PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 JULHO 1991 >> Cultura
Segundos
Encontros Musicais da Tradição Europeia animam terras portuguesas
Danças
e cânticos do fundo dos tempos
Todos se encontram
com todos, nestes “Encontros” europeus que começam a ter tradição. Ou pelo
menos, todos os que não desprezam o passado para melhor viver o presente e
projetar o futuro. Em quatro localidades do país, a alegria tem sido a palavra
de ordem.
Em Guimarães, Famalicão, Oeiras e
Évora decorrem, desde a passada quarta-feira, os Segundos Encontros Musicais da
Tradição Europeia, até agora um sucesso a todos os níveis. Música tradicional
do “velho” continente. A festa de mãos dadas com a cultura, numa louvável
iniciativa que, à semelhança do ano passado, voltou a apostar, e bem, na
descentralização. No meio da ruína de capelinhas decrépitas, a corrupção e as
grandes negociatas, louve-se o despontar de novas alternativas que, como esta,
dêem a conhecer outras maneiras de ver e sentir o mundo em que vivemos.
Os artistas vieram de regiões
afastadas pela geografia mas próximas na identidade profunda e na génese
cultural. Chegaram até nós vindos da Occitânia e Lyon, França, da Catalunha,
Espanha, da Inglaterra e da Irlanda. Os portugueses cá estão, para mostrar
tesouros e maravilhas, em desafio amigável com o resto da Europa.
Hoje em Famalicão, por exemplo, tocam
os ingleses Whippersnapper e os lioneses “La Grande Bande des Cornemuses”.
Amanhã será a vez de Guimarães receber os ingleses e os occitanos Perlinpinpin
Folc. E assim por diante, numa ronda fraterna por uma Lusitânia de súbito
desperta para o seu amanhecer.
No passado sábado, a noite, aprazível,
convidava à fruição. Dos prazeres do corpo e do espírito. Aconteceu assim, no
parque, muito a propósito chamado “dos Anjos”, em Algés, porque os dez
gaiteiros de Lyon não cabiam no auditório e a noite era propícia ao ritual.
Noite inesquecível para quantos
trocaram o conforto das pantufas e a realidade virtual do pequeno écran pela
celebração coletiva das festas da Lua e o convívio ameno com os sons, os outros
e a Natureza, ali, como que por magia, concentrada num microcosmos quadrado e
empedrado, delimitado pela luz dos holofotes e pela expectativa de crianças e
graúdos.
Rituais
dionisíacos
De súbito, irrompendo por entre as
conversas e a música de José Afonso que saía dos altifalantes, a surpresa e o
sobressalto, provocados pela entrada no terreiro, de uma personagem mascarada,
de chifres ameaçadores, percutindo um enorme tambor pendurado à maneira de um
falo, a ditar o ritmo do corpo. Depois, um a um, os dez gaiteiros da “Grande
Bande des Cornemuses”, dirigidos por Jean Blanchard e coreografados por Laurent
Figuière, foram surgindo de entre o arvoredo ou das escadarias do palácio, num
crescendo sonoro provocado pelas gaitas-de-foles que aos poucos se iam juntando
em uníssona congregação ao centro do recinto. Os músicos vestidos de branco,
flores, ramagens e frutos na cabeça e à volta da cintura, evocavam, de forma
deslumbrante, as cores e os sabores dos ciclos naturais. Em louvor a Pan, o
deus dos rebanhos e dos bosques.
Diante dos muitos olhos e ouvidos
siderados com o inusitado da apresentação, foram recriadas várias cerimónias
ancestrais, com os músicos em constante movimento, na teatralização de mitos
sobre a vida e a morte, ao mesmo tempo que as gaitas-de-foles enchiam o ar de
cadências hipnóticas. A assistência susteve a respiração, quando dois dos
gaiteiros retiraram a máscara e cortaram a longa cabeleira ao chifrudo, de
maneira a simbolizar a vitória da energia espiritual sobre as pulsões do
instinto. Ou quando Jean Blanchard incarnou o sacrificado, “morto” e
ressuscitado num longo solo da gaita-de-foles. Completo o ciclo, os músicos
terminaram a sua atuação como tinham começado, abandonando progressivamente o
recinto até o som das gaitas se extinguir finalmente num recanto verde atrás da
bancada.
