave’. É impressionante como se faz uma solicitação destas sem uma única palavra em português. É uma tentativa de globalizar. Em Atenas ou no Senegal seria a mesma coisa. É tudo a mesma tribo.”
“É importante a defesa da língua portuguesa. Aprendi um bocado isso com os nossos amigos galegos. Não lhes passa pela cabeça cantar em inglês. E, se calhar eles, em certos aspectos, até são mais modernaços do que nós.”
MIGUEL CARDONA – “Os espanhóis dobram tudo. Tem a ver com uma certa ideia de nação. Nós, enquanto artistas, reportamo-nos muitas vezes a coisas exteriores. Um guitarrista fala do seu ‘amp’, num som “de Rhodes”, há toda uma linguagem corrente em inglês.”

O presente, parte 2. As editoras são as bruxas da história, porque só promovem o produto que vem de fora. Os “media” são vilões, porque só escrevem sobre música chinesa. O Estado não apoia. Há preconceitos e barreiras a romper.

MIGUEL CARDONA – “O rock cantado em português não sofre da mesma injecção de espuma que o inglês. É possível ler nos jornais ‘revivals’ de Bob Dylan ou Pink Floyd, com a cumplicidade de toda a gente, que não passam de meras manobras de promoção de limpeza de fundo de catálogo. Com certeza que não vão buscar os NZZN ou os Tantra e promovê-los na América…”
VITORINO – “A rádio não passa música portuguesa, enquanto as percentagens de música anglo-americana são brutais. O Ministério da Cultura só dá força ao cinema. Tem que começar a apoiar a música portuguesa. Os Beatles foram condecorados pela Rainha.”
JORGE DIAS – “As bandas que cantam em inglês também não passam na rádio. Não por cantarem nesta ou naquela língua, mas porque não têm o apoio de uma grande campanha de ‘marketing’. Não há critérios de avaliação. As pessoas limitam-se a colar-se a modelos de sucesso. Como, com raras excepções, não se consegue criar cá nenhum desses modelos, ninguém liga. Quem está no centro da decisão pertence à geração do Rui, os que conquistaram para a música a língua portuguesa, mas que, de repente, fecharam os olhos. Existe hoje um caciquismo, entre aspas, nos ‘media’ e, sobretudo, nas editoras. Apresenta-se uma banda a cantar em inglês e é recusada só por esse facto, nem sequer chegam a ouvir.”
RUI REININHO – “Tenho pena de que ninguém tenha rompido aquela barreira do meio milhão de discos. Toda a gente encravou nos 300 mil. É uma barreira psicológica.”

O futuro. Globalizar ou resistir. O que é que podemos fazer? Talvez socializar.

AMÉLIA MUGE – “As coisas que vêm do Norte têm uma conotação de tecnologicamente mais avançadas, enquanto o étnico estaria umbilicalmente ligado a um certo terceiro-mundismo. A imagem da música, da cultura portuguesa, enquanto for passivamente vendida sob estas conotações de mercado, tem que submeter-se à máxima do ‘quanto mais étnico’ melhor. Se calhar o circuito que vende os Madredeus não é o mesmo que vende a música tradicional portuguesa, no seu sentido folclórico.”
VITORINO – “Há uma grande música deste século, a música anglo-americana dos anos 60 e 70, conotada com um movimento social universal. Depois entrou numa decadência horrível, quando começou a ficar visual, a ouvir-se através dos ‘clips’. Subverteu-se a escuta. No Midem latino de Miami as estatísticas afirmavam que nos últimos três anos a música anglo-saxónica já tinha perdido no mundo um espaço de 6 por cento para as músicas de expressão castelhana. A única possibilidade que temos de exportar uma música cantada em português no mundo é fazer uma aliança com os brasileiros, como os espanhóis têm com toda a América Latina e as Caraíbas. Infelizmente os brasileiros fecharam-se a nós nos anos 60, coincidindo com a ditadura.”
“A salvação é a socialização dos meios. Dentro de uns dois anos eu ou o Rui Reininho podermos gravar em casa sozinhos. Os anglo-saxónicos inventaram os ‘media’ e nós vamos aproveitar e socializá-los.”

