18/04/2026

Danças e cânticos do fundo dos tempos [Encontros Musicais da Tradição Europeia]


 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 JULHO 1991 >> Cultura

 

Segundos Encontros Musicais da Tradição Europeia animam terras portuguesas

 

Danças e cânticos do fundo dos tempos

 

Todos se encontram com todos, nestes “Encontros” europeus que começam a ter tradição. Ou pelo menos, todos os que não desprezam o passado para melhor viver o presente e projetar o futuro. Em quatro localidades do país, a alegria tem sido a palavra de ordem.

 

Uma imagem com texto, preto, branco, vintage

Descrição gerada automaticamente

 

Em Guimarães, Famalicão, Oeiras e Évora decorrem, desde a passada quarta-feira, os Segundos Encontros Musicais da Tradição Europeia, até agora um sucesso a todos os níveis. Música tradicional do “velho” continente. A festa de mãos dadas com a cultura, numa louvável iniciativa que, à semelhança do ano passado, voltou a apostar, e bem, na descentralização. No meio da ruína de capelinhas decrépitas, a corrupção e as grandes negociatas, louve-se o despontar de novas alternativas que, como esta, dêem a conhecer outras maneiras de ver e sentir o mundo em que vivemos.

Os artistas vieram de regiões afastadas pela geografia mas próximas na identidade profunda e na génese cultural. Chegaram até nós vindos da Occitânia e Lyon, França, da Catalunha, Espanha, da Inglaterra e da Irlanda. Os portugueses cá estão, para mostrar tesouros e maravilhas, em desafio amigável com o resto da Europa.

Hoje em Famalicão, por exemplo, tocam os ingleses Whippersnapper e os lioneses “La Grande Bande des Cornemuses”. Amanhã será a vez de Guimarães receber os ingleses e os occitanos Perlinpinpin Folc. E assim por diante, numa ronda fraterna por uma Lusitânia de súbito desperta para o seu amanhecer.

No passado sábado, a noite, aprazível, convidava à fruição. Dos prazeres do corpo e do espírito. Aconteceu assim, no parque, muito a propósito chamado “dos Anjos”, em Algés, porque os dez gaiteiros de Lyon não cabiam no auditório e a noite era propícia ao ritual.

Noite inesquecível para quantos trocaram o conforto das pantufas e a realidade virtual do pequeno écran pela celebração coletiva das festas da Lua e o convívio ameno com os sons, os outros e a Natureza, ali, como que por magia, concentrada num microcosmos quadrado e empedrado, delimitado pela luz dos holofotes e pela expectativa de crianças e graúdos.

 

Rituais dionisíacos

 

De súbito, irrompendo por entre as conversas e a música de José Afonso que saía dos altifalantes, a surpresa e o sobressalto, provocados pela entrada no terreiro, de uma personagem mascarada, de chifres ameaçadores, percutindo um enorme tambor pendurado à maneira de um falo, a ditar o ritmo do corpo. Depois, um a um, os dez gaiteiros da “Grande Bande des Cornemuses”, dirigidos por Jean Blanchard e coreografados por Laurent Figuière, foram surgindo de entre o arvoredo ou das escadarias do palácio, num crescendo sonoro provocado pelas gaitas-de-foles que aos poucos se iam juntando em uníssona congregação ao centro do recinto. Os músicos vestidos de branco, flores, ramagens e frutos na cabeça e à volta da cintura, evocavam, de forma deslumbrante, as cores e os sabores dos ciclos naturais. Em louvor a Pan, o deus dos rebanhos e dos bosques.

Diante dos muitos olhos e ouvidos siderados com o inusitado da apresentação, foram recriadas várias cerimónias ancestrais, com os músicos em constante movimento, na teatralização de mitos sobre a vida e a morte, ao mesmo tempo que as gaitas-de-foles enchiam o ar de cadências hipnóticas. A assistência susteve a respiração, quando dois dos gaiteiros retiraram a máscara e cortaram a longa cabeleira ao chifrudo, de maneira a simbolizar a vitória da energia espiritual sobre as pulsões do instinto. Ou quando Jean Blanchard incarnou o sacrificado, “morto” e ressuscitado num longo solo da gaita-de-foles. Completo o ciclo, os músicos terminaram a sua atuação como tinham começado, abandonando progressivamente o recinto até o som das gaitas se extinguir finalmente num recanto verde atrás da bancada.