Calores
do Mediterrâneo
No dia seguinte o programa prometia.
Rosa Zaragoza atuou na primeira parte, enchendo a sala com uma voz e presença
corporal avassaladoras. Calor e garra, nas entoações vocais, nos requebros do
tronco, na pose extrovertida. Os espanhóis chamam “salero” a este fogo.
Acompanhada por quatro músicos (um no bouzouki, outro na guitarra e violino, um
percussionista e uma rapariga de decote mais que generoso, nos apoios vocais),
por vezes hesitantes e de modo algum à sua altura, Rosa interpretou temas dos
seus três álbuns, alternando o repertório sefardita em que é especialista, com
tradicionais turcos ou da Catalunha, mostrando à saciedade porque é considerada
uma das maiores vozes atuais da música mediterrânica.
Do álbum “Cançons de noces dels jueus
catalans”, “Sir Nasir La-Hatan” ou “Dia de Shabat”, evocativo do incêndio de
Salónica, constituíram momentos altos de uma atuação que cedo a todos
surpreendeu pela positiva. A parte final foi preenchida por temas do mais
recente “Les nenes bones van al cel; les dolents a tot arreu”, o tal das
meninas más que, em vez do céu, vão para “todo o lado”… Destaque para “Glosses
contra la celebració del V centenari”, dedicada aos índios americanos e “Baga,
biga, higa”, com letra retirada da tradição oral basca, em que vestiu a pele de
uma feiticeira a lançar o sortilégio. Pelo sim pelo não, avisou os presentes,
não fosse alguém transformar-se, ali mesmo, num inseto.
Regressou ao palco para dois
“encores”: “Ai, quina alegria…” onde se congratulou por não ser Madonna nem ter
uma moradia em Miami Beach e, a fechar, uma canção de embalar, cantada em solo
absoluto.
Ritmos
endiabrados
Com a entrada em cena dos irlandeses
Altan, tudo despareceu para dar lugar à vertigem da dança. Insuperáveis
executantes nos respetivos instrumentos, com relevo para os dois violinistas,
Paul O’Shaughnessy e Mairéad Ní Mhaonaigh, uma loura angelical, toda de branco,
e para o flautista Frankie Kennedy. Como quase sempre acontece e é típico dos
irlandeses, sobretudo quando já bem bebidos, o humor não podia faltar. Nunca
perdendo o ar circunspecto, Frankie, flautista e um dos contadores de histórias
de serviço, provocou amiúde a hilariedade, com constantes apartes e referências
à boa cerveja portuguesa ou ao nome dos alfaiates que confecionaram os trajes
(vulgaríssimos) de cena.
Numa prestação que incidiu sobretudo
nos “reels” e “jigs” instrumentais, as baladas interpretadas por Mairéad (por
ora ainda distante da excelência de grandes damas como Dolores Keane, Triona
O’Domhnaill ou Catherine Ann-MacPhee) criaram, por contraste, momentos de
intimismo e descompressão que logo davam lugar a mais uma sequência de ritmos endiabrados.
O homem do bouzouki partiu uma das cordas do instrumento, no entusiasmo da
refrega. Mairéad sorria de olhos brilhantes, incrédula com a recetividade e a
crescente loucura do público, e ligava o “turbo” do violino, acelerando ainda
mais a desafiar os outros que, por sua vez, a ultrapassavam.
Alguns jovens não resistiram, saltando
das cadeiras para se entregarem, sem preconceitos, à dança, perante o olhar
complacente dos mais velhos. A festa, enfim. Total e libertadora, fazendo
esquecer esse outro ritmo, por vezes monótono e enfadonho, do dia a dia.
À saída houve quem reparasse no som
solitário de uma gaita-de-foles, gemendo a um canto afastado do bar. Um dos
“sonneurs de cornemuse”, muito jovem, evocava, de olhos cerrados, em profundo
transe alcoólico, a beleza indizível de uma música que toca onde poucos ousam
tocar. Houve quem se risse. Houve quem calasse, comovido, e saísse para a noite
cálida, a sonhar.
Sem comentários:
Enviar um comentário