Tudo sobre a música dos anos 90 - 1996

Sons

31 de Dezembro 1999
Tudo sobre a música dos anos 90 - 1996

“Born Slippy”, um tema dos Underworld, torna-se um hino da geração tecno, funcionando como pilha de energia para os milhares de participantes do festival Tribal Gathering, ao mesmo tempo que pôde ser ouvido nas salas de cinema, através da inclusão na banda sonora de “Trainspotting”. Se se considerar que, a par do sucesso nos “charts” britânicos deste tema (número dois no top), também “Setting sun” dos Chemical Brothers alcançou os lugares mais altos das listas, chegando ao primeiro lugar, bem se pode dizer que 1996 foi o ano da explosão da música de dança independente. Dois anos após a sua génese o “drum ‘n’ bass” atinge a (maior)idade do “mainstream”, às costas do sucesso de Goldie. Noel Gallagher, dos Oasis, gaba-se de ter comprado o seu primeiro Rolls-Royce e convida a imprensa internacional para uma conferência de imprensa em Edimburgo, na Escócia. Os Três Tenores, Luciano Pavarotti, Placido Domingo e José Carreras ponderam a possibilidade de gravar uma versão de ópera de “Wonderland” dos Oasis. Björk trabalha com algumas das estrelas de música de dança, os pioneiros do “drum ‘n’ bass” Black Dog, os veteranos da tecno LFO e Talvin Singh. Os Pulp conquistam o quinto prémio Mercury Music, com “Different Class”, melhor álbum do ano. Marilyn Manson lança o álbum “Antichrist Superstar” e torna-se o herege favorito da América.

Tupac Shakur, o famoso rapper da Costa Oeste americana, é baleado em Las Vegas ao volante do seu carro, quando regressava de um combate de boxe entre Mike Tyson e Bruce Sheldon, vindo a falecer a 13 de Setembro vítima de várias lesões pulmonares. Gary Stringer, vocalista dos Reef, leva 12 pontos numa mão depois de ter sido atingido por um copo num bar em Glastonbury. O baterista dos Smashing Pumpkins, Jimmy Chamberlain, foi apanhado pela polícia de Nova Iorque na posse de droga, na sequência da morte do teclista usado pela banda nas digressões ao vivo, Jonathan Melvoin. Melhor sorte teve David Gahan, vocalista dos Depeche Mode, ao ser ilibado de alegada posse de cocaína, após uma rusga realizada em Beverly Hills, na Califórnia. Já Mark Morrison, autor de “Return of the mack”, foi multado por posse ilegal de arma. No ano de consagração do pós-rock assistiu-se à ressurreição de uma das lendas do krautrock, os Faust, pela mão de Jim O’Rourke. Os niilistas germânicos comandados por “Zappi” Diermaier, lançaram o álbum “Rien” e puseram literalmente em fogo as salas por onde passaram, com shows de pirotecnia ameaçadores. Os Urusei Yatsura foram obrigados a mudar de nome devido a problemas de direitos de autor relativamente a uma banda desenhada “manga” japonesa. O Partido Trabalhista Inglês organiza uma série de noites de música de dança com o objectivo de angariar votos.

O “artista anteriormente conhecido como Prince” rescinde com a editora Warner, para onde gravara nos últimos dez anos, assinando um novo contrato de distribuição com a EMI. Os Elastica usam um sample dos Wire no seu álbum de estreia “Elastica”. Antes, o grupo fora acusado de plagiar uma canção dos Wire (“Three girl rumba”), no seu single “Connection”, com o diferendo a ser resolvido em tribunal com o pagamento de “royalties”.

Paul McCartney juntou-se ao poeta da “beat generation” Allen Ginsberg para a gravação de “Ballad of the skeletons”, num projecto que contou igualmente com Lenny Kaye, guitarrista da banda de Patti Smith, e o compositor minimalista Philip Glass. Mani, baixista dos Stone Roses, entra para os Primal Scream, enquanto o guitarrista e principal compositor da banda, John Squire, abandona para formar os Seahorses. Reunião dos Sex Pistols, com o baixista original Glen Matlock no lugar de Sid Vicious. Ninguém ligou peva e o punk provou estar definitivamente morto e enterrado. Siouxsie Sioux pensou o mesmo extinguindo os Siouxsie and the Banshees, ao fim de 20 anos de carreira.

Os Delfins celebram dez anos de carreira pondo pela primeira vez um álbum seu, “O Caminho da Felicidade”, no primeiro lugar do top de vendas nacional. O greco-americano Darin Pappas participa em “So get up” dos Underground Sound of Lisbon e assina “Flowers and the Color of Paint” dos Ithaka, um dos álbuns do ano.

Além de Tupac Shakur desapareceram neste ano Chris Acland, baterista dos Lush, que se enforcou na sequência de uma depressão. Chas Chandler, dos Animals, morre de ataque cardíaco.