 

Calores do Mediterrâneo

 

No dia seguinte o programa prometia. Rosa Zaragoza atuou na primeira parte, enchendo a sala com uma voz e presença corporal avassaladoras. Calor e garra, nas entoações vocais, nos requebros do tronco, na pose extrovertida. Os espanhóis chamam “salero” a este fogo. Acompanhada por quatro músicos (um no bouzouki, outro na guitarra e violino, um percussionista e uma rapariga de decote mais que generoso, nos apoios vocais), por vezes hesitantes e de modo algum à sua altura, Rosa interpretou temas dos seus três álbuns, alternando o repertório sefardita em que é especialista, com tradicionais turcos ou da Catalunha, mostrando à saciedade porque é considerada uma das maiores vozes atuais da música mediterrânica.

Do álbum “Cançons de noces dels jueus catalans”, “Sir Nasir La-Hatan” ou “Dia de Shabat”, evocativo do incêndio de Salónica, constituíram momentos altos de uma atuação que cedo a todos surpreendeu pela positiva. A parte final foi preenchida por temas do mais recente “Les nenes bones van al cel; les dolents a tot arreu”, o tal das meninas más que, em vez do céu, vão para “todo o lado”… Destaque para “Glosses contra la celebració del V centenari”, dedicada aos índios americanos e “Baga, biga, higa”, com letra retirada da tradição oral basca, em que vestiu a pele de uma feiticeira a lançar o sortilégio. Pelo sim pelo não, avisou os presentes, não fosse alguém transformar-se, ali mesmo, num inseto.

Regressou ao palco para dois “encores”: “Ai, quina alegria…” onde se congratulou por não ser Madonna nem ter uma moradia em Miami Beach e, a fechar, uma canção de embalar, cantada em solo absoluto.

 

Ritmos endiabrados

 

Com a entrada em cena dos irlandeses Altan, tudo despareceu para dar lugar à vertigem da dança. Insuperáveis executantes nos respetivos instrumentos, com relevo para os dois violinistas, Paul O’Shaughnessy e Mairéad Ní Mhaonaigh, uma loura angelical, toda de branco, e para o flautista Frankie Kennedy. Como quase sempre acontece e é típico dos irlandeses, sobretudo quando já bem bebidos, o humor não podia faltar. Nunca perdendo o ar circunspecto, Frankie, flautista e um dos contadores de histórias de serviço, provocou amiúde a hilariedade, com constantes apartes e referências à boa cerveja portuguesa ou ao nome dos alfaiates que confecionaram os trajes (vulgaríssimos) de cena.

Numa prestação que incidiu sobretudo nos “reels” e “jigs” instrumentais, as baladas interpretadas por Mairéad (por ora ainda distante da excelência de grandes damas como Dolores Keane, Triona O’Domhnaill ou Catherine Ann-MacPhee) criaram, por contraste, momentos de intimismo e descompressão que logo davam lugar a mais uma sequência de ritmos endiabrados. O homem do bouzouki partiu uma das cordas do instrumento, no entusiasmo da refrega. Mairéad sorria de olhos brilhantes, incrédula com a recetividade e a crescente loucura do público, e ligava o “turbo” do violino, acelerando ainda mais a desafiar os outros que, por sua vez, a ultrapassavam.

Alguns jovens não resistiram, saltando das cadeiras para se entregarem, sem preconceitos, à dança, perante o olhar complacente dos mais velhos. A festa, enfim. Total e libertadora, fazendo esquecer esse outro ritmo, por vezes monótono e enfadonho, do dia a dia.

À saída houve quem reparasse no som solitário de uma gaita-de-foles, gemendo a um canto afastado do bar. Um dos “sonneurs de cornemuse”, muito jovem, evocava, de olhos cerrados, em profundo transe alcoólico, a beleza indizível de uma música que toca onde poucos ousam tocar. Houve quem se risse. Houve quem calasse, comovido, e saísse para a noite cálida, a sonhar.

 

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