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28/05/2025

História pouco natural [Talk Talk]

 
Pop

A DISCOTECA
 
HISTÓRIA POUCO NATURAL
 
Mark Hollis é um psicólogo com pretensões de mudar o mundo por força e graça de melodias pop. Até agora o melhor que conseguiu foi transformar a própria num mundo de pretensões. A coletânea “Natural History” dá conta de um dos casos mais interessantes de megalomania atualmente em curso no universo de egos inchados da música popular.
 

Com efeito, a psicologia não era propriamente o veículo ideal para Mark se alcandorar ao estatuto de “imortal”. Na música também não é fácil, mas sempre se vai ganhando qualquer coisita no entretanto. A primeira etapa chama-se “The Reaction” e coincide com a euforia destrutiva dos rapazes de alfinete no lábio, da geração “No Future”, isto é, no ano de 1977. O rapaz, Hollis, navegava nitidamente contra a corrente. A Beggars Banquet, confusa, pega em “Talk Talk” (a canção) e inclui-a na coletânea “punk”, “Streets”. Para já estava encontrada a nova designação para futuros investimentos e cometimentos. O principal era então conquistar o mundo.
 
Talk Contra Duran
 
            Foi através de Ed Hollis, empresário e irmão de Mark, que este conheceu e convidou o baterista Lee Harris e o baixista Paul Webb para integrarem o seu novo projeto. O convite foi aceite. Nasciam os Talk Talk, sempre com esta formação, já lá vão dez anos. Neste período de tempo gravaram apenas quatro álbuns. Para tristeza de muita gente e alívio de outra tanta. Para criar uma obra-de-arte é preciso tempo. Os Talk Talk deviam ter esperado ainda mais, antes de entrarem em estúdio, mas enfim, lá gravaram o álbum-estreia em 82. Chama-se “The Party’s Over” e é uma mistura estranha e desconfortável de título e maneirismos vocais, inspirados em Bryan Ferry, e atraentes melodias não muito distantes dos parentes próximos, Duran Duran, com os quais, aliás partilharam uma “tournée” na qualidade de banda de suporte. O drama dos Talk Talk é que, por mais que se esforcem, não conseguem produzir uma linha melódica com o “charme”, a fluidez e a facilidade das que os Duran Duran são capazes, como se isso não lhes custasse mais que meia hora de intervalo entre um “clip” nas Bahamas e outro na Martinica. O que separa as duas bandas é a “star quality” e carisma dos meninos bonitos Duran e a total ausência de imagem dos feiosos Talk. Uns têm, outros... não. Já para não falar da diferença abissal entre a voz “catchy” de Simon Le Bom e o falsete esganiçado de Mark Hollis, que, por sinal, até nem é mau compositor. A Psicologia explica como um complexo de superioridade quase sempre encobre um sentimento de inferioridade.
 
Finalmente o Paraíso
 
            “It’s My Life” (84) é a segunda tentativa em álbum, após um atraente “single”, “My Foolish Friend”, apelando para o reconhecimento do génio de Hollis. Poucos são sensíveis ao apelo. Dois anos mais tarde, “The Colour of Spring” assinala a primeira alteração estratégica. Já que o êxito e a fama lhes é, sistematicamente, negado por via da canção pop (só a Europa parece dar por eles, proporcionando-lhes um disco de ouro pelas vendas de “The Party’s Over”), porque não investir no campo mais sério do “conceptual”? Dito e feito. Pegue-se em Steve Winwood, Robbie McIntosh e Danny Thompson, em coros e secções de cordas, e está encontrado o conveniente tom “blasé”, permitindo afirmações do tipo “a nossa música não é comercial. Apenas nos interessa a qualidade. As massas não entendem”. Com “The Spirit of Eden” acertam finalmente no alvo. A crítica dispensa-lhes rasgados elogios. O disco, embora “não comercial”, vende e todos ficam contentes. São seis longos temas de sumptuoso recorte instrumental, em que Hollis descobre finalmente um registo vocal mais grave, sereno e, sobretudo, menos irritante, adaptando-se convenientemente ao tom “soft” e orquestral de todo o disco. É o triunfo e a glória, tenazmente perseguidos ao longo de anos de penoso caminhar. Mark Hollis não conseguiu, por enquanto, mudar o mundo. Mudou ele. Quando não os podes vencer...
 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 6 JUNHO 1990

02/10/2008

Talk Talk - Laughing Stock

Pop Rock

20 NOVEMBRO 1991

CONVERSA FIADA

TALK TALK
Laughing Stock
LP/CD, Verve, ed. Polygram

Eles esforçam-se, mas não conseguem. Os Talk Talk dão tudo por tudo para ganhar a credibilidade de “banda adulta” que deixou para trás as preocupações comerciais. Na época das preocupações comerciais, a banda de Mark Hollis assinou êxitos razoáveis, como “Talk Talk” e “It’s A Shame”. Já nessa altura os Talk Talk provocavam vómitos e desejos inconfessáveis de destruição vinílica. Por exemplo: a voz. Uma voz capaz de levar qualquer cidadão de bem ao desespero e à camisa de forças. Uma monstruosidade tímbrica que procura com toda a força do desespero e da impotência soar como a de Bryan Ferry.
Tudo isto seria subjectivo e de pouca importância, não fora o descabido pretensiosismo do senhor, levado em “Laughing Stock” ao limite da insuportabilidade.
A noção que os Talk Talk têm de parecer (diferente de ser…) “vanguardistas” é aumentar o tempo de duração das faixas, pôr os instrumentos cada um a tocar para seu lado (o que noutros até pode ser uma virtude…) e criar um ambiente de desolação e melancolia, de maneira a granjear ao vocalista a auréola de “coitado, mais uma vítima da engrenagem rock” ou “génio incompreendido com a cabeça a abarrotar de melodias inspiradas, embora um bocado estranhas”.
De facto, as melodias são estranhas, tão estranhas, de tal forma subtis que nem chegamos a dar por elas.
A audição de “Laughing Stock” pode constituir, contudo, um saudável exercício de autocontrolo. É um disco oriental, na medida em que apela com toda a força para a nossa paciência. A cada faixa esperamos que a introdução instrumental dissonante acabe, para dar lugar à canção. E assim por diante, sempre à espera, sempre acreditando. O disco chega ao fim e continua-se à espera, agora já num estado próximo do estupor. Talvez faltasse a concentração. Cheios de boa vontade recomeçamos. Agora, com a repetição, a audição torna-se penosa, na busca desesperada de um pormenor que tivesse passado despercebido, merecedor de um elogio. Por fim, conclui-se de que não chega a haver um único pormenor que justificasse sequer a gravação do disco.
Mark Hollis arrasta-se (é o termo exacto) nas vocalizações à espera do arranjo salvador que nunca acontece. As guitarras e o órgão são anémicos. Procuram abrigo numa pseudo-serenidade classicista, na pose distante de “artistas” que tentam “dar dignidade” à pop. Não faltam então os naipes de cordas (há coisa mais digna em música do que um naipe de cordas?), uma trompete (há coisa mais digna que uma trompete?) e um clarinete contrabaixo (contrabaixo! Há coisa mais digna que um clarinete contrabaixo?).
“Laughing Stock” mostra os Talk Talk perdidos num beco sem saída. Seguem por uma estrada que não vai dar a lado nenhum. O que até não seria tão grave se demonstrassem uma pontinha de humor ou, no mínimo, de bom-gosto. Duas coisas que nunca foram o seu forte. Mas nós temos de aturar as suas manias. Nunca será de mais repeti-lo: “E não se pode exterminá-los?” (3)