Bloco pós-operatório

Chicago, nos Estados Unidos, Bristol, em Inglaterra, e Dusseldorf, na Alemanha, foram as principais sedes de um movimento iniciado no ano anterior que reivindicou de novo o adjectivo “arty” para a música popular, propondo uma reconversão e actualização da estética e da tecnologia electrónica (Moogs, A.R.P.s, Korgs e Mellotrons…) do krautrock e do Progressivo dos anos 70, em moldes que procuravam romper com os parâmetros rock mais “mainstream”. De um lote imenso de bandas com designações bizarras (Black Swan Nettwork, Stars of the Lid, The Sea and the Cake) emergiram os alemães Kreidler, To Rococo Rot e Mouse on Mars, os norte-americanos de Chicago Trans AM, Tortoise e Gastr del Sol e os ingleses Labradford e Stereolab. Todos eles, nos respectivos enunciados musicais, recuperaram uma complexidade rítmica que tanto ia beber ao tribalismo dos Can como inquietar-se nas convulsões do free jazz cósmico de Sun Ra ou do free rock dos Henry Cow e dos Faust, ou ainda, no sentido da simplificação totalitária, deslizar no asfalto e no metal embalados na batida metronómica (“motorika”) dos Neu!. A bossa-nova (Jobim, João Gilberto, Astrud Gilberto), a “kozsmisch musik” (Tangerine Dream, Klaus Schulze), o easy-listening (Esquivel, Bacharach), o minimalismo (Reich, Glass) e a música industrial (Throbbing Gristle, Severed Heads, Test Dept.) foram outras das modalidades do passado que os pós-rockers reformularam, conferindo-lhe a distanciação e uma urgência própria dos anos 90. Mas o pós-rock não descurou o prazer da melodia e neste aspecto revelou-se fundamental a herança de um grupo do krautrock que veio substituir os Kraftwerk enquanto influência dominante da década que se apresta a findar: Os Cluster, de Dieter Moebius e Joachim Roedelius, cujo álbum “Zuckerzeit” (1974) cresceu até se tornar numa espécie de bíblia do movimento. O pós-rock revelou ainda dois gurus: Jim O’Rourke e John McEntire. O primeiro ajudou a ressuscitar os Faust, John Fahey e Van Dyke Parks e re-semeou as sementes das flores de Canterbury, o segundo voltou a engrenar o bólide da “motorika” quando não estava a farejar a maresia emanada da bossa-nova. Há quem lhes agradeça e quem não lhes perdoe…

Tudo sobre a música dos anos 90 - 1995

Sons

31 de Dezembro 1999

Tudo sobre a música dos anos 90 - 1995

Ano de ouro para a brit pop. Os campeões de bilheteira Blur e os Oasis estiveram juntos pela última vez nos estúdios de uma emissora de rádio de São Francisco, a Live 105, enquanto a banda do ex-Nirvana Dave Grohl, os Foo Fighters, andava à procura de editora. Sheryl Crow conquista três Grammies com o álbum “Tuesday Night Music Club”. Concerto apoteótico dos Blur no estádio Mile End em Londres. Os Portishead vencem a quarta edição do Mercury Music Prize, com “Dummy”, atirando Tricky para o segundo lugar. “What’s the Story Morning Glory”, dos Oasis, torna-se o álbum com vendas mais rápidas no Reino Unido desde “Bad”, de Michael Jackson, com 350 mil cópias vendidas na primeira semana. Garth Brooks rejubila ao tornar-se o artista country que mais discos vendeu, batendo com sete milhões de discos o anterior recorde de seis milhões pertencente a Patsy Cline. Depois de Robert Wyatt, também os EMF se abalançaram numa versão de “I’m a believer”, dos Monkees. Nick Cave e Kylie Minogue fazem dueto na canção e no vídeo “Where the wild roses grow”. Os Rolling Stones recriam o passado no álbum “Stripped” e fazem um novo vídeo para o clássico de Dylan “Like a rolling stone” usando a tecnologia mais sofisticada para dar um ar “retro” à coisa, mas os Beatles vão ainda mais longe ao fazerem “ressuscitar” John Lennon para cantar no inédito “Free as a bird”, incluído numa das caixas da sua há muito esperada “Anthology” com material inédito.

Tupac Shakur é condenado e preso por crime de abuso sexual de primeiro grau, sendo posto em liberdade três meses mais tarde. Van Morrison anuncia o seu noivado com uma antiga miss Irlanda, Michelle Rocca. Dolores O’Riordan, vocalista dos Cranberries, é declarada uma das mulheres mais ricas do Reino Unido, ao lado, entre outras, de Angela Lansbury e Jackie Collins, com um rendimento anual de 3,25 milhões de libras. Apesar do sucesso nos tops, a banda de rap feminino TLC declara falência. Estranhamente, o grupo dos irmãos Gallagher não é convidado para tocar na mítica emissão, em Agosto, do programa da BBC 2, Britpop Now, onde participam os Blur, Pulp, Boo Radleys, Elastica, Menswear e Echobelly.

Encerra as portas uma das catedrais “indie” de Londres, a Powerhaus. O mítico estúdio The Manor, em pleno “countryside” inglês, onde Mike Oldfield gravou “Tubular Bells”, fecha também. Dylan editado em CD-ROM e Peter Gabriel em Cd-i. “Post”, segundo álbum de Björk, viu a sua edição adiada devido ao uso não autorizado de samples. George Michael assina contrato com a editora Dreamworks. Michael Jackson é forçado a regravar o tema “They don’t care about Us”, do álbum “HIStory”, devido ao emprego das expressões “jew me” e “kike me”. Bocados da pista de dança do extinto clube Hacienda são postos à venda a 10 libras cada.

Entra para as fileiras dos The Fall a ex-mulher de Mark E. Smith, Brix. Os Stone Roses despedem o seu baterista Alan “Reni” Wren, substituído por Robbie Jay Maddix. Outro ex-Nirvana, Krist Novoselic, lança os Sweet 75 no clube RKCNDY em Seattle. Shaun Ryder forma os Black Grape. Peter Green, lendário guitarrista de “blues” branco e membro da formação original dos Fleetwood Mac, é homenageado por outro guitarrista dos anos 70, Gary Moore, no álbum “Blues for Greeny”. Alan Wilder abandona os Depeche Mode ao fim de 13 anos no grupo.

Em ano de recessão, a música portuguesa sofreu as consequências do “boom” de 1994. Como a fartura não dura para sempre, artistas multiplatinados como os Madredeus, Dulce Pontes e Pedro Abrunhosa retiraram-se para manutenção e deixaram as multinacionais de mãos a abanar. Aproveitaram as independentes, que despontaram em grande número e arrancaram com vigorosas demonstrações de vitalidade. Poderá não ter sido a razão primeira para a criação destas editoras, mas todas elas se dedicaram à assinatura dos jovens talentos de que muito se falou em 1994.

Em 1995 desapareceram António Carlos Jobim, um dos pais da bossa-nova, Viv Stanshall, músico e humorista dos Bonzo Dog Doo Dah Band, Bob Stinson, dos Replacements, Melvin Franklin, dos Temptations, Eazy-E, rapper, Rory Gallagher, guitarrista, Kenny Everett e Wolfman Jack, dj, Jerry Garcia, dos Grateful Dead, Charlie Rich, lenda da música country, Biggie Tembo, dos Bundhu Boys, Sterling Morrison, baterista dos Velvet Underground, Dwayne Goettel, dos Skinny Puppy, Country Dick Montana, dos Beat Farmers, Shannon Hoon, dos Blind Melon, Alan Hull, dos Lindisfarne, e Junior Walker, lenda soul da Tamla Motown.

Um oásis na pop

Ninguém sabe ao certo o significado do termo “britpop” – usado pela primeira vez como título de um programa de música ao vivo da BBC 2, “Britpop Now”, apresentado por Damon Albarn, dos Blur –, mas a verdade é que foi este o principal emblema da música pop deste ano em Inglaterra. Supergrass, Blur, Oasis, Pulp, The Boo Radleys e Elastica chegaram ao número um do top de vendas de álbuns, seguidos de perto pelos Echobelly, surgindo Jarvis Cocker, dos Pulp, como figura carismática do movimento. Seja qual for o denominador comum de todas estas bandas, a verdade é que a pop deixou o cinzentismo “indie” para estalar como pipocas ao som de guitarras luminosas, melodias evidentes e “catchy” e números de vendas que não enganavam: a juventude inglesa encontrara um novo som com que se identificar. “Novo“ não era bem, porque a “britpop” nunca escondeu os seus heróis: os Beatles, Rolling Stones, The Kinks, Bowie… Afinal eram os gloriosos anos 60 a acenar lá de trás, projectando-se no presente no mesmo desejo de criar canções eternas que durassem, pelo menos, até ser lançado o single seguinte.